sábado, 30 de agosto de 2014

O cano do Pina





Fotografias cedidas por Apeles Duarte e Brasilina Teimosina

O CANO DO PINA

Clóvis Campêlo

Há quarenta nos atrás, amigos, era difícil imaginar a paisagem da praia do Pina sem aquele cano. Em torno dele, cresceram várias gerações de pinenses. Ali, nas peladas de futebol realizadas quando a maré estava baixa, formaram-se vários craques que depois despontariam no futebol pernambucano e no futebol brasileiro. Ali, também, por conta dos excrementos expelidos pelo cano, a alimentação farta atraia peixes e pescadores. Assim, o cano nos parecia eterno.
Mas, não era. Em março de 2004, quando a Prefeitura da Cidade do Recife fez um trabalho de revitalização da praia naquela área, o cano, que estava encoberta pela areia, foi redescoberto. Segundo matéria publicada no Diário de Pernambuco do dia 10 de março de 2004, entendeu a CPRH, hoje chamada de Agência Estadual de Meio Ambiente, que o cano, mesmo em desuso, funcionava como um elemento de poluição da praia. Ordenou, então, à Prefeitura que o retirasse.
Na verdade, não foi levada em consideração por nenhum daqueles técnicos a importância histórica daquela construção. Instalado em 1915, funcionava como um emissário submarino que trazia os dejetos tratados desde a estação de saneamento do bairro da Cabanga, do outro lado da bacia do Rio Pina, integrando o primeiro sistema de tratamento sanitário da cidade do Recife. Assim, o artefato com aproximadamente um metro de diâmetro, na época da sua demolição pertencente à Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), e que durante muito tempo foi usado como saneamento e esgoto da zona sul da cidade, foi retirado da paisagem da praia permanecendo apenas na memória dos seus antigos frequentadores.
Portanto, construído e instalado antes mesmo da ponte do bonde, de 1920, a primeira a interligar o Pina com a Cabanga, e antes da construção da Avenida Herculano Bandeira, que só ocorreria em 1926, o antigo cano fazia parte da história e crescimento do bairro, e deveria ter merecido por parte dos poderes constituídos uma maior atenção para a preservação da sua memória e importância histórica.
Confesso que para escrever esse pequeno artigo, vasculhei o google, com o seu acervo maravilhoso de informações disponibilizadas para todos, indiscriminadamente, e pouco encontrei sobre a história do cano do Pina. No que se refere a fotografias ou qualquer outro registro iconográfico, nada foi encontrado para ilustrar esse texto memorialista.
O Pina hoje é um bairro moderno, recortado por largas avenidas, e que vem perdendo de forma galopante a sua identidade cultural e histórica. Alguns culpam a especulação imobiliária por essa mudança. Prefiro dizer que é o preço do progresso e contra isso toda luta será inglória. Às pessoas, como eu, que viveram essa e outras épocas, talvez caiba o papel de tentar fazer esse resgate, embora não seja um trabalho fácil.

Recife, agosto 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Quando o futuro chegar


QUANDO O FUTURO CHEGAR

Clóvis Campêlo

Quando o futuro chegar,
talvez traga novidades,
talvez seja rotineiro,
talvez mostre no presente

que nada há de mudar.
Talvez traga em quantidade
visões, odores, cheiros,
tudo aquilo que se sente.

Talvez traga um cansaço
da luta eterna e serena
que a vida nos impinge.

Talvez nos traga um abraço,
talvez seja uma falena
que nos encanta e finge.

Recife, agosto 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A hora de morrer


A HORA DE MORRER

Clóvis Campêlo

Nenhuma morte deveria ser antecipada. Ninguém merece. Deveríamos morrer assim, no fim da vida, dormindo, sonhando, apagando-se suavemente como uma chama que se autoconsome. A morte antecipada sempre é brutal. Como tudo na vida, possibilita interpretações várias, dependendo da síntese ideológica ou filosófica do observador.
Do mesmo modo, a morte antecipada é sempre uma traição, pois nega a crença de que possamos ter algum controle sobre algo, mesmo que esse algo sejam as nossas próprias vidas. No jogo de forças incompreensíveis e poderosas que regem o universo, somos partículas atômicas diminutas, sujeitas às intempéries do acaso (ou do caos).
Na nossa mente animal, porém, alimentamos a ideia de que a morte é algo a ser superada e anulada. Vivemos a ilusão de que caminhamos para um nível de conhecimento onde isso será possível. Afinal somos filhos e feitos à semelhança de Deus. E se a ele foi dado o direito de criar e administrar o mundo, demiurgo cósmico que é, por não será assim também com os seus filhos?
A angústia de um dia superar a morte, termina por se transformar, para nós humanos, em um sentimento maior do que a angústia por medo da própria morte. Já não admitimos mais que exista uma hora certa para morrer. O pensamento transborda, desliga-se da base material e perde o senso da realidade. Um verdadeiro delírio.
Assim, quando o trágico ressurge em nossos caminhos e antecipa um desfecho qualquer em qualquer uma das vidas por nós conhecidas, voltamos a nos indagar e a vacilar diante do fato inevitável e incontornável.
Voltamos a ter a percepção de que continuamos a ser uma poeira cósmica, sem eira nem beira, a mercê do que o destino, ou outra qualquer conjunção de forças incompreensíveis para nós, preparou. Percebemos que as forças da natureza são tão gigantescas e incontroláveis que voltamos a entrar em pânico. Não existe saída racional para a morte, do mesmo modo como não nos foi dada nenhuma escolha sobre a possibilidade de vivermos ou não. De repente, abrimos os olhos e tomamos consciência de que existíamos em um mundo que precisava ser traduzido. O nosso esforço vital, assim, passa a ser o exercício da sobrevivência do indivíduo para perpetuar-se a sobrevivência da espécie. De repente, fecharemos os olhos e seremos deslocados para outra dimensão existencial, onde, talvez, necessitemos de um outro aprendizado para uma nova sobrevivência, até que haja uma nova consumação.
Mas, para falar a verdade, nem mesmo disso temos certeza alguma. São puras conjecturas do nosso condicionamento racionalista. Por isso, a necessidade de voltarmos a confabular conosco mesmo em busca de um entendimento mais tranquilizador e que nos permita entrar em sintonia com um ritmo adequado de pulsação cósmica.
Somos e seremos sempre uma poeira cósmica na infinitude do universo.

Recife, 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Padre José


O PADRE JOSÉ

Clóvis Campêlo

Vou começar essa história em media res, como se dizia antigamente. Ou seja, do meio pro fim.
Foi no balcão da Farmácia Homeopática Sabino Pinho, na Rua das Águas Verdes, no bairro do São José, no Recife, que eu conheci seu Machado, em meados dos anos 80. Já passando dos 70 anos, era um homem cordial que atendia a todos com distinção. Só o vi enraivecido uma vez. Foi quando lhe perguntei sobre o seu parentesco com o Padre José, do Pina. O homem transfigurou-se para falar daquele meio irmão (por parte de pai) que durante toda a vida insistira em lhe chamar de bastardo e de não lhe querer aproximação alguma. Conservador e elitista, o padre morreu sem reconhecer o filho que seu pai tivera fora do casamento. Morrera sem perdoar o irmão por uma culpa que não lhe cabia.
Pois bem, foi esse padre infeliz e maniqueísta que celebrou a minha primeira comunhão, em 1962. Durante anos reinou na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, onde, depois de morto, foi homenageado pelo fieis com um busto na parede externa da igreja. Confesso que nunca entendi isso direito. Não era um homem bom. Uma vez, ainda menino, vi-o paralisar uma missa para expulsar a ponta-pés um cachorro vira-lata que inadvertidamente entrara na igreja. Contra ele também corriam histórias de pedofilia. Dizem que gostava de atrair para a casa paroquial, que ficava ao lado da igreja, na Avenida Herculano Bandeira, com barras de chocolate, os meninos ainda impúberes. Lá tentava seduzi-los. Se essas histórias nunca foram comprovadas, também nunca foram desmentidas. Diferentemente do Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, esse foi o crime do Padre José.
Até hoje, não lembro de nenhum ato ou fato bonificador que o pároco tenha feito em nome da gente daquele bairro. Em plena ditadura militar, os anos que passou à frente daquele rebanho serviu apenas para impingir-lhes o medo do pecado e do fogo dos infernos. Nenhum senso crítico exercitou-lhes, muito embora na garagem da casa paroquial funcionasse uma pequena escola onde a professorinha Glória fazia as vezes de alfabetizadora.
Quando morreu, foi substituído na igreja pelos padres oblatos, americanos que já comandavam a igreja de Brasília Teimosa. Esses eram mais liberais e haviam aprendido os questionamentos da teologia da libertação, liderados pelo padre Jaime.
Os oblatos, aliás, chegaram a Brasília Teimosa, no início dos anos 60, com a missão de catequizar o gentio daquela favela que começava a se formar. Logo perceberam que deveriam estar ao lado do povo na luta pela ocupação e posse daquelas terras. Passaram a ser respeitados e admirados por conta dessa postura solidária e de enfrentamento com o poder constituído.
Logo, outras áreas do bairro do Pina, como as comunidades do Bode e do Encanta Moça, passaram a ter ao seu lado os evangelizadores com uma visão mais modernizada e atuante em relação aos problemas diários e constantes da população mais pobre. Além do céu, a felicidade na terra também era um direito daquele povo. E isso, o padre José nunca os ensinara!

Recife, 2014

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Carnaval em Bezerros


Fotografia de Clóvis Campêlo/2005

CARNAVAL EM BEZERROS


Clóvis Campêlo

Do mesmo modo que a cultura de massa tem influenciado os ceramistas da feira de Caruaru, os personagens do cinema e da televisão também têm invadido a folia de papangus, na cidade dos Bezerros.
Hoje, é comum vermos circulando pelas ruas da cidade, durante o carnaval, fantasias inspiradas nesses heróis ou anti-heróis, como essa acima, que teve como tema a figura de Freddy Krueger.

Recife, 2011


sábado, 16 de agosto de 2014

Nossa Senhora da Conceição



NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
Recife, 08/12/2013
Fotografias de Clóvis Campêlo

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Caboclo de lança


CABOCLO DE LANÇA
Recife, 1994
Fotografia de Clóvis Campêlo

domingo, 10 de agosto de 2014

Eu também sou brasileiro!


Com ele juntos em campo, o Brasil nunca perdeu

EU TAMBÉM SOU BRASILEIRO

Clóvis Campêlo

Como dizia Nélson Rodrigues, a seleção brasileira é a pátria de chuteiras. Não há como negar. Em 1970, começamos com 90 milhões em ação e ao longo do tempo só nos multiplicamos.
Aliás, em termos de seleção brasileira de futebol, Nélson Rodrigues sempre tinha razão. Complexo de vira-lata? Nunca mais! Depois que Garrincha e Pelé, em 1958, desmontaram o cérebro eletrônico soviético? Tá certo que, em 1974, esbarramos na Laranja Mecânica. Mas, nem sempre tudo corre bem. Também existe a competência alheia. O certo é que, apesar de tudo, sempre estivemos lá. Somos os únicos, aliás. Cadeira cativa em todas as Copas do Mundo.
Se fossemos espanhóis, dividiriamo-nos em bascos e catalões, uns torcendo pelo fracasso dos outros. Mas, somos brasileiros, o povo bombril, vários em um, unidos, coesos na mesma emoção. Do Oiapoque ao Chuí. Não importa o sotaque.
Lembro que em 1974, no segundo jogo da seleção brasileira contra a finada Ioguslávia, alguns amigos politicamente correto torciam contra o Brasil. Sabe como é: ditadura militar, populismo de direita, o ópio do povo. Eu não! Sempre soube distinguir uma coisa da outra. Em 1970, o caudilho Médici já havia convocado Dario Peito-de-Aço, impondo o jogador à Zagalo e a toda a comissão técnica. Concessão feita, deixa o homem no banco, curtindo o calor mexicano do meio-dia. Foi tri sem botar os pés em campo. Mas, tava lá no grupo e curtiu as glórias posteriores. Nada mais lógico, portanto (para eles, os politicamente corretos), que torcer pelo fracasso do Brasil na Copa seguinte. Tínhamos grandes valores naquela seleção de 74: Jairzinho, Rivelino, Luís Pereira, Marinho Chagas, Leão, etc. O nosso azar foi a assombração holandesa. Te esconjuro até hoje!
Em 1982, outro timaço sob o comando de Telê Santana. E mais uma pedra no caminho: a Itália do mafioso Rossi. Dançamos novamente. Paciência. Ali sucumbiu toda uma geração de craques que merecia uma melhor sorte em termos de Copa do Mundo: Zico, Sócrates, Falcão, Toninho Cerezzo, etc.
Em 1994, conquistamos um tetra meio malassombrado com o retranqueiro Parreira. Mas, tetra é tetra. E a festa da conquista começou no Recife. Tremenda apoteose. A cidade azul dos poetas ficou verde e amarela. A nossa brasilidade se manifestou com toda intensidade. E ainda tínhamos Ricardo Rocha entre os campeões, que, machucado, quase não jogou. Em 1958, aliás, também tinha sido assim: voltando da Suécia, onde Garrincha não só ganhou a Taça do Mundo como também deixou plantada a sua semente brasileira, a primeira escala foi no Recife. Graças a Rubem Moreira, o tirano comodoro que deu certo. Entre os campeões do mundo, os pernambucanos Vavá e Zequinha. O nosso futebol e o nosso povo até hoje agradecem. Na Suécia, aliás, fomos campeões do mundo com o técnico Vicente Feola cochilando no banco. Um timaço.
Depois do penta, em 2002, com Rivaldo e a família Scollari, que venha o hexa. Talvez Dunga nos lembre Parreira com suas precauções excessivas, negando o drible e a catimba, revalorizando os armandinhos, reafirmando que a defesa é o melhor ataque. Talvez.
Mas, como dizem que Deus é brasileiro, não custa nada acreditar que seremos hexa. Temos força para isso. E além do mais, hoje, já somos mais de 190 milhões em ação.
Pra frente, Brasil!
Salve a seleção!
Eu também sou brasileiro!

Recife, 2010

Em busca do sol


EM BUSCA DO SOL
Recife, 1991
Fotografia de Clóvis Campêlo


sábado, 9 de agosto de 2014

Simplicidade


SIMPLICIDADE

Clóvis Campêlo

No teu sorriso aberto,
um que de perigoso;
no teu jeito fogoso,
folgo em saber
que nesta vida bandida
o que vale é viver
pra ver a tua simplicidade
na minha simples cidade
Recife, por cima
se o caso é uma rima
se o caso é uma saudade.

Recife, 1976

1932: O primeiro bicampeonato - Parte II


1932: O PRIMEIRO BICAMPEONATO - PARTE II

Clóvis Campêlo

Se em 1931 a campanha do Santa Cruz foi excelente, em 1932, para conquistar o bicampeonato, ela foi simplesmente irrepreensível. Para chegar ao seu segundo título estadual, a equipe coral realizou 12 partidas, vencendo todas, além de garantir o melhor ataque e a defesa menos vazada.
Participaram da campanha os seguintes jogadores: goleiros, Diógenes e Dadá; defensores, Sherlock, Fernando, João Martins, Zé Orlando, Dóia, Julinho, Sebastião e Zezé Fernandes; atacantes, Walfrido, Estevam, Tará, Lauro, Paulo, Carlos Benning, Popó, Limoeiro, Marcionilo, Antero, Edson e Oscar.
Com vistas à conquista do bicampeonato, o Santa Cruz iniciou o ano reforçando o elenco. Além de trazer de volta Sebastião, o grande centro-médio do futebol pernambucano, também contratou Marcionilo, um dos destaques do certame da ASDT, além do goleiro Diógenes. Ironicamente, porém, a equipe coral disputou todo o 2º Turno desfalcada de quatro dos seus melhores elementos: Fernando, Zezé Fernandes, Dóia e Tará. Incorporados às forças pernambucanas, haviam seguido para o Sul em defesa do Governo Vargas contra as tropas insurretas que tentavam controlar São Paulo e Minas Gerais. Essa situação, aliás, foi vivida por vários clubes pernambucanos, inclusive pelo Íris, o outro finalista, já que uma boa parte dos nossos atletas eram ligados à Polícia Militar de Pernambuco.
Os desfalque, no entanto, não chegaram a quebrar a harmonia do grêmio tricolor que, em estado de graça, soube encontrar substitutos à altura dentro de suas próprias fileiras. Nos jogos finais da série melhor-de-três, contra o Íris, o Santa Cruz já se apresentaria completo, mostrando um alto padrão de jogo e garantindo o bicampeonato.
Entrevistado pelo Jornal Pequeno, no dia 19 de novembro, na véspera do segundo jogo final, Tará, demonstraria o nível de convicção do time e o seu espírito de luta, afirmando enfático: “Quem venceu no “front”, enfrentando “artilheiros” muito mais perigosos, não tem medo de caretas...” No dia seguinte, marcaria um belíssimo tento, colaborando com a goleada de 4x1 e consolidando a sua crescente fama de artilheiro.
À noite, após o jogo, no Restaurante Lusitano, a equipe coral ainda teve apetite suficiente para devorar o jantar oferecido pela direção do clube, em comemoração à conquista. Naquela noite, naquela casa portuguesa, houve uma festa tricolor, com certeza...
Eis os jogos realizados pelo Santa Cruz na campanha invicta do bicampeonato:

Jogo: Santa Cruz 8x0 Israelita. Data: 10/4/32 (domingo). Local: Jaqueira. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: Paulo (3), Carlos Benning (2), Walfrido (2) e Limoeiro. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e João Martins, Zé Orlando, Julinho e Zezé Fernandes, Walfrido, Limoeiro, Paulo, Lauro e Carlos Benning. ISR - não informado.

Jogo: Santa Cruz 5x1 Great Western. Data: 08/5/32 (domingo). Local: Jaqueira. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: não informado. Equipes: não informado

Jogo: Santa Cruz 2x1 Flamengo. Data: 29/5/32 (domingo). Local: Av. Malaquias. Gols: Lauro e Carlos Benning, para o SC, e, Fébidas, para o FLA. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e Fernando, Dóia, Sebastião e Zezé Fernandes, Walfrido, Marcionilo, Tará, Lauro e Carlos Benning. FLA - Alberto, Joãozinho e Chico Altino, Everaldo, Hermes e Roberto, Alonso, Memeu, Fébidas, Bernardo e Pega-Pinto. Expulsões: Joãozinho e Tará, por trocarem tapas.

Jogo: Santa Cruz 4x1 América. Data: 19/6/32 (domingo). Local: Jaqueira. Juiz: Ambrósio do Rego Barros. Gols: Lauro, Marcionilo, Tará e Carlos Benning, para o SC, e, Julinho (contra), para o AM. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e João Martins, Julinho, Sebastião e Zezé Fernandes, Walfrido, Marcionilo, Tará, Lauro e Carlos Benning. AM - Pereirão, Palmeira e Barbalho, Lula, Carioca e Casado, Quincas, Eric, Seixas (Dodô), Ralf e Preguinho (Moacir). Obs.: Jogo não encerrado por indisciplina coletiva da equipe do América, comandada pelo arqueiro Pereirão.

Jogo: Santa Cruz 6x1 Fluminense. Data: 31/7/32 (domingo). Local: Av. Malaquias. Juiz: Octávio Morais. Gols: Paulo (2), Estevam, Walfrido, Lauro e Antero. Equipes: SC - Dadá, Sherlock e João Martins, Zé Orlando, Sebastião e Julinho, Walfrido, Marcionilo, Paulo, Lauro e Estevam (Antero). FLU - Gouveia, Zé Ramos e Gesner, Jorge, Batista e Luizinho, Pinto, Varel, Gilberto, Aldo e Gaby.

Jogo: Santa Cruz WxO Israelita. Data: 15/8/32 (2ª feira). Local: Av. Malaquias. Juiz: Manoel Pinto. Obs.: A equipe do Israelita não compareceu a campo, perdendo o jogo por WxO.

Jogo: Santa Cruz 4x3 Great Western. Data: 11/9/32 (domingo). Local: Jaqueira. Juiz: Bernardo Rosembaum. Gols: Popó (2), Marcionilo e Oscar, para o SC, e, Tino, Zilo e Tutu, para o GW. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e Fernando, Marcionilo, Julinho e João Martins, Walfrido, Edson, Popó, Lauro e Zezé Fernandes (Oscar). GW - Heitor, Bebé e Waldemar, Natalício, L. Costa e Cahé, Cavalcanti, Tinoco, Zilo, Tutu e Alagoano.

Jogo: Santa Cruz 3x1 Flamengo. Data: 25/9/32 (domingo). Local: Jaqueira. Juiz: João Elysio. Gols: Marcionilo, Carlos Benning e Walfrido, para o SC, e, Péricles, para o FLA. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e Fernando (João Martins), Marcionilo, Sebastião e Zezé Fernandes, Estevam, Walfrido, Limoeiro, Lauro e Carlos Benning. FLA - Fritz, Hermes Bezerra (Joãozinho) e Chico, Mazinho, Hermes e Everaldo, Alonso, Fébidas, Péricles, Pitota (Bernardo) e Pega-Pinto.

Jogo: Santa Cruz 3x1 América. Data: 09/10/32 (domingo). Local: Jaqueira. Juiz: Octávio Morais. Gols: Carlos Benning (2) e Lauro, para o SC, e, Ralph, para o AM. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e João Martins, Marcionilo, Sebastião e Zezé Fernandes, Walfrido, Humberto, Oscar, Lauro e Carlos Benning. AM - Pereirão, Palmeira e Barbalho, Alemão, Casado e Moacir, Quincas, Lúcio, Seixas, Rafael (Ralph) e Aldo.

Jogo: Santa Cruz 8x2 Fluminense. Data: 06/11/32 (domingo). Local: Jaqueira. Gols: Walfrido (4), Tará (2) e Lauro (2), para o SC, e, Amarinho e Gaby, para o FLU. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e Fernando, Marcionilo, Sebastião e Zezé Fernandes, Walfrido, Estevam, Tará, Lauro e Carlos Benning. FLU - não informado.

Jogo: Santa Cruz 4x1 Íris. Data: 15/11/32 (3ª feira). Local: Av. Malaquias. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: Estevam (2), Marcionilo e Carlos Benning, para o SC, e, Guerra, para o IR. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e João Martins, Marcionilo, Sebastião e Zezé Fernandes (Julinho), Walfrido, Estevam, Tará, Lauro e Carlos Benning. IR - Silvino, Moacir e Reumatismo, Popó, Batista e Ramalho, Benedito, Guerra, Zeferino, Chinês e Emídio.

Jogo: Santa Cruz 4x1 Íris. Data: 20/11/32 (domingo). Local: Av. Malaquias. Juiz: José Fernandes Filho. Equipes: SC - Diógenes, Sherlock e João Martins, Marcionilo, Sebastião e Zezé Fernandes, Walfrido, Estevam, Tará, Lauro e Carlos Benning (Julinho).IR - Silvino, Walfrido e Moacir, Popó, Zé Lima e Ramalho, Benedito, Guerra, Zeferino, Chinês e Emídio.

Recife, 2010

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Me engana que eu gosto!


ME ENGANA QUE EU GOSTO!

Clóvis Campêlo

Dizem os entendidos no assunto que o homem é o único animal que dissimula. Está longe de nós, portanto, enquanto espécie, usar a verdade para a manutenção da vida em que qualquer nível. Poeticamente, parafraseando o poeta-mor da língua portuguesa, poderíamos até dizer que o Homem é um fingidor. E que o fingimento, por ser uma atitude generalizada, está legitimamente incluído entre os direitos da espécie humana.
Assim, fingimos (mentimos!) tanto para conquistar a mulher do próximo - quando o próximo não estiver muito próximo - quanto para bombardear e matar populações indefesas, atingindo indiscriminadamente velhos, mulheres ou crianças. Dependendo da carga dissimulatória dos argumentos, tudo pode ser aceito e explicável.
Quem não lembra, por exemplo, da história da estagiária Mônica Lewinsky com o ex-presidente americano Bill Clinton? Dedurada por uma das secretárias do presidente da maior potência do mundo, após ter as suas conversas telefônicas gravadas, a estagiária viu-se envolvida num escândalo que terminaria com uma ação de perjúrio contra o presidente ianque, após este negar sob juramento que tivesse tido algum tipo de relacionamento com ela.
Para desviar a atenção da opinião pública mundial, Clinton mandou bombardear simultaneamente dois países: o Sudão, na África, e o Afeganistão, na Ásia Central, com a justificativa de combater o terrorismo naqueles fins de mundo. Segundo a revista Veja, em 26 de agosto de 1998, foram disparados contra os dois alvos em torno de 100 mísseis Tomawhak. A encenação, ainda matou cerca de 20 pessoas no Afeganistão, já que no horário escolhido para o ataque de araque, à noite, a maioria dos terroristas visados deveria estar dormindo. Enfim, uma triste encenação que fez o mundo esquecer, por alguns momentos, da estagiária, dos charutos e do sexo oral do presidente.
Lembro disso agora quando o mundo inteiro se indigna com a luta desigual que se dá em Gaza. Até onde a justificativa para a matança encontra respaldo? Até onde qualquer povo ou nação tem o direito de ceifar vidas humanas em nome de um suposto perigo ou tentando destruir edificações ou túneis de existências não devidamente comprovadas?
Todos nós sabemos (e fingimos não saber) que por trás dessa encenação trágica existem interesses políticos e econômicos nem sempre éticos ou honestos.
Dentro desse contexto enganatório fica até difícil para nós, pobres mortais cuja opinião é formada (ou deformada) de acordo com os interesses do jogo político e econômico internacional, tomar uma posição justa e coerente com os nossos valores íntimos (afinal, que valores seriam esses?). Na maioria das vezes, somos impelidos emocionalmente para um lado ou para o outro, servindo de massa de manobra dentro desse jogo espúrio.

Recife, 2014

Barcos na Praia de Suape


BARCOS NA PRAIA DE SUAPE
Cabo de Sto Agostinho/PE, 1991
Fotografia de Clóvis Campêlo


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Morrer de amor eu quero, minha amada


MORRER DE AMOR EU QUERO, MINHA AMADA

Clóvis Campêlo

Morrer de amor eu quero, minha amada,
buscando em ti o gozo derradeiro,
fazendo disso a última empreitada
e do teu colo um nobre travesseiro;
romper febril o alvor da madrugada
e encontrar um porto alvissareiro,
onde em silêncio encontre a calmaria
e veja a noite escurecer o dia.

Recife 2010

1932: O primeiro bicampeonato - Parte I


1932: O PRIMEIRO BICAMPEONATO - PARTE I 

Clóvis Campêlo

Em 1932, no dia 3 de fevereiro, enquanto a família coral comemorava o 18º aniversário de fundação do “Mais Querido”, a FPD proclamava o Santa Cruz como o legítimo campeão de 1931. Publicando a proclamação na data do aniversário tricolor, a entidade máxima procurava reaproximar-se do clube campeão, aparando as arestas surgidas no conflituoso jogo final, contra o Náutico. Eis o teor do documento, abaixo transcrito: “Federação Pernambucana de Desportos - Ato nº 2: O presidente da Federação Pernambucana de Desportos, usando das atribuições que lhe são conferidas e tendo em vista o resultado do último campeonato de futebol, conforme comunicação que lhe foi feita pelo diretor do Departamento de Desportos Terrestres, resolve proclamar o Santa Cruz Futebol Clube campeão de 1931. Gabinete da Presidência, em 3 de fevereiro de 1932. ( a ) Renato Silveira, presidente”.
A grande festa comemorativa, porém, só aconteceria no dia 15 de março, na nova e luxuosa sede inaugurada pela agremiação tricolor na rua João Pessoa (hoje, rua Nova), esquina com a praça Joaquim Nabuco. Na ocasião, foram entregues aos atletas campeões as medalhas ofertadas pela FPD. A solenidade foi comandada pelo desportista Alcides Lima, presidente em exercício, considerando o afastamento temporário do capitão Carlos Affonso de Melo. Perante um grande número de associados presentes, vários mandatários usaram da palavra, enaltecendo o feito e as figuras de velhos tricolores já desaparecidos. Foi ainda proposto e aceito por todos os presentes a concessão de títulos de sócios beneméritos ao atleta Julinho Fernandes, pelo seu desempenho na conquista do primeiro campeonato; ao treinador e diretor de esportes Ilo Just, como homenagem ao seu passado de atleta tricolor, e, ao presidente Carlos Affonso de Melo, pelos seus méritos como dirigente na conquista do primeiro título estadual. Segundo a imprensa da época, no final da cerimônia, foram servidos aos presentes bolinhos, doces, gasosas e cervejas.
A conquista do primeiro campeonato, aliás, repercutiria no seio da família tricolor durante todo o ano de 1932. No dia 10 de outubro, por exemplo, a diretoria do Santa Cruz realizaria ainda um festivo piquenique, em Prazeres, em homenagem aos jogadores pela conquista de 1931 e pela excelente campanha de 1932, que culminaria com a conquista do bicampeonato invicto. Diretores, sócios e homenageados saíram em automóveis, às 10 horas, do Largo da Paz, em Afogados, retornando, no final da tarda, após um lauto almoço. E, numa demonstração definitiva de que o grêmio coral vivia tempos de paz e prosperidade dentro e fora de campo, no dia 3 de novembro, o Comitê Pró-Livro inaugurava a biblioteca do Santa Cruz. Na sede, após a leitura do relatório, o sr. Berguedoff Eliot entregava as chaves da primeira estante. Também usou da palavra o sr. Carlos Rios, encerrando a inauguração oficial da biblioteca.
O campeonato estadual de 1932 foi disputado no período de 27 de março a 20 de novembro. Por decisão dos clubes, os disputantes foram divididos em dois grupos, com dois turnos cada, com os vencedores disputando a final, entre si, numa série melhor-de-tres. Os grupos ficaram assim constituídos: Grupo Azul - Sport, Náutico, Torre, Íris, Encruzilhada e AAA; Grupo Branco - América, Flamengo, Santa Cruz, Fluminense, Great Western e Israelita.
Sem a presença do Great Western, que só se filiaria à FPD depois de iniciado o campeonato, o Torneio Início foi disputado no dia 13 de março, na Av. Malaquias. Saiu vencedor o Sport, após derrotar o Torre, no jogo final. O Santa Cruz disputou dois jogos, vencendo o Flamengo, no primeiro, por 2x0, e sendo derrotado pelo Íris, no segundo, pelo mesmo escore.
Pelo certame de 1932 foram disputados 50 jogos (mais uma vez, dois jogos foram ganhos por WxO), sendo marcados 295 gols, com uma média de 5,9 tentos por partida. Assim como no ano anterior, não foi registrado nenhum empate pelo placar de 0x0. Novamente o Santa Cruz, numa demonstração incontestável da sua superioridade técnica, teve o melhor ataque e a defesa menos vazada, marcando 51 tentos e sofrendo apenas 13. Durante a competição foram utilizados apenas os campos do América, na Jaqueira (22 jogos) e do Sport, na Av. Malaquias (28 jogos). Vale salientar, também, que antes mesmo de disputar qualquer partida pelo certame a Associação Atlética do Arruda (AAA) foi descredenciada por não atender às exigências estatutárias da FPD. O Santa Cruz, vencedor do Grupo Branco, e o Íris, vencedor do Grupo Azul, disputaram as finais nos dias 15 e 20 de novembro, vencendo a equipe coral ambos os jogos pelo marcador de 4x1.

Recife, 2010

Lixo


LIXO
Recife, 1995
Fotografia de Clóvis Campêlo


Sonhei o teu sonho


SONHEI O TEU SONHO

Clóvis Campêlo

Sonhei o teu sonho
como um louco sonha com a felicidade
que se mostra possível
e que se esvai como as nuvens ao vento.
Sonhei o teu sonho
e nele o teu pensamento se mostrava nu
como o teu corpo em uma tela de Gaugin.
Sonhei o teu sonho
e nele eu vi que a realidade é fugidia,
apenas uma breve ilusão,
uma brincadeira do pensamento.
Sonhei o teu sonho
e de repente acordei e
te vi ao meu lado.
Deitei novamente
e fui dormir tranquilo
(a noite era longa e
já não havia pressa).
Recife, 2006

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Meninos do Brasil


MENINOS DO BRASIL
Juazeiro do Norte/CE, 1993
Fotografia de Clóvis Campêlo


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Gás paralisante


GÁS PARALISANTE

Clóvis Campêlo

Para Waldemar Lopes

Sim, a lua é de neon
mas o poeta não a nota,
gás paralisante brota
das teclas do acordeon.

Simbolicamente canta
um subjetivo mundo,
estranho e muito profundo
onde a realidade espanta.

A vida correndo inglória,
qual louca e fútil história,
delira e não vê passar.

Nem mesmo nota na rua
o real brilho da lua,
testemunha tão vulgar.
Recife, 1991

O pagador de promessa


O PAGADOR DE PROMESSA
Juazeiro do Norte/CE, 1993
Fotografia de Clóvis Campêlo


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Para César Castanha


PARA CÉSAR CASTANHA

Clóvis Campêlo

A César, o que lhe cabe:
um norte, uma nova vida
cicatrizando as feridas,
negando o que não se sabe.

E antes que tudo se esgote
haverá sempre um início
rompendo a amarra do vício,
trazendo o novo a reboque.

A César, o que lhe pertence:
todos os sonhos e os signos,
os pensamentos benignos
e tudo o que a vida tece;

o que ainda há de vir,
a esperança e a ousadia,
todas as noites e os dias,
as certezas do existir.

Recife, 1995

Seja marginal, seja herói


SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI

Clóvis Campêlo

É difícil imaginar o compositor Caetano Veloso, hoje rico e aburguesado, na televisão, cantando a marchinha “Boas Festas” com um revólver apontado para a sua própria cabeça. Em 1968, o Movimento Tropicalista era assim: radical, agressivo, atentando contra os chamados bons costumes culturais.
O programa Divino Maravilhoso, lançado na TV Tupi em outubro daquele ano, foi tirado do ar um mês depois. A televisão brasileira não estava preparada para ver aquele desbunde. Os serviços de segurança da ditadura militar, no entanto, já vinham de olho nas revoluções dos baianos.
A gota d'água, foi o show montado na Boate Sucata, no Rio de Janeiro, com o título de “Seja marginal, seja herói”. Segundo o jornalista Ricardo Alexandre, em matéria publicada no site da revista Super Interessante, espalhou-se que durante o show Gil e Caetano esculhambavam com o Hino Nacional Brasileiro. Segundo a Wikipédia, durante o espetáculo, compôs o cenário uma bandeira criada pelo artista plástico Hélio Oiticica com a inscrição “Seja marginal, seja herói”, com a imagem do traficante carioca Cara-de-Cavalo, que havia sido assassinado de forma violenta pela polícia carioca. Os donos do poder na época, os militares da ditadura, alegaram ainda que Caetano Veloso havia cantado o Hino Nacional de forma desrespeitosa, incluindo na letra versos desabonadores às Forças Armadas. Foi o suficiente para o show ser suspenso e os baianos serem presos e, posteriormente, exilarem-se na Inglaterra.
Foi por esse viés, camaradas, que o Tropicalismo chegou a Pernambuco e confrontou-se com o Movimento Armorial de Ariano Suassuna, que defendia a tradição cultural medieval brasileira e as armas e os brasões assinalados. Sinceramente, não havia como conciliar tudo isso em terras da pernambucália. Muito mais do que um confronto cultural, o conflito foi ideológico e político e se refletiu em atitudes do dia a dia de ambos os lados.
Assim, enquanto mestre Ariano Suassuna aceitava ocupar cargos públicos em governos biônicos da ditadura militar, encontrávamos Jomard Muniz de Brito, Aristides Guimarães e Celso Marconi, os principais arautos do Movimento Tropicalista paroquiano, nas passeatas de protesto e em outras atividades contestatórias, como o enterro do Padre Henrique, assessor direto do arcebispo Dom Hélder Câmara, brutalmente assassinado pelas forças da repressão. Era esse o contexto, era essa a diferença.
Era do Brasil do “Ame-o ou deixe-o”. As divisões eram nítidas, não havia espaço para indefinições ou dúvidas.
Hoje, passados mais de quarenta anos, parece-nos que tudo isso já foi devidamente digerido, enquadrado e assimilado. Ao menos para nós, o Movimento Armorial não mais nos parece tão retrógado e equivocado como naquela época, do mesmo modo que o Tropicalismo ficou muito mais caracterizado como um movimento destinado ao prazer conceitual de uma determinada elite intelectual brasileira.

Recife, 2014

Papangu


PAPANGU
Recife, 1994
Fotografia de Clóvis Campêlo


domingo, 3 de agosto de 2014

O Recife Sombreado



O RECIFE SOMBREADO
Recife, julho 2014
Fotografias de Clóvis Campêlo

O poeta


O POETA

Clóvis Campêlo


Para Alberto da Cunha Melo

Trôpego, o poeta caminha,
desafia o espaço e recria,
assim como um equilibrista,
a geografia do seu abismo.

A força que o impulsiona,
instinto necessário à vida,
arquiteta com traição
a hora do golpe final.

Cumpre a sua trajetória fatal
qual manso e belo cordeiro que,
cego pela luz mais próxima,
imagina vastas planícies.

Acaricia-lhe o vento
a face pálida e vazia.
Já não canta a felicidade,
apenas caminha e vai.
Recife, 1991

Publicado no jornal Folha de Pernambuco, Recife, nos dias 14 e 27.04.2010.

sábado, 2 de agosto de 2014

Quintal


QUINTAL

Clóvis Campêlo

Miúda hortelã,
mangas suspensas no ar,
bananas anãs.

Recife, 2009

Bandeiras


BANDEIRAS
Recife, 1994
Fotografia de Clóvis Campêlo


Força Centrípeta


FORÇA CENTRÍPETA

Clóvis Campêlo

Desde quando ando,
vejo e sinto,
morro, olho.
Meu olho olha
e vê e sente
o que eu quero sentir
quando olho para
a minha imagem
inspiradora do bem.
O mal existe
do outro lado
da barra.
A barra fica,
fica no meio;
a barra é a libra
e eu sou
a força centrípeta
que te atrai.
Quer você queira,
quer não,
eu sou a
força do coração.

Recife, 1976

A bandeira era vermelha...


A BANDEIRA ERA VERMELHA...
O governador Miguel Arraes de Alencar com a bandeira do MST
Recife, 1994
Fotografia de Clóvis Campêlo


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Insônia


INSÔNIA

Clóvis Campêlo

A primeira lembrança que esse título me traz à mente é o livro homônimo de Graciliano Ramos lançado em 1947 pela Editora José Olympio. Seu Clóvis, meu genitor, tinha na estante de casa toda a coleção do escritor alagoano, que tive a sorte de ler ainda na adolescência.
Meu pai não era um intelectual no sentido estrito do termo, mas tinha uma pequena e eclética biblioteca caseira onde desfilavam alguns grandes autores: Graciliano Ramos, Albert Camus, Vladimir Nabokov, entre outros. Mas tinha também na estante autores populares, como Marcial Lafuente Estefanía, um espanhol que gostava de escrever sobre o velho oeste, e heróis da literatura de massa americana, como Irving Le Roy, detetive de cabelos prateados, e Shell Scott, um ex-fuzileiro naval americano que lutou na Guerra do Pacífico e que criava peixinhos dourados no seu escritório. Diante deles, costumava decifrar as mais incríveis incógnitas policialescas.
Entre as heroínas, lembro-me de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Integrante da Resistência Francesa na II Guerra Mundial, usava a sua beleza e formosura para arrancar informações dos oficiais nazistas. Descoberta e fuzilada pelos alemães, Giselle deixaria uma filha, Brigitte Montfort, que transformada em agente super espiã da CIA, ajudaria Tio Sam na Guerra Fria contra a expansão ideológica da então União Soviética. Cercados por tantos e fabulosos heróis, estávamos à salvo do perigo vermelho no Pina dos anos 60.
Contudo, amigos, não era minha intenção ir tão longe nessa abordagem memorialista da pequena biblioteca do meu pai. Queria apenas fazer referência ao livro de Graciliano Ramos, tomando-o como leitmotiv para falar da insônia que hoje de vez em quando me atormenta.
De início, também lembrei-me da falta de sono que atormentava Michael Jackson e que terminou por fugir do seu controle e levá-lo à morte. O astro pop ficava várias noites sem dormir e tentava explicar isso como resultante da adrenalina que lhe deixava excitado após cada show. Afirmava que perdia, em média, quatro quilos por apresentação e de madrugada, na solidão dos quartos de hotel, não conseguia conciliar o sono. Diariamente, necessitava de um coquetel de sedativos e soníferos para desfrutar de algumas horas de descanso. Embora não nutrisse por ele grandes admirações, não deixei de me comover com o seu drama pessoal.
De Graciliano Ramos a Michael Jackson, muita águas rolaram na minha vida e no mundo. Hoje, ambos estão mortos, muito embora ainda sejam respeitados e admirados nas suas respectivas áreas.
Quanto a mim, utilizo a minha insônia como motivo para mais uma crônica. Nas madrugadas barulhentas do bairro da Madalena, onde hoje moro, faço da varanda do meu apartamento um mirante privilegiado onde procuro observar a lua e as estrelas no céu, à noite, e o movimento incensante dos automóveis pela madrugada.
Tudo ao som de Moonlight Serenade, de Glenn Miller.

Recife, julho 2014