domingo, 29 de abril de 2012

Mestre Ariano e o sonho socialista - Parte III

-
MESTRE ARIANO E O SONHO SOCIALISTA - Parte III

Wedja Gouveia e Clóvis Campêlo

SindPress - Qual o modelo de cultura que o senhor defende num projeto democrático-popular?
Ariano - Veja bem, sou muito definido como escritor mas isso não quer dizer que tenha um só modelo para se fazer arte. As pessoas normalmente pensam que só acho legítimo o tipo de arte de que gosto. Não é isso, não. Ele só é legítimo para mim. Mas existem muitas outras maneiras que os outros artistas podem pensar. Uma pessoa que está defendendo um modelo cultural para o país é uma coisa. Outra coisa é o sujeito que está pensando em como fazer a sua obra. Agora quando digo que para mim a cultura brasileira tem que se basear no tronco original que é a cultura negra e a cultura indígena, as pessoas perguntam se sou contra a cultura estrangeira. Isso não tem sentido. O que eu sou contra é que eles queiram uniformizar a gente. Assim, não vou pregar uma uniformização à minha maneira. O que me deixa indignado são os meios de comunicação de massa querendo que todo mundo cante de um jeito, todo mundo pinte de um jeito, todo mundo pense de um jeito, todo mundo se vista de um jeito. Eles querem botar um modelo e espalhar para o mundo todo como se aquilo fosse um modelo de excelência e modernidade. Então, tudo o que é nosso fica ultrapassado e aí reajo violentamente contra isso. Agora, quanto à cultura dos outros países, eu não tenho nada contra. O que eu teria, por exemplo, contra os grandes autores da cultura universal? Agora, contra Michael Jackson eu tenho. Querer que o Brasil, a juventude brasileira, tenha um modelo daquele eu não posso aceitar. Apresentar, como eu vi quando Madonna esteve aqui, que a juventude brasileira está ansiosa para seguir o estilo Madonna de ser e de viver... Não me parece que aquilo seja um modelo tão excelente para a nossa juventude. Querem vulgarizar a nossa juventude e isso eu não posso aceitar. Nivelam por baixo e querem que a nossa juventude se paute por aí. Então é contra isso que eu sou. Agora se todo mundo se vestisse e escrevesse como eu, ficava uma monotonia horrorosa. O que eu digo é que minha maneira de ser é legítima e ninguém venha me chamar de ultrapassado. Há pouco tempo eu fui a São Paulo e uma pessoa disse a mim, falando sobre alguém que como eu se baseia no popular para fazer o seu trabalho de criação, que o ponto de partida dele é muito frágil, porque o popular é muito frágil. Eu olhei para essa pessoa e disse: o que eu faço pode ser ruim, mas não é porque a cultura popular seja frágil, é porque eu não presto. Baseado no popular, eu vou citar um caso só: Cervantes, que se baseou no popular da sua época, no nacional, no que era espanhol e até local, fez uma obra como "Dom Quixote". Não é um ponto de partida que torna frágil ou vulnerável um escritor. É se ele não presta mesmo. Cervantes, Moliere e Sheakspeare se basearam no popular e por isso são frágeis? No campo musical, Villa Lobos, Bella Bartoc e Stravinsky também se basearam na cultura popular dos seus respectivos países. Se estes grandes foram assim, não me venham com esse argumento. Eu disse à pessoa com quem eu estava falando que este alguém de que você fala pode ser ruim por ele mesmo, mas não pelo fato de se basear no popular.

SindPress - Como é que o senhor vê o fato da grande imprensa mostrar Cuba como decadente, mesmo sabendo que, apesar da crise, o país tem um sistema de saúde exemplar e que o analfabetismo foi erradicado? Como o senhor veria a experiência cubana e que perspectiva teria ela hoje para superar esta crise?
Ariano - Olha, eu até mais longe do que vocês. Eu tenho sérias discordâncias com relação à Cuba. Agora, estão melhorando. Logo que o regime de lá ficou marxista, Fidel teve uma convivência muito difícil com as Igrejas, por exemplo. Eu já fui muito criticado pelos marxistas daqui por causa dessa discordância que eu reservava com relação ao estalinismo. Ficam espantados quando eu digo que o regime militar não era de todo mau e que o estalinismo também vai ter que ser muito bem estudado e vai se recuperar depois. Ele teve deturpações, campos de concentração, violência, brutalidade, inclusive contra os escritores, o que é algo que eu não posso perdoar. Mas uma coisa temos que reconhecer: não havia desemprego, algo que nenhum país do chamado Primeiro Mundo conseguiu até agora. Na União Soviética era assim, na Alemanha também e a previdência social era exemplar. Eu estou estranhando agora o pessoal da AlemanhaOriental, que antes ansiou pela entrada do consumismo capitalista, da social-democracia, estar chiando porque começou o desemprego e a falta de previdência social. E não tem mesmo não, porque é uma injunção do capitalismo. Você tem que ter desemprego para poder jogar com o excesso de mão-de-obra e poder baixar o salário. Se você não tiver a ameaça da substituição não pode manter o salário baixo. É por isso que eu digo que um regime baseado no lucro dá nisso tudinho. Outra coisa temos que reconhecer: Cuba erradicou o analfabetismo, coisa que nenhum país da América Latina conseguiu. Outra coisa que para mim não tem preço é a dignidade do país. Eu só queria que Deus me desse isso: acordar um dia e ver um governante brasileiro falando sem se agachar. Não é possível que eu morra sem ver isso, porque essa situação me dá um desgosto mortal. A primeira coisa, a meu ver, que o país deve ter é a dignidade. Sabemos que as dificuldades vividas por Cuba agora são causadas pela falta de ajuda da União Soviètica e pelo cerco que os EUA realizam sobre eles, o que é um absurdo. A arrogância do americano é algo que me deixa irritado. Eu não sei como é que se aceita uma coisa dessas. Já estão criando no mundo um ambiente que não considero natural. Na Guerra do Golfo, muita gente me dizia: como é que você está falando mal dos EUA nessa situação, se o Iraque invadiu o Kwait? Eu pergunto o que é que os EUA tem a ver com isso? E o Panamá? O que os EUA fizeram no Panamá? Não sei se vocês sabem, mas o Panamá é uma criação americana. O Panamá pertencia à Colômbia.Os EUA queriam abrir o canal e a Colômbia se recusou. Foram então ao general que comandava a região do Panamá e ofereceram apoio e armas para ele se proclamar independente. E foi o que ele fez. Depois, abriu o canal que os EUA queria. Agora o contrato do canal termina em 1999 e toda essa confusão que tem lá é por causa disso. Noriega, que foi criado pelos EUA, pertenceu a CIA. De repente, teve um estalo de patriotismo e resolveu denunciar. Na mesma hora, virou agente do narcotráfico e bandido. Os EUA derrubou o homem, botou outro no lugar e o pessoal acha isso perfeitamente normal porque Noriega era do narcotráfico. Eu pergunto por que é que ele não era do narcotráfico antes? E ainda mais: digamos que Noriega fosse um bandido. Não compete aos EUA tratar de quem é bandido ou não. E na Ilha de Granada, o que foi que houve? Os EUA invadiram uma ilha desse tamanhinho porque lá subiu ao poder um socialista, pelo voto. Eles foram lá e o derrubaram. O que estão fazendo com Cuba é um absurdo. Felizmente, assim como no caso do haiti, o governo brasileiro não apoia.

SindPress - O senhor já manifestou a sua posição crítica em relação ao Tropicalismo. Em relação, por exemplo, à Bossa Nova e à Jovem Guarda, como é que o senhor vê estes movimentos?
Ariano - O que eu não gosto da Bossa Nova é que eles mesmos declaram que partiram da música americana, o jazz. Não gosto exatamente por isso. Veja bem, do ponto de vista de onde eles partiram é melhor do que o Michael Jackson, mas não é tanto não. O grande músico brasileiro para mim é Villa Lobos. Ele não foi ouvir ninguém, não. Quando ouviu foi uma grande figura como Bach e aí estou de acordo. Não gosto disso não, mas eu não gostaria que vocês tomassem a Bossa Nova como exemplo da grande música popular urbana brasileira. Existem grandes músicos urbanos que não têm este posicionamento diante da música americana. Citaria, por exemplo, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Cartola, Candeia e outros. Aqui, no Recife, compositores de frevo de bloco como Capiba e Getúlio Cavalcanti. estes são grandes músicos brasileiros que não precisam se inclinar diante de ninguém para fazer a sua música. A minha posição é contra a Bossa Nova porque não havia a necessidade deles se inclinarem a um tipo de música que só faz nos descaracterizar. Pela Jovem Guarda, não tenho nenhum respeito. Era pior do que a Bossa Nova.

Entrevista publicada no jornal SindPress nº 7, do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, em dezembro/1994.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Mestre Ariano e o sonho socialista - Parte II

-
MESTRE ARIANO E O SONHO SOCIALISTA - Parte II
-
Wedja Gouveia e Clóvis Campêlo
-
SindPress - O senhor teve o seu nome cogitado para ser o vice de Lula. Como é que recebeu essa indicação?
Ariano - Olha, não houve realmente um movimento, porque inclusive eu discordei logo na hora. Houve uma tentativa de indicação do meu nome por parte do Partido Socialista Brasileiro mineiro. Logo na hora da renúncia de Bisol pensaram em uma pessoa de Minas, mas aí houveram algumas oposições e pensaram em Evandro Lins e Silva, aquele jurista. Mas ele foi vetado porque defendeu Doca Strett. Dizem que ele lançou mão do argumento da legítima defesa da honta e as feministas vetaram. Foi neste momento, então, que o PSB resolveu sondar-me no sentido de uma indicação, porque diziam que eu era ao mesmo tempo conhecido e não tinha nenhum veto. Então telefonaram ao Dr. Arraes que logo falou: "Pelo que conheço do Ariano, ele não aceita. Mas essa pergunta deve ser feita a ele e não a mim". Pediram a Arraes para me consultar e respondi que não aceitava porque não tenho vocação política. Não saberia desempenhar bem o cargo, acho que a pessoa deve ter consciência das suas limitações. Preparei-me a vida toda para ser escritor e não para ser político.

SindPress - No governo Arraes o senhor poderia assumir algum cargo?
Ariano - Para mim pessoalmente já seria uma coisa para se discutir. Do meu ponto de vista é ruim porque aposentei-me da Universidade Federal de Pernambuco para escrever um romance e não estou conseguindo. Solicitam-me demais para tudo (entrevistas e outras coisas) e a gente termina se desconcentrando. Porém, não vou dizer que teria a mesma inabilidade para desempenhar um cargo no campo da cultura com um governo que conheço.

SindPress - Esse convite já foi feito?
Ariano - Não. Da outra vez, no Governo de Arraes, o que houve foi o seguinte: os jornais colocaram várias vezes que eu tinha sido convidado para ser o Secretário de Cultura. Eu estava sem condições de aceitar, mas não houve o convite. Foram os jornais que divulgaram isso e aí fiquei com medo que, diante dessa insistência, ele se julgasse na obrigação de me convidar. E como eu não tinha condições de aceitar, na época, não gostaria de dizer não. Então, pedi para o filho dele, que é médico e escritor também, que dissesse ao Dr. Arraes que eu não tinha nada a ver com toda aquela articulação dos jornais.

SindPress - Agora a coisa é diferente. O senhor aceitaria se fosse chamado para exercer algum cargo?
Ariano - Eu acho que não. Para mim é muito ruim. Estou precisando escrever o meu romance. Sou fundamentalmente escritor. Tem algumas coisas que me fascinam porque poderia, por exemplo, ajudar determinados artistas e escritores que acho muito bons, aqui em Pernambuco, e precisam de apoio. A minha desgraça é a seguinte: meu trabalho no campo da arte não precisa do poder público. Faço um trabalho muito independente. Para exercitar minha arte só preciso de um lápis e uma resma de papel. Não preciso de mais nada. Mas um ator, um músico, um dançarino é outra coisa. Eles precisam de uma ajuda num país como o Brasil, porque não têm apoio nenhum dos meios empresariais, dos meios de comunicação. Então para mim é o Estado que tem de amparar. Meu fascínio, nesse caso, seria como um interesse por estas artes, apesar de ser um escritor. Quando fui Secretário de Cultura do Recife, quando fui Diretor do Departamento de Extensão Cultural, deflagrei o Movimento Armorial graças ao apoio da Universidade Federal de Pernambuco e, depois, da Prefeitura do Recife. Com isto ajudei um bocado de músicos, dançarinos e formei dois grupos de balé, o Balé Armorial e o Balé Popular, em 1970.

SindPress - Na época o senhor foi muito criticado por ter assumido uma secretaria no auge da ditadura militar?
Ariano - Fui, fui muito criticado. Fui para lá de olhos abertos sabendo que seria muito criticado. Mais não me incomodei porque não estava aceitando um cargo político. Era no campo da cultura e eu via que a cultura brasileira estava numa posição muito difícil, completamente desmantelada. A ditadura tinha fechado todos os movimentos que falavam em cultura brasileira ou popular. Fechara o Centro Popular de Cultura do Rio, no sul. Enfim, todo mundo que se interessava por cultura brasileira e popular estava marginalizado. O único movimento que aparecia naquele instante, numa linha diferente que podia ser entendida (no meu entendimento era um movimento equivocado) era o Tropicalismo que fazia o jogo dos piores inimigos do meu país, porque eles pegavam os meios de comunicação americanos e espalhavam pelo mundo uma imagem do homem latino-americano que era uma imagem caricatural. O homem latino-americano era um camarada de costeletas, de sapato com sola de borracha, dançando rumba debaixo de um cacho de bananeira e a mulher latino-americana era a brasileira, aquela coisa de Carmem Miranda. Então os tropicalistas empunharam estas duas imagens caricaturais do homem e da mulher latino-americanos e empunharam como bandeiras. Começaram a fazer música - inclusive rumba - para parecer com essa imagem e eu achava aquilo um equívoco. Foi por isso que fundei o Movimento Armorial. Agora, ao mesmo tempo, dentro do regime ditatorial - isso é uma coisa que eu vou dizer e sei que vou me submeter a alguns equívocos - eu não acho que estava tudo errado. E vou lhe dizer mais, se o regime militar não tivesse enveredado pelo entreguismo... Eu não pertenci á Revolução, eu estava tão por fora que só no dia seguinte é que soube. Não fui atingido por ela porque no primeiro governo Arraes era contra a nossa colaboração com os marxistas, motivo pelo qual não colaborei com este governo. Então, por isso, não fui perseguido e não sofri nada. Sofri indiretamente por que meus amigos foram presos e alguns torturados. Um amigo, que escondi aqui em casa, inclusive, foi morto. Ela era do Diretório Central do Partido Comunista e eu o escondi um bocado de tempo. Fui atingido dessa maneira. Nas Forças Armadas havia uma corrente nacionalista e outra entreguista. A corrente nacionalista era liderada pelo general Euller Bentes e o general Golbery era da corrente entreguista. Tinha essa disputa surda lá dentro. Eu nunca tomei parte na Revolução, mas depois rompi com ela quando ficou claro que a corrente entreguista tinha predominado. Isso me deixava apavorado.

SindPress - Se não fosse isso o senhor não teria rompido?
Ariano - Eu acho que não. Se o general Bentes tivesse predominado, acho que não teria rompido.

SindPress - O senhor afirma que não tenta colocar nas suas obras as questões políticas, suas ideologias. Os seus heróis populares sempre vencem o sistema não pelo confronto direto, mas sempre pelas esperteza. Como senhor vê essa questão?
Ariano - Bom, em primeiro lugar quero negar: eu nunca disse isso! O que acho é que não se pode colocar a arte a serviço da ideologia. Se você engaja demais a arte, vai terminar prestando um mau serviço à arte e à idéia que você vai defender. A primeira obrigação da obra de arte é ser bela. Se ela não for boa, não tem ideologia que salve. Pelo contrário. Eu não sei se isto acontece com vocês: quando leio um livro anticomunista, fico com vontade de entrar no Partido Comunista e quando leio um romance comunista, fico com vontade de entrar no Partido Nazista. Porque é ruim demais! Um dos motivos de não ter querido colaborar com os marxistas era o tal do realismo socialista. Vi numa revista chamada "Problemas", publicada pelos comunistas, que numa reunião ocorrida na União Soviética, um comissário chamado Zdanov fez uma reunião com os maiores compositores, escritores e pintores soviéticos para dizer como é que cada um deles tinha de escrever, compor e pintar. Lembro-me que no campo da Música estavam presentes Tchaicowiscky, Procov e os maiores compositores da época, para um sargentão vir dizer como é que eles deveriam compor e proibir de fazer música dissonante, dizendo que a dissonância era a marca da decadência burguesa. Isso foi em 1947, 48, por aí. Essa gente eu não posso entender. Na minha peça de teatro quem manda sou eu. Com o Movimento de Cultura Popular, do qual fui um dos fundadores, rompi exatamente por isso, porque eles queriam que a gente fizesse peças colocadas a serviço do movimento político. Eu disse: é melhor fazer um comício! Rompi porque não admito o sujeiro colocar a obra de arte a serviço de qualquer idéia, seja religiosa, filosófica ou política. Para mim, prejudica a sua essência. Agora, eu não sou contra e acho até natural que as preocupações políticas, filosóficas e religiosas do autor saiam naturalmente. Transparecem mesmo que ele não queira. Mesmo que ele procure fazer uma obra de arte completamente desarraigada, não consegue. Um escritor famoso por isso era Oscar Wilde. Ele queria que a obra de arte fosse puramente estética, mas isso nem ele conseguiu. Quando vou fazer uma peça espero que ela fique o melhor possível como peça. Agora, sem querer, eu tinha estas preocupações mesmo. Então é por isso, como eu vivo sempre sonhando com a vitória do povo pobre, que, na minha peça, ele ganha. E ganha nessa lina que vocês chamaram a atenção. Eu sigo sempre um ditado popular do Nordeste que diz: "A astúcia é a coragem do pobre". Tanto que um jornalista do Sul perguntou se o João Grilo seria um outro anti-herói como Macunaíma. Eu fiquei indignado por que começa logo daí. Fico com a maior raiva quando dizem que João Grilo, personahem da minha peça "O Auto da Compadecida", é um herói sem caráter. Quem chamou seu herói de "sem caráter", foi o Mário de Andrade. O meu tem caráter. E muito. Um camarada que vence o fazendeiro, vence o padeiro - que é o patrão dele -, vence a polícia, vence os cangaceiros - que é uma violência popular mal dirigida contra o próprio povo -, vence até o demônio. Se esse homem não tem caráter, então quem é que tem.


Entrevista publicada no Jornal SindPress nº 7, do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, em dezembro de 1994.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Mestre Ariano e o sonho socialista - Parte I


MESTRE ARIANO E O SONHO SOCIALISTA - Parte I
-
Wedja Gouveia e Clóvis Campêlo
-
"Se eu não acreditasse e não mantivesse a fé no socialismo no mundo inteiro, seria uma pessoa desesperada. Penso que é prá onde o homem caminha e isso a gente devia saber desde Cristo e os primeiros apóstolos. Está escrito nos atos dos apóstolos: todos tinham tudo em comum, quando um precisava todos ajudavam e ninguém tinha nada como seu. A meu ver, enquanto houver um miserável, um homem com fome, o sonho socialista continua".
Este é o pensamento do escritor paraibano, "naturalizado" pernambucano, Ariano Suassuna, que lançou o primeiro romance de sua carreira, após 50 anos de vida literária.
Defendendo cada vez mais a preservação da cultura popular, Ariano Suassuna concedeu entrevista ao SindPress nos jardins da sua residência, situada nas proximidades da casa do governador eleito Miguel Arraes, cuja admiração pela sua força política faz questão de ressaltar. Nesta entrevista, o escritor fala sobre cultura, literatura, socialismo e ditadura militar.

-
SindPress - Por que só depois de 50 anos de atividades literárias o senhor resolveu publicar o seu primeiro romance?
Ariano - Este romance foi escrito há bastante tempo, em 1956, mas permaneceu inédito até agora. De maneira que quando a Editora Bagaço me pediu um texto para publicar, lembrei dele, revi e o entreguei. Acho que o problema tratado pelo romance é sempre atual, mas é uma história que, do ponto de vista político, não tem nenhuma abordagem contemporânea. É uma história de amor que eu diria atual porque este é um problema de todas as gerações. É uma versão nordestina da antiga história de Tristão e Izolda. É por isso que o nome é Fernando e Izaura. Coloquei dois nomes brasileiros que soassem parecidos com Tristão e Izolda. Eu o escrevi a pedido do meu amigo Francisco Brennand que queria ilustrá-lo.

SindPress - Em entrevista ao Jornal do Commercio, o senhor falou que talvez a juventude não entendesse o livro. Por que?
Ariano - Eu falei que talvez não aceitasse aquele tipo de problema porque os educadores atuais (eu não reclamo da juventude, reclamo dos educadores) estão querendo partir para uma espécie de amoralismo com a qual não concordo. Tenho a impressão de que eles, com meddo de serem considerados ultrapassados, receiam afirmar a existência de normas morais com validade universal e geral. Eu não aceito o relativismo moral que algumas pessoas pregam atualmente (psicólogos e educadores, principalmente). Quando professor, chamava sempre a atenção dos meus alunos para o fato de acreditar em normas morais absolutas. O que é relativo (o nome está dizendo) é a relação entre a pessoa e a norma. Por exemplo, acho que todo mundo que estrupar e degolar uma criança comete um absurdo do ponto de vista moral. Então essa é uma norma, ao meu ver, absoluta. As pessoas dizem que em todos os acontecimentos o bem e o mal estão misturados. Eu não acredito que aí (na degola e no estrupo) tenha nenhum bem misturado. Isso é o mal completo. Então, quando digo que não aceito o relativismo moral atual é nesse sentido. O que é variável é a relação da pessoa com esta norma. Se eu praticar um gesto deste, a minha culpa é muito maior do que a de uma pessoa que não teve as condições de vida que eu tive, que não estudou e se alimentou como eu. Mas a norma é absoluta e estabelece que este é um ato mau. É isso o que eu digo e o pessoal atualmente não quer aceitar. Outro dia, eu estava dizendo: um dos slogans mais idiotas que já ouvi na minha vida é o que diz "É proibido proibir". Não é proibido proibir não! Um ato como este tem que ser proibido.

SindPress - Num caso de estrupo, como este, o senhor prega a pena de morte?
Ariano - Veja lá, eu não estou pregando a pena de morte. Estou dizendo que a norma é absoluta, ela estabelece que o fato é mau em si. Agora, se fosse pregar a pena de morte, eu estaria discordando da segunda parte, quando disse a você que é relativa a ligação da pessoa com a norma. Quando a pessoa infringe essa norma, ela tem que ser julgada de acordo com a sua maneira de ser e eu sou absolutamente contrário a pena de morte. Tenho condições para dizer isso porque sou filho de um homem que foi assassinado. Mas não pediria a pena de morte para o matador, de maneira nenhuma. Aceito que uma pessoa, por impulso de vingança, mate alguém (por exemplo, se eu estivesse presente durante a morte do meu pai, poderia até matar o assassino). Mas o que eu não aceito é a pessoa fazer a condenação fria, um assassinato jurídico cercado de garantias. A pessoa fica sem poder se defender e vai o Estado e mata essa pessoa com hora marcada. Eu acho isso de uma crueldade fora de todos os limites.

SindPress - Qual a sua avaliação sobre a questão da violência, hoje, no país?
Ariano - É a mesma coisa. Uma pessoa não pode matar e nem assaltar. Se eu fizesse um assalto, seria um crime imperdoável. Agora, uma pessoa que está com fome, eu entendo perfeitamente. Estou aqui conversando com vocês porque já comi. Mas, se estivesse com fome, estaria pensando em arranjar um revólver para atiar numa pessoa e arrumar o que comer. E isso é lógico para qualquer um que tenha um pouquinho de razão. Quando eu era jovem, o Brasil tinha 30% da sua população nas cidades e 70% no campo, e isso era apontado como uma vergonha, uma marca do atraso brasileiro. Hoje, inverteu a situação: 70% da população está nascidades e começou aí o que chamam de violência urbana, sem ninguém saber o que é. Isso é uma consequência desse regime capitalista que por natureza concentra renda e população nas cidades. Isso é uma decorrência do próprio capitalismo. Então, não sei de que é que o povo está se queixando, porque já sabíamos que isso ia acontecer. E ainda estão achando pouco. Estão querendo, como dizia Collor, levar a gente para o Primeiro Mundo. Nós sabemos que mais violência do que aqui, tem em Nova York. O Rio de Janeiro e São Paulo, comparados com Nova York, é besteira. Isso é o regime capitalista: você junta num aglomerado enorme, numa cidade, uma população que não tem como comer direito, nem se vestir, nem se educar, e ainda mostra o contraste, através dos meios de comunicação, da outra vida. O que é que o homem do morro vai fazer? Ele vê na televisão a vida que queria ter. Por que é que ele não tem direito? Ele vai e assalta.

SindPress - Essa questão da concentração de renda deve piorar com o projeto neoliberal de FHC?
Ariano - Claro. Ele deve saber disso melhor do que eu, porque é sociólogo e eu não sou. É evidente que vai piorar. veja bem, eu hoje, por acaso, estava olhando meu álbum de recortes e vi um texto que escrevi, no final de 1992, dizendo que não adiantava tirar Collor (da presidência da República) e deixar no poder aqueles que achavam que as idéias de Collor eram mesmo boas. Achava que com ele deveria sair também o regime que pregava e praticava, o neoliberalismo, que é a coisa mais nefasta desse mundo. E aí eu já dizia que no PMDB de Orestes Quércia e no PSDB de Fernando Henrique Cardoso só estão os equivocados ou os traidores do País, aqueles que querem que o povo continue do mesmo jeito. Eu disse isso por acaso, pois não sabia nem que eles iam ser candidatos. Então, acho que isto é a essência do neoliberalismo, um sistema que tem como núcleo o lucro. Todo regime capitalista - e o neoliberalismo é um deles - é assim, a social-democracia é assim. Isso por natureza é um regime cruel e desumano. O único regime que não coloca o lucro como núcleo é o socialismo. Agora, infelizmente, com as distorções que houveram na União Soviética o regime caiu e hoje estamos nesta luta difícil. Para lutar ficou mais difícil, mas para sonhar ficou melhor porque o sonho ficou mais puro e a gente já tem uma referência.

SindPress - O senhor ainda acredita no socialismo na América do Sul, apesar de todo esse avanço do neoliberalismo?
Ariano - O sonho socialista continua. Se a humanidade não caminhar para isto, eu não digo nem que voltaremos ao tempo das cavernas, porque acho que o homem das cavernas era mais humano do que este das cidades atuais.

SindPress - O senhor discorda da afirmação de que a sua concepção socialista está montada na religião?
Ariano - Não discordo, não. Está realmente. Em 1973 ou 74, escrevi um artigo onde dizia que os EUA e a URSS iam terminar aliados. Dizia que era um equívoco a briga deles porque colocavam a ênfase na prosperidade material e não na ética, nos valores religiosos e morais, que são de Deus. Achava que eles iriam terminar aliados e escrevi isso. Agora confesso que não esperava ver isso acontecer. Para mim, isso só iria acontecer depois da minha morte. Foi uma surpresa aquel derrocada da URSS, principalmente depois de Yeltsin. Eu já fiquei suspeitando de pois do Gorbachev, porque quando começou o movimento dele, enchi-me de esperança. Acreditava que ele ia buscar uma nova forma de socialismo. Quando vi, o homem estava era se entregando ao capitalismo, coisa que ficou mais visível ainda com Yeltsin. A Rússia está acabada. Aquele país que eu amo tanto e que tenho uma admiração enorme (eu sou um entusiasta da literatura russa, gosto muito do Dostoyewsky, Tolstói, Thecov, Gorky). Quando vi, a Rússia desse jeito aí... Guardo recortes de jornais e tenho ainda um do tempo de Gorba. Sexo, negócios e "rock and roll" é o programa da nova Rússia. Se fosse sexo como todos nós entendemos... Mas, não. Sem a menor dúvida, trata-se da sexualidade que dá lucro. Era muito difícil para mim dizer-me socialista porque não queria ser confundido com aquilo. Agora, eu acho que esse pessoal que se considera pós-socialista está indo pelo caminho errado. Estão se entregando ao capitalismo. Hoje, para mim, ficou até melhor, porque quando digo que sou socialista ninguém vai pensar que sou sócio de Yeltsin ou de Gorba, nem saudoso de Stalin. A minha idéia de socialismo é baseada numa visão de justiça e fraternidade.

-
Entrevista publicada no jornal SindPress nº 7, do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, em dezembro de 1994.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O vacilo da Cobra Coral





O VACILO DA COBRA CORAL

Clóvis Campêlo

Ontem, em Salgueiro, contra o time homônimo, perdemos a nossa segunda partida seguida no Campeonato Estadual. E a derrota nos custou a perda da vantagem que ostentávamos em relação ao clube sertanejo. No próximo final de semana, no Arruda, teremos a obrigação de vencer para manter viável a possibilidade do bicampeonato.
Não sei como Zé Teodoro vai se virar para montar o ataque, com Carlinhos Bala e Dênis Marques machucados e Geílson suspenso, após a expulsão de ontem aos 38 minutos do segundo tempo. Restariam Branquinho, que, por sinal, ontem jogou bem e marcou o nosso gol, Flávio Recife e Jéferson Maranhão. Convenhamos, é pouco ataque para muita necessidade.
Uma outra questão séria e, a essa altura do campeonato, sem grandes possibilidades de correção são as saídas mais que imperfeitas do gol do paredão Tiago Cardoso. Bolas alçadas em diagonal sobre a área coral são sempre motivo de preocupações e falhas. Além da deficiência técnica demonstrada por Tiago Cardoso nessa bolas, e que deveria ter sido corrigida em treinamentos especializados ao longo do certame e desde o ano passado, temos um zagueiro de boa estatura, como Leandro Souza, mas que não ter boa impulsão. Resultado: nesse item, tomamos gols com muita facilidade para um time que cobiça o bi.
Apesar de todas as adversidades, basta-nos uma vitória simples para liquidarmos a fatura. O Salgueiro é uma equipe perigosa e que vai se precaver o necessário para manter a vantagem adquirida ontem. Mas, dentro de casa, nós é que devemos ditar as regras do jogo e assumir uma postura mais ofensiva e decidida. Time por time, acho que somos melhores em valores individuais e em disposição tática. Resta-nos comprovar isso dentro de campo derrotando o Salgueiro no próximo final de semana e partir para a decisão, não importa que o adversário seja o Náutico ou o Sport.
Talvez o acaso ou a incompetência dos outros, como já disse alguém, decida o Pernambucano atual. Pode ser. Mas essa é parte que não cabe administrar. O que temos de saber utilizar é a nossa capacidade de superação e de imposição dos nossa diretrizes. A nossa eficiência pode fazer a diferença e ser a prova dos nove, garantindo-nos o sucesso e a comemoração final.

Escrito após o jogo Salgueiro 2x1 Santa Cruz, em 22/4/2012.

sábado, 21 de abril de 2012

From me to you



FROM ME TO YOU

Clóvis Campêlo

Foi uma longa e sinuosa caminhada, mas aqui estamos nós prestes a nos encontrarmos no futuro. E tu te aproximas do local do encontro com a intensidade de um meteoro gigante, alterando o sistema vigente e estabelecendo novas condições de equilíbrio e sobrevivência.
Mas, valeu a pena a espera por 40 anos. Ainda me lembro daquela jovem tarde de verão, nos anos 60, no Pina, quando o meu primo Zeca Campêlo me apresentou a ti e a teus companheiros. Pirei. Aquele som era demais, repletos de novidades que sacudiram e chacoalharam com a minha cabeça de menino suburbano. A revolução chegara e ninguém mais a ela ficaria impune ou imune.
De nada mais adiantaram os merengues que escutávamos na sede da Troça Carnavalesca Tubarão ou os frevos-canções do bloco Banhistas do Pina. Muito menos os boleros de Bienvenido Granda ou os samba-canções de Adelino Moreira. Havia uma coisa nova, muito nova e quente, partindo do norte com força vital pra chegar ao sul. Era melhor não reagir e deixar essa coisa acontecer.
Confesso, porém, que, na dicotomia existente entre os fans do Fab Four Forever, sempre me coloquei no grupo oposto aos que te admiravam. Achava-te careta e reacionário, simplesmente ridículo com a honraria, a medalha e o título de sir,concedidos pela Rainha Elizabeth ao grupo. Lennon, o beatle militante e politicamente correto, já a havia devolvido por não concordar com o envolvimento da Inglaterra na Guerra do Vietnam. Tu, assim como George e Ringo, a mantinhas como um trofeu bizarro (para mim). Contestar era preciso, meu velho!
Mas o tempo passa, a vida muda, evolui e toma outros rumos. E enquanto o guerreiro Lennon morria no campo de batalha vítima de “bala amiga”, tu sobrevivestes e mantivestes acesa a chama da idolatria.
Hoje, eu te vejo como um cara simples e bem resolvido, sem nenhum sentimento de culpa por ser rico e bonito. Fiquei surpreso ao ver na televisão a tua jovialidade nas chamadas para os shows do Recife. Um menino feliz de quase 70 anos de idade.
Quando em outra matéria te perguntaram como conseguias manter o mesmo nível de atividade com quase 70 anos de idade, respondestes que fazias aquilo com a naturalidade e a simplicidade de quem toma um copo de água. Ou seja, uma pessoa bem definida e que gosta do que faz. Um privilegiado.
Finalmente, no recomposição por mim do teu perfil psicológico, percebi que, acima de tudo, a tua realização pessoal e teu equilíbrio emocional apoiavam-se na vivência familiar nos tempos de Liverpool: no Natal, o pai ao piano, com a família ao redor, cantando velhas canções de época, canções essas resgatadas em discos recentes. Lennon nunca soube o que era isso, abandonado pelo pai e pela mãe ainda menino pequeno e criado pela tia Mimi.
Para o primeiro, resgatar o tempo bom era necessário. Para o segundo, só restariam as mudanças e os rigores da revolução para punir a sociedade hipócrita. Por isso, a junção perfeita da dupla compondo e contrapondo um ao outro as suas visões complementares.
Por isso, eu te reverenciou hoje e amanhã, velho Maca.
Com carinho, from me to you.

Recife, 2012

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Uma noite, um gato



UMA NOITE, UM GATO

Clóvis Campêlo

Nietzsche. Foi assim que resolvi chamá-lo. Era um gato preto, completamente preto, que deu de me aparecer no muro do quintal, toda noite.
Vinha, comia o que eu lhe oferecia e se ia, sem mais nem menos. Independente, como todos os gatos.
Uma noite, veio e ficou. Talvez tenha se dado conta de que ali a comida seria farta e o ambiente acolhedor.
Confesso que de início pensei em lhe chamar de Mefistófeles, não só pelo susto que me deu no nosso primeiro encontro, negro dentro do escuro da noite, realçando apenas o brilho claro dos seus olhos, como também pela sua preferência noturna, fugindo sempre da luz do dia. Mefistófeles seria, assim, aquele que prefere a noite e que não ama a luz do dia.
A nossa convivência, porém, mostrou-me que de noturno e soturno ele nada tinha. Além dos ratos, nunca se preocupou em caçar nenhuma outra alma inocente.
Muito pelo contrário, era um gato afável e de bom relacionamento. Logo fez amizade com dois gatos que habitavam a casa vizinha, Heráclito e Empédocles. Não me pergunte, porém, o por que destes nomes. Talvez o meu vizinho, homem de bigodes fartos e respeitáveis, perambulasse pelos estudos filosóficos, pelos pilares do pensamento grego antigo, do pensamento pré-socrático. Tudo é possível, nesse mundo de Deus e do tinhoso.
Heráclito era um gato ainda jovem, de cor amarela, mariscado, arisco e desconfiado conosco, os humanos. Com Nietzsche, no entanto, deu-se bem. Gostava de vê-los caminhando juntos, no telhado, ao final da tarde ou simplesmente tomando banho de sol, lado a lado, na calçada, pela manhã.
Empédocles era mais velho e mais gordo. Também era mariscado e com matizes que variavam do preto ao cinza. Nunca se envolvia nas arruaças dos gatos vadios. Sempre estava equidistante e equilibrado. Confesso que também nunca o vi sobre os telhados em busca das fêmeas no cio. Era um gato meio estranho e reservado. Mas, relacionava-se bem com Nietzsche e isso, para mim, bastava.
Essa amizade heterogênea e inconsistente, entretanto, pouco durou. Uma noite, do mesmo modo como chegara, Nietzsche se foi. Depois de jantar sardinhas com arroz (sempre se recusara a experimentar a ração felina que eu comprara, induzido pela propaganda televisiva), bebeu um pouco de água, miou um miado qualquer e lançou-se sobre o muro para o que eu imaginava como sendo apenas mais um passeio noturno.
Foi a última vez que o vi.

Recife, 2010


quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Casa da Cultura de Pernambuco


Fotografia de Clóvis Campêlo/1990

A CASA DA CULTURA DE PERNAMBUCO

Clóvis Campêlo

Em 6 de agosto de 1848, através da Lei Provincial nº 213, foi autorizada a construção de uma casa de detenção no Recife.
A construção foi iniciada em 1850, com projeto do engenheiro pernambucano José Mamede Alves Ferreira.
A Casa de Detenção do Recife foi inaugurada em 25 de abril de 1855, porém, a sua conclusão só se daria no ano de 1867.
O prédio, em estilo neoclássico, foi construído em forma de cruz, ficando as celas dispostas em alas que podiam ser facilmente vigiadas a partir de uma sala central.
O presídio foi desativado em 1973 e o prédio, depois de pequenas reformas que não alteraram o projeto original, passou a abrigar, em 1974, a Casa da Cultura de Pernambuco.

Recife, 2011


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quando os números não nos favorecem



QUANDO OS NÚMEROS NÃO NOS FAVORECEM

Clóvis Campêlo

No futebol, a derrota sempre é uma coisa ruim. Ainda mais quando acontece contra um adversário ferrenho e tradicional.
Assim, a derrota do Santa Cruz, ontem, na Ilha do Retiro, contra o Sport, se não significou muita coisa em termos de decisão do Estadual 2012, serviu para aumentar ainda mais a larga vantagem que o clube rubro-negro mantém nas estatísticas sobre Náutico e Santa.
Além do mais, quebrou a magnífica sequência de oito vitórias que o Santinha vinha sustentando ao longo dessa fase e que serviu para catapultar a sua ascensão na tabela de classificação.
Mas, assim como a derrota vergonhosa na Copa do Brasil, para o Penarol amazonense nos serviu de motivo para a reabilitação, esperamos que a derrota de ontem por 2x1 para o time da Ilha, quando jogamos desfalcados, sirva de alerta e para uma postura mais aguerrida e eficiente nossa no quadrangular final.
E se alguém pensa que o Salgueiro, o terceiro colocado que disputará as semifinais contra nós, será um time fácil, está enganado. Pelas estatísticas, o time sertanejo disputou 18 pontos contra o chamado trio de ferro do futebol pernambucano, na fase inicial do certame, e ganhou 13, com um aproveitamento altissímo de 72,2%. Por sinal, nessa fase, a única derrota salgueirense ocorreu justamente contra o Santa Cruz, no Estádio do Arruda. No mais, venceu o Náutico duas vezes, dentro e fora de casa, e derrotou o Sport em casa para empatar no jogo da volta, na Ilha do Retiro. É uma equipe perigosa e coesa, faltando-lhe, porém, tradição e torcida.
Mais modesto nas suas estatísticas contra os grandes, o Santinha disputou os mesmos 18 pontos, ganhando apenas sete, com aproveitamento de apenas 38,9%. Foram duas vitórias (Salgueiro e Náutico), um empate (Náutico) e três derrotas (Sport, duas vezes, e Salgueiro). Pelas estatísticas, portanto, devemos nos preocupar.
Por seu lado, dos dezoito pontos disputados contra os finalistas, o Sport ganhou 11, com aproveitamento de 61,1%, com o segundo melhor desempenho. Por seu lado, o Náutico, com apenas dois empates e quatro derrotas, arrebatou apenas dois pontos dos 18 disputados contra os outros finalistas, com um desempenho fraquíssimo de apenas 11,1%, contando ainda com o agravante da queda de produção nas rodadas finais da fase inicial.
Pelos números apurados, portanto, disponta um favoritismo para o Salgueiro e o Sport. Mas, como quem morre de véspera é o peru e os números servem apenas como um retrato de momentos vividos e já consolidados, será dentro de campo, onze contra onze, que as decisões ocorrerão.
E nesse momento, o que valerá será a capacidade de cada um se impor com competência, seriedade e, acima de tudo, espírito de luta.


Escrito após o jogo Sport 2x1 Santa Cruz, em 15/4/2012, na Ilha do Retiro.

sábado, 14 de abril de 2012

O pecado de Eva


Cena de "O pasteleiro"
-
O PECADO DE EVA

Clóvis Campêlo

Dizem que vida imita a arte e isso é verdade. Principalmente a arte trash. Digo isso porque a descoberta dos canibais de Garanhuns, lembrou-me um filme assistido anos atrás e que se chamava “O pasteleiro”. Nele, um chinês vendedor de pastéis seduz uma mulher na zona de prostituição de São Paulo e a leva à sua casa, onde, após o sexo, aplica-lhe uma injeção mortal. Depois, no porão da casa, a esquarteja, retalha, mói e tempera o corpo da moça, preparando assim o conteúdo com o qual recheava os pastéis vendidos na rua. O filme de 40 minutos, na verdade uma produção brasileira de 1980, dirigida por David Cardoso.
Em Garanhuns, a carne de uma sas mulheres assasinadas foi vendida em empadas recheadas. Os autores da façanha: Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, 50 anos, faixa preta de karatê e que se apresentava como professor de educação física; Isabel Cristina Pires, 50 anos, dona de casa, casada com Jorge, e Bruna Cristina Oliveira da Silva, 25 anos, desempregada e amante de Jorge há sete anos.
A primeira vítima do trio sinistro chamava-se Jéssica Camila da Silva Pereira, 22 anos, morta em 2008, no bairro de Rio Doce, em Olinda. Segundo Isabel, Jéssica era moradora de rua e tinha uma filha. Foi atraída para a casa do trio, onde foi morta. Seu corpo foi cortado em pedaços, a carne cozinhada em água e sal, para ser purificada, e depois, guardada na geladeira para ir sendo consumida aos poucos. Além disso, Isabel assumiu a identidade de Jéssica e adotou a filha da mulher assassinada.
Todo esse processo repetiu-se com as outras vítimas. Nos últimos dez anos, o trio sinistro perambulou pelas cidades do Conde, na Paraíba, Jaboatão dos Guararapes e Gravatá, em Pernambuco, até se fixarem em Garanhuns, onde, no dia 25 de fevereiro próximo passado, mataram Giselly Helena da Silva, de 31 anos, por eles atraída com uma promessa de emprego doméstico. Cometeram o êrro, porém, de utilizarem o cartão de crédito da vítima, cuja fatura foi recebida pela família. Verificando que o uso do cartão ocorrera após o desaparecimento da jovem, a família acionou a polícia que, como nos velhos e bons filmes policiais americanos, através das câmeras do sistema de segurança do estabelecimento comercial, conseguiu identificar e prender os contraventores assassinos.
O trio era comandado por Jorge, esquizofrênico e com um histórico de várias internações por conta dos seus surtos. Segundo matéria publicada no Jornal do Commercio do Recife, de ontem, ele escreveu, registrou em cartório e distribuiu em Garanhuns um livro intitulado "Diário de um esquizofrênico", onde relata como era perseguido por visões, fantasmas, explosões de violência e uma obsessão em assassinar mulheres. Em um dos textos encontrados pela polícia na sua casa, afirmava que "o pecado de Eva contaminou a tudo até hoje".
Segundo o psicólogo pernambucano Antônio Carlos do Nascimento, uma das características do discurso esquizofrênico é a possibilidade sedutora da força do seu delírio, que possui a aura da verdade absoluta, quer seja com conteúdo religioso, científico, moral ou político. Vale ressaltar que o caráter patológico do discurso esquizofrênico, ou seja, seu rompimento com a realidade consiste no seu não compartilhamento pelo grupo social onde ele se coloca. No entanto, as convicções com que se estabelecem seus argumentos pode ser objeto de sedução daqueles que buscam uma verdade absoluta na qual possam sustentar suas angústias.
Ainda segundo Nascimento, o esquizofrênico não possui consistência egóica para sustentar a sua ação. No entanto, o discurso delirante pode seduzir massas ou pessoas sedentas da "verdade inabalável" que comporta o delírio.
Garanhuns, com o seu clima de Suíça brasileira, quem diria, terminou por ser o palco final de uma história de terror capaz de fazer inveja ao mais perfeito dos roteiros cinematográficos.


Recife, 2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vela branca



VELA BRANCA

Clóvis Campêlo

Vela branca a navegar
sobre a linha do horizonte,
visão branca a macular
azuis de planos distantes.

Entre ela e o meu olhar
um elo, hipérbole, ponte,
anseios de um transbordar
se estabelece em instantes,

rasgando a seda do ar,
líquido a jorrar da fonte,
gaivota bela a lembrar
projétil em vôo rasante.

Retorno ao meu caminhar
ante que o vento me aponte
outro caminho a singrar,
outros destinos adiante.


Recife, 1992

terça-feira, 3 de abril de 2012

O dia em que Bruce Willis se perdeu no Recife



O DIA EM QUE BRUCE WILLIS SE PERDEU NO RECIFE

Clóvis Campêlo

Pois é, amigos. Como bom católico não praticante que sou, no Domingo de Páscoa dirige-me ao Recife Antigo para assistir a Paixão de Cristo. Lá, no meio de uma multidão comovida, sentindo o cheiro do povo novamente, assisti ao Drama e a prova de resistência de José Pimentel, que interpreta o papel de Cristo há muito tempo.
Setentão, Pimentel, que não aparenta a idade que tem, fez do Drama da paixão um nepotismo teatral. Toda a família participa da montagem e encenação do espetáculo, o que não lhe tira o brilho. Pelo contrário. A Paixa de Cristo do Recife abre um excelente mercado de trabalho para os atores locais, principalmente depois que a famigerada Rede Globo tomou conta de Nova Jerusalém com seus atores mauricinhos e atrizes patricinhas.
Além de tudo, como li recentemente em uma revista, numa matéria sobre o Maestro Duda, quando se trata de arte, o mais importante é a competência de cada um, parente ou não.
O mais emocionante, porém, foi quando, antes do espetáculo começar, alguém assumiu o microfone e anunciou com a voz adequadamente preocupada e preocupante, o sumiço de Bruce Willis.
Sabem como é: o povo gosta de homenagear os ídolos dando aos filhos os nomes de celebridades, atores roliudianos, jogadores de futebol e pagodeiros famosos. Juro que nunca vi ninguém nomear um filho de Machado de Assis ou Guimarães Rosas, ou mesmo James Joyce ou Jean-Paul Sartre, provando para mim, que a literatura da elite é desinteressante e chata para o povão. Bruce Willis, não o ator americano, claro, mas uma criança de oito anos de idade, trajando uma calça branca e uma camisa azul celeste, havia se separado da avó, no meio da multidão, e esta o procurava aflita sem encontrá-lo. O jeito foi apelar para a solidariedade popular e antes de Jesus Cristo entrar em Jerusalém montado em seu burrico, todos sairam aflitos e a pé em busca da criança.
Procura Bruce Willis daqui, procura dali, e o menino foi finalmente encontrado aos pés da estátua do Barão de Rio Branco, com um saco de pipocas na mão.
Anunciado o resgate triunfal, a multidão aplaudiu calorosamente o final feliz e pudemos, afinal, assistir ao martírio, a morte e a ressureição de Cristo.
Bruce Willis, quem diria, deu um colorido especial à Paixão de Cristo do Recife.

Recife, 2008


domingo, 1 de abril de 2012

Outono



OUTONO

Clóvis Campêlo

Hoje que o dia padece
de uma cor plumbéa,
colho raios de sol.

Não espero que apareças,
já estás no meu pensamento
leve como uma nuvem
que singra o firmamento.

Não me apavora a solidão.
Apenas amadurece
a nobre colheita do outono
que se apresenta.

Recife, 2011