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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tio Amaro


TIO AMARO

Clóvis Campêlo

 

Amaro Regueira era meu tio-avô, irmão do meu avô materno Luís de Albuquerque Regueira. Era um homem simples e pacato, que gostava de criar galinhas, acostumado à vida no interior e no campo.
Lembro dele na nossa casa do Pina, já velho e com problemas circulatórios seríssimos. Fumante inveterado, tinha as pernas escuras por conta da má circulação sanguínea.
Sobre ele, minha mãe contava uma história interessante e engraçada: apesar da mansidão, às vezes ele perdia a paciência com a meninada e dava respostas inesperadas. Curiosa como sempre foi, a minha mãe, ainda menina, pediu-lhe que lhe ensinasse a conhecer quando a galinha estava prestes a por o ovo. Ocupado, tio Amaro não lhe deu atenção. De tanto insistir, recebeu essa resposta: “Minha filha, meta o dedo no rabo da galinha. Se estiver duro, é ovo; se estiver mole, é merda!”. Dona Tereza, minha mãe, contava isso sempre rindo muito.


sexta-feira, 23 de março de 2018

Gabriel e Tatiana


GABRIEL E TATIANA

Clóvis Campêlo
 
TATIANA
 
Conheci Cida em dezembro de 1977, numa cidade chamada Riachão, situada no sul do Maranhão. É interessante frisar que, antes, nenhum de nós dois jamais estivera ali.
Nasci no Recife e fui ao Maranhão acompanhando meu irmão mais novo que ali morara um tempo, trabalhando, e que iria se casar com uma jovem do lugar.
Cida, natural da vizinha cidade de Carolina, também no sul do Maranhão, ali fora acompanhando um irmão mais velho que dirigia um pequeno caminhão, fazendo entrega de café fabricado na torrefação onde trabalhava. Assim, nós nos conhecemos. Nosso primeiro encontro se deu numa festa de 15 anos, acontecida na noite anterior ao casamento do meu irmão. Ali mesmo, começamos a namorar. Terminado o casamento, voltei ao Recife e Cida, a Carolina.
Em fevereiro de 1978, durante o carnaval, fui a Carolina e conhecer os pais de Cida e o restante da sua família.
Ficou decidido que em março eu voltaria à cidade e nos casaríamos, vindo morar no Recife.
E assim foi feito: no dia 11 de março de 1978, nos casamos na Matriz de Carolina e viemos para o Recife. Na época, eu tinha 26 anos e a Cida, 16.
Em 1979, Ano Internacional da Criança, no dia 20 de janeiro, às 7:30 da manhã, dia de São Sebastião, Tatiana nasceu, sendo, portanto, o resultado inicial dessa história especial e inusitada.
Na realidade. deveria ter nascido no dia 1º, Dia da Confraternização Universal. Não sei se erraram na conta, mas se passaram 20 dias do prazo estabelecido para que ela nascesse. Estava atravessada na barriga de Cida e foi retirada a fórceps. Ainda hoje ela tem na testa as marcas do nascimento.
Naquele tempo não havia ainda ultrassonografia para se saber antecipadamente o sexo das crianças. Assim, na porta da sala de parto, haviam dois bonequinhos, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. Dependendo do sexo do nasciturno, acendia um ou outro.
Enquanto Cida e Drª Aspásia lutavam na sala de parto para que Tatiana viesse à luz, lá fora, na sala de espera, estávamos eu, meu pai, que assim como também se chamava Clóvis, e minha mãe, dona Tereza, nervosos e ansiosos.
Quando a luzinha acendeu, todos se abraçaram e se confraternizaram, felizes porque tudo correra à contento.


GABRIEL
 

Quatro meses depois do nascimento de Tatiana, Cida engravidou novamente. Quando Gabriel nasceu, no dia 12 de março de 1980, Tatiana tinha um ano e dois meses.
Com nós meninos ainda pequenos, fomos moram em Rio Doce, na cidade de Olinda, numa casa com um pequeno quintal onde haviam árvores e um tonel cheio de água, onde as crianças gostavam de tomar banho.
Em julho de 1986, nos mudamos e fomos morar num apartamento, no bairro do Cordeiro, no Recife. Ali, os meninos passaram a maior parte das suas vidas. Ali cresceram e fizeram amizades que duram até hoje.
Gabriel nasceu às 7:30 da manhã, em um dia de muita chuva.
Nessa época, morávamos na Ilha do Leite e de lá para o Hospital Português, onde ele nasceu, a distância não era muito grande.
Em circunstâncias normais, eu e Cida, teríamos ido até andando.
Mas chovia muito, algumas ruas estavam alagadas e resolvemos pegar um táxi, um alegre fusquinha azul celeste que contrastava com o dia cinzento.
Chegamos no hospital e a Drª Aspásia Pires, que sempre fez os partos de Cida, já nos esperava.
Ela entrou com Cida na sala de exames e logo a vi correndo de volta, desesperada.
Aflito, perguntei o que estava acontecendo e ela me respondeu: "Ele já está nascendo".
Mal deu tempo Cida entrar na sala de partos e Gabriel já veio à luz, apressado, querendo ver o mundo com os próprios olhos.
Foi um parto tranquilo, normal.
Pouco tempo depois, Gabriel já estava no berçário e Cida sentada na cama, serena, tomando uma canja quentinha.
Foi assim que Gabriel nasceu. Foi assim que veio ao mundo, sendo o nosso caçula e completando a nossa família.
Era tão pequeno que nós o apelidamos de Catotinha.


Recife, 1986

terça-feira, 13 de junho de 2017

A Primeira Comunhão


A PRIMEIRA COMUNHÃO

Clóvis Campêlo

Naquela época, a Primeira Comunhão não era apenas uma festa familiar. Era uma festa comunitária. Toda a vizinhança participava. Lembro da nossa casa no Pina bem cheia, repleta de amigos, parentes e vizinhos. Um freje, no bom sentido, já que naquela dia especial nem eu nem meus irmãos, Carlinhos e Mana, poderíamos prevaricar. Nem em pensamentos. E, confesso, não era fácil manter essa retidão de pensamento e comportamento. Tudo conspirava contra.
Estávamos todos vestidos de branco, simbolizando a pureza das nossas almas. O sacramento se daria à tarde, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, sob a batuta do Padre José, ao lado dos outros alunos do Instituto Dantas, escola que promovia o evento cristão. A festa propriamente dita seria depois, em casa, ao voltarmos da igreja. Comida e bebida, à vontade. Mas aí já estaríamos aceitos fazendo parte definitivamente da comunidade da Igreja Católica Apostólica Romana.
A Primeira Comunhão é uma celebração da Igreja Católica, onde os participantes recebem pela primeira vez o Corpo e o Sangue de Cristo em forma de pão e vinho. Para receber a Primeira Eucaristia, como também é chamada a celebração, deve o cristão saber e compreender alguns princípios e fundamentos da Igreja, como os 10 Mandamentos, os Mandamentos da Madre Igreja, suas principais orações, e os 7 sacramentos. Antes do rito religioso, o participante deve se confessar, livrando-se assim dos pecados e faltas graves cometidos.
Segundo a Wikipédia: “a Eucaristia é " o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar o sacrifício da cruz no decorrer dos séculos até ao seu regresso, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da vida eterna." (n. 271). A palavra hóstia, em latim, quer dizer vítima, que entre os hebreus, era o cordeiro, sem culpa, imolado em sacrifício a Deus”. Ou seja, exista na cerimônia toda um simbologia que deve ser entendida, pratica e respeitada pelo participante.
Não era fácil para nós, eu e meus irmãos, seguirmos tudo isso ao pé da letra. Meu pai e minha mãe não eram de frequentar a igreja e nem nos obrigavam a isso. Mas havia um misto de respeito e temor que nos fazia ir adiante sem nada questionar. Para nós, era melhor e mais seguro estar ao lado de Deus, Jesus Cristo e todos os anjos do que vagarmos indefesos e solitários sob as tentações do demônio. E além do mais, todos os nossos colegas e amigos da escola estavam ao nosso lado naquele momento e isso fazia com que nos sentíssemos seguros e protegidos. Restaria-nos depois, ao longo da vida, mantermos essa chama acesa e vibrante. Intuitivamente, sabíamos que não seria nada fácil, pois são muitas as tentações e os perigos dessa vida.
A festa em casa, ao voltarmos da igreja, foi plena e vibrante. Aos poucos, porém,a casa foi esvaziando e a família ficando sozinha. Nossas roupas brancas e nossos livrinhos foram guardados e ainda hoje se encontram entre os objetos deixados por dona Tereza, minha mãe, quando faleceu.
À noite, sozinho, quando me deitei e tentei conciliar o sono, percebi que teria pela frente uma longa caminhada a percorrer, e que nessa caminhada estaria para sempre dividido entre a virtude da retidão da crença religiosa e as tentações do mundo dos homens.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Dona Dita


DONA DITA

Clóvis Campêlo


Dita Cunha Machado, esse é o nome da minha sogra.
Nasceu na cidade de Riachão, no Maranhão, no dia 4 de fevereiro de 1931.
Ainda menina, mudou-se para a cidade de Carolina, também no Maranhão, acompanhando a irmã mais velha, Maricota, que havia casado.
Em Carolina, conheceu Pedro Alves Machado, com quem casou, no dia 8 de julho de 1952, na sua cidade natal.
Do casamento nasceram nove filhos: Renato, Cleuber, Alberto, Vera, Aparecida, Luiz Antônio, Eliana, Lizane e Ronaldo, este último falecido em dezembro de 2009.
Em 1982, depois de 30 anos de casamento, separou-se de Pedro Machado, indo morar na cidade de Impertatriz, onde a maioria dos filhos já morava e trabalhava.
Com uma memória invejável para a sua idade, quase 81 anos, diz que chegou em Imperatriz no dia 14 de dezembro de 1982, quando a filha Eliana completava 15 anos.
Em Impetariz ficou até 1989, quando decidiu aceitar o convite de Renato, o filho mais velho, e mudar-se para a capital, São Luís do Maranhão. Nessa nova mudança, foi acompanhada pelos filhos Alberto e Eliana.
Confessa que, de início, temeu a nova mudança. Hoje, porém, depois de 22 anos diz gostar da cidade e de não ter mais vontade de deixá-la.
Em São Luíz, morou sete anos no bairro do Cohatrac, mudando-se depois para a Cidade Operária, onde já se encontra há 15 anos.
Hoje, dona Dita tem 16 netos e 5 bisnetos, espalhados por três estados do Brasil: Maranhão, São Paulo e Pernambuco.
Lembra que os seus pais, que se chamavam Luíz Cunha e Antônia, eram naturais de Terezina, no Piauí. Ele, funcionários dos Correios, foi morar em Riachão por conta do emprego. Lá, nasceram todos os onze filhos do casal.
A sua mãe, que era conhecida como Tonica, faleceu em 1952, levando seu Luís a contrair novo matrimônio e também transferir-se para Carolina.
Com uma boa saúde, dona Dita ainda toma uma cervejinha (como Zeca Pagodinho tem preferência pela Brahma, mas afirma que experimentou a Devassa e gostou do sabor) não sofre de hipertensão ou diabetes. Gosta de viajar e visitar os parentes distantes.
Diz que a vida é boa e que a velhice não é nenhum empecilho para a felicidade e o bem-estar.
E afirma com convicção: "Quem não quiser ficar velho que morra jovem".

Recife, dezembro 2011


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Grávidos


GRÁVIDOS

Clóvis Campêlo

Fotografia feita no ano de 1978, no prédio em que morávamos, no bairro da Boa Vista, no Recife. Pode ser que não pareça, mas Cida estava grávida de Tatiana. Não lembro quem fez a fotografia. Na dúvida, divido-me entre Zenóbio, um amigo que também morava no bairro e que, na época, frequentava a nossa casa, e meu irmão Carlinhos. Contra Carlinhos, porém, pesa o fato de que, na época, dividia-se entre o Recife e a cidade de Riachão, no Maranhão, onde trabalhou um certo tempo.
Mas, o fato mais importante é que Cida estava grávida do nosso primeiro filho. Não tínhamos como saber, então, qual o sexo da criança. Por isso, a chamávamos de Roberval, numa alusão ao personagem Roberval Taylor, de Chico Anysio, que fazia muito sucesso na televisão, no programa Chico City.
O sucesso desse programa humorístico, inclusive, era tão grande que terminou por batizar até hoje o Conjunto Residencial Brigadeiro Francisco Correia de Melo, no bairro da Vila do Ipsep, na zona sul do Recife. Assim, íamos na onda e no bom humor de brincar afetuosamente com a criança que nasceria alguns meses depois, em janeiro de 1979. Combinamos, então, que se a criança fosse menino teria o nome escolhido por mim. Caso contrário, Cida escolheria seu nome.
Fico pensando aqui comigo, como até poucos anos atrás a tecnologia disponível era precária. No máximo, ouvia-se o coração do bebê batendo, numa zoada que parecia uma lâmina de flandre sendo balançada. Era um sucesso, isso. A audição do batimento cardíaco de Tatiana (na época, Roberval) se deu em uma das visitas feitas no consultório da dra. Aspásia Pires, a obstetra que acompanhou Cida nos seus dois partos (Tatiana e Gabriel). Hoje, já se sabe com quase absoluta certeza do sexo do bebê, da sua posição na bolsa e até do seu sofrimento, nos casos em que a gravidez caminha para um lado indesejado.
Tatiana (na época, Roberval), porém, parecia não ter pressa de vir ao mundo, e no dia 20 de janeiro de 1979, Ano Internacional da Criança, foi marcada a data da cesariana.
Chegamos cedo na maternidade do Hospital Português, mas a dra. Aspásia preferiu o uso dos fórceps, já que a criança estava atravessada e laçada. Até hoje, Tatiana tem na testa as marcas desse procedimento. Mas, apesar do nervosismo do momento, tudo correu bem e veio ao mundo uma menina linda e perfeita.
Vivi esse momento especial da minha vida ao lado dos meus pais, seu Clóvis e dona Tereza, e da minha avó materna, dona Carmelita. Na porta da sala de parto haviam dois bonecos, um masculino, de azul, e outro feminino, de vermelho. Quando o boneco feminino acendeu é que ficamos sabendo do sexo da criança nascida naquele momento. Roberval passava, assim, a ser definitivamente Tatiana, nome escolhido pela mãe, conforme combinado anteriormente.
Começava a ser formada, naquele momento, a família Machado Campêlo, com origens que iam desde a cidade de Carolina, no Maranhão, a Jaboatão dos Guararapes e Ipojuca, cidades na zona da mata pernambucana.
Um ano e dois meses depois, no dia 12 de março de 1980, dia dos aniversários das cidades de Olinda e Recife, nascia Gabriel, o nosso segundo descendente em linha direta. Mas essa já é outra história e outra fotografia.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Água mole em pedra dura pedra pedra até que Pedro


ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA PEDRA PEDRA ATÉ QUE PEDRO

Clóvis Campêlo

Pedro, a primeira ideia que nos veio à mente foi procurar o significado do seu nome no Google, esse dicionário moderno e que nos explica todas as incógnitas.
E veja só o que encontramos:

Pedro Henrique: Conjugação dos nomes Pedro e Henrique. Significa "rocha" e "governante da casa".
O nome Pedro tem origem no grego pétros, que significa "pedra", ou "rocha".
Henrique é um nome do germânico Heimirich, que quer dizer "Senhor do lar". É o resultado da junção das palavras heim que significa "lar" ou "casa" e rik, que quer dizer "senhor".

Ou seja, seu nome foi escolhido por seus pais antes mesmo de você nascer, quando ninguém imaginava as dificuldades pelas quais você passaria nos primeiros momento de vida. Não foi fácil, mas você a tudo superou, Pedro de pedra que foi desde o começo.
A sua fragilidade aparente e inicial, fez com que toda a família reunisse energias para a superação.
E você conseguiu, cresceu, tornou-se um menino bonito, forte e inteligente.
Um orgulho para todos nós que te amamos cada vez mais.
Talvez hoje você ainda não consiga entender o significado profundo de tudo o que aqui está escrito. Mas, não faz mal. A vida se constrói aos poucos. Para eu pressa? Você tem todo um futuro pela frente e nós sabemos que vai ser um futuro brilhante e de sucesso.
Seja feliz, meu filho!
Cresça e apareça!
Você merece!
Com um beijo dos seus avós Clóvis e Cida

Recife, out/2013