terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A praia do Pina




 


 

 




A PRAIA DO PINA
Participação especial de Cida Machado
Recife, dezembro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

domingo, 11 de dezembro de 2016

O Poeta da Vila


O POETA DA VILA

Clóvis Campêlo

Noel Rosa, o Poeta da Vila, nasceu no dia 11 de dezembro de 1910, no bairro de Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro. Nasceu de um parto muito difícil, que incluiu o uso de fórceps pelo médico obstetra, como medida para salvar as vidas da mãe e bebê. Segundo a Wikipédia, nasceu com hipoplasia (desenvolvimento limitado) da mandíbula, o que lhe marcou as feições por toda a vida e destacou sua fisionomia bastante particular. Faleceu na Cidade Maravilhosa, em 4 de maio de 1937. Mesmo morrendo tão jovem, vitimado pela tuberculose, teve tempo suficiente para criar grandes canções e tornar-se um dos mestres da MPB em todos os tempos.
Aliás, é difícil falar de Noel Rosa sem cair na redundância. Muito já foi dito e escrito sobre ele e suas composições. Entre suas músicas, tenho uma predileção especial por Último desejo, não só pela interpretação marcante que lhe foi dada por Araci de Almeida, como também por ser a música preferida de dona Tereza, minha mãe, que a cantava na cozinha da nossa casa, no Pina, enquanto preparava os bifes para o almoço.
Consta que a música foi por ele composta para Juraci Correia de Morais, a Ceci, jovem dançarina que Noel conheceu no Cabaré Apolo, e por quem se apaixonou. Segundo o site Revista de História, "começaria aí um dos casos de amor mais líricos da história da canção popular brasileira".
Aliás, existe na MPB uma outra música, criada por Antônio Almeida e Ciro de Souza, contemporânea da composição de Noel Rosa, que também fala de uma Juraci (Desde o dia em que te vi, Juraci, nunca mais tive alegrias...) e que talvez faça referências à mesma pessoa.
Segundo o site Eternas Músicas, Último Desejo foi composta no ano de 1937 quando Noel Rosa com tuberculose já em estágio bastante avançado, e sentindo que não viveria muito tempo, compôs em homenagem ao seu grande amor. A composição teria sido uma espécie de despedida do poeta em relação à sua amada. Foi sua penúltima composição cuja letra foi entregue a Ceci por um amigo comum pouco antes do falecimento de Noel Rosa. A outra Juracy foi composta em 1941.
Último Desejo, aliás, que tem a sua primeira parte em tons menores, parece-nos um melancólico lamento. A segunda parte, em tons maiores, menos triste e mais propositiva, mostra-nos a disposição do poeta em impor de maneira firme e decidida a imagem que pretendia deixar como lembrança.
Ainda segundo a Wikipédia, Noel teve ao mesmo tempo várias namoradas e foi amante de muitas mulheres casadas. Em 1934, casou-se com Lindaura, moça da alta sociedade carioca. Mas era apaixonado mesmo por Ceci, a prostituta do cabaré, sua amante de longa data. Era tão apaixonado por ela, que escreveu e fez sucesso com outra música Dama do Cabaré, inspirada em Ceci, que mesmo na vida fácil, era uma dama ao se vestir e ao se comportar com os homens, e o deixou totalmente enlouquecido pela sua beleza. Ele dava-lhe presentes, joias, perfumes e ela o compensava com noites inesquecíveis de amor.
Com certeza, a música popular brasileira deve a este amor boêmio, algumas das suas grandes composições.


Recife, dezembro 2016

sábado, 10 de dezembro de 2016

No Morro da Conceição











NO MORRO DA CONCEIÇÃO

Textos e fotografias de Clóvis Campêlo

Transformado em santuário, esperava encontrar o Morro da Conceição invadido pelo gentio. Estava quase vazio. Talvez eu tenha ido no dia certo (8 de dezembro) mas na hora errada (no começo da tarde). No auge do meu desapontamento, cheguei a pensar que aquela tradição religiosa do povo recifense, decaía. Ledo engano, porém. Mais tarde, vejo na televisão a multidão acompanhando a imagem da Santa, vinda do Recife Antigo na direção do Morro. Entendi, então, que, descuidado na minha falta de fé, havia errado o foco. 
No Morro, sigo em frente até chegar aos pés da imagem e deslumbrar-lhe a beleza. Vista de qualquer um dos lados, encanta. E, sob o milagre da multiplicação e da produção comercial em série, alimenta a fé do povo. Ao mesmo tempo, alimenta a alma e o comércio da fé. As barraquinhas, antes restritas ao comerciantes autônomos, agora, em parte, também são mantidas pela própria Igreja. Nada mais justo, já que viemos do capital e ao capital retornaremos. Como disse o poeta, a grana ergue e destrói coisas belas.
Alimentadas a fé e a alma, restaria o corpo. Para a fraqueza física dos pobres mortais, sopa com pão, tapioca com café e suco de laranja. Afinal, ninguém é de ferro e a fome física pode se equiparar à fome de fé. Devemos, portanto, cuidar dela e aplacá-la para conseguirmos manter a outra de pé. Poderíamos até afirmar, com a convicção dos incrédulos, que são fomes inseparáveis.
Subir o Morro, porém, não é fácil quando se carrega consigo mesmo a dívida de alguma promessa feita. Hoje, muitos poucos se arriscam a subir o Morro nadando, de joelhos ou com tijolos nas cabeças para pagar alguma graça alcançada. Antes, essa movimentação era bem maior.
Assim, em dia de Nossa Senhora da Conceição, o Morro nos oferece ao mesmo tempo exemplos de fé religiosa, de gratidão popular e de oportunismo comercial. Até mesmo a necessidade fisiológica do povo de Deus, que não queira se sujeitar aos fétidos banheiros químicos oferecidos pela municipalidade, pode custar alguns trocados a mais. Mas, diante da fé que sempre removeu montanhas, isso não significa absolutamente nada.

Recife, dezembro 2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nélson Ferreira e Bajado



NÉLSON FERREIRA E BAJADO

Clóvis Campêlo

Nélson Ferreira e Bajado nasceram no mesmo dia, 9 de dezembro.
O primeiro, em 1902, em Bonito, cidade situada no agreste pernambucano, filho de um violonista vendedor de jóias e de uma professora primária. Aprendeu a tocar violão, violino e piano. Fez sua primeira composição aos catorze anos, a valsa Vitória, sob encomenda.
O segundo nasceu em 1912, na cidade de Marial, na zona da mata sul do estado. Seu nome de batismo era Euclides Francisco Amâncio.
No Recife, Nelson Ferreira tocou em pensões, cafés e saraus e nos cinemas Royal e Moderno, sendo considerado o pianista mais ouvido na época do cinema mudo.
Bajado, radicou-se em Olinda em 1934, de onde não mais saiu. No início, sobrevivia pintando cartazes para cinema e trabalhando como operador da máquina do Cinema Olinda, função que exerceu até 1950.
Nélson Ferreira foi diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco, convidado por Oscar Moreira Pinto. Também foi diretor artístico da Fábrica de Discos Rozenblit, selo Mocambo, única gravadora de discos instalada nos anos 1950 fora do eixo Rio/São Paulo. Com sua orquestra de frevos criou fama e projetou-se em todo o Brasil.
Segundo o site Escritório de Arte, em 1956, Bajado iniciou de forma profissional sua carreira de artista plástico, realizando a pintura de painéis e murais em centros comerciais e na decoração do Carnaval de Olinda. Retratou ainda os grandes clubes carnavalescos da cidade; Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefante, O Homem da Meia-Noite, Vassourinhas, assim como o frevo rasgado na Ribeira, Largo do Amparo, Varadouro e na Praça do Carmo.
Segundo a Wikipédia, Nélson Ferreira é um dos compositores nordestinos com maior número de músicas gravadas na discografia brasileira. Grande parte delas, no entanto, restringiu-se a Pernambuco e ao Nordeste. Sua primeira composição gravada foi Borboleta não é ave, em parceria com J. Borges, pela gravadora Odeon, em 1924 pelo Grupo do Pimentel, como samba, e pelo cantor Baiano, como marcha. A composição mais famosa, um frevo de bloco, foi Evocação número 1, a primeira das 7 evocações compostas por ele, e que foi sucesso no carnaval de 1957 no Rio de Janeiro, cantada em ritmo de marcha.
Bajado, em 1964, junto com alguns amigos de profissão, inaugurou o Movimento de Arte da Ribeira, em Olinda, onde passou a expor seus trabalhos. Durante sua vida artística, reproduzir ainda inúmeras telas sobre a vida cotidiana, o sofrimento, as emoções e a cultura do povo pernambucano. O artista possuía um temperamento calmo e brincalhão. Fluiu na arte, com a simplicidade de um homem humilde. Era considerado um artista primitivo, inserido no estilo da arte contemporânea. Sua tendência artística era a liberdade de estética, comum na arte moderna. Morreu em 1996, aos 84 anos de idade, em sua residência localizada na Rua do Amparo, nº 186, Olinda-PE.
Nélson Ferreira morreu no Recife, no dia 21 de dezembro de 1976, deixando inacabado mais um disco de frevos que preparava para o carnaval de 1977.
Um detalhe importante: ambos eram torcedores do Santa Cruz. Bajado imortalizou o clube coral em inúmeras telas e Nélson Ferreira compôs um frevo para o Santinha, além de também homenagear com músicas e frevos os outros grandes clubes da capital pernambucana.
Portanto, salve Nélson Ferreira e salve Bajado, dois grandes artistas da cultura pernambucana. 

Recife, dezembro 2016

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O barquinho


O BARQUINHO
Recife, nov 2016
Fotografia de Clóvis Campêlo



sábado, 26 de novembro de 2016

Lennon e Guevara


LENNON E GUEVARA

Clóvis Campêlo

Amigos, com certeza, gostaria de ter feito essa fotografia, e mais ainda essa montagem. Afinal, o que poderiam cantar em uníssono esses dois ícones simbólicos da minha geração?
Segundo o site The Beatles College, trata-se de uma montagem feita a partir de uma fotografia onde John Lennon toca com Wayne "Texas" Gabriel, guitarrista da banda Elepanty's Memory, que acompanhava Lennon em 1972. Mas, que diferença pode fazer? Fico aqui com meus botões pensando que as revoluções do mundo são feitas muito mais com a imaginação do que com as prováveis realidades.
Na minha opinião, nesse momento imaginário, a seriedade de Lennon nos remete a um momento de profunda reflexão: para onde caminhará o mundo? Haveria, a partir daquele momento, a possibilidade de um mundo mais coeso e justo, onde a fome fosse apenas uma lembrança distante e onde os homens de boa vontade se respeitassem como irmãos e parceiros naturais?
O riso descontraído de Guevara nos sugere que o guerrilheiro aproveitava aquele momento de paz e sossego pessoal pra descontrair e cantar.
Talvez experimentassem Give Peace a Chance, canção composta por Lennon em 1969. A música, gravada originalmente por John e Yoko durante o bed-in realizado no Canadá, acabaria por se transforme em um hino contra a Guerra do Vietnam.
Acho pouco provável, porém, que tocassem La Marseilaise, canção revolucionária composta em 1792, que adquiriu grande popularidade durante a Revolução Francesa, e que acabaria por se transformar no Hino da França. Afinal, a música já havia sido utilizada como introdução, pelos Beatles, durante a gravação de All You Need Is Love, em 1967, Mesmo atribuída à dupla Lennon-McCartney, a música foi escrita pelo primeiro, como um hino de amor que pudesse ser entendido por todos os povos do planeta.
Naquele mesmo ano, a equipe do canal londrino BBC convidou os Beatles para participar do primeiro evento transmitido mundialmente via-satélite, ao vivo simultaneamente para 26 países: o programa Our World. Esse trabalho envolveu redes de TV das Américas, Europa, Escandinávia, África, Austrália e Japão, e foi visto simultaneamente por 350 milhões de pessoas. Um marco na história do grupo e na história das transmissões via satélite no mundo todo.
Naquele mesmo ano, nos confins da Bolívia, Guevara era executado na cidade de La Higuera. Ironicamente, no dia 9 de outubro. data em que Lennon completava 27 anos de idade. Enquanto o mundo perdia um visionário revolucionário, morto nos mangues da florestas bolivianas, os Beatles lançavam-se mundialmente como símbolo de uma geração que, embora questionando o poder do status quo, dele também se aproveitava para consolidar os seus novos valores.
Portanto, a cena acima, que nunca existiu na vida real, mas que foi criada a partir de um sonho individual (segundo o poeta é dos sonhos dos homens que se inventa a cidade, e consequentemente, o mundo) serve como referência imaginária para um mundo que poderia ter sido diferente e caminhado para um destino mais mais humano e solidário.
Imagine um mundo onde não houvessem guerras, bombas, propriedades e poder. É difícil pensar nisso? Algumas pessoas, ao longo do tempo, chegaram a imaginá-lo. Nós, não seríamos os únicos.

Recife, novembro 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Antes da linha do horizonte











ANTES DA LINHA DO HORIZONTE
Recife, outubro/novembro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

sábado, 5 de novembro de 2016

Canção do auto-exílio


Fotografia de Clóvis Campêlo / 2016

CANÇÃO DO AUTO-EXÍLIO

Clóvis Campêlo

Nesta terra tem palmeiras
onde canta o sabiá!
Cheguei aqui por querer
e por não querer voltar,
insisto em lhe afirmar:
Nesta terra tem palmeiras
onde canta o sabiá!

O tempo em que me ausentei
prefiro nem lhe contar
de por onde é que eu andei
só pensando em voltar
para as aves que aqui gorjeiam
ao lado do sabiá.

Permita Deus que eu morra
sem daqui mais me ausentar,
olhando o azul dos céus
e o anil intenso do mar,
ao lado do coqueiro verde
onde um dia fui encontrar
a paz que a mim incendeia
e o canto do sabiá.

Neste céu tem mais estrelas,
nesta terra, mais amores,
do mar, eu curto o mistério,
a lua, chego a vê-la,
e todos estes fatores
forjaram o meu batistério.

Nesta terra tem palmeiras
onde canta o sabiá,
guriatã, rouxinol,
a patativa e o canário.
E essa ode faceira
que sempre encontrei por cá
faça chuva ou faça sol,
é todo o meu ideário.

Recife, março 2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Dylan e o Nobel de Literatura


DYLAN E O NOBEL DE LITERATURA

Clóvis Campêlo

Como diz Rita Lee, tudo vira bosta. Talvez essa máxima se aplique com adequação à notícia divulgada pela Academia Sueca. Pra que diabo Bob Dylan vai querer um prêmio desses? Em que é que isso vai enriquecer ainda mais a sua carreira musical, além, é claro dos 2,9 milhões de reais a serem pagos? Do mesmo modo que não quero entender, até hoje, porque os Beatles aceitaram o título de “sir” que lhes foi dado por uma Inglaterra ferozmente capitalista e, na época, envolvida com a Guerra escrota do Vietnã.
Dylan, com a cara atual de maracujá enrugado, começou a sua carreira fortemente influenciado pela cultura beatnik. Nascido em no estado da Minnesota, em 1941, netos de emigrantes judeus russos, escolheu a música folk para lhe servir de base e veículo dos seus textos e poemas. Deu certo. Emigrou para Nova York, onde vive até hoje, e no bairro do Greenwich Village começou sua longa e profícua carreira de compositor. Dizem que a escolha pela música folk foi uma homenagem ao ídolo Woody Guhtrie. Nós, fãs da periferia, talvez não tenhamos conhecido o Woody, mas, no Festival de Woodstock, seu filho, Arlo, fez um relativo sucesso.
Mas, Dylan, que em seu nome artístico também homenageia outro poeta, Dylan Thomas, teve ressonância entre os descontentes da época por alertar aos seus contemporâneos, sempre de forma branda e poética, sobre os rumos dos novos tempos. Nunca foi, porém, um contestador do sistema. Nunca pregou revoluções. Aliás, chegou mesmo a homenagear o american way of life, ao declarar que mudava de nome por viver na terra da liberdade. Destetava, inclusive, a alcunha de compositor de músicas de protesto. Na verdade, um bom moço, o Dylan. Por isso, não foi a toa, que nos anos 70, Lennon afirmou em uma das suas músicas pós-Beatles que, entre outras coisas, não acreditava mais em Robert Zimmerman (o nome de batismo de Dylan).
Vejo agora na imprensa que Dylan, classificado pela Academia Sueca como arrogante e mal-educado por não se pronunciar sobre a premiação, corre o risco de não receber a dinheirama do prêmio. Seu silêncio, constrangedor para os cedentes, pode lhe custar os cifrões. Pelo regulamento, o premiado deve fazer palestra sobre a sua arte, no prazo máximo de seis meses a partir da concessão do Nobel. Ou até mesmo um show musical, admite a Academia. Mas ele continua mudo como um túmulo.
Ainda pelas regras da Academia cedente, a recusa do prêmio não será aceita. O recusante, no entanto, ficará privado do valor monetário a ser recebido. Consta que apenas Jean Paul-Sartre, em 1964, recusou o mimo. Anos depois, porém, diante das graves dificuldades financeiras que enfrentou, solicitou à Academia Sueca que lhe pagasse o valor devido, o que lhe foi negado. Sarte, talvez, tenha se arrependido, mas já era tarde.
Para mim, a Academia Sueca arriscou-se um grande golpe publicitário, aproveitando-se da fama de Dylan. Talvez ele tenha percebido esse intuito e tenha se reservado. Não sabemos até onde isso irá e qual a verdadeira importância dessa babaquice para o conturbado mundo moderno.
Portanto, que se fodam Dylan e o Nobel de Literatura!


Recife, outubro 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

A praia da Boa Viagem

 










A PRAIA DA BOA VAGEM
Recife, outubro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

De volta para o passado


DE VOLTA PARA O PASSADO

Clóvis Campêlo

Não tenho pretensões de ser nenhum novo Dom Casmurro. A minha mulher não se chama Capitolina. E nem, ao menos, tenho algum amigo chamado Esequiel. Nem mesmo ando mais de trem. Na cidade moderna em que vivo, esse foi substituído pelo metrô. Mas, nem de metrô eu ando. Tenho meu próprio automóvel, conseguido pela ascensão da classe média nos últimos governos populistas. Vivo, portanto, a solidão coletiva e diária de me locomover escutando alguma rádio que toque música popular brasileira ou o bom rock'n'roll. Poemas, só escuto os de Carlos Drummond de Andrade, gravados em um compact disc que me foi presenteado por um amigo de longas datas. Meto-o no equipamento de som do carro, e escuto sempre o poeta mineira com sua voz aparentemente frágil e cansada. Aliás, cansadíssima!
Mas, assim como o famoso personagem machadiano, surgiu-me, na etapa final da vida, a necessidade de reconstituir, ao menos fisicamente, um cenário que me fora adequado no início. O desenho, fazia muito tempo, estava gravado na minha cabeça teimosa. Aliás, teimosíssima (como podem reparar, também curto os superlativos!).
Do portão que vinha da rua até o pequeno terraço de entrada, havia uma curta calçada. Do terraço, alcançava-se a porta da sala, em duas abas e ao lado de uma janela, também com duas abas, que se abriam para o terraço. Os quartos, eram em número de trás, do mesmo lado da casa. Os dois últimos, tinham as suas janelas voltadas para o oitão lateral. Era lá que o sol nascia. O primeiro, porém, abria a janela para o poente e era estucado, o que o tornava insuportavelmente quente à noite quando as portas da casa se fechavam para o sono dos justos e dos injustos também. Nesse, ninguém queria se acomodar. Era para lá que fugíamos, eu e meu irmão, nas noites quentes de verão para desfrutar do corpo de Creusa, a doméstica que nos iniciara sexualmente. Meus pais nunca desconfiaram de nada. Tudo confabulava ao nosso favor naqueles tempos ideais.
Entre a sala e a cozinha, havia uma pequena passagem que também dava acesso ao banheiro única da casa. Por seu lado a cozinha abria-se em um terraço interno, mandado construir depois por meu paí, onde ficava a lavanderia e os tonéis com a água que chegava à noite nas torneiras mais baixas. Ainda não haviam construído a Barragem de Tapacurá e os banhos de chuveiro eram um sonho quase inalcançável.
O quintal era um caso especial. Na parte da frente, havia um jardim com canteiros em forma de losangos, onde plantávamos rosas de todas as cores. Na parte lateral estavam as fruteiras, onde canários, curiós e papa-capins se abrigavam e proliferavam incansáveis. Não havia verão que desse conta daquela capacidade de propagação. Era a preservação das espécies.
Na parte traseira do quintal, meu pai plantara bananeiras de várias espécies e alguns pés de mamão caiano. Ali, era o lugar dos sanhaçus, guriatãs e concrizes, passarinhos de molhado, como se dizia, comedores de frutas e de cantos maviosos.
Recompondo a casa antiga do Pina, termino assim essa crônica. Se fui descritivo, quando me queria irônico e memorialista, talvez até mesmo introspectivo, culpa a minha incapacidade literária de copiar o grande mestre, mesmo que em um pequeno e insignificante texto.
Talvez, como ele, termine me convencendo que ria bem melhor tentar escrever sobre as histórias dos antigos subúrbios.

Recife, outubro 2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Guerra e paz


GUERRA E PAZ

Clóvis Campêlo

Sou de paz em tempos de guerra e de guerra em tempos de paz. Evoluções me interessam. Mentiras sinceras, não. Talvez isso faça com que me sinta vivo no mar de insensatez que é a vida moderna.
Sempre que vejo imagens antigas do passado, fico pensando como a vida parecia ser mais fácil antigamente. Talvez esteja ficando velho demais para acompanhar a rapidez das mudanças atuais. Nem mesmo consigo entender o que fala meu neto mais velho, Pedro, quando se refere aos seus jogos e personagens virtuais. Percebo que hoje a maior parte das minhas referências estão no passado. Quando muito, consigo manejar o computador e escrever minhas mal traçadas linhas. Já me contento com isso.
Confesso que sempre almejei um mundo melhor, com mais justiça social e melhor distribuição de renda. Para mim, seria apenas uma questão de tempo para que isso acontecesse. Imaginava que um dia as pessoas perceberiam o equívoco dos seus credos e optariam por um mundo mais equânime.
Nos tempos do Jubrapi, no Pina, nos seminários promovidos pelos padres oblatos, o sociólogo Carlos Rocha afirmava que o socialismo seria uma consequência natural do capitalismo. Era esperar para ver. No mundo justo de Deus não deveria haver espaço para a fome, a exploração do homem pelo próprio homem, a injustiça. Eu tinha a impressão, naquela época, de que o próprio Deus estava empenhado no restabelecimento desse equilíbrio. Afinal, éramos todos irmãos (ou deveríamos sê-los). A divisão geopolítica do mundo sempre me pareceu um equívoco e ser remediado. Era só escolher o caminho e segui-lo. Haveria uma força tamanha a proteger os homens de boa vontade que se empenhassem nisso. Eu, na ingenuidade da minha adolescência, acreditava piamente nisso. Na maior parte da minha vida, direcionei os meus esforços e esperanças nesse sentido. Não me arrependo, mas poderia ter sido um pouco menos crédulo, mais pragmático e ter percebido que a vida, no futuro, especialmente a minha, quando as forças vitais começassem a fraquejar, necessitaria de uma melhor estrutura para se apoiar e sobreviver.
Hoje, percebo estarrecido que antigos amigos que dividiam conosco essas esperanças e crenças, mudaram de atitude e, não sei se por benefícios pessoais ou por degeneração de caráter, defendem ideias e políticas deletérias e facciosas. Como, para mim, toda relação humana deve se basear em fatos concretos comuns, não vejo como manter esses relacionamentos apenas baseado em pontos comuns do passado ou em considerações mortas e insustentáveis. Não consigo achar que a verdade possa ter dois lados. E dentro da visão maniqueísta de que quem não está comigo está contra mim, passo a vê-los, no mínimo, como antagonistas.
Se a minha pretensão ainda é encaminhar o mundo para o lado da justiça e da irmandade (mesmo que isso possa parecer cada vez mais impossível) não tenho como conviver ou perder tempo com equívocos e maus discernimentos.
Penso que hoje vivemos a educação para o egoísmo e a individualidade. Vivemos a bestialização das pessoas e a insensibilidade diante dos problemas do mundo e do outro. Deixar-se envolver e levar por isso, para mim, significa desistir de toda uma vida de lutas e de atitudes em busca do bem comum.

Recife, outubro 2016

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A doença de Deus


A DOENÇA DE DEUS

Clóvis Campêlo

Já faz tempo que os muros de Londres foram pichados com a frase famosa.
Em 1966, eu ainda morava no Pina, pescando, jogando bola e acompanhando a trajetória dos Beatles e dos Brecheiros, os ted boys que incomodavam o bucolismo e a lentidão do bairro. A juventude era bela, poderia até me arriscar. Porém, se os Beatles revolucionaram o mundo, a revolução dos Brecheiros logo acabou, afundada nas drogas, na ilicitude e nas ruas do Pina.
E olhe que quase tudo nos parecia ser tão lógico. Hoje, dos Beatles, apenas dois sobrevivem. Os Brecheiros, morreram todos. O último, talvez, tenha sido Marco Bobão, morto quando o bairro já começava a se transformar, remodelado pela especulação imobiliária e pela engenharia das largas avenidas, que espantou terreiros de macumba, afoxés e maracatus, gafieiras, pescadores e o lúmpen proletariado que lhe era habitual. Ali conviviam o mundo pop de então, trazido pelo rádio, televisão e cinema, e a cultura popular dos excluídos e marginalizados. O Pina era um caldeirão cultural que fervia e cheirava mal.
A classe média, que admirava os Beatles e temia a ousadia dos Brecheiros, porém, não só sobreviveu como aumentou o seu espectro e se consolidou. Os tempos começavam a mudar. Enquanto os Beatles cantavam All You need os love, os Brecheiros olhavam escondidos as moças de família da classe média pinense tomando banho ou vestindo seus pijamas e camisolas para dormirem. Eu, nunca tive essa coragem, embora tivesse a vontade. Afinal, as filhas da classe média daquela época já eram belas e apetitosas. Hoje, são todas respeitáveis e loiras senhoras, embora algumas ainda mantenham um certo e discreto charme.
Mas, onde entraria Eric Clapton nisso tudo? Em 1966, London City teve os seus muros pichados por jovens enlouquecidos pela maconha e pelos acordes das guitarras de Clapton. Para eles, Deus era Clapton (ou vice-versa). Clapton tinha então vinte anos de idade, e dominava a cena pop inglesa tocando com os Beatles e os Rolling Stones, entre outros. Nas horas vagas, compunha músicas para a esposa do amigo fiel e traído. O nosso “Deus” ainda tinha as gônadas funcionais e atrevidas. O futuro absorveria e absolveria o ato. A música pop ganhava outros clássicos musicais para lhe alimentar a saga de lucros e todos viveriam felizes para todo o sempre. Para que fomentar sacrilégios inúteis?
Hoje, vejo no blog Sonoridades, do reacionário e careta Estadão, que aos 71 anos de idade, Clapton sofre de neuropatia, doença que geralmente acomete diabéticos e hipertensos. E tudo começou com inexplicáveis dores nas costas. A doença é incurável e provoca danos irreparáveis no sistema nervoso. Como diria Lupicínio, não há nervos de aços que resistam e estejam imunes a tantos adjetivos.
A realidade é que Clapton (ou God) envelheceu e está doente. E do mesmo modo que o tempo levou o vento dos anos 60, carregando os sons e as ousadias daquela época, também se prepara para passar a limpo o que veio depois e o que hoje existe e persiste. Inexorável tempo, mestre de todas as criações e de toda a destruição da vida.

Recife, outubro 2016