sábado, 31 de agosto de 2013

Quando setembro vier


QUANDO SETEMBRO VIER

Clóvis Campêlo

Para mim, agosto sempre foi o mês dos ventos. E essa ventania que antecipava o verão, trazia-nos o tempo de empinar papagaios. As geringonças eram construídas pelos próprios meninos do Pina, com tala de coqueiro, cordão, papel celofane e e cola artesanal, feita com araruta ou goma.
Depois, preparava-se o cerol, uma mistura de cera com vidro moído, colocado nas linhas para se derrubar os papagaios alheios. Na queda, o artefato derrubado era de quem o pegasse primeiro. Era preciso agilidade nas pernas e esperteza para se sobrepor ao bando destrambelhado que não respeitava nem o perigo dos carros na Avenida Boa Viagem. O trunfo era exibido como uma conquista de guerra e trazia respeito ao conquistador.
Mas isso, já faz tempo, 30 ou 40 anos atrás. Hoje, mudou quase tudo. Gabriel, meu filho mais novo, ainda alcançou esse tempo nos terrenos baldios do Cordeiro, hoje todos eles ocupados e construídos. Os espaços vazios da cidade estão se extinguindo. Cresce a população e disso se aproveita a especulação imobiliária para transformar o verde na natureza em concreto retilíneo e cinza. Não há o que reclamar, porém. O novo e o progresso sempre vem, e é isso que faz o mundo avançar rumo ao futuro.
Lamento, porém, pelo meu neto, Pedro, que não conheceu e não vai mais conhecer essa brincadeira. Para ele, essas atividades coletivas, que integravam a molecada e amadureciam as relações humanas na infância, foram substituídas pelos jogos informatizados, onde muito se exercita a mente e pouco o corpo. Já não vale a máxima da mente sã em corpo são. Esse conceito foi substituído pelo prazer das vitórias virtuais, do mundo mágico dos computadores, onde, no final, tudo se recompõe e restaura-se o equilíbrio edênico. Ou seja, entre mortos e feridos, todos escapam. Ao menos isso.
Mas, se de início, a minha pretensão era passar pelos ventos de agosto rumo ao sol de setembro, terminei por demorar-me demais nessas digressões, ocupando quase todo o espaço que me cabia (por determinação própria, pois detesto textos muito longos). As lembranças do azul do céu do Pina e dos seus verdes mares ainda me excitam a memória e soltam a imaginação, irmãs quase siamesas.
Tudo isso apenas para lembrar que mais um agosto se encerra hoje, já sem o estigma do mês dos desgostos, nem mês dos cachorros loucos, onde o diabo anda solto e muito menos o mês da sogra, figura injustamente por nós ridicularizada, mas com uma nova referência para lhe recompor a imagem.
Foi em uma dessas noites do mês de agosto que ora se encerra que a cidade do Recife teve uma das noites mais frias do ano, com o termômetro alcançando a marca dos 17 graus centígrados.
Naquela noite, a cidade se superou e velhos casacos de lãs com cheiro de mofo foram resgatados e exibidos com orgulho pelos nordestinados recifenses acostumados ao calor úmido da Mauricéia.

Recife, 2013

sábado, 24 de agosto de 2013

O velho Messias


O VELHO MESSIAS

Clóvis Campêlo

O velho Messias morava no Pina, em um cortiço chamado Estoril, na Rua Capitão Rebelinho, que no início dos anos 80 foi demolido para a construção do Edifício Ubatuba.
Era uma figura fantástica. Lanterneiro competente, durante a II Guerra Mundial ganhou muito dinheiro trabalhando para os americanos, no Recife. Gastou tudo com bebidas e mulheres. Costumava dizer que boêmia era tão boa que era de regresso.
A sua história mais fantástica aconteceu durante a Intentona Comunista, na década de 30. Messias trabalhava numa oficina na Rua Imperial, quando um dos fregueses pediu-lhe para guardar um pacote. O pacote, repleto de panfletos subversivos, foi descoberto. Mesmo inocente, Messias foi preso e fichado como comunista.
A partir dessa data, aderiu à ideologia. Passou a andar sempre vestido de branco, com um lenço vermelho na lapela.
Quando do golpe militar de 1964, já envelhecido, foi novamente perseguido e discriminado pelos amigos do bairro, que temiam represálias do governo da ditadura.
Pobre, doente e desamparado, faleceu no Recife, no final dos anos 70.
A fotografia acima foi feita pouco tempo antes da sua morte.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Liêdo Maranhão declama Augusto dos Anjos



LIÊDO MARANHÃO DECLAMA AUGUSTO DOS ANJOS
Olinda, 03/01/2010
Vídeo de Clóvis Campêlo

Hermilo Borba Filho


HERMILO BORBA FILHO

Clóvis Campêlo

Hermilo Borba Filho nasceu no dia 8 de julho de 1917, na cidade de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco.
Desde os anos 40, desenvolveu no Estado uma grande atividade intelectual, sendo diretor e criador de grupos que marcaram época no teatro regional, como o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP) e o Teatro Popular do Nordeste (TPN).
De 1953 a 1957, atuou em São Paulo, onde fez parte da Comissão Estadual de Teatro. Nesse período, também dirigiu a Companhia Nydia Líca/Sérgio Cardoso, a Companhia Cacilda Beker, o Grupo Studio Teatral e o Teatro Paulistano de Comédia.
Teve várias peças suas apresentadas no Brasil e no Exterior, além de vários livros traduzidos na França e na Argentina, onde o romance "Margem das lembranças" chegou a ter proibida a sua publicação.
Em 1969, foi condecorado pelo Governo da França como Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras.
Durante a ditadura militar, integrou o conselho editorial do jornal oposicionista Movimento.
Faleceu no dia 2 de junho de 1976.

Recife, 2008

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O astro


O ASTRO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, PE, 1992

domingo, 18 de agosto de 2013

Lilliputiana


LILLIPUTIANA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 2013

sábado, 17 de agosto de 2013

A maturação da vida


A MATURAÇÃO DA VIDA

Clóvis Campêlo

Caros amigos, para que serve a vida a não ser para ser vivida? A pergunta, muito antes de ser poética, é existencial. Como diria aquela velha compositora biriteira, só nos resta viver. E a vida, para ser bem vivida, deve ser, acima de tudo, satisfatória. Ninguém vive bem alimentando frustações ou adiando realizações.
No entanto, diz o bom senso que projetos de vida mirabolantes sempre tendem ao fracasso. Assim, como caldo de galinha e cautela nunca fizeram mal a ninguém, é sempre bom não quer dar um passo maior do que as pernas podem dar. Reconhecer as suas potencialidade e limitações pode ser um bom começo. A isso geralmente dão o nome de maturidade e, via de regra, só nos chega quando já estamos em adiantado estado de vida.
À juventude, aliás, dá-se sempre o direito de achar que o mundo é simples e que as soluções dos seus problemas também passam pelo viés da simplicidade.
Quem vai querer entender, por exemplo, os intrincados mundos da ciência, dos negócios e das pesquisas? Para que se gastar tanto dinheiro com isso em vez de matar a fome e as doenças do chamado Terceiro Mundo? Eu mesmo, confesso, até hoje, mesmo em adiantado estado de vida, ainda não consegui entender, imaturo que sou.
Afinal, estamos todos no mesmo barco ou não? Somos irmãos, todos filhos do mesmo pai, ou alguns pagam por crimes que nunca cometeram ou nem sequer chegaram a imaginar?
Como de boa vontade o inferno sempre está cheio, fico a imaginar que esse estado de coisas é filho da esperteza de alguns, do convencimento da burrice de outros e da libertação conceitual de outros poucos abnegados e abdicados seres. O preço da liberdade é a eterna irrelevância.
De uma coisa, porém, eu tenho certeza: nenhuma das gigantescas estruturas criadas pelo Homem para dominar o mundo e os seus habitantes mais frágeis são capazes de se sustentarem por si próprias. São estruturas artificiais, estáticas, vampirescas e servem apenas para confundir e enfraquecer ainda mais as estruturas mentais dos homínculos dominados e escravizados. Um dia, meus filhos, nada disso será teu. Guarda portanto as tuas energias para o que realmente lhes seja dela merecedor. Não existe segurança alguma em nada, mas o prazer sempre estará a disposição de todos os que renegarem as tramas diabólicas do poder constituído e descobrirem o prazer da volta ao equilíbrio edênico do universo verdadeiro e paralelo.
Tudo é aqui e agora. Nada para o amanhã inexistente ou para um futuro de falsas premissas e inviável pela própria natureza. Os labirintos existem para os incautos. A infelicidade também.

Recife, 2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Urbe


URBE

Clóvis Campêlo

Repletos de mortalidade
os homens a violentam
e acolhem-se em suas entranhas
enquanto ela eterniza-se.

Composição de estranha forma,
na epiderme da natureza,
em concreto se calcifica
retilínea e angulosa.

E dessa simbiose entre
sangue e cimento forma-se
um equilíbrio roto e frágil,
motor de uma vida enganosa.

Recife, 1991

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ronildo Maia Leite



RONILDO MAIA LEITE
Fotografias de Clóvis Campêlo
Jaboatão dos Guararapes, PE, 1991

domingo, 11 de agosto de 2013

Mão na parede


MÃO NA PAREDE
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

sábado, 10 de agosto de 2013

Dona Maria, uma brasileira


Fotografia de Clóvis Campêlo/1994

DONA MARIA, UMA BRASILEIRA

Clóvis Campêlo

Descobri Dona Maria em Mirandiba, vendendo comida perto da feira. Era um dia de sexta feira e nós estávamos na cidade movidos pela curiosidade e pelo inusitado.
Mirandiba fica no sertão de Pernambuco, a 423 quilômetros do Recife, na região do Rio Pajeú, desgarrada da rodovia BR-232. Com pouco mais de 13 mil habitantes, entrou para a história política do Estado por ter sido a primeira cidade pernambucana a eleger um prefeito do Partido dos Trabalhadores.
Na época, eu fazia parte da Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco e acompanhado da jornalista Wedja Gouveia e de Manoel, motorista, fomos em busca da matéria para o nosso jornal, o SindPress.
Queríamos entender como "o modo petista de governar" havia sensibilizado o povo daquele grotão perdido nos confins do Estado, em 1994. O que haveria mudado para que isso acontecesse?
O prefeito eleito pelo PT, Nelson Pereira, hoje deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil, era oriundo do PMDB e chegara ao poder depois de uma briga regionalizada onde o que menos interessava era a sigla partidária. Ou seja, mudara tudo e não mudara nada. Continuava tudo na mesma.
Tentamos conversar com Dona Maria sobre isso, mas para ela a vida era ir à feira e vender os seus quitutes. Não tinha nem ilusões e nem desilusões. Já se acostumara com a alternância dos coronéis no poder e instintivamente sabia que nada disso modificaria a sua vida.
E na verdade, a passagem do Partido dos Trabalhadores pelo poder, naquela pequena cidade do sertão pernambucano, em nada transformou o seu perfil ou a qualidade de vida do seu povo. O modo petista de governar era muito mais um refrão do que uma nova perspectiva de realidade.
E Dona Maria, uma brasileira, continuaria a sua rotina de fazer e vender comida na feira esperando que um dia o futuro finalmente chegasse a Mirandiba.



Recife, 2010

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Olhar


OLHAR

Clóvis Campêlo

Calado, quieto,
parado,
disparo o meu olhar
incandescente;
ultrapasso pontes,
pontos, linhas,
planos e horizontes;
penetro no infinito
incendiado
de azul e
inacabado
fogo,
pleno, perplexo,
perfeito cenário.

Recife, 1993

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O astronauta


O ASTRONAUTA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

Poema para Liris


POEMA PARA LIRIS

Clóvis Campêlo

Só sei que te escondes
nas torres da Pituba
e perder-me em Ondina,
aos pés do Cristo,
foi preciso.

Mas, se grito e tu respondes,
mesmo nas águas turvas
da fímbria do mar da Bahia,
ressuscito e te avisto,
quando for preciso.

Recife, 2009

domingo, 4 de agosto de 2013

Tabaca


TABACA
Fotografia de Clóvis Campêlo 
Recife, 1992


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Bobo da Corte


O BOBO DA CORTE
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992