quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Água mole em pedra dura pedra pedra até que pedro


ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA PEDRA PEDRA ATÉ QUE PEDRO

Clóvis Campêlo

Pedro, a primeira ideia que nos veio à mente foi procurar o significado do seu nome no Google, esse dicionário moderno e que nos explica todas as incógnitas.
E veja só o que encontramos:

Pedro Henrique: Conjugação dos nomes Pedro e Henrique. Significa "rocha" e "governante da casa".
O nome Pedro tem origem no grego pétros, que significa "pedra", ou "rocha".
Henrique é um nome do germânico Heimirich, que quer dizer "Senhor do lar". É o resultado da junção das palavras heim que significa "lar" ou "casa" e rik, que quer dizer "senhor".

Ou seja, seu nome foi escolhido por seus pais antes mesmo de você nascer, quando ninguém imaginava as dificuldades pelas quais você passaria nos primeiros momento de vida. Não foi fácil, mas você a tudo superou, Pedro de pedra que foi desde o começo.
A sua fragilidade aparente e inicial, fez com que toda a família reunisse energias para a superação.
E você conseguiu, cresceu, tornou-se um menino bonito, forte e inteligente.
Um orgulho para todos nós que te amamos cada vez mais.
Talvez hoje você ainda não consiga entender o significado profundo de tudo o que aqui está escrito. Mas, não faz mal. A vida se constrói aos poucos. Para eu pressa? Você tem todo um futuro pela frente e nós sabemos que vai ser um futuro brilhante e de sucesso.
Seja feliz, meu filho!
Cresça e apareça!
Você merece!
Com um beijo dos seus avós Clóvis e Cida

Recife, out/2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Todos os blues


TODOS OS BLUES

Clóvis Campêlo

Confesso que já descobri o blues eletrificado e entrando na maioridade, no final dos anos 60. E o primeiro bluseiro que me chamou a atenção e atingiu os meus ouvidos foi o albino Johnny Winter, o sivuca do blues. Gostava daquela guitarra lisérgica, com solos nervosos e ácidos, muito barulho. Aliás, em uma das suas frases mais marcantes ele diz exatamente isso, que todo blues deve ser sujo e barulhento. Ou seja, uma música de contestação cultural e comercial. Nada de concessões. Hoje, setentão e quase cego, Johnny ainda faz a cabeça de muita gente pelo mundo a fora, muito embora a sua música e o estilo de tocar tenha se tornado menos agressivo e mais melódico. Talvez a maturidade já esteja chegando para ele.
Depois, surgiu na minha frente um furacão chamado Jimi Hendrix. Se Winter era avassalador, Hendrix era (e ainda é) completamente revolucionário, levando o ouvinte a refazer todo o seu entendimento do que era o roque, o blues, o modo de se tocar uma guitarra elétrica. Seduzido por ele, eu sempre quis mais. Com Hendrix, não havia pedras no caminhos. Tocando, arriscava-se sempre em saltos mortais para cair sempre de pé, no local certo, na hora certa. Uma porrada nos nossos ouvidos numa hora em que o rock ameçava se institucionalizar.
Lembro que nos anos 80 fiz o “sacrifício” de levar o meu filho mais novo, Gabriel, na época ainda criança, ao Cinema São Luiz, no centro do Recife, para assistir ao filme He-Man. Gostei do filme e pirei mais ainda na sequência em que o herói enfrenta o Esqueleto numa loja de discos ao som de Purple Haze, de Hendrix. Inesquecível.
Depois descobri Muddy Waters, Howlin Wolf e o blues de Chicago. Um som intermediário e de transição entre os bluseiros mais antigos e tradicionais.
Daí para Robert Johnson foi um pulo, ajudado pela versão fantástica que os Rolling Stones deram a sua música Love it Vain, no disco Sticky Fingers. O som de Johnson já define o blues de três acordes que marcaria as gerações posteriores de bluseiros urbanos americanos e ingleses.
O mergulho final nesse processo de resgate e de conhecimento do blues mais antigo e tradicional veio com a ajuda dos amigos Osman Frazão e Bartolomeu Lima, com os quais, durante alguns meses, apresentei na Rádio Universitária AM do Recife o programa Boa Noite Blues.
Lá, nas noites das sextas-feiras, colocávamos no ar o som de bluseiros ancestrais, como Charley Patton, com o seu som monocórdio e retilíneo, que em muitos momentos nos lembravam os sons dos violeiros que circulam pelas feiras livres do sertão nordestino.
O blues mudou, modernizou-se e conquistou uma nova clientela, inclusive entre os jovens da ascendente classe média brasileira, com novas bandas, como o Blues Etílico e a Uptown Blues Band, que se arriscam a fazer fusões musicais inusitadas e belas.

Recife, 2011

domingo, 27 de outubro de 2013

O caminho do poeta


O CAMINHO DO POETA

Clóvis Campêlo

Não saberia sorrir
cruzando as águas do rio,
lembrando que o poeta
por ali passou um dia.

Talvez o seu existir,
por falta de algum brio,
por medo de alguma meta,
não tenha sido alegria.

Talvez não tenha sentido
o azul claro do céu,
a brisa morna do mar,
os sons que cantam a vida;

talvez tenha preferido
da tristeza todo o véu,
o frio da noite a reinar,
a dor sangrando a ferida.

Recife, 2010

sábado, 26 de outubro de 2013

A batida da satisfação


A BATIDA DA SATISFAÇÃO

Clóvis Campêlo

Muitos poetas e compositores já confessaram ter passado por isso: acordar no meio da noite com uma ideia latejando na cabeça, anotá-la ou registrá-la em um gravador simples e retomar o processo criativo na lucidez do dia seguinte.
Assim também aconteceu com Keith Richards. Despertou na madrugada, com a frase “I can't get no satisfaction” lhe perturbando o juízo. Registrou a ideia e poucos dias depois, em parceria com Mick Jagger, estaria pronto um dos maiores sucessos da banda The Rolling Stones e uma das maiores músicas da história do rock'n'roll em todos os tempos. Isso aconteceu em 1965.
Quase 50 anos depois, assim como os Stones, a música ainda impressiona pelo vigor da melodia e pela atualidade crítica da letra. Tanto é assim, que na época do seu lançamento foi tocada inicialmente apenas em estações de rádio pirata por ser considerada sexualmente muito sugestiva e por ser percebida como um ataque ao status quo. Em compensação, “Satisfaction” hoje faz parte inclusive do acervo do Congresso norte-americano. Coisas desse mundo moderno em que vivemos.
A letra, escrita na sua maior parte por Mick Jagger, em que pese o sonho predestinado de Richards, aborda a incapacidade de um jovem em atingir o prazer sexual e toda ansiedade que lhe provoca a propaganda consumista do sistema, seja nas rádios ou nos canais de televisão (e nessa época, não existia ainda a internet e outras mídias mais modernas). Como diriam os velhos compositores dos Novos Baianos, o produssumo sempre queimou a bagagem.
Consta que a música foi gravada pela primeira vez em 10 de maio de 1965, com uma levada folk e Brian Jones tocando harmônica. Dois dias depois, os Stones a regravaram com Brian Jones ao violão e Keith Richard criando o solo distorcido que marcou definitivamente a música. Ainda não satisfeito com o resultado final, o guitarrista queria gravar outra versão, sendo convencido, porém, pelo restante do grupo a manter a segunda gravação que logo estouraria nas paradas de sucesso. Dizem os pesquisadores que o sucesso da música impulsionou as vendas da guitarra Gibson utilizada por Richards, esgotando todo o estoque disponível do instrumento até o final de 1965. Um estrondo.
Na versão final da música, porém, o que também nos impressiona é a bateria selvagem de Charlie Watts, baterista que integra o grupo desde 1963 e que participou de todos os discos da banda. Considerado pelos críticos como um dos maiores bateristas surgidos nos últimos 40 anos, Watts tem forte influência do jazz e é um dos mais antigos membros da banda, ao lado de Mick Jagger e Keith Richards.
Milionários e badalados, estes senhores sobreviveram ao tempo e hoje tocam por pura satisfação.

Recife, 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

A última pantera


A ÚLTIMA PANTERA

Clóvis Campêlo

És a última pantera
a me assustar a memória,
o fim de longa história,
a derradeira quimera.

Temo o teu olhar escuro,
tuas garras afiadas,
e imagino-te sentada
a me esperar no futuro.

A ti não peço clemência,
sei que nada adiantaria,
quando vir a sonolência.

Peço-te apenas, no dia
da tua interveniência,
que seja breve a agonia.

Recife, 2010

sábado, 19 de outubro de 2013

Pescadores e operários


PESCADORES E OPERÁRIOS

Clóvis Campêlo

Quando eu era menino lá no Pina, queria que o futuro chegasse logo e quebrasse os grilhões da infância que me forjava. A meninice tinhas suas limitações, embora também tivesse as suas vantagens, algumas das quais eu só iria perceber bem depois quando a nostalgia da vida adulta me atingisse.
Portanto, não me eram suficientes os quintais repletos de fruteiras onde disputávamos os frutos com os passarinhos. Muito menos a praia imensa onde pescávamos e jogávamos futebol. Nem o areal do Aeroclube, onde apanhávamos capim barba-de-bode para a construção de viveiros e gaiolas. Com certeza, o futuro me faria ultrapassar essas fronteiras e limites.
Naquela época, o tempo parecia caminhar lentamente. Era cansativa a rotina criativa da natureza. Queria ver o mundo dos homens, mesmo que fosse construído de concreto e maldades.
Acreditava que tudo ali era eterno e para sempre. Não sabia ainda que o para sempre sempre acaba. Estava acostumado a ver os pescadores saírem de manhã cedo para a labuta no mar. Moravam junto da maré, ao lado dos operários em construção, que também madrugavam. A diferença era que os primeiros iam trabalham de calção e camiseta, acompanhados por uma garrafa de cachaça. Os operários em construção não tinham esse direito. Calçavam velhas botinas pesadas e roupas pardas e padronizadas. Precisavam de transporte coletivo para chegar ao trabalho, enquanto os pescadores caminhavam decididos sobre a areia da praia. Muitas eram as histórias de morte entre eles, como a de seu Joca, que despencara do décimo andar do edifício que ajudava a construir no Recife Antigo, que naquela época chamávamos de Rio Branco, numa referência a estátua do Barão que até hoje ilustra a praça do Marco Zero. Ou as histórias de coragem de pescadores enfrentando tubarões e percorrendo sem rumo durante dias as águas nem sempre tranquilas do mar do Pina. Era um povo sofrido mas acostumado ao trabalho duro e pesado. Davam vazão à alegria quase sempre contida nas gafieiras do bairro, nas troças carnavalescas ou mesmo nos balcões das barracas que vendiam cachaça e conhaques de alcatrão. Vida simples e que se repetia nos filhos e netos, a maioria condenada ao mesmo destino. Parecia que a vida os marcara de forma definitiva.
Mas, mesmo naquele reduto espacial, onde o tempo caminhava em câmera lenta, as mudanças iam ocorrendo. Primeiro foram abrindo novas ruas e avenidas. Os manguezais foram sendo aterrados e dando lugar a novas construções para as classes sociais ascendentes. O povo foi sendo empurrado para longe e junto com ele também se foram as suas crenças e manifestações culturais. Adeus ao terreiros de candomblé, aos pastoris, aos bumba-meu-boi e caboclinhos, aos maracatus e fandangos. Junto com as novas classes sociais ascendentes, a televisão despontava na esquina. Era o futuro que eu tanto esperava.
Hoje, sinto falta daquilo tudo.


Recife, 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

O círculo e o quadrado


Fotografia de Clóvis Campêlo/2009

O CÍRCULO E O QUADRADO


Clóvis Campêlo

Há muito tempo que estava querendo escrever sobre o Movimento Sem Terra. Não queria, no entanto, emitir idéias enciclopédicas, formadas em cima de informações repassadas pelos órgãos (de)formadores de opinião ou de informações preconceituosas.
Queria escrever um texto que retratasse uma experiência pessoal, construtiva, vivida por mim dentro do movimento, mesmo que essa referência estivesse no passado, há alguns anos atrás.
A fotografia acima foi feita em 1996, em um acampamento do MST no município de Condado, na Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco. Essas crianças eram filhos de agricultores ali acampados e que esperavam a regularização da terra para começar a produzir.
Nessa época, eu trabalhava na Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, que sempre prestava um apoio logístico e financeiro ao movimento.
O que me atrai na fotografia é a singeleza da sua composição. No seu despreendimento infantil, o menino não notou que compunha o equilíbrio da foto com as duas figuras geométricas: o círculo, formado pelo pneu, e o quadrado da camiseta, além, é claro, da simpática vaquinha malhada.
Essa criançada alegre, filhos de pessoas excluídas do sistema de produção da monocultura da cana, na sua alegria, em nada se diferenciavam de qualquer outra criança, independente da sua condição ou classe social. Estavam ali acompanhando os pais, na esperança de dias melhores e de uma intregração social mais justa.
No precário acampamento, todo montando em barracas feitas de lona de plástico preto, havia ainda uma escola para eles, um posto médico improvisado e uma pequena igrejinha.
Na terminologia do MST, o acampamento difere do assentamento porque está montado em terras que ainda não foram desapropriadas e distribuídas.
Indiferente a isso, a criançada cumpria o seu papel de simplesmente ser feliz, além de aprender que a vida comunitária, embasada no suprimento das verdadeiras necessidades do homem para sobreviver, pode ser exercida com plenitude e dignidade.

Recife, 2009

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A quietude tudo sana


A QUIETUDE TUDO SANA

Clóvis Campêlo

A quietude tudo sana
nem que movimento seja
a vida que a gente veja,
a visão que nos engana.

Entre a ilusão e o real,
instituem-se conceitos,
alguns, na razão perfeitos,
outros, mentira ideal.

No entanto, prossegue a vida
por ambos abastecida,
indiferente e fatal,

pois dentro do movimento
que seduz ao pensamento
viaja a morte, afinal.

Recife, 1992

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Serpentina


SERPENTINA
Fotografia de Clóvis Campêlo 
Recife/PE, 1992

sábado, 5 de outubro de 2013

Ruim de serviço


RUIM DE SERVIÇO

Clóvis Campêlo

Sou mesmo ruim de serviço. Nunca aprendi o pulo do gato, embora tenha pernas longas e ágeis de sagitário. Nunca as usei para fugir da polícia, como canta o poeta, mas me ajudaram a correr atrás de bola. E isso sempre me causou prazer.
Talvez até seja essa mesma a questão: a essência do prazer! O pulo do gato passa por aí, pelo exercício constante da sua procura, pelo empenho sem parcimônia dessa busca incessante, patológica, exaustiva.
O chute na bola, não! A bola sempre buliu comigo. Redonda, girandola, ágil, inquietamente sem rumo. Em suma, o sumo. A autorrealização. O equilíbrio em torno de si mesmo. A busca do gol, a meta final defendida por qualquer um dos goleiros opositores. A bola, quando bem executada, destrói exércitos.
A intimidade com a bola não vem do acaso. Transpõe fronteiras genéticas, projeta-se futuristicamente. Vem do passado e se firma no presente fugidio. A sua leitura não respeita as convenções temporais. É abstrata, desconstrutiva, enquanto o pulo do gato necessita de um espaço para se efetivar e estabelecer a infraestrutura do prazer.
Chuto, logo existo. E assim se consolida a jogada, bem sucedida ou não. O desdobramento já implica em outras regras, outros passes, outra hora. Se a perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro que joga na seleção, o gol é a superação de todos os impedimentos, de toda uma estratégia de resistência. O gol é o golpe final.
Uma outra diferença substancial: o gol nunca se realiza sozinho. É um feito coletivo, supõe uma equipe por trás (ou diante) do lance final.
O pulo do gato, não. É egoístico, pessoal, excludente e enganatório pela própria natureza.
O gol pressupõe um objetivo comum, construído coletivamente e por trás do qual está toda uma multidão representada.
O pulo do gato nos lança na individualidade desenfreada, na solidão da conquista mal remunerada e nem sempre gratificante ao final.
Por trás de cada uma dessas artimanhas, está toda uma concepção de vida, uma cosmovisão, uma proposta adulterante ou reconstrutiva do mundo e dos seres que o fazem. Enfim, é no gol ou no pulo do gato que se revela o caráter intrínseco de cada um de nós, dos nossos antecedentes e posteriores, até que alguém quebre essa sequência nem sempre lógica e pertinente e restabeleça o fluxo em sentido contrário e nem sempre antagônico, mas sempre complementar.
É no fim, enfim, que vislumbramos o (re)começo, o em torno, o entorno, o retorno, o contorno do abjeto objeto.
Consolida-se a alma de borracha, o longo e sinuoso caminho através do universo, mesmo que estejamos parados, pirados ou purificados.
Tenho dito.

Recife, 2013


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O surto


O SURTO
Vídeo de Clóvis Campêlo
Recife, PE, 2009

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ariano Suassuna subindo o Morro da Conceição



ARIANO SUASSUNA SUBINDO O MORRO DA CONCEIÇÃO
O escritor, entre os fiéis, subindo o Morro da Conceição
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 1993

Entardecer


ENTARDECER
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, PE, 1992