sábado, 28 de junho de 2014

Um homem quase morto



UM HOMEM QUASE MORTO

Clóvis Campêlo

Respiro. Ainda estou vivo. Talvez seja um bom sinal. Talvez seja apenas o indício de um sofrimento maior.
Afinal, o que pode querer um homem comum, de carne e ossos, na véspera de completar setenta anos de idade? Confesso que não consigo imaginar! Nem mesmo me atrevo a fazer planos à longo prazo. Para que? O tempo e a morte não poupam ninguém. Sei disso muito bem e não me atrevo a querer contrariá-los.
Mas, afinal, não era minha intenção falar sobre isso ao iniciar esse texto. Sei que a vida é bela. E nesse percurso entre o nascimento e a morte, até as pedras se encontram. Rolam e falam. Cantam. Tocam. Pedras de toque. Não tenho do que reclamar. Escolhi o caminho e o trilhei. Com todos os encantos e percalços. Fui, vi e venci. A mim, não cabe e nunca caberá a nostalgia. Fiz revoluções e o novo sempre veio.
Tal qual o Rei Midas, soube transformar o óbvio em ouro. Pura alquimia da imaginação. Também não me caberia nunca contestar os sonhos alheios. Apenas os alimentei. Em dados momentos, conscientemente. Em outros, nem tanto. Nem tudo depende da nossa própria vontade, eu sei. É um emaranhado de circunstâncias. Tive a sorte de estar no lugar certo, na hora certa, com a atitude adequada. A felicidade talvez seja isso.
Mas, aos quase setenta anos, bem que cabe uma reflexão sobre isso. Tudo tem o seu preço e comigo não foi diferente. Pulei que nem uma guariba, balancei o rabo que nem um boiola (coisa que nunca fui), participei do banquete dos mendigos, fiz-me de insatisfeito. Imagem é tudo. E cá com meus botões, funcionou. Hoje, quase setentão, não consigo disso me livrar. Exigências do mercado? Com certeza! E não sou bobo para matar a galinha dos ovos de ouro. Não a inventei, mas se caiu nas minhas mãos é minha, não a largo fácil.
Muitos ficaram pelo caminhos. Não superaram as pedras. Ou sonharam sonhos errados. Fui cuidadoso. Reciclei-me. Reinventei os vícios, os ócios, os sócios. Funcionou. E ainda dizem que não cabem espertezas na vida. Coitados!
Nunca abri mão, porém, da competência. Viver é competir. Ainda mais numa sociedade de mercados. Impus-me, vendi-me, superei-me, amadureci. Em todos os processos, porém, exercitei a consciência. Acho-me até coerente. O inferno são os outros. Acredito nisso. Piamente.
Como será o fim? Para mim, pouco importa. Serei por ele tragado. Aos outros é que caberá a tradução. Só espero que seja grandioso, multicolorido, épico, transcendental, teatral. Mesmo que a consciência me traia, em algum lugar do universo, estarei a observar o grande final.
Afinal, o espetáculo não pode parar.


PS.: Texto escrito para Mick Jagger na véspera do seu 70º aniversário.

Recife, 2010

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A festa do futebol


A FESTA DO FUTEBOL

Clóvis Campêlo

Haja surpresas e decepções nessa Copa do Mundo. Dentro e fora do campo. Aqui no Recife, por exemplo, a prefeitura da cidade pisou na bola ao boicotar a festa. A cidade maurícia terminou por ser a sede menos animada e menos ornamentada, apesar das invasões de torcedores mexicanos e norte-americanos. Perdemos, assim, uma boa oportunidade de incrementar maiores lucros com os turistas amantes do futebol que por aqui chegaram.
Dentro de campo, a percepção de que o futebol da Península Ibérica entrou em um processo de decadência. Espanha e Portugal decepcionaram, notadamente a primeira, atual campeão do mundo e da Europa. A equipe envelheceu física e taticamente. Renovar será preciso.
Em termos de Copa do Mundo, considero a Espanha, juntamente com a Inglaterra e a França, como as grandes zebras das copas anteriores por eles vencidas. A Inglaterra, em 1966, vencendo a Alemanha com um gol duvidoso de Hurst, o qual até hoje é questionado. Curiosamente, na Copa do Mundo de 2010 a situação se repetiu, sendo, no entanto, anulado o gol inglês. Foi na Copa de 1966, aliás, que Portugal fez a sua melhor campanha, conquistando o terceiro lugar. Naquela época, integravam a seleção portuguesa jogadores nascidos em Moçambique, que era uma possessão portuguesa, como Eusébio e Coluna. Nunca mais, nem mesmo com Cristiano Ronaldo, os patrícios repetiram essa façanha no torneio.
Uma outra decepção para mim, na Copa 2014, tem sido os times africanos. Esperava muito mais, por exemplo, de seleções como Nigéria e Camarões. Os africanos estagnaram, mesmo tendo jogadores espalhados pelo mundo e jogando em grandes clubes. Se, em valores individuais, continuam nos impressionando, deixam-nos com a impressão de que involuíram no que tange às questões táticas, esquecendo de que o futebol é um esporte coletivo que pede um espírito de grupo.
Mas, por outro lado, seleções como Costa Rica e Colômbia surpreendem pelos bons valores individuais e pelo desempenho coletivo. São agradáveis surpresas. Vamos esperar que na fase do mata-mata, continuem evoluindo e alcançando posições inéditas no futebol mundial.
No que tange à seleção brasileira, apenas no último jogo contra Camarões é que nos empolgou, parecendo redescobrir a leveza e a qualidade técnica que sempre marcaram o nosso futebol. Mas, vale a pena lembra que os camaronenses, já desclassificados, jogaram abertamente, cedendo para nós espaços valiosos e que foram bem aproveitados. A Canarinha pareceu que ainda não atingiu o ponto ideal. Se, porém, mantiver o nível da última atuação e continuar em um processo evolutivo, poderá se impor e atingir o objetivo, que é a conquista do hexa campeonato mundial.
Essa é a nossa esperança e a nossa vontade. Dentro de casa, não podemos e não devemos repetir o fiasco de 1950. Os deuses do futebol não nos devem repetir essa falseta. Só precisamos fazer a nossa parte.

Recife, junho 2014

terça-feira, 24 de junho de 2014

Alumbramento


ALUMBRAMENTO

Clóvis Campêlo

Que desça a tranquilidade
vinda com hora marcada
e que se anuncia
após a passagem do
cometa.
Que se tranquilizem
todos os neurônios,
cesse a adrenalina,
retorne a rotina celular.
Tu, oh poderosa força,
tens a capacidade
de alterar todas as marés,
semear a força do vento,
tremer todas as terras
e, com teu olhar de fogo,
calar todas as vozes.
O impacto da tua visão
tem a luminosidade
de mil bombas atômicas.
O calor que de te irradia
dissolve a estrutura
do mais sólido dos
metais.
Diante de ti,
quedamo-nos estáticos
e deixamos que nos sugue
todas as forças
e nos esgote.
Tens a beleza e a maldade
de todas as deusas
e deixamo-nos
por ti imolar
num misto de prazer
e sofrimento.

Recife, 1994

sábado, 21 de junho de 2014

Beatriz


BEATRIZ

Clóvis Campêlo


Para Beatriz Gouveia

Quase Pedro, por um triz,
não da pedra, carne e osso,
um invisível colosso,
sinceramente Beatriz.

Partindo do quase nada,
hipérbole, bissetriz,
gerando o que eu sempre quis,
um novo ser na manada.

E na manhã da chegada,
toda de luz e alvoroço,
vestida de branco-giz,

por todos anunciada,
fruta a sair do caroço,
será presente Beatriz!



Recife, 1995

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Temperada


TEMPERADA

Clóvis Campêlo

Temperada a língua,
Pedrinho canta toadas
enquanto o dia míngua.


Recife, 2009

sábado, 14 de junho de 2014

Só se não for brasileiro nessa hora!


SÓ SE NÃO FOR BRASILEIRO NESSA HORA!

Clóvis Campêlo

Ganhamos a primeira, amigos, mas, sinceramente, o futebol apresentado pela seleção brasileira não me agradou. Mesmo vencendo a Croácia por 3 x 1, jogamos sem alma e sem velocidade. Não sei se a postura demasiadamente retraída da seleção brasileira foi orientada por Felipão ou se foi uma atitude provocada pelo nervosismo da estreia.
Também não gostei da cerimônia de abertura da Copa, que me pareceu pobre, inadequada e mal ensaiada, verdade seja dita.
Assisti ao jogo no recesso do lar, ao lado da família e de alguns amigos. Entre eles, Maria, uma colombiana de 22 anos que em 15 dias aprendeu a gostar da cachaça pernambucana e da seleção brasileira de futebol. Maria é de Medellin, uma cidade com aproximadamente 4 milhões de habitantes. Chegou ao Recife vinda de São Paulo e logo se aclimatou. Torcedora do Nacional de Medellin, hoje, o seu maior desejo é conhecer Flávio Caça-Rato, muito comentado na sua terra natal. Já lhe prometi de presente uma camisa do glorioso Santa Cruz Futebol Clube.
Apesar de alguns recalcitrantes, a Copa do Mundo se iniciou com sucesso e segue forte. A afirmação da nossa brasilidade, da qual o futebol é um dos pilares, falou mais alto. Como já disse o poeta, quando algo deve realmente acontecer, tudo conspira a favor e não adiante nadar contra a corrente.
Diferentemente de 1950, quando perdemos o jogo final para o Uruguai e instituímos a tragédia nacional, existe um clima de equilíbrio e cobrança em relação à seleção brasileira de futebol. Hoje, ela é composta por jogadores milionários e experientes, apesar da pouca idade de alguns, e tem tudo nas mãos para chegar ao hexacampeonato.
Em 1950, o governo brasileiro gastou uma fortuna para construir o Estádio do Maracanã e permitir que 200 mil pessoas (aproximadamente 10% da população da cidade do Rio de Janeiro, naquela época) assistisse a final e a derrota brasileira. Hoje, um projeto dessa envergadura seria duramente criticado e taxado de megalomaníaco.
Mas, naquela época, o futebol já era uma paixão nacional. Em uma votação patrocinada pela Coca-Cola para eleger o craque nacional mais querido, o centro-avante pernambucano Ademir Menezes obteve uma votação maior do que a obtida pelo presidente Getúlio Vargas na sua reeleição, imaginem.
Na véspera do jogo final (onde, aliás, tudo de ruim e inadequado aconteceu na concentração da seleção brasileira), Ademir Menezes deixou-se fotografar nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Cidade Maravilhosa, entornando uma garrafinha do refrigerante famoso.

Recife, junho 2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

Imaginação


IMAGINAÇÃO

Clóvis Campêlo

Numa atitude de coragem,
atirei no presidente
(na vitrola, Bob Marley
atirava no xerife).

Neste sangrento cenário,
entre heróis e patifes,
as balas do imaginário
alimentavam meu rifle.

Como você mesmo sabe,
não sou malandro malvado
e, como Kid Morengueira,
hoje estou regenerado.

Porém, se a autoridade
declina do seu papel
de acabar com a impunidade,
mando-lhe pro beleléu.

E não tenho piedade
dessa gente sem moral
pois o povo brasileiro
merece um grande final.

Acordei sobressaltado,
findando a revolução
pois o combate travado
fora na imaginação.

Recife, 1995

sábado, 7 de junho de 2014

A Lei da Palmada


A LEI DA PALMADA

Clóvis Campêlo

Diz o dito popular que de boas intenções o inferno anda cheio. E se a voz do povo é a voz de Deus, Ele, o Todo Poderoso, mais do que ninguém, deve saber que isso é verdade verdadeira.
Além do mais, até que o ponto o Estado deve interferir na relação familiar e na educação dos filhos pelos pais? A chamada Lei da Palmada, que oficialmente se chamará Lei Menino Bernardo, em homenagem ao neto do senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Brasileiro, que acompanhou a votação da lei no colo da apresentadora Xuxa Meneghel, foi aprovada pelo Senado.
Ninguém de bom senso vai concordar de que a violência física é uma boa educadora. Se assim o fosse, a Febem já teria formado verdadeiros cidadãos, em vez de aprofundar os seus internos no caminho do crime e da exclusão social. E, se entre o nosso aparato legislativo, já temos o Estatuto da Criança e do Adolescente, para que se criar uma lei ainda mais restrita e pontual?
Por si só, a lei já é polêmica. Torna-se ainda mais discutível por incluir no rol dos seus possíveis atingidos os médicos, professores e agentes públicos que tomarem conhecimentos das violências praticadas pelos pais contra os filhos e não as denunciar às autoridades competentes. Estes poderão ser punidos com multas que atingem até o valor de 20 salários mínimos (mais de 15 mil reais). Os pais contraventores, entre outras coisas, deverão ser encaminhados para programas especiais de proteção à família e a cursos de orientação, além de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. A eles, não caberá nenhuma punição pecuniária.
Se, como se dizia antigamente, a família é a célula mater da sociedade, a violência exercitada no seu interior reflete apenas a violência reinante no ambiente social em que vivemos. E para esse mal, já existe o remédio legal adequado, muito embora ele não atinja e não modifique as suas possíveis origens. Para se modificar a relação familiar, seria necessário modificar-se a relação social, educar o homem para vida comunitária e para o respeito ao seu semelhante. E isso, efetivamente, não combina com as pretensões individualistas atuais, que nos educa para a eficiência na esperteza e na ganância do trato com o outro.
Aonde todo esse aparato repressivo e de intervenção do Estado na relação social e familiar vai nos levar, eu não sei. Mas, com alguma certeza, não será ao equilíbrio e a uma condição de evolução humana.
Quanto mais dura e lei, maior a necessidade da burla e da criação de mecanismos enganatórios. Numa sociedade onde se reflita a satisfação das necessidades sociais e a satisfação das necessidades pessoais do cidadão, cada vez menos será necessária a intervenção regulatória estatal.
Por isso, como dizia aquele antigo comercial televisivo, dura lex sed lex, no cabelo só gumex!

Recife, junho 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

Repouso


REPOUSO

Clóvis Campêlo

Calado soa o silêncio
colado ao meu ouvido
- zumbido.
O som soa coado
- silêncio.
O som coado dobrado
- ressoa.
Repousa o espaço entre
- parado.
Nem futuro, nem passado
- presente.
De movimento ressente
o tempo estagnado.
A mente sente e atalha
- trabalha.
O corpo relaxa e pousa
- repousa.
Recife, 1976