quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Crônica de uma loucura anunciada


CRÔNICA DE UMA LOUCURA ANUNCIADA

Clóvis Campêlo

Na verdade, o caso se deu há alguns anos atrás.
Na época, o presidente FHC governava o Brasil pela primeira vez, colocando em prática uma política de privatizar vários setores da nossa economia, entregando-os ao capital internacional a preço de bananas.
Por esse tempo, eu fazia parte da direção do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, compondo uma diretoria heterogênea e que de desacerto em desacerto quase leva a entidade à bancarrota.
Nem tudo, porém, era desencontro. Compondo a Secretaria de Imprensa, criamos um jornal mensal, chamado SindPress, que visava a diversificação, levando à categoria assuntos culturais vários, além das informações políticas e panfletárias de praxe. Era preciso conscientizar e dar um recheio cultural às massas previdenciárias.
O primeiro número do jornal já estava quase fechado quando nos chegou às mãos uma publicação editada pelo poeta carioca Moacy Cirne, com os textos de Francisco Manoel de Souza Forte, o Chico Doido de Caicó, os quais resolvemos publicar.
Nascido em Caicó, no Rio Grande do Norte, em 1922, Chico Doido faleceu em 1991, na cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Residiu em Natal, nos anos 50, e nos últimos anos de vida frequentou a famosa feira de São Cristovão, no Rio, onde divulgava a sua arte e onde foi descoberto por Cirne, que, inclusive, liderou um movimento irreverente visando lançá-lo postumanente para a Academia Brasileira de Letras.
Pela natureza do seu conteúdo, os textos publicados no jornal do sindicato causaram uma verdadeira revolução no seio da categoria previdenciária e na própria direção sindical.
Pouco adiantaram os nossos argumentos da "legitimidade" dos poemas, já que Carlos Drumond de Andrade, na época recém falecido, e Gregório de Matos, dois grandes poetas brasileiros, já haviam enveredado por aquela seara. Os jornais ainda não distribuídos foram censurados pela direção mdo sindicato e destruídos.
Hoje, faço uma auto-crítica e entendo que naquele veículo de informação não haveria espaço para tal ousadia.
Apesar de tudo, nos textos de Chico Doido alguns aspectos interessantes nos chamam a atenção: a forte referência ao elemento sexual, que se aproxima do pornográfico, inclusive coma criação de neologismos; o uso de uma linguagem coloquial e o olhar de surpresa do poeta diante das novidades do mundo moderno.
Seguem abaixo, dois pequenos poemas, dos mais amenos, para ilustrar o que digo.

Recife, 2006

MARGARETE

Margarete, Margarete
O que foi que aconteceu?
O meu pau é muito grande?
Sua xoxota encolheu?
Eu fiquei cheio de dedos,
Tu ficou com medo de eu?
Se a gente se gosta tanto,
Se a gente diz que se ama,
Por que então não deu certo
O nosso encontro na cama?

TELEVISÃO

A primeira vez que eu vi
Uma televisão, uma televisão,
Foi na Suécia
E naquele tempo não existia
Televisão.
Meu amigo Canuto Cú-de-Cana
Que bebia comigo nas quintas
Nunca acreditou nisso.

Nenhum comentário: