quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Entre a burguesia e a revolução




 

Fotografias de Clóvis Campêlo / agosto 2017

ENTRE A BURGUESIA E A REVOLUÇÃO

Clóvis Campêlo


Já se disse que a fotografia e o cinema, enquanto artes modernas, só surgiram quando a evolução da tecnologia burguesa permitiu a criação de máquinas e engenhocas apropriadas para isso, diferentemente da música, do teatro e da literatura, artes que existem desde a Antiguidade.

No que tange especificamente à fotografia, a sua origem remonta ao Renascimento, com o desenvolvimento da câmara escura, artefato supostamente existente desde o século V aC. O uso mais intensivo dessa surgiu a partir da necessidade dos pintores renascentistas de copiarem a realidade com fidelidade.

A realidade fielmente copiada, porém, não foi e nem é suficiente para nos dar a dimensão exata do mundo multifacetado em que vivemos. Nem sempre o simulacro reproduz com fidelidade esse mundo e a sua contextualização. É aí que entra a arte do fotógrafo e a sua capacidade de fazer leituras diferenciadas. O mesmo objeto, numa mesma época e situação especial pode ter realçado detalhes diferentes e diferenciadores.

Além do mais, fotografar não é apenas perseguir o belo e o inebriante. Ao fotógrafo também se permite a caça ao grotesco, ao feio, ao sujo e ao politicamente “incorreto”.

Diferentemente do pintor, que pode dispor do tempo que achar necessário para criar a sua obra, o fotógrafo às vezes dispõe apenas de segundos para efetuar a sua captura. Um simples hiato temporal pode modificar todo o significado plástico e poético de uma imagem capturada.

Mas não era a minha intenção teorizar sobre a arte burguesa da fotografia, e sim falar sobra a sua utilização política e social. A arte de fotografar hoje pertence a todos, independentemente das suas posições, políticas, religiosas ou filosóficas. E essa apropriação é mais do que devida.

As fotografias acima, foram feitas no Pátio do Carmo, no Recife, em agosto próximo passado, enquanto aguardávamos a chegada do ex-presidente Lula e da sua caravana.

Serve para mostrar o perfil dos que o apoiam e acreditam na sua proposta política e governamental. Podemos observar não só o óbvio com também as mensagens subliminares nelas existentes. Podemos ver a democrática utilização das cores, mesmo com a predominância de alguns tons mais fortes.

E como já disse o poeta em um moderno frevo-canção, se a praça é do povo como o céu é do avião, nada mais justo do que a sua ocupação seja devidamente registrada e sirva para demonstrar e provar as suas opções e preferências.
Ao povo, o que é do povo! As lutas, a labuta, as caras, as cores, os credos, os cantos. A satisfação de simplesmente ser, sem a necessidade de subterfúgios, escamoteamentos ou cretinices.

Sem medo nenhum de ser feliz.

domingo, 10 de setembro de 2017

A Casa Navio




A CASA NAVIO

Clóvis Campêlo


Segundo o escritor João Braga, no livro Trilhas do Recife – Guia Turístico, Histórico e Cultura, a famosa Casa Navio, construída pelo empresário Adelmar da Costa Carvalho, existiu na Avenida Boa Viagem, 400. Sua arquitetura se assemelhava ao navio Queen Elizabeth, com sala de reuniões, quartos, suíte, cinema, salão de jogos, restaurante e até uma cabine de comando. Foi filmada pela Metro Golden Meyer, de Hollywood, e hospedou diplomatas e presidentes. Era um dos nosso cartões-postais, sendo demolida em 1981 para a construção do Edifício Vânia.
As informações acima são confirmadas pelo pesquisador Carlos Bezerra Cavalcanti, no livro O Recife e seus bairros. Afirma ainda que o imóvel foi construído em 1940. E, citando o historiador Napoleão Barroso, afirma: “O empresário não queria construir apenas uma casa navio e sim um transatlântico. Por causa das críticas da sua mulher e do arquiteto Hugo Azevedo Marques, construiu ao invés de um transatlântico, um iate”. Afirma ainda que até o presidente Juscelino Kubtschek foi seu hóspede.
Por seu lado, o jornalista Paulo Goethe publicou no Diario de Pernambuco, em 12/6/2016, sob o título Era uma casa engraçada, a matéria que abaixo reproduzimos na íntegra:
"Em 1940, o empresário Adelmar da Costa Carvalho (o mesmo que dá nome ao estádio da Ilha do Retiro) valeu-se da planta do transatlântico Queen Elizabeth para construir sua residência na Corta-Jaca, uma área de Boa Viagem que ganhou essa denominação porque era que ali Carlos de Lima Cavalcanti, governador vitorioso da Revolução de 1930, gostava de tomar banho. Imediatamente, os recifenses com tendência a puxa-saco começaram a mergulhar no mesmo local, desejosos de que a autoridade os visse. Na verdade, a ideia de construir sua excêntrica mansão, que virou automaticamente um cartão-postal recifense, Aldemar teve quando viu uma casa em formato de navio nas margens do Lago Como, na Itália
O empresário adquiriu, por dez mil contos, o terreno de um norte-americano residente na orla da capital pernambucana, com quarenta metros de frente. Como era o dono da maior empresa de construção do Nordeste, dinheiro, material, equipamento e operários não eram problema. Difícil mesmo foi convencer a esposa, que não queria morar em Boa Viagem, lugar distante meia hora da parte urbanizada do Recife. Mais difícil ainda foi contratar o arquiteto Hugo de Azevedo Marques, que relutou em aceitar o projeto. O renomado profissional acabou transformando o transatlântico em um iate de três andares, todo em concreto armado.
No dia 8 de julho de 1981, o Diario de Pernambuco noticiava o início da demolição da popular casa-navio, localizada no número 4.000 da Avenida Boa Viagem. O trabalho teve que ser realizado em 90 dias, por dez homens, de forma artesanal. O restaurante Tombadilho, que funcionava ao lado e oferecia até banhos de piscina a seus frequentadores, também havia sido adquirido pelo mesmo grupo imobiliário.
A casa-navio era um ponto de referência em Boa Viagem, hospedando personalidades e atraindo turistas. Até o presidente Juscelino Kubitschek participou de um encontro no local. A Metro-Goldwyn-Mayer chegou a enviar uma equipe para registrar em filme a mansão pernambucana. Maior revista em circulação do Brasil, O Cruzeiro fez também uma ampla reportagem. Ligando a avenida Beira-Mar à Navegantes, a casa-navio fez história. Tanto que parte dos comentários sobre a postagem anterior do filme sobre o Recife em 1954 era sobre ela. Demolida, tem sua história preservada aqui".
O empresário bem sucedido que iniciou a sua vida como dono de uma gráfica no bairro do São José, foi deputado federal eleito por vários mandatos e presidente do Sport Clube do Recife. O Estádio da Ilha do Retiro hoje tem o seu nome. O Edifício Vânia foi por ele construído em homenagem a uma das suas filhas, que era deficiente. Ao seu lado, hoje, na praia da Boa Viagem, também existe um prédio com o nome do empresário.

No final, complementando a nossa pesquisa, o amigo e escritor Urariano Mota nos enviou ainda o comentário abaixo:
"Clóvis, eu tenho o livro O homem da Casa Navio, de Vera Lucia Japiassu e Eliane Souto Carvalho (filha de Adelmar da Costa Carvalho). Nele, na página 130, lemos:"... foi a casa inaugurada com uma festa de Carnaval no 3o. aniversário de Eliane, em 06 de fevereiro de 1946". É claro, a construção e o projeto vieram antes. Mas a Casa Navio existiu pronta a partir de 6 de fevereiro de 1946. Abraço."


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Feira de Caruaru



A FEIRA DE CARUARU

Clóvis Campêlo

Comecemos pela Wikipédia: “A Feira de Caruaru é um importante mercado ao ar livre da cidade brasileira de Caruaru em Pernambuco. Na feira são vendidos produtos das mais variadas naturezas, desde frutas, verduras, cereais, ervas medicinais, carnes, bem como produtos manufaturados como roupas, calçados, bolsas, panelas e outros utensílios para cozinha, móveis, animais, ferragens, miudezas, rádios, artigos eletrônicos e importados. Considerada uma das maiores feiras ao ar livre do país, a Feira de Caruaru atrai pessoas de todo o Nordeste brasileiro. A feira foi considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio imaterial do Brasil”.
Segundo o site do Iphan, “a Feira surgiu em uma fazenda localizada em um dos caminhos do gado, entre o sertão e a zona canavieira, onde pousavam vaqueiros, tropeiros e mascates. No final do século XVIII, foi construída nesse local a capela de Nossa Senhora da Conceição que ampliou a convergência social e fortaleceu as relações de trocas comerciais no local. Assim, a feira cresceu com a cidade e se tornou um dos principais motores do seu desenvolvimento social e econômico”.
Ainda segundo o Iphan, “ Essa enorme feira livre, frequentada por milhares de pessoas que compram carne, frutas, verduras, cereais, flores, raízes e ervas, panelas e outros utensílios de barro, calçados, vestuário, ferramentas, móveis e eletrodomésticos usados, e ferro velho. Há espaço do artesanato ou Feira dos Artistas onde são vendidas peças de barro, madeira, pedra, metal, palha, coco, cordas, couro, tecidos, bordados e lã, além de muitos outros materiais. Barracas vendem comidas típicas (sarapatel, buchada, cuscuz, macaxeira, carne de bode, de sol, mungunzá, xerém e coalhada, entre outras) enquanto poetas e repentistas mostram seus versos”.
Essa diversidade tamanha, inspirou o compositor Onildo Almeida a compor música homônima, gravada por ele sem muita repercussão em 1956, e transformada em sucesso nacional no ano seguinte, na voz de Luiz Gonzaga.
Segundo o Diário do Nordeste, em texto de Fernando Maia, “os versos do compositor caruaruense são a síntese do que representa para os nordestinos essa autêntica realização popular. Não há qualquer exagêro de que ali tem de tudo. Localizada no Parque 18 de Maio – data da emancipação política da cidade – ocupa uma área de 43 hectares, sem contar com mais de 15 hectares que são destinados para o estacionamento de ônibus, caminhões, vans e veículos particulares, que chegam todos os dias de várias localidades do Nordeste”.
Segundo o site G1, da Globo, em matéria de Joalline Nascimento, “A música "A Feira de Caruaru" foi apresentada pela primeira vez ao público na extinta Rádio Difusora, onde Onildo trabalhava. Ele estava operando um programa em um dia de domingo quando aproveitou para melhorar a letra. "Enquanto eu lia a música, Rui Cabral, que animava o programa, chegou. Ele perguntou o que era e eu disse que era uma música. Ele disse: 'Com essas bugingangas todas?' Falei que sim e ele me pediu para cantar", recorda o compositor”.
Ainda segunda a mesma matéria, “ O rei do baião estava em Caruaru no ano de 1957 quando ouviu a música pela primeira vez. Onildo ainda não conhecia Gonzaga. "Eu conheci ele quando perguntou se a música era minha e me pediu para gravar. Claro que eu deixei". No mesmo ano, Luiz Gonzaga pediu para que Onildo fizesse uma letra em comemoração ao centenário de Caruaru. Foi quando ele compôs "Capital do Agreste". As duas músicas fizeram parte de um mesmo disco do rei do baião”.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lula no Recife






LULA NO RECIFE
Eleições Municipais 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Teresa, a poetisa coral

 

 

 Fotografias de Cida Machado

TERESA, A POETISA CORAL

Clóvis Campêlo

Teresa é poetisa e artesã, além de ser torcedora doente do Santa Cruz.
Para nós, na hora declamou diversos poemas dedicados ao clube do seu coração. Encontrei-a na Cia do Chope, em Boa Viagem, durante o carnaval, vendendo suas produções. Figura simples e dócil, mas bastante interessante.
Anda com um recorte plastificado de jornal, onde consta uma matéria publicada no Diario de Pernambuco sobre ela.
Deixo aqui a minha homenagem para essa mulher do povo, torcedora exemplar da Cobra Coral.

Recife, fevereiro 2015


COMENTÁRIOS:

"Publico, às 21h40, no blog: www.robsonsampaio.com.br. A coluna Cidades Online, no sábado e, no domingo e na 2ª.-feira, Teatro da Vida/Causos – Frases – Poesias e notícias. Divulguem e mandem notas e denúncias para o e-mail: rsampaioblog@gmail.com. Abs e obg."
Robson Sampaio, em 07/8/2017

sábado, 5 de agosto de 2017

Manual de sobrevivência entre crápulas e canalhas


MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA ENTRE CRÁPULAS E CANALHAS

Clóvis Campêlo

Meus caros amigos:

Escrevo estas mal traçadas linhas ao som de Chet Baker, Time After Time. O som me acalma a alma e o corpo. A canção não tem pressa. Nem eu. Tenho toda a manhã disponível, muito embora o sol do Recife me chame para as ruas. Difícil não atender a esse pedido, depois de meses de frio e chuva, com os quais a cidade não combina. O som do trompete em surdina domestica a manhã e invade completamente o ambiente. Relaxo e deixo o corpo pousar suavemente por sobre a cadeira da sala. Aterrissagem perfeita. Nem um lexotan me faria melhor.
Baker, americano do Oklahoma e um dos melhores trompetistas da história do jazz, faz parte do lado bom do colonialismo cultural. Se ter que ser assim, escolhamos sempre o melhor. Afinal, nem ele nem eu temos culpa das tronchuras do mundo. Suas improvisações no instrumento são calmas, precisas  e serenas. Morreu em Amsterdã, em 1988, aos 58 anos, ao cair da varanda do hotel em que estava. Até hoje se discute se a sua morte foi um acidente ou suicídio. Uma lástima, na verdade.
Time After Time é um canção que fala do amor com satisfação. É uma nave que navega em mar de tranquilidade, em dia de calmaria. Repito a dose e entro numa quase letargia. É disso que eu gosto. É disso que eu preciso.
Quanto aos crápulas e canalhas, resolvi ignorá-los. Não me fazem bem.

PS.: Minhas homenagens ao Negro Gato, que esta semana partiu em busca da grande planície, das terras de Manitu.


COMENTÁRIOS:

"Publico, às 18h30, no blog: www.robsonsampaio.com.br. A coluna Cidades Online, no sábado e, no domingo e na 2ª.-feira, Teatro da Vida/Causos – Frases – Poesias e notícias. Divulguem e mandem notas e denúncias para o e-mail: rsampaioblog@gmail.com. Abs e obg. "
Robson Sampaio, em 05/8/2017

"O som da "trompa" do Chet Baker acalma e nos adormece, é certo e pacífico, mas COMO este "frio" intenso q vc sentiu e a CHUVA, que também tranquiliza e poetiza, causou-lhe arrepios de pavor e prostração ao invés de lhe deixar entusiasmado e otimista?
E o Recife NÃO COMBINA é com o descaso e abandono do poder público, da nossa acomodação como cidadãos, com a miséria das indiferenças. A chuva NÃO atrapalha a vida e sim renova o espírito de uma cidade bem RESOLVIDA."
Aristóteles Coelho, em 05/8/2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Martha no Recife


MARTHA NO RECIFE

Clóvis Campêlo

Comecemos pelo começo, por onde se deve sempre começar.
No Marco Zero, onde se inicia o mundo, visitaremos a obra de Cícero Dias. Em obediência à rosa dos ventos, contemplaremos a cidade se expandindo em círculos concêntricos em busca da sua própria identidade e em busca dos poetas pernambucanos representados no Circuito da Poesia.
Ali mesmo, ao lado, reverenciaremos Naná Vasconcelos, com sua escultura e o seu berimbau, que providencialmente estabelece uma ligação indissolúvel entre as culturas da Bahia e de Pernambuco.
Na Rua da Moeda, saudaremos Chico Science, uma antena fincada no mangue onde mais uma vez Pernambuco falou para o mundo, e a sua revolução de beats e bites. Afinal, sempre fomos caranguejos com cérebros.
Às margens do Rio Capibaribe, sob a sombra generosa do seu chapéu de poeta, auscultaremos Ascenso Ferreira em busca de diagnosticar e identificar os ruídos modernistas que sempre o acometeram. O poeta, que nunca teve nada de besta, escolheu um lugar importante e simbólico para plantar a sua escultura. Ali, com certeza, sempre coube e sempre caberá um verbo transitivo direto.
Na ponte Maurício de Nassau, sem pagar nenhum pedágio à poesia, saudaremos o poeta Joaquim Cardozo, o engenheiro do poema, sempre atento aos entardeceres da cidade e aos transeuntes constantes e passantes. Talvez até, escutemos histórias sobre um tal boi voador. Afinal, o tempo decorrido sempre mistura memórias e imaginações.
Seguiremos adiante, passando pela Rua 1º de Março e chegando à Praça da Independência, onde Carlos Pena Filho, elegantemente trajado, entre putas, loucos e lúmpens, aguarda a hora de acender os seus poema no Bar Savoy. Seu olhar sereno contempla diuturnamente a Matriz de Santo Antônio, em torno da qual a cidade cresceu e apodreceu. Tudo no seu devido tempo.
Incólumes, atravessaremos a Avenida Guararapes, onde a vida ainda pulsa, e saudaremos Capiba na outra margem do Capibaribe. De costas para o rio, Capiba continua se guardando para quando o carnaval chegar. Nos bolsos de pedras, partituras e novas canções escondem-se contidas pela dureza da realidade implacável. Afinal, em determinados momentos, só nos cabe a inércia.
Como o Recife se fez sobre pontes e overdrives, mais uma vez cruzaremos o rio, com a naturalidade de um cão atravessando uma rua, e na paisagem úmida daquele lougradouro, após contemplarmos os casarões malassombrados da Rua da Aurora, encontraremos a secura dos poemas de João Cabral de Melo Neto, que, sentado à beira do caminho, não se cansa de contemplar o Recife da sua época. Naquele trecho do rio, onde um dia o escritor Suassuna tomou banho nu e onde os botos costumavam encantar os habitantes da cidade nos primórdios do século passado, ainda existe poesia suficiente para paralisar o poeta e seus admiradores.
Então já teremos traçado um longo trajeto, o que, para uma moça poetisa da Bahia, talvez seja uma overdose. O cheiro doce do rio, misturando-se com a brisa salobra do mar, poderá lhe causar vertigens.
Entretanto, nada disso importará desde que as emoções sobrevivam.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Cinema Atlântico


O CINEMA ATLÂNTICO

Clóvis Campêlo

Quem, como eu, tenta se habilitar a ser um pesquisar ligeiro e pouco profundo, corre o risco de surpreender-se de forma negativa com a ausência de informações virtuais sobre o objeto pesquisado. Muito embora tenhamos hoje à nossa disposição um grande manancial de informações, seja no google, na wikipédia ou em diversos blogs e sites de pertinazes pesquisadores, em determinados momentos esbarramos na ausência quase total de dados e informações. Sinto isso aqui e agora, ao pesquisar sobre o extinto Cinema Atlântico, do Pina.
Do fundo da memória, extraio apenas que o cinema marcou a minha infância e adolescência, com os filmes fantásticos de Cantiflas, Hércules, Macistes; as chanchadas da Atlantida, com Oscarito, Grande Otelo, Ankito e vários outros; os filmes de Drácula, com Cristopher Lee, etc, etc, etc.
Na grande rede, encontro um quase nada de informações sobre o cinema. Apenas no site da Universidade Federal de Pernambuco, sob o título de “Conheça a história do Recife através dos seus teatros”, descubro o seguinte: “Teatro Barreto Júnior - Localizado no bairro do Pina, foi o primeiro teatro da Zona Sul da cidade, que recebeu o nome do ator José do Rego Barreto Júnior. O espaço é resquício do Cine-Atlântico, que resistiu às demolições e fechamentos pelos quais passaram muitos cinemas do Recife no início da década de 80. A fachada ainda é mesma de seu estilo original, preservado até 1985, quando foram iniciadas as obras de restauração”.
Nem mesmo no site da Fundaj, em um bom artigo escrito por Lúcia Gaspar sobre os cinemas antigos do Recife, encontro referência ao Cinema Atlântico do Pina.
Volto à memória e relembro que do final dos anos 50 até 1971, fiz do Cinema Atlântico o meu lugar preferido para a apreciação da chamada sétima arte, com a sua programação popular e voltada para o público da classe média e do povão, que predominava no bairro naquela época.
O cinema era localizado em um prédio simples, sem muito luxo, com entradas e bilheterias pela Rua Conselheiro Aguiar e saídas pela Rua Estudante Jeremias Bastos, antiga Travessa Herculano Bandeira. Aos domingos, antes das matinês, a criançada trocava gibis na calçada principal.
Durante um certo tempo, a segurança e o policiamento do local foram feitos pela Polícia Mirim, composta principalmente de jovens e adolescentes requisitados nas comunidades mais carentes do próprio bairro. Geralmente eram pessoas conhecidas e que participavam conosco das peladas na praia do Pina. Lembro especificamente de Pinduca, um desses policiais mirins que morava numa rua próxima à nossa. Era irmão de Jorge Gabiru, um cara bom de bola que chegou a se profissionalizar e jogar em Portugal. Ganhou dinheiro e gastou tudo. Hoje sobrevive como cambista nos estádios do Recife. Costumo sempre encontrá-lo, em dias de jogos do Santa Cruz, trabalhando no Estádio do Arruda. Pinduca, hoje já falecido, tinha o dom de escrever paródias picantes feitas em cima de grandes sucessos da MPB. Uma figura e tanto. Pois bem, aos domingos, durante as matinês no Cinema Atlântico, era comum vê-lo vestido com a sua farda verde oliva tentando por um pouco de ordem naquela bagunça juvenil, uma missão quase impossível.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Vicente Celestino, a Voz Orgulho do Brasil


VICENTE CELESTINO, A VOZ ORGULHO DO BRASIL

Clóvis Campêlo

Talvez as gerações brasileiras mais novas já não saibam quem foi Vicente Celestino. Afinal, muitos afirmam que somos uma nação sem memória. Pode ser, embora se considerarmos a memória como alguma coisa utilitária, talvez encontremos justificativas para esse esquecimento.
Por isso, não nos custa nada reativar essas lembranças e trazer de volta informações ainda hoje necessária para que possamos conhecer melhor a história e as influência e desdobramentos da nossa música popular.
Filho de italianos da Calábria, Vicente Celestino nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, ainda no século 19, em 12 de setembro de 1894. Trazia, assim, na sua formação musical todos os componentes e valores reinantes naquela época, e que marcariam de forma inexequível as suas composições.
A sua voz grave de tenor, por muito tempo, e numa época em que o rádio ainda não havia sido implantado no Brasile formado ídolos e moldando preferência, impôs-se como grande cantor e grande compositor. Aos poucos, porém, depois, foi sendo preterido em nome de cantores e compositores que se utilizavam de uma linguagem mais moderna e ao gosto popular do início do século passado. Por isso, na época, a incompreensão de alguns, e, hoje, o grande esquecimento.
O cantor Orlando Silva chegou a chamá-lo de bebê chorão do rádio, por conta do sentimentalismo exacerbado repetidamente cantados por ele: chorar a traição da mulher amada, sofrer masoquistamente por amor, afogar irracionalmente as mágoas na bebida...
É claro que a afirmativa maldosa encontrava uma explicação: vinte anos mais jovem do que Vicente Celestino e sob a proteção de nada mais nada menos do que Francisco Alves, Orlando Silva alcançava o sucesso quando Celestino já decaía no gosto do povo e da crítica. Como afirma o texto de Marco Aurélio Carvalho e Marcos Leite, no site Todas as Vozes, da EBC, a voz grave ainda era ótima, mas Celestino começava a ser rejeitado pelo Teatro Municipal.
Por isso, quando Caetano Veloso, no disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circenses, lançado em julho de 1968, gravou a canção Coração Materno, com um arranjo fantástico do maestro Rogério Duprat, todos pensaram que se tratava de mais uma chacota, o que logo foi contradito pelo compositor baiano, que afirmou tratar-se de uma homenagem.
Ironicamente, Vicente Celestino morreu em São Paulo, no Hotel Normandie, em agosto de 1968, quando se preparava para participar de uma gravação em sua homenagem, na gafieira Pérola Negra, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a qual seria apresentada em um programa televisivo. Seus restos mortais foram enterrados no Rio de Janeiro, no Cemitério de São João Batista, sob os aplausos do público, depois de ser velado na Câmara Municipal por uma multidão de admiradores.
Segundo a insuperável Wikipédia, “começou cantando para conhecidos e era fã de Enrico Caruso. Antes do teatro cantava muito em festas, serenatas e chopes-cantantes. Estreou profissionalmente cantando a valsa Flor do Mal no teatro São José e fez muito sucesso e, também, entrou no seu primeiro disco vendendo milhares de cópias em 1915 na Odeon (Casa Edison).
Em 1920 montou uma companhia de operetas, mas sem nunca deixar o carnavalesco de lado, emplacando sucessos como Urubu Subiu. Rapidamente, depois de oportunidade no teatro, alcançou renome. Formou companhias de revistas e operetas com atrizes-cantoras, primeiro com Laís Areda e depois com Carmen Dora. As excursões pelo Brasil renderam-lhe muito dinheiro e só fizeram aumentar sua popularidade. Nos anos 20, reinava absoluto como ídolo da canção. Vicente Celestino teve uma das mais longas carreiras entre os cantores brasileiros”.
Ainda segundo a Wikipédia, “Vicente Celestino, que tocava violão e piano, foi o compositor inspirado de muitas das suas criações. Duas delas dariam o tema, mais tarde, para dois filmes de enorme público: O Ébrio (1946), que foi transformada em filme por sua esposa, e Coração Materno (1951). Neles Vicente foi dirigido por sua mulher Gilda Abreu (1904 - 1979), cantora, escritora, atriz e cineasta. No total, gravou em 78 RPM cerca de 137 discos com 265 músicas, mais dez compactos e 31 LPs, nestes também incluídas reedições dos 78 RPM”.
Finalmente, diz a Wikipédia: “Seu eterno arrebatamento, paixão e inigualável voz de tenor, fizeram com que o povo o elegesse como A Voz Orgulho do Brasil”.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A Primeira Comunhão


A PRIMEIRA COMUNHÃO

Clóvis Campêlo

Naquela época, a Primeira Comunhão não era apenas uma festa familiar. Era uma festa comunitária. Toda a vizinhança participava. Lembro da nossa casa no Pina bem cheia, repleta de amigos, parentes e vizinhos. Um frege, no bom sentido, já que naquela dia especial nem eu nem meus irmãos, Carlinhos e Mana, poderíamos prevaricar. Nem em pensamentos. E, confesso, não era fácil manter essa retidão de pensamento e comportamento. Tudo conspirava contra.
Estávamos todos vestidos de branco, simbolizando a pureza das nossas almas. O sacramento se daria à tarde, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, sob a batuta do Padre José, ao lado dos outros alunos do Instituto Dantas, escola que promovia o evento cristão. A festa propriamente dita seria depois, em casa, ao voltarmos da igreja. Comida e bebida, à vontade. Mas aí já estaríamos aceitos fazendo parte definitivamente da comunidade da Igreja Católica Apostólica Romana.
A Primeira Comunhão é uma celebração da Igreja Católica, onde os participantes recebem pela primeira vez o Corpo e o Sangue de Cristo em forma de pão e vinho. Para receber a Primeira Eucaristia, como também é chamada a celebração, deve o cristão saber e compreender alguns princípios e fundamentos da Igreja, como os 10 Mandamentos, os Mandamentos da Madre Igreja, suas principais orações, e os 7 sacramentos. Antes do rito religioso, o participante deve se confessar, livrando-se assim dos pecados e faltas graves cometidos.
Segundo a Wikipédia: “a Eucaristia é " o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar o sacrifício da cruz no decorrer dos séculos até ao seu regresso, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da vida eterna." (n. 271). A palavra hóstia, em latim, quer dizer vítima, que entre os hebreus, era o cordeiro, sem culpa, imolado em sacrifício a Deus”. Ou seja, exista na cerimônia toda um simbologia que deve ser entendida, pratica e respeitada pelo participante.
Não era fácil para nós, eu e meus irmãos, seguirmos tudo isso ao pé da letra. Meu pai e minha mãe não eram de frequentar a igreja e nem nos obrigavam a isso. Mas havia um misto de respeito e temor que nos fazia ir adiante sem nada questionar. Para nós, era melhor e mais seguro estar ao lado de Deus, Jesus Cristo e todos os anjos do que vagarmos indefesos e solitários sob as tentações do demônio. E além do mais, todos os nossos colegas e amigos da escola estavam ao nosso lado naquele momento e isso fazia com que nos sentissemos seguros e protegidos. Restaria-nos depois, ao longo da vida, mantermos essa chama acesa e vibrante. Intuitivamente, sabíamos que não seria nada fácil, pois são muitas as tentações e os perigos dessa vida.
A festa em casa, ao voltarmos da igreja, foi plena e vibrante. Aos poucos, porém,a casa foi esvaziando e a família ficando sozinha. Nossas roupas brancas e nossos livrinhos foram guardados e ainda hoje se encontram entre os objetos deixados por dona Tereza, minha mãe, quando faleceu.
À noite, sozinho, quando me deitei e tentei conciliar o sono, percebi que teria pela frente uma longa caminhada a percorrer, e que nessa caminhada estaria para sempre dividido entre a virtude da retidão da crença religiosa e as tentações do mundo dos homens.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mandrake e a nave aprisionada


MANDRAKE E A NAVE APRISIONADA

Clóvis Campêlo

Lee Falk nasceu em St. Louis, em 1911. Escritor e quadrinista, ao chegar em Nova York em 1936, aos 25 anos de idade, criou os personagens Fantasma e Mandrake, para apresentar ao King Features Syndicate. Mandrake logo ganhou as páginas coloridas dos suplementos dominicais, conquistando a cidade e o mundo.
Segundo a Wikipédia, Mandrake evocava a essência dos mágicos de vaudeville, que faziam espetáculos itinerantes pelo sul dos Estados Unidos, muito populares entre 1880 e 1920. As apresentações combinavam números de dança e acrobacias, música popular, encenações de operas e peças de teatro, adestramento de animais e todo tipo de “maravilhas exóticas de toda parte do mundo. Estes elementos marcaram a infância de Falk e se tornaram a matéria prima das aventuras do mágico e seu fiel companheiro, o nobre africano Lothar. O rosto do personagem, baseado no do próprio Falk, reunia todos os traços típicos do homem de aventuras exóticas que o cinema da época tinha se encarregado de mistificar: elegante, viril, enigmático, cavalheiresco e pronto para a ação”. Morando em Xanadú, numa propriedade fantástica no alto de uma colina, combatia os criminosos usando a hipnose como arma. Sua noiva, a princesa Narda de Cockaigne, fictício reino na Europa oriental, e seu companheiro inseparável, Lothar, gigante príncipe africano que abandonou sua tribo para acompanhar o mágico e surrar os bandidos com sua força, eram os personagens mais constantes nas histórias. Segundo a mesma fonte acima citada, Lothar, provavelmente, foi o primeiro personagem negro a surgir nas histórias em quadrinhos, mesmo que de uma forma caricata, usando roupas de pele e um chapéu típico turco.
Ainda segundo a Wikipédia, Mandrake era um ilusionista que se valia de uma impossível técnica de hipnose instantânea, aplicada com os olhos e gestos das mãos, e de poderes telepatas. Quando o narrador informava que ele executava seu gesto hipnótico, a arma do vilão se transformava em um buquê de rosas ou numa pomba. Na verdade, o personagem foi baseado em Leon Mandrake, um mágico que fazia performances no teatro pelos anos 20, usando uma cartola, capa de seda escarlate e um fino bigode. Estava criado o heroi que se impõe no mercado até os dias de hoje, sobrevivendo até mesmo a morte do seu criador, ocorrida em Nova York, no dia 13 de março de 1999. Falk faleceu no seu luxuoso apartamento em frente ao Central Park, vítima de um ataque cardíaco fulminante.
As histórias de Mandrake estrearam no Brasil na década de 30 do século passado, na revista Suplemento Juvenil. E assim como aconteceu com a maioria dos jovens americanos daquela década e das décadas seguintes, também marcou a vida dos jovens brasileiros, submetidos à imposição cultural que sempre marcou a nossa relação com Tio Sam.
Entre as muitas histórias por nós lidas, lembro particularmente de uma que narrava a aventura de uma nave alienígena presa em algum lugar gelatinoso do planeta Terra. A nave emite mensagens ameaçadoras de destruição do planeta, caso não seja rapidamente libertada da suposta armadilha. Desesperadas, as autoridades competentes, sempre capitaneados pela inteligência americana, tentam inutilmente localizá-la e provar que não existia da nossa parte nenhuma intenção bélica.
Nesse meio tempo, Mandrake aparece com um incômodo em um dos olhos. Algo muito pequeno lhe caíra em uma das conjuntivas e o incomodava bastante. Depois de algum tempo, resolve ir ao oftalmologista e descobre que o motivo do incômodo sentido era a pequeníssima nave alienígena. Retirada a nave do seu olho e finalmente libertada, chega a história a um final feliz.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Sentimento e solidão


Memphis Slim, o criador de Blue and Lonesome

SENTIMENTO E SOLIDÃO

Clóvis Campêlo

Houve um tempo em que dona Cida, minha mulher, esmerava-se na cozinha em receitas fabulosas. Talvez levada pela máxima de que um homem também se prende pela boca e pela barriga. Depois, cansou e confessou: “Estou sem novas ideias. Vou voltar ao trivial”. O trivial, para ela, seria o velho feijão, arroz, legumes e um pouco de carne. Funcionou à contento. Todos ficaram satisfeitos e bem alimentados.
Acredito que isso foi o que aconteceu com os Rolling Stones. Depois de onze anos sem gravar em estúdio, no final do ano passado gravaram Blue & Lonesome, um disco sem músicas inéditas e com velhas canções de blues. O trivial. Também funcionou e todos ficaram satisfeitos e bem alimentados.
A música que dá nome ao disco foi composta por Memphis Slim, pianista, cantor e compositor negro americano, nascido em Memphis, no Tenessee, no dia 3 de setembro de 1915, e falecido em Paris aos 72 anos, em 24 de fevereiro de 1988, de insuficiência renal. Seus restos mortais estão enterrados na cidade em que nasceu.
Fico pensando que voltar ao trivial foi um golpe stoniano de mestre. Setentões e podres de rico ainda teriam algo de novo a dizer para o mundo de hoje? O longo hiato talvez traduza isso.Afinal o blues pode traduzir com perfeição sentimentos entendíveis por todas as gerações. E até mesmo transformar possíveis negatividades em expressões atualizadas de contemporânea alegria. Como nos diz Daniel Corrêa em texto publicado na revista Rolling Stones: “A voz de Jagger, desgastada pelo tempo, acaba mudando o sentido que as frases tinham. De sofridos relatos de amor, muitas delas soam como vivas canções de experiência. De como o tempo traz autoconhecimento”. Falado e dito.
Aliás, quem não gosta de blues bom sujeito não é. E é preciso reconhecer que o gênero, ao desembocar no cenário urbano moderno, em terras americanas e mundiais, ganhou novas conotações. De lamentos repetidos monocordicamente para expressões de extases, foi um pulo. As guitarras elétricas ajudaram nessa metarmorfose ambulante. O blues mudou. E mesmo as velhas canções de sentimento e solidão, podem soar com outros timbres. Quem escutar, verá!
Como dizia o finado John Winter, uma boa música de blues deve sempre ser suja e barulhenta. É claro que nessa afirmativa, ele se refere ao blues do seu tempo: eletrificado, gritado e sem requintes excessivos tecnológicos de gravação. Os Stones, com as suas guitarras primárias, também conseguem isso: Blues & Lonesome é um disco básico. Qualquer outra intervenção mais requintada, como a elegante guitarra de Eric Clapton em duas músicas, pode logo ser detectada. Como diz o mesmo Daniel Corrêa no texto acima citado: “Blue & Lonesome é disco essencial para se ouvir e guardar na coleção. O único problema é a sensação de já estar ouvindo essas canções na voz dos Stones desde sempre, não como se fosse uma novidade, e não ter aquele gostinho de imaginar como seria ouvir novas canções autorais dos Stones, como o ótimo single “Doom & Gloom”, de 2012”.
Ou mesmo como diz o co-produtor do disco, Don Was, em material publicitário: “Este álbum é um testemunho manifesto da pureza de seu amor por fazer música, e o blues é, para os Stones, o manancial de tudo o que eles fazem”. Mais uma vez, falado e dito.
Para mim, só nos resta escutá-los!

terça-feira, 6 de junho de 2017

O cinquentão Sargento Pimenta


O CINQUENTÃO SARGENTO PIMENTA

Clóvis Campêlo

Lançado no Reino Unido no dia 26 de maio de 1967, o velho Sargento Pimenta completou cinquenta anos de vida bem vivida. No Brasil, não lembro a data do seu lançamento, mas foi um rebuliço tremendo. Estávamos em plena ditadura militar e os Beatles enveredavam pela psicodelia. Barato total.
Para mim, comprar o disco não foi fácil. Aos dezesseis anos de idade, ainda sem trabalhar e vivendo numa família em crise existencial e financeira, tive que me virar. Junta daqui e junta dali, chegamos ao patamar desejado. Conseguida a quantia necessária com uma pequena ajuda dos amigos, lá fomos nós para a Casa Rubi, na Rua do Sol, no centro antigo do Recife, às margens do Rio Capibaribe, comprar a preciosidade. Afinal, o nordestino é, antes de tudo, um forte.
Decepcionante foi chegar em casa e verificar que o alto-falante da minha pequena vitrola, havia estourado. Era a hora de mais uma vez exercitar a criatividade. Liguei a pequena caixa de som no alto-falante da televisão em preto e branco do meu pai, uma velha Müllard cansada de guerra, e funcionou. Logo o som estridente se espalharia pela sala. Extasiado, eu queria mais, Não me cansava de ouvir aquilo tudo, para desespero da velha Macionila, a nossa secretária, uma interiorana da cidade de Lagoa dos Gatos, que carinhosamente chamávamos de Lila. Reclamou da música estranha e pediu uma música de Vicente Celestino. Fui impiedoso. Aquela não seria a hora adequada para fazer concessões. Ela que tratasse de entender e gostar dos Beatles. Afinal,o LP gravado com todos os requintes da tecnologia de ponta e da criatividade da época estava sendo escutado naquela gambiarra funcional. Pra mim, ótimo!
Ali estava o oitavo LP da banda que revolucionava a música pop. O disco era conceitual e inovador, não só pelas músicas criadas, como pelas técnicas de gravação utilizadas pelo grupo e seus engenheiros. Não havia como ignorar tudo isso. Entre o mar e a maré, o Pina dos anos 60 estava antenado e ligado nas novidades do grupo. Hoje, no auge da maturidade cronológica mas ainda apaixonado por tudo o que os Beatles foram, são e serão, leio coisas engraçadas que foram escritas sobre o grupo e o disco, naquela época.
Por exemplo: “Sgt Peppers “reconcilia os ideais estéticos diametralmente opostos da música clássica e da psicodelia, angariando uma síntese psicoclássica das duas formas musicais”. Engraçadíssimo! Mas dá para entender? Quem disse isso foi um tal de Nahptali Wagner, para mim, um ilustre desconhecido, uma eminência parda, pegando carona no sucesso do momento.
Outra joinha: “Além de importante trabalho da psicodelia britânica, o disco de multigêneros incorpora diversas influências estilísticas, incluindo, vaudeville, circense, music hall, avant-garde, e música clássica ocidental e indiana”. Não sei quem falou isso, mas está lá na wikipédia. Era inteligência demais para a minha cabeça adolescente. E enquanto as galinhas cacarejavam no quintal, eu aumentava o volume pra curtir aquele rock'n'rool. A novidade vinha dar na praia do Pina. Graças a Deus e aos Fab Four. Naquele momento, a felicidade não era uma arma quente. A felicidade era poder olhar a cara aparentemente tranquila do Sargento Pimenta.
Je vous salue, meninos de Liverpool!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Grafite, o último rei do Arruda


Fotografia de Gabriel Campêlo

GRAFITE, O ÚLTIMO REI DO ARRUDA

Clóvis Campêlo

Como aconteceu com outros grandes jogadores que já passaram pelo Arruda, Grafite também deixou o seu nome gravado na história do Santa Cruz, Aliás, não só o seu nome, como também a sua imagem estampada nas paredes das arquibancadas corais, onde está desenhado como o último Rei do Arruda. Acompanhe a trajetória desse grande jogador e artilheiro e veja como ele foi importante no ressurgimento do Santinha na elite do futebol brasileiro..
Seu nome verdadeiro é Edinaldo Batista Libânio. Nasceu na cidade de Jundiaí, em São Paulo, no dia 2 de abril de 1979, no Ano Internacional da Criança.
Começou a sua carreira futebolística na Sociedade Esportiva Matonense, clube da cidade de Matão, que disputa as divisões inferiores do futebol paulista, fundado em 24 de maio de 1976, apenas três anos antes do nascimento do craque.
Em seguida, foi para Araraquara, defender a Ferroviária daquela cidade, clube mais antigo e tradicional do futebol paulista, criado em 1950. De Araraquara para o Recife, foi um pulo. Em 2001, chegava pela primeira vez às Repúblicas Independentes do Arruda para iniciar uma relação com o Santinha que se estenderia até os dias de hoje.
No Arruda, entre 2001 e 2002, disputou 22 jogos pela Cobra Coral, marcando apenas cinco gols, mas chamando a atenção pelas boas atuações e por sua frieza diante dos goleiros adversários na hora de finalizar.
Do Santa Cruz foi para o Grêmio Portalegrense, em 2002, onde disputou nove partidas sem marcar nenhum gol. Em 2003, foi contratado pelo Anyang Cheetaas, da Coreia do Sul, de onde, no segundo semestre veio para o Goiás, destacando-se no Campeonato Brasileiro daquele ano, marcando 12 gols em 20 jogos.
Em 2004, embalado pela boa fase no Goiás, foi para o São Paulo Futebol Clube, onde formou no ataque titular ao lado de Luís Fabiano, marcando 27 gols em 73 jogos. No São Paulo, em 2005, mesmo passando um bom tempo machucado, ajudou o clube e se tornar Campeão Brasileiro naquele ano, e Campeão Mundial de Clubes, participando dos jogos da semifinal e da final. Em função das suas boas atuações pelo tricolor paulista, foi convocado por Carlos Alberto Parreira para a Seleção Brasileira de Futebol, onde disputou quatro jogos, assinalando um gol contra a Guatemala, no jogo que marcou a despedida de Romário da seleção.
Em 2006, ganhou o mundo indo atuar na França, pelo Les Mans, onde em 51 jogos marcou 16 gols. Em 2007, foi o Wolfsburg, da Alemanha, onde em quatro anos e 131 jogos disputados, foi autor de 76 gols. Pelo clube alemão, conquistou, em 2009, o inédito título do Campeonato Alemão, sendo ainda o artilheiro da competição com 28 gols marcados e batendo o recorde de 53 gols de Gerd Müller e Uli Hoeneb, marcando 54 gols numa mesma temporada. Era a glória e a consagração definitiva do grande artilheiro na Europa.
Antes de voltar ao Santa Cruz, em 2015, ainda atuou pelo Al-Ahli Club, de Dubai, onde marcou 66 gols em 85 jogos, entre 2001 e 2014, e pelo Al-Sadd Sports Club, do Qatar, em 2015, onde jogou nove partidas, marcando um gol.
De volta ao Santa Cruz, foi recebido em grande estilo no Estádio do Arruda, onde chegou de helicóptero para delírio da torcida coral. Estreou contra o Botafogo carioca, no Campeonato Brasileiro da Série B, marcando de cabeça o gol da vitória e terminando a competição como vice-campeão, o que levou de volta o Santinha à Série A do Campeonato Brasileiro, em 2016.
Nesse mesmo ano, foi campeão da Copa do Nordeste e do Certame Estadual, realizando o sonho de conquistar títulos com a camisa coral, o que não havia acontecido antes. Ao todo, entre 2015 e 2016, participou de 71 jogos com a camisa coral e marcou gols, numa passagem brilhante e vitoriosa.
Ao sair do clube, em dezembro de 2016, rumo ao Atlético Paranaense, deixou nas redes sociais a seguinte mensagem de despedida:
"Queria agradecer a todos os jogadores, técnicos, diretores e especialmente funcionários, que são a base do nosso sucesso no dia a dia, por este um ano e meio de convívio, irmandade e lutas, porque sabemos que o dia a dia no Santa não é fácil. A saída não está sendo do jeito que imaginávamos que seria um dia, mas foi amigável, sem mágoas ou rancor de minha parte e vi que por parte do nosso 'Querido Presidente' Alírio Moraes também, em comum acordo decidimos que era melhor eu sair, sabemos das dificuldades que o clube vive administrativamente, vai ser melhor para ambos!"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dias piores virão


DIAS PIORES VIRÃO

Clóvis Campêlo

Há épocas em que tudo parece conspirar contra nós ou contra as nossas vãs filosofias e ideologias. Não só fatores internos, como elementos externos também. Como se já não nos bastassem o passar do tempo e a sua ação deletéria sobre nós e a matéria que nos sustenta e mantém a nossa relação com o mundo exterior que nos cerca. Envelhecer não é fácil. Por isso, dias piores virão!
Com certeza, o enfraquecimento físico do indivíduo favorece o afrouxamento do seu ideário. Em determinados momentos viver não é preciso. Preciso será sobreviver. E isso requer adaptação aos novos tempos e adversidades. Já se disse que na prática a teoria se modifica. A idealização excessiva pode modificar o mundo, mas também pode nos reter prisioneiros em uma bolha imaginária onde nem sempre a perfeição será alcançada.
Vivemos hoje em um mundo que nem sempre caminha no sentido em que o desejamos. Talvez nem mesmo isso tenha acontecido em algum tempo. Temos hoje nas prateleiras ideias diversas que nos são servidas prontas e nem sempre questionadas ou revistas. A grande maioria, porém, nem a isso alcança. Prefere aceitar a prática repetitiva e patológica, achando que essa tranquilidade aparente e monótona é o objetivo final da vida. Para que se inquietar? Afinal, são vários os ópios do povo, inclusive os possíveis antídotos.
E embora a inquietação excessiva não deva ser a meta, estar aqui e agora não deixa de ser preocupante para quem insiste em pensar e questionar os parâmetros consagrados.
Houve um tempo em que se dizia que a saída estaria nos nossos aeroportos. Sair seria viver e ficar apodrecer. Muitos saíram e não voltaram. E nem todos os que ficaram caíram na podridão. Afinal, o processo é muito mais dinâmico do que pensávamos e nem sempre (ou nunca), para alegria geral dos inadaptados, existirá o controle perfeito.
Para mim, não adianta mais falar em estados do bem-estar social. A matilha retornou com fome e sede de sangue. Finda a revolução que nunca houve de fato, restará a briga pelo espólio. Aos tolos, as migalhas!
Admito que talvez ainda nos seja necessário abrir mão da misericórdia, do sentimento religioso da salvação. Não será essa mais uma ideia inventada?
Ou mesmo desinventar as soluções coletivas. Será isso mesmo que a maioria ignóbil quer?
Como diria o poeta reacionário, talvez só nos reste o último tango argentino em Paris...

domingo, 23 de abril de 2017

Pixinguinha


PIXINGUINHA

Clóvis Campêlo

Este texto visa tão somente homenagear o compositor Pixinguinha no dia do seu nascimento.
Foi no dia de hoje, Dia de São Jorge, que Alfredo da Rocha Viana Filho nasceu na cidade do Rio de Janeiro.
Segundo a Wikipédia, Pixinguinha era filho do músico Alfredo da Rocha Vianna, funcionário dos correios, flautista e que possuía uma grande coleção de partituras de choros antigos. Aprendeu música em casa, fazendo parte de uma família com vários irmãos músicos, entre eles o China (Otávio Vianna). Foi ele quem obteve o primeiro emprego para o garoto, que começou a atuar em 1912 em cabarés da Lapa e depois substituiu o flautista titular na orquestra da sala de projeção do Cine Rio Branco. Nos anos seguintes continuou atuando em salas de cinema, ranchos carnavalescos, casas noturnas e no teatro de revista.
Ainda segundo a Wikipédia, Pixinguinha integrou o famoso grupo Caxangá, com Donga e João Pernambuco. A partir deste grupo, foi formado o conjunto Oito batutas, muito ativo a partir de 1919. Na década de 1930 foi contratado como arranjador pela gravadora RCA Victor, criando arranjos celebrizados na voz de cantores como Francisco Alves ou Mário Reis. No fim da década foi substituído na função por Radamés Gnattali. Na década de 1940 passou a integrar o regional de Benedito Lacerda, passando a tocar o saxofone tenor. Algumas de suas principais obras foram registradas em parceria com o líder do conjunto, mas hoje se sabe que Benedito Lacerda não era o compositor, mas pagava pelas parcerias.
Considerado hoje como um dos maiores compositores da música popular brasileira, na sua época Pixinguinha pagou o preço da excessiva modernidade como compositor. Algumas composições suas, como Carinhoso (1916-1917) e Lamentos (1928), foram consideradas excessivamente influenciadas pelo jazz. Por sinal, essa mesma crítica, anos depois, seria feita por alguns analistas mais radicais às composições do maestro Tom Jobim. Ambos sobreviveram e conquistaram o reconhecimento merecido.
Pixinguinha faleceu no dia 17 de fevereiro de 1973, Dia de Santo Aleixo Falconieri, um dos fundadores da Ordem dos Servidores de Nossa Senhora, santo de poucos devotos no Brasil.
Aos 72 anos de idade, morreu na Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, quando se preparava para ser padrinho de um batizado. Em várias biografias suas consultadas na internet, não conseguimos identificar quem seria o felizardo a ter Pixinguinha como padrinho de batismo.
Pixinguinha passou os últimos anos da sua vida no bairro de Ramos, que adorava e foi enterrado no Cemitério de Inhaúma.
Ao grande compositor, nossa singela homenagem.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Para onde iria Bandeira?



PARA ONDE IRIA BANDEIRA?

Clóvis Campêlo

Para onde iria o poeta Bandeira todo vestido de branco e arrastando consigo aquela mala preta? Não aparenta grande esforço, apesar do ar cansado. À sua frente, segue a amiga Maria de Lourdes Heitor de Souza. Sugestivamente, quatro rapazes que compõem involuntariamente a imagem caminham em sentido contrário. Iria o poeta para Pasárgada, onde sempre foi amigo do rei? Estaria fugindo do beco em busca de ares menos rarefeitos?Para o poeta Drummond, que lhe dedicou alguns poemas, Bandeira não foi para Pasárgada porque não era esse o seu destino. Com certeza, não se habituaria lá. Para ele, Bandeira era homem de viver em seu território próprio e intransferível, homem dolorido e experiente que subjugara o seu desespero a poder de renúncia, vigília e ritmo.
Na fotografia acima, Bandeira parece carregar na mala o leve e inseparável peso da vida. Parece ter plena consciência de que já não haveria mais tempo para largá-la e recomeçar. Olha para a frente com a certeza de que já conhece o caminho a seguir. Não lhe interessa nem mesmo a bifurcação da calçada por onde transita. Não lhe parece haver outro rumo ou a possibilidade de retorno. Apenas caminha e vai.
Em outro poema chamado de Itinerário, o poeta Drummond traça o caminho inicial do poeta Bandeira, que se inicia na Rua da Ventura e chega à Rua da Saudade, passando pela ruas da Soledade, da Aurora e do Sol, e formando um halo em torno da Rua da União. Na visão de Drummond, o poeta Bandeira, verdadeiro itinerante, atravessava o Recife com a naturalidade de quem sabe que ali apenas começava o grande caminho.
Em mais outro poema, agora chamado de Rotinas, o vate mineiro, com conhecimento de causa, diz que o poeta Bandeira, cumprindo sem revolta e sem amargura o estatuto civil da pobreza, enfrenta uma crepuscular fila de ônibus em Copacabana, tendo na mão esquerda um livro e a tradução da tragédia alemã. Em outro território, o mesmo exercício da simplicidade e do despojamento. Um homem simples, embora sensível e poeta.
Bandeira sempre foi um homem de ir. Em Clavadel ou em Quixeramobim. Mesmo sabendo que o futuro poderia ser uma terra incerta e pedregosa. Do Recife ao Rio de Janeiro, a mesma certeza de que haveria a hora da chegada, assim como houve a hora da partida. Ao poeta modernista, não cabem revoltas. Apenas conhecimento e resignação.
Ao deixar o beco, simbolicamente Bandeira pouca coisa levava, como da vida pouca coisa se leva. Talvez imaginasse o grande encontro com o ineludível, com a passagem, com a transmutação final. Ao deixar o beco, embarcaria em um grande automóvel preto onde poderia ser vista no seu rosto uma tranquilidade consciente e inalienável. Ao deixar o beco, Bandeira tornava-se imortal e imorrível, uma referência segura e incomparavelmente bela.

Recife, março 2016

Fonte: Bandeira a Vida Inteira. Edições Alumbramento/Livroarte Editora, Rio de Janeiro, 1986.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Galo


O GALO

Clóvis Campêlo

Lá vem o Galo! De novo? Afinal, estamos em um novo sábado de Zé Pereira. E sábado de Zé Pereira, no Recife, é sinônimo do Galo da Madrugada.
Durante anos, sai de casa cedinho para fotografar as fantasias do Galo no Forte das Cinco Pontas. Era a hora mais tranquila para isso. Porque depois, quando o bloco descambava pelas ruas do bairro de São José, no centro de Recife, não tinha mais quem juntasse os cacos. Na Rua da Concórdia, então, ninguém se entendia, muito embora todos escapassem no final. O Galo obedecia ao princípio da democracia, permitindo a todos o prazer da folia. Nada de camarotes globais e refrigerados. Sempre gostei de ir para as ruas, misturado com a alegria e as fantasias do povo. No carnaval do Galo e do Recife, nenhuma imaginação deveria ser castigada.
Mas também tinha gente que não gostava do Galo, ou do seu gigantismo midiático. Mestre Liêdo Maranhão mesmo era um deles. Alegava que aquilo não fazia sentido e acabava com a tradição do carnaval de rua do Recife. Dizia que o Galo era a Itaipu do carnaval recifenses, numa referência à imensa imensidão daquela obra. Afinal, cadê as orquestras de frevo tocando no chão e arrastando muita gente? Para dar conta da sua dimensão, o Galo reinventou os trios elétricos. Se tudo começou na Bahia, não importava. Bastava que tocassem a autêntica música pernambucana, o frevo. No início foi assim. Depois, começaram a introduzir outros ritmos. Diversidade ou oportunismo?
Liêdo Maranhão, na sua turrice, não deixava de ter razão, já que o Galo, segundo Enéas Freire, o seu próprio criador, surgiu para reviver os antigos carnavais de rua, em contraste com o predomínio, na época, dos bailes carnavalescos dos clubes sociais.
Assim, com essa intenção, o primeiro desfile do Galo aconteceu no dia 23 de janeiro de 1978, saindo o clube da sua sede, na Rua Padre Floriano, acompanhando por 75 foliões fantasiados de alma. Essa informação está no site da Fundaj, em texto de Virgínia Barbosa. Mais o Galo cresceu, cresceu e cresceu.
Em 1995, foi considerado oficialmente pelo Guiness Book, como o maior bloco de carnaval do mundo, Em função disso, o Galo alimenta até hoje estatísticas nem sempre confiáveis. Dizem até que em determinado ano já chegou a colocar nas ruas mais de 2,5 milhões de foliões. Talvez tenham razão. Talvez seja mais uma lenda a ser alimentada sobre o Galo. Ou bichinho danado, esse Galo! Criou asas e nunca mais se aquietou no terreiro!
No mesmo texto da Fundaj citado, encontramos a informação de que o estandarte do Galo foi criado por Mauro Freire, filho do fundador e presidente perpétuo do Bloco. É composto por um galo colorido num poleiro, tendo um sol dourado atrás, três máscaras, confetes, serpentinas e notas musicais do nosso ritmo, o Frevo. Por seu lado, o hino do bloco foi criado pelo compositor José Mário Chaves. A partir de 20 de fevereiro de 2009, o Clube de Máscaras O Galo da Madrugada passou a ser considerado, além do maior bloco carnavalesco do mundo, Patrimônio Imaterial de Pernambuco.
Como todo bom pernambucano, eu espero um ano pra cair na brincadeira. O Galo é coisa nossa. Indispensável. Vamos nessa!

Recife, fevereiro 2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Sobre prédios, pomares e modernidade


Rubem Braga no seu "jardim aéreo", em Ipanema

SOBRE PRÉDIOS, POMARES E MODERNIDADE

Clóvis Campêlo

Passa o tempo e os hábitos e costumes sociais vão mudando. O que antes era proibido e condenado socialmente passa a ser aceito. Do mesmo modo, o anteriormente permissível passa a ser visto como retrógrado e superado. E assim caminha a humanidade.
Na maioria das vezes, isso tudo é movido por interesses pecuniários e comerciais. Nem sempre as mudanças significam evolução nos hábitos e melhorias nas condições de vida dos cidadãos. E isso, às vezes, é complicado.
Há 50 anos atrás, eu estudava no Ginásio Pernambucano e tinhas como professor de música um senhor chamado Miguel Barkokebras. As suas aulas eram sempre interessantíssimas e repletas de discussões amplas, gerais e irrestritas. Não apenas estudávamos a sua matéria, como discutíamos sobre tudo e sobre todos. Já naquela época, o professor Barkokebras dizia que a saída para as cidades modernas seria a verticalização. Que num futuro bem próxima, as pessoas se amontoariam em prédios altos para resolver a questão habitacional. E ele estava certo. Esse tempo já chegou.
Para quem, como eu, teve uma infância repleta de quintais e espaços livres para brincar, isso pode parecer terrível. Meus filhos ainda alcançaram uma fase de transição, entre as casas e os apartamentos. Meus netos, porém, já nasceram e estão crescendo em apartamentos. Isso modifica todo um modo de vida. Até mesmo as brincadeiras infantis se modificam e precisar ser adaptadas aos novos tempos e espaços. Deixam-se de lado as atividades físicas e predominam os jogos e brincadeiras em computadores. Mudam as crianças e mudam os seus relacionamentos e as suas visões do mundo. E isso parece ser irreversível.
Se no Recife esse processo de mudanças foi mais lento, em cidades brasileiras mais evoluídas, como o Rio de Janeiro, ele aconteceu bem mais antes. Nos anos 70, a verticalização já atingia de forma contundente bairros nobres cariocas, como Ipanema. Lembro que, naquela época, o Pasquim já fazia uma campanha cerrada contra essa verticalização desenfreada e contra a especulação imobiliária que tomava conta de bairros diversos do Rio de Janeiro.
O escritor Rubem Braga, considerado por muitos como um dos maiores cronistas brasileiros de todos os tempos desde Machado de Assis, por exemplo, conciliou tudo isso morando na cobertura de um pequeno prédio, em Ipanema, onde cultivava jardins e várias árvores frutíferas. Rubem Braga, aliás, nasceu no Espírito Santo, na cidade de Cachoeiro do Itapemirim, onde também nasceu Roberto Carlos. Antes de se fixar no Rio de Janeiro, segundo a Wikipédia, também morou no Recife, onde dirigiu a página de crônicas policiais do Diario de Pernambuco, e onde fundou o jornal Folha do Povo. Posteriormente, efetivou residência no Rio de Janeiro, onde viveu até a sua morte, em 19 de dezembro de 1990. Ainda segundo a Wikipédia, foi inaugurada no dia 30 de junho de 2010 a terceira saída da estação General Osório do Metrô em Ipanema, que conta com duas torres com dois elevadores ligando a Rua Barão da Torre ao Morro do Cantagalo, que recebeu o nome de Complexo Rubem Braga, em homenagem ao escritor que por anos morou na cobertura do prédio vizinho à estação.
Voltando ao Recife e às moradias modernas, porém, as mudanças provocadas pelas construções verticais desenfreadas influem não só no nosso modus vivendi, mas também em problemas estruturais de ordem prática. Com o aumento da densidade demográfica que isso provoca, surge a necessidade de um maior consumo de água, de uma maior geração de dejetos e esgotos, de um estrangulamento nos sistemas viários e de transportes coletivos. Ou seja, a cidade cresce e a sua complexidade aumenta.

Recife, fevereiro 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre quintais, passarinhos e cachorros


SOBRE QUINTAIS, PASSARINHOS E CACHORROS

Clóvis Campêlo

No Pina, tive uma infância que hoje não existe mais. A casa dos meus pais tinha um quintal onde proliferavam as árvores frutíferas. E com elas, vinha a passarinhada. Ao mesmo tempo, o nosso quintal confrontava-se com o terreno da Escola Estadual Landelino Rocha onde abundavam os pés de oiti da praia e oiti coró. Neles, em época de reprodução, várias espécies faziam seus ninhos.
Os papacapins, aves que na época não tinham muito valor, naquelas condições propícias, reproduziam-se pra valer. Tornavam-se mesmo uma praga, famintos, invadindo os nossos alçapões e comendo as iscas que utilizávamos para passarinhar. Meu pai gostava de criar passarinhos e tinha época que havia mais de 30 gaiolas para serem diariamente cuidadas. Como o velho acordava cedo e cedo saía para o trabalho na repartição pública onde dava expediente, a responsabilidade com as aves sobrava para mim e para o meu irmão Carlinhos. Revezavamo-nos diariamente nessa labuta que, apesar de tudo, era-nos bastante agradável. Naquele tempo, criar passarinhos em cativeiro era socialmente aceitável e não se configurava no “crime ecológico” de hoje.
Como no nosso quintal havia uma profusão de árvores frutíferas, também era grande a quantidade dos passarinhos comedores de futas, os chamados “passarinhos de molhado”. Desses, meu pai não gostava muito por sujarem em demasia as paredes de casa. Mesmo assim, eram comuns os sabiás, guriatãs, sanhassus, xexéus, concrizes, arapongas, com suas plumagens coloridas e seu cantos diferenciados. Entre os comedores de alpistes e painço, proliferavam os canários da terra, os curiós, patativas e caboclinhos, galos de campina, os já citados papa-capins, azulões, cravinas e bigodes.
Lembro com saudade desse tempo pela liberdade e pelo espaço que nós, enquanto crianças, tinhamos para brincar. Além de tudo, havia mais respeito e consideração entre os vizinhos e amigos. Vivíamos em uma comunidade que se tratava e agia como tal. A insegurança pública e os amigos do alheio ainda não nos assustavam tanto.
Um dia, acordo cedo e vejo o meu pai observando algo junto ao portão. Aproximei-me para ver o que era e ele me avisou: “Não chegue muito perto pois ela pode lhe morder”. Era uma cadela toda branca (logo tornou-se a famosa Branquinha) que havia parido um único cachorrinho malhado em preto e branco. Esse filhote cresceu, tornou-se um belíssimo vira-lata e ganhou o nome de Rex, por conta do seu porte imponente. Viveram conosco até o dia em que a família de desfez, com a separação dos meus pais. Hoje, não consigo mais lembrar que destino tiveram quando saímos daquela casa e, acompanhando minha mãe, fomos morar em um apartamento em Boa Viagem.
A partir daí, nosso estilo de vida mudou. Morar em apartamento exige novas atitudes e, assim, demos adeus aos quintais e passarinhos do Pina. Cachorros, ainda houve uma outra fêmea da raça pequinês, chamada Lili, que nos acompanhou durante alguns anos. Lili era mansa e dócil e terminou por ser levada por alguém com quem simpatizou. Deixamos o portão aberto e foi por ali que ela saiu para nunca mais voltar. Talvez tenha sofrido um pouco, pois cachorros são fiéis e não trocam de dono com tanta facilidade. Talvez tenha tido a sorte de encontrar alguém generoso e que a tratou com o carinho e o respeito que merecia.

Recife, fevereiro 2017