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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Confissões


CONFISSÕES

Clóvis Campêlo

A burguesia fede, a burguesia quer ficar rica.
A classe média também. Espremida entre os donos do poder no mundo e os deserdados e excluídos, a classe média treme. Mas, afinal quem somos nós? Como se definem os limites desse segmento social tão importante e ao mesmo tempo tão insignificante em suas aspirações pequenos-burguesas?
Uma grande definição das contradições da nossa classe média, foi a mim dada pelo amigo e vizinho José Carlos de Paula, um cearense radicado no Recife há muito tempo.
Quando daquele acidente aérea da TAM em São Paulo, o maior da nossa história (a imprensa burguesa sempre faz questão de super-dimensionar os fatos, torná-los hiperbólicos para vender mais e melhor as notícias), o meu amigo Zé disse que estava com a consciência tranquila em relação à "tragédia" e essa tranquilidade lhe havia sido transmitida por um dos sobreviventes ao falar em cadeia nacional que Deus é que lhe havia salvado a vida. Ora, se ele havia sido um dos escolhidos para não morer, juntamente com outros que também escaparam do monumental acidente, por que chorarmos a morte dos que não foram escolhidos para a vida? Existe aqui uma tremenda contradição sentimental e religiosa. Afinal, quem somos nós para duvidarmos dos designios divinos, não é mesmo? Por mais que William Bonner tentasse me convencer do contrário e tentasse culpar o Governo pelas estrias da pista, Zé Carlos me parecia mais convincente.
Por analogia, eu pergunto: por que devemos sempre chorar a morte dos filhos da classe média, quando diariamente são mortos e exterminados, sem nenhuma complacência, de susto, de bala ou vício, os filhos dos excluídos, dos comedores de siri na beira das marés e nas palafitas que enfeiam as nossas cidades? Afinal, em que categoria social mais se morre e se é exterminado? A classe média paga alto para chorar os seus filhos mortos. Os excluídos, nem esse direito têm.
Morremos porque a morte faz parte da vida e também porque vivemos no fogo cruzado de tensões sociais que, na maioria das vezes, nem sequer entendemos.
O sistema, independentemente de que momentaneamente está no seu comando, está se lixando para isso. Isso não lhe interessa. A sua preocupação é outra, são os lucros, os números, os superavits. Quem quiser que se exploda. Ou que exploda o outro. Para ele, somos acessórios descartáveis e interessantes apenas enquanto podemos lhes ser úteis.
A origem da violência urbana pode ser explicada sob vários ângulos ou concessões filosóficas e ideológicas. Cada um pode escolher a que melhor lhe cabe, convém ou consola.

Recife, 2009


- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 43/44.
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Todos os carnavais


Fotografia de Clóvis Campêlo/1993

TODOS OS CARNAVAIS

Clóvis Campêlo

Atrás de Vassourinhas só não vai quem já morreu. E como eu ainda estou vivo, estarei lá. Já comi o meu pão com brometo logo cedo, para induzir ao barato. O pão que o diabo não amassou. Agora só resta cair em campo e registrar a folia com a máquina e as retinas.
Pra falar a verdade, de folião só tenho o olhar e a vontade. Falta-me o folêgo, o resfolegar, o pique.
Na verdade, gosto de aprisionar o carnaval nas molduras das minhas fotografias, nas metáforas dos meus textos, nas imagens definitivas do passado entendido e dominado.
Mas, o carnaval não é apenas eu. O carnaval é todo um contexto, um pretexto para se quebrar o nexo e liberar os mais sinceros anseios, a mais patética alegria.
Na verdade, o carnaval é muito mais do que o baticum insistente das alfaias, dos tamborins, dos bumbos e taróis. O carnaval é a porta de entrada do éden, a quebra dos protocolos, um ensaio malamanhado da liberdade. O carnaval é tudo isso. Porém, só vim a perceber esse lado das coisas há algum tempo atrás.
Antes, aprisionado por sentimentos de culpa pequenos-burgueses, achava que o carnaval era o ópio do povo. E enquanto o povo ria na rua a sua alegria vadia, eu chorava pensando em como seria bom libertá-lo daquela alienação degradante. Alimentava o choro valendo-me de tudo: ditos bíblicos, dogmas marxistas, histerias freudianas.
No entanto, quiseram os deuses que eu sobrevivesse ao auto-flagelo e encarasse de frente a minha covardia diante da felicidade. Ser feliz só nos custa a tristeza, sussurrou-me um anjo escroto no dia em que me perdi de mim mesmo. E naquele caminho torto, troncho e trôpego, brilhou uma luz no fim do túnel, brilhou a estrela dalva sobre a minha cabeça frágil.
Um outro anjo safado, um chato de um querubim, executou uma música apressada em seu clarinete, uma música repleta de mínimas e semimínimas, e apresentou-se um outro cenário à minha mente conturbada. Enxergar tudo isso custou-me os olhos da cara e a escuridão da alma. Foi caro. Foi claro. Foi límpido.
Assim, livrei-me da canga e das cangalhas, dancei que nem uma guariba, cheguei em maracangalha. E lá, amigo dos rei e dos poetas, ensarilhei as armas e ensaiei o hino dos novos tempos.
Naquela terra mágica, subi e desci ladeiras, acompanhei galos, elefantes e pitombeiras, descansei na praça do jacaré, cercado de anjos cretinos, revolucionários, alegres e libertários.
E quando os meus pés cansados sentiram o calor das areias mornas da praia do carmo, percebi que a transformação se dera de maneira irrevogável, irresistível, irreversível, irretratável.
Despi-me dos pudores remanescentes e mergulhei no mar de tranquilidade que se formou no meu íntimo. 

Recife, 2009

- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 49/50.

sábado, 27 de julho de 2013

O que me atrai é o que me assusta


O QUE ME ATRAI É O QUE ME ASSUSTA

Clóvis Campêlo

Evoluir talvez seja quebrar paradigmas, romper convenções, desafiar a lógica. Se respeitarmos sempre as normas, o mundo não se move no rumo das mudanças. Seguir fielmente os modelos pré-concebidos que nos são impostos, talvez seja a melhor maneira de se apodrecer em vida e alcançar altos níveis de insatisfação pessoal.
Como já disse o poeta, gente é pra brilhar e não pra morrer de fome ou de tédio. Navegar contra a correnteza, no entanto, exige uma certa dose de coragem e de irresponsabilidade controlada. E o que mais nos poderá amedrontar nessa "contravenção" rumo à liberdade, será a percepção de que em alguns momentos fundamentais estaremos completamente sozinhos ou "mal" acompanhados.
Esse sentimento, porém, embora possa ser assustador, será o combustível necessário e que servirá de alimento aos espíritos inquietos e renovadores.
Assim sendo, o caminho da segurança não contemplará necessariamente a rota da felicidade.
Por outro lado, a felicidade poderá ser reconhecida nos atalhos acidentados de quem forja o próprio caminho caminhando.
Destoar dos padrões gerais e imobilizantes também exige uma certa dose de cautela para que a carapuça da discriminação não nos caia sobre as cabeças. Os homens "corretos", com suas leis anti-naturais, não costumam perdoar.
Enfim, sentir-se livre talvez seja ter a certeza de que somos definitivamente responsáveis por nossas vidas, nossos riscos, nossos terrores e êxtases.
Viver em comunhão conosco mesmos e coerentes com os nossos planos de vida, só nos custa isso.
Que o fogo das nossas vidas seja como a chama de uma vela acesa, que para arder plenamente se auto-consome.
Não precisamos ter medo da felicidade e da auto-satisfação.

Recife, 2009

- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 46.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Entre anjos e demônios


ENTRE ANJOS E DEMÔNIOS

Clóvis Campêlo

Que cada um cuide bem dos seus demônios.
Eu também tenho os meus e os trato a pão-de-ló.
São eles que me ressuscitam para vida quando me sinto sufocado e anestesiado pelos sons celestiais dos anjos que se vendem a prestação em cada esquina da cidade.
Que cada um cuide bem dos seus demônios.
Aproveitem enquanto ainda estão marginalizados e não se tornaram produtos rentáveis explorados pela sociedade de consumo.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, pois sem eles seríamos metade, incompletos e não beberíamos na fonte rejuvenescedora da maldade.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, explorem a sua permissividade, a sua falta de pudor, de ética, de moral, pois sem eles jamais saberíamos os limites entre o certo e o errado.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, pois sem eles morreríamos de tédio, esqueceríamos os prazeres mundanos, desconheceríamos o lado impuro e podre de cada um de nós.

Recife, 2009

- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 45.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Os erros do meu português ruim



OS ERROS DO MEU PORTUGUÊS RUIM

Clóvis Campêlo

Já se disse que a mão que afaga é a mesma que apedreja.
E é a verdade mais verdadeira.
Não pensem, porém, que haja alguma contradição nisso.
É tudo uma questão de crença.
Apenas.
Sorrimos e beijamos quando nos identificamos com o outro e tentamos destruí-lo quando achamos que as suas idéias e ideais podem ameaçar a nossa síntese ideológica, arduamente construída e mantida, sabe lá Deus, com quantas contradições e dissimulações.
Mas, graças ao Todo Poderoso, somos humanos e isso faz parte do contexto dos humanos.
Já pensou como seria chato sermos um poço de coerências e certezas cartesianas?
Eu mesmo não me suportaria!
E muito menos suportaria o outro.
Esse jogo enganatório faz parte do relacionamento humano.
Poetas, ou não, somos fingidores.
Só assim o mundo torna-se suportável.
E brincamos de esconder dos outros as nossas imperfeições do mesmo modo que procuramos descobrir neles os pontos fracos e meter o dedo nas feridas.
Fazer sangrar!
Isso diminui a nossa sensação de impotência e nos torna maiores, gigantes perante nós mesmos.
O sofrimento alheio nos redime, nos faz crescer.
Tudo isso porque somos humanos e filhos de Deus.
Tudo ao mesmo tempo agora!
Realmente, a vida é bela.
Como é belo o sonho, as utopias, as possibilidades do que não se realizou (ainda!).
É isso o que nos alimenta, o que sacia a nossa fome de novidades.
É esse o unguento preferido para as nossas próprias feridas.
É assim, tomando os outros como medida, que nos sentimos nós mesmos, que temos a dimensão da nossa grandeza e da nossa pequenez.
A vida é bela por que é ilusória e transitória.
O tempo é quem nos trai, reduz, elimina.
E quanto a isso não há o que se fazer!

Recife, 2008


- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 47/48.