segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os caranguejos e a língua portuguesa


OS CARANGUEJOS E A LÍNGUA PORTUGUESA

Clóvis Campêlo

Nunca gostei muito de comer caranguejos. Sempre achei isso um sacrifício exagerado para pouco resultado.
Segundo a Wikipédia, os caranguejos, também conhecidos como uaçásauçás e guaiássão crustáceos da infraordem Brachyura, caracterizados por terem o corpo totalmente protegido por uma carapaça, quatro pares de patas (pereópodes) terminadas em unhas pontudas, o primeiro dos quais normalmente transformado em fortes pinças e, geralmente, o abdômen reduzido e dobrado por baixo do cefalotórax. Os pleópodes se encontram na parte dobrada do abdômen e, nas fêmeas, são utilizados para proteção dos ovosOu seja, é muita carapaça a ser superada para se chegar nas carnes minguadas. Sinceramente, amigos, do caranguejo só curto o pirão feito com o caldo do seu cozimento e farinha de mandioca. Um prato tipicamente nordestino e delicioso.
Tem gente que gosta, porém. A minha cunhada Lizane, por exemplo, é uma exterminadora de caranguejos. Chega a consumir quinze ou mais de uma só vez, devidamente acompanhados pelo precioso líquido de uma cerveja estupidamente gelada.
Mas, para mim, além da carapaça quase intransponível, os caranguejos também me confundiam quanto à maneira de escrever o seu nome. Em vez do ditongo (nome que se dá à combinação de um som vocálico com um som semivocálico emitidos num só esforço de voz, ou numa mesma sílaba), durante muito tempo utilizei o tritongo – carangueijo, erradamente, com uma vogal e duas semivogaisUm caranguejo cheio de letras, para um escritor cheio de “pernas”, como eles. Um escriba pereópede.
Talvez estivesse eu a precisar, como a boneca Emília, de Monteiro Lobato, de uma visita ao País da Gramática, livro escrito e publicado pelo escritor paulista em 1934. Nele, a língua é figurada como um país, povoado por sílabas, pronomes, numerais, advérbios, verbos, adjetivos, substantivos, preposições, conjunções, interjeições, etc.Alguns críticos afirmam que Lobato escreveu o livro sob o estigma da vingança, por ter sido reprovado, aos quatorze anos, numa prova de português.
Pode ser. Mas o livro não deixa de ser interessante e criativo, onde as palavras são hierarquicamente classificadas de acordo com a sua importância na construção da frase. E faz do conhecimento gramatical um processo agradável.
Mas, depois dessa agradável digressão, voltemos aos caranguejos para finalizarmos essa cronica que já se alonga. Nos anos 60, no Pina, no local onde hoje se ergue o Shopping Rio Mar, nos os caçávamos de andada, em tempo de trovoadas, ou em armadilhas feitas com latas de óleo vazias. Com a maré baixa, deixávamos as armadilhas com as iscas na entrada das locas, no final da tarde. No outro dia, pela manhã, era ir buscá-las com os caranguejos presos.
Mas isso era no tempo em que o Recife tinha mangues fáceis e fartos...

Recife, setembro 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Tiro ao Álvaro


TIRO AO ÁLVARO

Clóvis Campêlo

Boca-de-Caçapa e Rubinato já haviam me alertado sobre aquele espaço: “Cai fora, rapaz! Sai desse imprensado! Aquilo ali não é lugar pra tu, esquerdista tupiniquim, impregnado do marxismo barato do além-mar! Ali, existe uma saudade draculiana do sangue derramado no passado!”
E eles, como sempre, tinham razão. Fui eu que não acreditei. E por não acreditar, expus-me à sanha reacionária. À vezes, não me suporto por isso. Por essa incapacidade de ver antecipadamente a inutilidade das coisas, por achar que boa vontade e caldo de galinha sempre vão fazer bem a todos e resolver os problemas que por acaso venham a surgir. Em um mundo marcado pela falta de amistosidade, ainda acredito nisso. E, por acreditar, termino por me expor desnecessariamente.
Mas, não é exatamente a opinião diversa que me desagrada.Com ela, dentro dos limites da civilidade e da boa educação, consigo conviver e dialogar numa boa. O que agride mesmo são os subterfúgios de pessoas que não tendo a coragem de mostrar a cara, escondem-se atrás de pseudônimos ou nomes falsos para expor a sua visão capenga do mundo. Uma covardia. Afinal, retrógrados todos tem o direito de ser. Sacanagem é não se mostrar e apelar para a segurança do disfarce.
Mas, afinal o que teria um samba composto em 1960 pelo compositor e cantor Adoniran Barbosa a ver com tudo isso? Nada, absolutamente nada! Apenas o título, que me lembrou uma saraivada de balas de filme americano. Um verdadeiro tiro ao álvaro. Eu o alvo fui eu.
Na singeleza da sua música, diz o poeta que “teu olhar mata mais que bala de carabina, que veneno estricnina, que peixeira de baiano, que atropelamento de automóvel, que bala de revólver. Tábua de tiro ao alvo, não tem mais onde furar”.
Sai daquele recinto por livre e espontânea iniciativa, com a determinação e o jogo de corpo de um Kid Morengueira. Disposto a cantar uma ode para mim mesmo. Não em nome do ódio, mas em nome da esperança derradeira de que ainda existem pessoas de bem no mundo e de que dias melhores ainda virão. Havia muita fumaça no ar. Fumaça de chumbo grosso e de artilharia pesada. Cavaleiro solitário, não estava mais a fim daquilo, daquele enfrentamento desigual, daquela covardia anônima e institucionalizada. Permanecer seria aceitar a desigualdade. Seria implicitamente aceitar a sacanagem da desigualdade. Caí fora. Fi-lo porque qui-lo. Como diz a filosofia popular, antes só do que mal acompanhado.
Aqui fora, percebo que o mundo é bem maior do que aquilo tudo. Percebo que só preciso das minhas próprias pernas para percorrê-lo e conquistá-lo. E, mesmo que não chegue a Lugar Nenhum é para lá que eu vou agora. Lá, como em Pasárgada, também sou amigo do Rei. Longe é um lugar que não existe. Tenho dito e repetido.

Recife, setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O nosso futebol


Leonidas da Silva, Friedenreich e Pelé

O NOSSO FUTEBOL

Clóvis Campêlo

O futebol surgiu no Brasil, no século XIX, como a nova mania esportiva das classes mais privilegiadas. Os filhos burgueses da pátria mãe gentil aprenderam-no e o trouxeram da Europa pré-modernista daquela época. A sua prática era cara, já que todo o equipamento necessário era importado. Do mesmo modo, necessitava-se de áreas relativamente grandes para a sua prática, embora esse problema fosse facilmente contornável, haja vista que as nossas cidades e capitais dispunham de campos e terrenos baldios a granel.
Incorporado pela classe média brasileira e, posteriormente, pela classe operária e pelo lúmpen-proletariado, logo se transformaria em uma grande paixão nacional.
Ao se desgarrar dos burgueses brancos e de cintura dura que o trouxeram do Primeiro Mundo, caiu nas garras da rafaméia do lado de cá, misturando-se aos negros e descendentes de índios, escurecendo a cor da sua pele e adquirindo um jogo de cintura e uma leveza até então desconhecidos pelo lado de lá. Foi a plebeização do futebol no Brasil que o salvou do lugar-comum e da mesmice bizarra dos europeus.
Não é a toa, portanto, que um dos nossos primeiros grandes jogadores fosse filho de um comerciante alemão com uma lavadeira negra. Seu nome, Friedenreich. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1892, apenas dois anos antes de Charles Müller introduzir o futebol no Brasil. O apelido de El Tigre foi-lhe dado pelos uruguaios após o Brasil conquistar o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1919. Apesar de ter sido considerado pela imprensa da sua época como um dos melhores centro-avantes do mundo, morreu pobre, em 6 de setembro de 1969, morando numa casa cedida pelo São Paulo Futebol Clube.
Entre nós, pernambucanos, nenhum jogador foi tão cantado e decantado quanto Tará. Em 1931, com apenas 16 anos, ajudou o Santa Cruz a ganhar o seu primeiro campeonato estadual. Com ele, chegamos ao tri, em 1932/33. Mas foi no Clube Náutico Capibaribe, em 1943, que se consolidou como goleador ao marcar dez gols em um único jogo, na goleada do Náutico sobre o extinto Flamengo pernambucano por 21 x 3. O Flamengo do Tenente Colares, primeiro campeão estadual de futebol, em 1915, em decadência, terminaria por se transformar em um saco de pancadas do futebol pernambucano. O mulato Tará, soldado da Polícia Militar de Pernambuco e oriundo dos bairros da periferia do Recife, foi o primeiro grande ídolo do futebol pernambucano.
Poderíamos até perguntar se não tivesse acontecido a proletarização e a miscigenação do futebol brasileiro, se teríamos chegado ao pentacampeonato mundial de futebol e transformado o nosso sentimento de inferioridade étnica em um sentimento de superação e conquistas. A própria seleção brasileira de futebol é um exemplo a ser citado, haja vista que com Pelé e Garrincha juntos em campo nunca chegou a ser derrotada.

Recife, setembro 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Caxangá e Madalena









CAXANGÁ E MADALENA
Recife, julho 2014
Fotografias de Cida Machado e Clóvis Campêlo


domingo, 14 de setembro de 2014

A negra Saúna


A NEGRA SAÚNA
 
Clóvis Campêlo
 
A negra Saúna era agregada na casa do capitão Batista. Suja e maltrapilha, tinha os pés rachados e os cabelos desgrenhados como um Macunaíma de subúrbio. Fazia o trabalho menos nobre daquela residência, como alimentar e banhar os cachorros, lavar os banheiros e cuidar dos chiqueiros dos porcos que havia no fundo do quintal. Aliás, era tratada pela família quase como se fosse um deles: dormia no chão, em um cantinho da cozinha, aos pés do fogão. Era a última a dormir e a primeira a levantar quando o sol raiava.
Um dia, antes do sol nascer, Saúna reuniu os seus trapinhos e fugiu pela porta da cozinha. Sumiu para nunca mais ser vista. A humilhação era grande demais, mesmo para ela que nunca fora ninguém e nunca tivera nada na vida. A matriarca dona da casa, esposa do capitão Batista, durante dias reclamou da falta de consideração de Saúna, que ali, naquela casa, sempre fora tratada como uma pessoa da família e agora a deixava na mão sem nenhum aviso prévio. Ingratidão, isso sim! A retribuição era sempre essa.
Na verdade, Saúna não era negra, e sim uma cafuza, uma caboré, filha de um índio bêbado com uma prostituta negra, trazida ainda menina pela família do capitão Batista da cidade de Tacaimbó, no agreste pernambucano.
Do mesmo modo, o capitão Batista não era capitão, e sim um velho cabo, reformado como suboficial da Força Área Brasileira, um ex-combatente da 2ª Guerra, que fizera patrulhas noturnas no litoral pernambucano. Mas, aquela patente sempre o orgulhara e impunha respeito naquele bairro de classe média.
Durante dias, correu na rua da fábrica de redes o boato de que Saúna teria fugido com o filho mais velho do verdureiro. Mas, poucas pessoas acreditaram nisso, haja vista a feiura da negra e a sua sujeira.
Na verdade, o fato nunca foi devidamente esclarecido e, para as pessoas daquela comunidade, Saúna terminou mesmo por se transformar no símbolo da ingratidão.
Para mim, tantos anos depois, a negra teria mesmo era fugido da escravidão disfarçada e consentida que lhe fora imposta por aquela família. Mais do que Macunaíma, sempre me lembrara a figura da escrava Bertoleza, personagem do romance O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, que se suicida ao descobrir que fora traída por João Romão, o homem que amava. Na vida real, a saída de Saúna foi muito mais esperta e honrosa.
 
Recife, setembro 2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Os governos e a corrupção


OS GOVERNOS E A CORRUPÇÃO

Clóvis Campêlo

A estrutura de poder paralelo da corrupção existe há muito no Brasil, contaminando e ultrapassando vários governos de diversos “credos” políticos e ideológicos. Na interessantíssima entrevista com o economista norte-americano Werner Baer, PhD em Economia e professor da Universidade de Illinois, publicada no Jornal do Commercio do Recife, do dia 23 de agosto próximo passado, citando o escritor Marcos Mendes, ele afirma textualmente o seguinte: “Você tem uma democracia e, para ser reeleito, tem que ceder, mais cedo ou mais tarde. Tem que fazer muitas despesas, que são gastos correntes, simplesmente para obter uma aliança para governar. O resultado é que fica pouco dinheiro para fazer investimentos. Então esse é o dilema em geral que os governos brasileiros nos últimos anos estão enfrentando”. Nesse sentido, amigos, o uso competente e inteligente do caixa dois, resolve o dilema acima citado.
A grande questão, porém, é que essa utilização sistemática e constante deixa pairando no ar um cheiro de impunidade e onipotência, além da constatação de que a sobrevivência política, realmente, necessita da contravenção para existir e se manter.
Quem acreditava, por exemplo, que o ex-governador Eduardo Campos estaria imune a esse tipo de atitude, surpreendeu-se ao ver o seu nome na lista dos comedores de propina da Petrobras. Esqueceram-se, porém, que ele, antes, como Secretário Estadual da Fazenda do último governo Arraes, havia se envolvido na história dos precatórios, desgastando a imagem do avô e levando-o a amargar uma derrota humilhante na disputa pelo governo do Estado. Dudu, inclusive morreu viajando em um avião doado irregularmente para a sua campanha, caracterizando mais um ato de caixa dois. Portanto, fazer uso inescrupuloso desse artifício e negar veementemente esse uso, sempre fez parte do arsenal de mentiras oficiais dos nossos políticos de plantão. Nesse sentido, realmente, são todos farinha do mesmo saco.
Mas, deixando de lado o aspecto puramente moral da história da corrupção, dos corruptores e dos corrompidos, ao longo dos anos, tem sido com base na prática política do “é dando que se recebe” que temos evoluído política e administrativamente. Quem seria louco de tentar governar, por exemplo, sem lotear a máquina estatal entre os partidos aliados, principalmente quando não se tem a maioria necessária no Congresso Nacional? Ninguém! Loteia-se, entregam-se ministérios, criam-se outros para isso e se perde o controle do que ocorrerá dali para a frente. A sujeira e a malandragem dos aliados sempre respingará no comando do governo, favorecendo as análises mais depreciativas e tendenciosas que a mídia comprometida com a falta de verdade sempre gosta de elaborar. Na luta cega pelo poder, aliás, sobra muito pouco espaço para a honestidade e a pureza de propósitos.
De qualquer maneira, acredito que o Brasil tenha mudado e muito avançado em questões que garantem direitos essenciais à sua população, notadamente às camadas menos favorecidas. O que não se pode mais é regredir e cortar os direitos conquistados em detrimento dos que sempre mamaram nas tetas do poder.

Recife, setembro 2014

sábado, 6 de setembro de 2014

Barba, cabelo e bigode


BARBA, CABELO E BIGODE

Clóvis Campêlo

Quem disse que trabalhador não vota em patrão? Fizemos isso a vida toda, movidos pelo ensinamento de que “eles” sempre estariam mais preparados. Era o tempo do voto inconsciente. Quanto mais agora, amigos, quando já temos a noção de que política partidária se faz com acordos e parcerias. Ou se está de um lado, ou se está do outro. E eu já escolhi, com certeza, de que lado eu quero estar.
Sei também que, para muitos candidatos, a necessidade da sobrevivência política muitas vezes os joga para um lado ou para o outro. Armando Monteiro Neto, por exemplo, iniciou-se como político no PSDB e hoje está no PTB, depois de passar pelo PMDB. Nessa sopinha de letras, cumpriu três mandatos de deputado federal e um de senador da República. Paralelamente, por quatro mandatos consecutivos, de 1992 a 2004, foi presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (FIEPE) e, por dois mandatos, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ou seja, um homem preparado e consciente do desenvolvimento do país nas últimas décadas. O seu pai, Armando de Queirós Monteiro Filho, foi ministro da agricultura no governo João Goulart, nos anos 60. Foi parceiro político de Miguel Arraes de Alencar em várias eleições. Na época da ditadura, sempre integrou o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), onde se abrigaram todas as forças de resistência contra o regime militar. Para mim, existe um mínimo de coerência política nessa família de banqueiros e usineiros.
Além do mais, para mim, é essa a maneira mais lúcida de combater o candidato inventado por Eduardo Campos, antes de morrer. Fico pensando, inclusive, se ainda estivesse vivo, se o velho Arraes teria permitido ao neto aventurar-se por esse caminho. Além de saber fazer política Arraes sempre foi fiel aos parceiros escolhidos. Tanto é assim, que se recusou a trair o presidente João Goulart quando do golpe militar, em 1964, preferindo ser preso em Fernando de Noronha e deportado para a Argélia.
Ambicioso e personalista, o neto nunca teve essa visão maior, sufocando e mantendo sob controle e domínio as aspirações e pretensões de vários aliados importantes, entre eles Armando Monteiro Neto.
Assim, o meu voto será completo. Barba, cabelo e bigode. Dilma Roussef, para presidente; Armando Monteiro Neto, para governador; e João Paulo de Lima e Silva, o filho do cobrador de ônibus, para o senado. Pernambuco e o Brasil os merecem.
Aceito sugestões, porém, para deputado federal e estadual.

Recife, setembro 2014

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O lixo do Capibaribe


O LIXO DO CAPIBARIBE

Clóvis Campêlo

Leio no Diário de Pernambuco que a ONG Recapibaribe, em apenas três horas de ação, retirou do rio Capibaribe, no centro do Recife, nada menos do que 1,3 toneladas de lixo. A entidade pretende reciclar o que for possível nesse material recolhido e doá-lo à instituições de caridade.
Se lhe parece muito essa quantidade de lixo recolhido na nossa Veneza Brasileira em apenas três horas, fique sabendo que em Londres dois barcos percorrem o rio Tâmisa recolhendo 30 toneladas de lixo por dia. O rio inglês, aliás, no século XIX, era conhecido como “o grande mau cheiro”. Segundo matéria publicada no site da Globo em 2012, eram comuns naquela época as epidemias de cólera na capital inglesa, e as sessões do Parlamento, que fica na margem do rio, tinham que ser suspensas quando o vento fazia o odor chegar às salas do prédio. Para reverter essa situação, as autoridades inglesas e londrinas construíram várias estações de tratamento de esgoto ao longo dos anos, além de criarem vários outros mecanismos de monitoramento e controle do lixo que chega ao rio. Hoje, revitalizado, o Tâmisa possui mais de 120 espécies de peixes catalogados, além de mais de 400 espécies de invertebrados. Um exemplo a ser seguido, principalmente por nós, recifenses, que vivemos numa cidade construída e mantida por sobre as águas do Rio Capibaribe e de outros rios menores.
Ainda segundo a matéria do Diário de Pernambuco, até o mês passado, a Emlurb retirava a cada dois meses cerca de 20 toneladas de resíduo sólido do rio, providencia hoje suspensa por encerramento do contrato com a firma terceirizada.
No lixo recolhido pelo trabalho voluntário da ONG, foram encontrados, além das garrafas e sacolas plásticas, muitos brinquedos e objetos poucos usuais, como um vibrador elétrico, uma buzina de pipoqueiro, uma cabeça de touro empalhada e um papagaio de hospital. Segundo Maria do Socorro Cantanhede, dirigente da Recapibaribe, em um ano de trabalho voluntário a instituição já recolheu cerca de 600 toneladas de lixo. Chama a atenção, porém, para os esgotos, segundo ela o principal poluidor do rio.
O Rio Capibaribe, que na língua tupi significa “no rio das capivaras”, nasce na Serra do Jacarará, no agreste do Estado de Pernambuco, na divisa dos municípios de Jataúba e Poção. Tem 240 quilômetros de extensão e banha 42 municípios, a maioria dos quais despeja nas suas águas os dejetos dos esgotos. Tem 74 afluentes e os reservatórios da sua bacia têm uma capacidade máxima acima de 1 milhão de metros cúbicos. Atravessa o Recife, banhando vários dos seus bairros, como Várzea, Caxangá, Apipucos, Casa Forte, Torre, Capunga, Madalena, Derby e Ilha do Leite. Antes desaguar no Oceano Atlântico, encontra-se com o Rio Beberibe por trás do palácio do Campo das Princesas, no centro histórico da cidade.
É o rio dos poetas, o cão sem plumas de que nos fala João Cabral de Melo Neto. A sua história se confunde com a história do Recife, como bem o disse o sociólogo Gilberto Freyre, no Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife: “O rio está ligado da maneira mais íntima à história da cidade. O rio, o mar e os mangues. Assassinatos, cheias, revoluções, fugas de escravos, assaltos de bandidos às pontes, fazem da história do Capibaribe a história do Recife”.
Cuidemos, pois, do Capibaribe!

Recife, setembro 2014