sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A insustentável irreversibilidade do ser



A INSUSTENTÁVEL IRREVERSIBILIDADE DO SER

Clóvis Campêlo

Descartes que me desculpe, mas o mundo é muito mais múltiplo e paralelo do que pregava a sua vã filosofia. E não adianta querer bancar o São Tomé, pois tudo que é sólido sempre se desmancha no ar. Entre as fantasias do real e as realidades do imaginário, portanto, vagamos nós, seres mutantes e modernos. Entre a finitude do momento e a eternidade do virtual, dividimo-nos de forma esquizóide. E não adianta mais chorar sobre o leite derramado, pois o processo talvez seja irreversível.
Como já dizia o guru, não existe segurança nenhuma em nada. Viver é uma extrema e ignorante ousadia, e nem mesmo temos controle algum sobre a chegada e a partida. Simplesmente vagamos. Perdemo-nos constantemente entre montanhas e vales, para nos reencontrarmos nas planícies e nos planaltos. Só sabemos que nada sabemos.
Compartimentar o tempo e mecanizar o pensamento e o raciocínio foram artifícios utilizados inultimente por nós em busca de um patamar mais seguro. Para todos, talvez fosse prudente observar o brilho diferenciado daquela estranha estrela, cuidando, porém, para não alimentarmos uma nova ilusão ou utopia. É muito pequena a distância entre a consciência e o delírio.
Mesmo pensando e pulsando, somos carne de terceira e nos iludimos constantemente com a perspectiva do divino. As nossas pretensões, porém, esbarram nas nossas próprias limitações: não vemos o que queremos, não alçamos vôos panorâmicos, arrastamo-nos pelo chão como vermes quaisquer. Somos seres decapitados e vemos a cada dia cabeça e corpo mais e mais se distanciarem.
Enquanto matéria orgânica, temos a carne como o cerne. É através dela que nos desencontramos com o mundo que imaginamos concreto. E quando esse mundo se desmaterializa, tornamo-nos tornados, energia pura descontrolada e bela, embora periculosa.
Mas, para que tanta verborragia se viver não exige tantas palavras? Se os procedimentos vitais se locupletam e se complementam de forma autônoma e independente? Se os fatos, por si sós, geram fetos de outros fatos? Se a vida é uma ida sem volta e sem escolta, solitária e desacompanhada?
Como diria o poeta em tempos idos, talvez só nos reste a opção de dançarmos um tango argentino!


Recife, 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Auto-retrato



AUTO-RETRATO

Clóvis Campêlo


Sou a reta e sou a curva,
a mão esquerda e a direita,
o verão na praia do Pina
e a chuva que adoça o caju.

Sou a revolução que não houve,
as dúvidas da certeza
e a alegria das dúvidas.

Sou o pai e sou o filho,
o vento que anuncia tempestades,
o raio que corta o céu ao meio
no meio da tarde.

Sou martelo agalopado,
entidade de corpo fechado,
soneto na nova medida
e a bandeira de São João.

Sou Elefante e Pitombeiras,
sou o Galo da Madrugada,
sou o barulho da feira
e o som da procissão.

Sou o amarelo de Nossa Senhora
e o azul de Iemanjá,
sou calmaria sem vento,
sou selva de pedra e cimento,
relva plantada no chão.

Sou o tudo e sou o nada,
o silêncio e a batucada;
sou o sul e sou o norte,
faca cega e navalha de corte.

Eu sou o fogo da vida
e sou o sopro da morte!


Recife, 2006
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sábado, 24 de dezembro de 2011

Papai Noel nunca me enganou



PAPAI NOEL NUNCA ME ENGANOU

Clóvis Campêlo

A Viana Leal ficava na Rua da Palma, no centro do Recife. Uma das primeiras lojas de departamentos criadas na cidade, nos anos 50, diferenciava-se das outras por conta da bela escada rolante existente e por onde nós subíamos para falar com Papai Noel, no primeiro andar. Foi lá que o conheci pessoalmente e onde comecei a alimentar a minha bronca natalina.
Primeiro, por conta dos presentes que nunca correspondiam aos que eu solicitava. Seria doido ou surdo o bom velhinho? Pedia-lhe uma bicicleta e vinha um avião de plástico. Pedia-lhe uma charmosa bola de couro e recebia uma outra de plástico chinfrim. Coisa chata aquilo. Não desconfiava que os meus pedidos esbarravam no salário parco de funcionário público do meu pai. Naquela época, para mim, o mundo era mágico e Papai Noel existia de verdade. Só não compreendia a sua capacidade de não me atender aos pedidos.
Numa das últimas vezes que lá estive, notei que a bela roupa vermelha de Papai Noel cheirava a suor. Aquilo me intrigou. Será que o bom velhinho não gostava de tomar banhos? Ou será que, morando sozinho no Pólo Norte, não tinha quem lhe lavasse as roupas com as quais trabalhava?
Para mim, naquela data, Papai Noel se humanizava e começava a perder a sua aura mágica e poderosa. Sempre o imaginara como um anjo, um ser divinal criado por Deus apenas para atender aos sonhos e desejos das crianças do mundo todo. Em função dessa crença, esforçava-me o ano inteiro para ser uma criança boa e estudiosa. Em muitos Natais cujos presentes recebidos não correspondiam aos solicitados, atribui a mim mesmo essa responsabilidade. Talvez, naquele ano, eu não tivesse correspondido às expectativas na escola e no meu comportamento em casa e por isso não merecesse ser atendido nas minhas pretensões infantis. Papai Noel era justo e atencioso, um ser divino, e não me faria uma falseta dessas. Mas, se assim era, como podia suar e cheirar a suor. Alí havia algo de errado e alguém teria que me explicar o que era. Sendo Papai Noel humano e suador, a culpa não poderia ser só minha.
Minhas dúvidas acabaram-se de vez, logo depois do Natal, quando passei com o meu pai em frente ao Bar Savoy e vi nada mais nada menos do que o nosso Papai Noel, à paisana, tomando uma cerveja geladíssima ao lado de uma loira suspeita.
Ali, o sonho acabou de vez: Papai Noel era uma fantasia.

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pelas ruas do Recife


Fotografia de Clóvis Campêlo / 2000
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PELAS RUAS DO RECIFE

Clóvis Campêlo

Pelas ruas do Recife
surge a novidade,
afirmam-se credos seculares,
renascem mitos modernos.

Pelas ruas do Recife
dorme-se o sono dos justos,
cessam as palavras,
falam por si sós os fatos.

Pelas ruas do Recife
caminha a humanidade,
correm as notícias,
dispara a revolução.

Pelas ruas do Recife
travam-se todas as lutas,
cruzam-se todos os olhares,
reverenciam-se todos os deuses.

Pelas ruas do Recife
transitam todos os anjos,
ocorrem todas as mortes,
condensam-se todas as imagens.


Recife, 1991

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Severino Vitalino






SEVERINO VITALINO

Clóvis Campêlo

Nascido no Sítio Campos, em Caruaru, no dia 04/3/1940, é um dos seis filhos de Vitalino de Caruaru, o mestre do barro.
Em 1948, aos oito anos de idade, acompanhou a mudança do pai para o Alto do Moura, também em Caruaru, onde fixou residência e onde hoje funciona a Casa-Museu Mestre Vitalino, mantida pela Prefeitura de Caruaru.
A casa é mantida da mesma forma em que se encontrava quando Vitalino morreu e Severino é quem zela por ela, recebendo por isso um salário da prefeitura.
Mas ele também é artesão do barro desde os 8 anos de idade, quando fez o seu primeiro boneco. Hoje, tem peças até no acervo da Casa Branca americana.
A Casa-Museu fica na Rua Mestre Vitalino, 281, no Alto do Moura, em Caruaru.
Foi lá que eu fiz as fotografias, em 2005, ainda em negativas de celulóide.


Recife, 2005

domingo, 18 de dezembro de 2011

O primeiro dia do resto da sua vida



O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA SUA VIDA


Clóvis Campêlo

O sonho fora terrível: dois operários em construção, amarrados e com os braços abertos, eram espancados em praça pública, pelos companheiros de obra, até a morte. Do outro lado da rua, sobre o lixo de um terreno baldio, um bebê de cabelos louros e encaracolados chorava, abandonado.
Deitara cedo, é verdade, e não conseguia entender porque sonhara aquele sonho estranho, em plena madrugada, quando o dia já começava a raiar.
Levantou da cama e olhou para a companheira que, bela, ressonava, tranquila, o sono dos justos. Era sempre assim: lutava contra a insônia e os pesadelos, enquanto ela dormia com a maior facilidade.
Durante anos se perguntara o por que disso, da insônia, da angústia. De nada adiantaram os anos de terapia ou mesmo os soníferos usados durante um certo tempo. Sabe lá Deus, quantas noites passadas em claro, nos últimos anos, ou dormindo mal e sonhando besteiras como as que sonhara há pouco.
Foi até a cozinha e colocou a água do café no fogo. Quando ela acordasse, o café já estaria pronto. Ao menos para isso, a insônia serviria. Pôs o pó do café no coador (detestava as cafeteiras que ferviam o pó junto com a água) e a água quente sobre ele, deixando o delicioso aroma invadir todos os cômodos do apartamento.
Logo ela acordaria, e repetiria a invariável pergunta: “Dormiu bem hoje?”. Já se acostumara com isso. Perguntava-se por que a repetição inútil da indagação. Tanto quanto ele, ela sabia da sua incapacidade de dormir bem. Sabia dos seus pesadelos e dos seus surtos depressivos.
Quando a ela dizia isso, alegando a inutilidade da pergunta, sempre respondia: “Lembre-se que hoje é o primeiro dia do resto da sua vida e nele você tem a obrigação de ser feliz. Esqueça o ontem e o amanhã. Concentre-se no agora. Liberte e libere as endorfinas”.
Odiava esse discurso otimista, mas como gostaria que ela estivesse certa.

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Em busca de nós mesmos



EM BUSCA DE NÓS MESMOS

Clóvis Campêlo


O que buscam as pessoas ao se juntarem em grupos?
Talvez um lenitivo para a solidão. Talvez. Afinal, a solidão é fera, a solidão devora. E se ela faz nossos relógios caminharem lentos, causa descompassos em nossos corações. Aplacar a solidão, portanto, pode ser um dos requisitos que buscamos nos relacionamentos. Houve uma época em que a única coisa que nos interessava era a disposição para a alegria. A natureza nos era generosa. Havia espaço, água, areia, luz, tudo em abundância e nós tinhámos uma energia enorme para gastar. Os amigos eram parceiros lúdicos, ainda não havia revoluções a serem engendradas. Também naõ havia discriminações sociais. Ganhava respeito quem se destacasse nas habilidades intrínsecas. Lembro de verdadeiros comandantes que depois descambaram para a marginalidade, a exclusão. Não tiveram a sua maestria e exuberância reconhecidas pela sociedade. Os critérios eram outros.
Houve um outro tempo em que a constituição cósmica já não nos interessava da maneira como se apresentava. Tínhamos planos maiores e melhores para o mundo e nos juntávamos em grupos para subverter esse estado de coisas. Éramos conspiradores contra tudo e contra todos. Éramos santos guerreiros e o dragão da maldade não estava em nós, estava no mundo. O inferno eram os outros. Movidos por essas utopias, muitos foram impiedosamente massacrados, exterminados. Sangramos desnecessariamente sem entender que o mundo tem a sua própria lógica e que se autotransforma, torna-se mutante quando a si mesmo interessa isso.
Um belo dia, abandonamos todos os bandos, revolucionários ou não, e começamos a criar filhos, plantar árvores e escrever livros. Começamos, sem perceber, a percorrer um longo caminho para o futuro em busca da fartura e da simplicidade do passado, onde tão pouco nos bastava e satisfazia.
E nesse caminho de volta, de retorno à terra, ao equilíbrio edênico, reaprendemos a arte de conhecer e conviver com novas pessoas, outros bandos de retirantes em busca de si mesmo, da sua paz interior, do seu eu cósmico.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Mosaicos







MOSAICOS

Clóvis Campêlo

Se a fotografia nasceu a partir da câmera escura, artifício utilizado pelos pintores renascentistas para copiar a realidade com a máxima perfeição, nada mais natural que ela seja usada para mostrar as cores e luzes do mundo, criando simulacros mais que perfeitos.
Assim, ao fotógrafo caberia apenas a escolha do ângulo e enquadramento adequados e a captação do momento decisivo da composição, como entendia o mestre francês Cartier Bresson.
A fotografia estaria condenada, então, ao figurativismo, à repetição e fixação exaustivas das imagens fugidias da vida e do mundo.
O desenvolvimento tecnológico, no entanto, com a criação de máquinas mais modernas e com mais possibilidades técnicas, permitiu aos fotógrafos contemporâneos algumas transgressões e até mesmo alguns equívocos.
Sem querer me estender muito nessa teoria da imagem e partindo decidido para os finalmentes, lembro que, entre nós aqui da província, foi o designer Aloísio Magalhães quem primeiro buscou utilizar a fotografia, através de montagens, para crias novas composições e imagens. Utilizando-se de um mesmo negativo, revelado de forma normal e invertida, criou o que chamava de fotogramas, colagens que davam um novo dignificado ao figurativismo fotográfico. Esse seu belíssimo trabalho está hoje quase esquecido e pouco é citado.
Ao concebermos os “mosaicos” que ilustram esse artigo, partimos da concepção aloisiana e da lembrança dos mosaicos que formavam o chão da casa dos meus pais, no Pina, e que aos poucos foram sendo substituídos pela cerâmicas modernas e sem graça dos dias de hoje.
A única diferença significativa no nosso trabalho, é que montamos os “mosaicos” não a partir de imagens figurativas ou de paisagens do mundo real, mas sim a partir de recortes de imagens das pinturas dos ônibus e paredes da cidade do Recife.
Feitas no início dos anos 90, ainda em negativos de celulóide, as imagens foram reveladas de forma normal e invertidas, assim como fazia Aloísio Magalhães, e montadas sobre papel escuro.

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domingo, 11 de dezembro de 2011

O Ginásio Pernambucano


Fotografia de Clóvis Campêlo/2008

O GINÁSIO PERNAMBUCANO

Clóvis Campêlo

Escola mais antiga ainda em funcionamento no Brasil, foi fundada no dia 1º de setembro de 1825 por José Carlos Mayrinck Ferrão, então presidente da Província.
De início, seu nome era Liceu Provincial e não teve sede fixa por um bom tempo.
Começou com 26 alunos num dos corredores do Convento do Carmo, com professores do Seminário de Olinda.
Em dezembro de 1866, foi transferido para o prédio atual, na Rua da Aurora, ao lado do prédio da Assembléia Legislativa do Estado. Antes, funcionou na Rua do Hospício, no Cais da Alfândega e na Rua da Praia.
O prédio, tombado em 1984 pelo Patrimônio Histórico Nacional, obedece ao estilo neoclássico e foi construído por José Mamede Alves Ferreira, engenheiro responsável pela construção dos prédios da Casa da Cultura, do Hospital Pedro II, da capela do Cemitério de Santo Amaro e da grande maioria dos casarões construídos na Rua da Aurora, naquel época.
Pela escola passaram alunos ilustres como o ex-presidente da República Epitácio Pessoa, os ex-governadores pernambucanos Agamenon Magalhães, Cid Sampaio e Joaquim Francisco, além de outras personalidades como os escritores Ariano Suassuna e Clarice Lispector, o historiador Amaro Quintas e o geográfo e historiador Manoel Correia de Andrade.
Para se ter uma idéia da rigorosa disciplina da escola, no início, seu primeiro diretor, Miguel do Sacramento Lopes Gama, o Padre Carapuceiro, criou um severo estatuto. Entre outras coisas, para ser matriculado, o aluno tinha de prestar juramento à Constituição do Império e, anualmente, os professores prestavam contas ao governo do desempenho acadêmico e disciplinar dos alunos.
Em 1997, as atividades do Ginásio Pernambucano foram suspensas devido às más condições de conservação do prédio, passando a escola a funcionar provisoriamente, durante as reformas, no prédio da antiga Escola de Engenharia, na Rua do Hospício.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Para Lennon sem McCartney



PARA LENNON SEM McCARTNEY

Clóvis Campêlo


A revolução nós a fizemos
deitados no assoalho do estúdio
(um atrapalho no trabalho).
Disparamos sonhos a esmo
e nem mesmo vimos as
mudanças se consolidarem.
Oh, garota,
talvez você nem
saiba qual a razão!
Sempre fui solidão
e queria morrer.
Nuvens negras sobre
a minha cabeça,
prenúncios de sofreguidão
e nós apenas queríamos
a revolução.
Oh, meu bem,
esqueça Mao e Guevara,
eles nos custaram
os olhos da cara
e nem mesmo houve
céu ou terra,
inferno ou paraíso.


Recife, 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

Além do módulo lunar


"Mulheres na janela", de Di Cavalcanti

ALÉM DO MÓDULO LUNAR

Clóvis Campêlo

No dia em que o homem chegou à Lua, eu posei no seu coração.
Todos a chamavam de Lenita e durante longos meses flertei com ela em silêncio, tímido e apaixonado.
Nunca imaginei que a conquistaria um dia. Afinal, ela tinha namorado com os caras mais gabaritados do udigrudi recifense, intelectuais e cineastas, e eu era apenas um rapaz latino-americano que morava no subúrbio e gostava de jogar futebol e curtir a praia.
Vimos tudo pela televisão, em preto e branco (o homem na lua).
Depois a beijei na escada do prédio onde morava. Na parede do corredor, havia uma guelra de baleia. Ela foi a testemunha muda de tudo o que houve naquela noite.
Depois de beijos e abraços, ela, completamente cínica e excitada, pediu para ir ao banheiro. Era só um pretexto para tirar a calcinha.
Sentou-se no primeiro vão da escada e deixou que eu acariciasse os seus pelos pubianos.
Respirava sofregamente quando lhe alcancei o clitóris e introduzi os dedos na sua rubra vagina.
Gozou ali mesmo, nos pés da escada, enquanto Amostrong enfiava o mastro da bandeira americana no solo lunar.
Um grande passo para a humanidade e eu cheirando os dedos atrevidos que havia invadido aquele espaço precioso.
Naquela noite não lavei às mãos ao chegar em casa. Aquele cheiro delicioso me pertubou por várias horas. Só me acalmei depois do gozo solitário.
Aquela seção maravilhosa se repetiria por muitas noites, até que um dia acabamos o namoro.
Depois, sempre que passava por ali e a via na janela do apartamento, sorria de satisfação.
Ela também sorria, acho que curtindo as mesmas lembranças.


Recife, 2008

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Divino Cartola



DIVINO CARTOLA

Clóvis Campêlo


Cartola morreu no dia 30 de novembro de 1980, oito dias antes de John Lennon ser assassinado em Nova York. A morte do ex-Beatle, para mim e para o mundo, foi marcante, assustadora, incomensurável.
Talvez por isso, nas minhas lembranças, na minha jovem cabeça, não tenha sido tão significativa a data da passagem do compositor carioca.
Naquela época, inclusive, eu ainda não havia descoberto a dimensão e a importância do sambista para a música popular brasileira. Para mim, Cartola era mais uma "invenção" da turma do Pasquim, muito embora nas jovens tardes de domingo que curtíamos no Pina, nos anos 70 e 80, Cartola fosse uma das ilustres figuras que desfilavam nas nossas vitrolas.
Mas, naquele tempo, interessava-me muito mais a revolução tropicalista de Caetano e Gil e as guitarras da Jovem Guarda, que ainda reverberavam. Essa junção modernista, esse prisma inusitado que se apresentava na MPB, impressionava-me muito mais do que a arte do sambista do Rio.
Cartola morreu aos 72 anos de idade. Foi velado na quadra da Estação Primeira de Mangueira, escola de samba da qual foi um dos fundadores, e sepultado no Cemitério do Caju, no dia 1º de dezembro. Na hora do seu funeral, Waldemiro, ritmista da Mangueira, marcou no seu bumbo o compasso para que a música As rosas não falam fosse cantada pela pequena multidão que acompanhava o enterro. Atendia-se, assim, ao seu último desejo, manifestado por ele à família uma semana antes de morrer.
Quando tempos depois refiz os meus conceitos sobre a música brasileira e passei a resgatar determinados valores do passado, as músicas de Cartola passaram a fazer parte das minhas preferências, impressionando-me sobretudo por suas qualidades musicais e poéticas, pela grande sensibilidade desse homem que, embora tivesse terminado apenas o curso primário, mostrava-se um compositor completo e um letrista inspirado.
Não foi à toa, portanto, que o crítico musical Lúcio Rangel, com Cartola ainda vivo, tenha lhe dado o apelido de Divino Cartola.
Para Cartola, sem dúvida, eu também tiro o meu chapéu.


Recife, 2011