terça-feira, 27 de setembro de 2016

Castelos de areia




 

CASTELOS DE AREIA
Recife, setembro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

sábado, 24 de setembro de 2016

Bueiro e impeachment da presidenta Dilma


BUEIRO E O IMPEACHMENT DA PRESIDENTA DILMA

Clóvis Campêlo

Em tempos idos, Bueiro já foi cabra respeitado no bairro do Cordeiro e adjacências. Hoje, asmático e negro velho, vive pacífica e pacatamente no seu barraco.
Chama-se na verdade, José Carneiro. O apelido surgiu no tempo em que ainda era malandro atuante. Uma noite, perseguido pela polícia, para escapar, escondeu-se em um bueiro de esgoto, onde, durante algumas horas, conviveu com baratas e ratos. Escapou da polícia, porém.
No entanto, uma outra versão diz que o apelido advém da grande quantidade de marijuana que fumava nos tempos da malandragem e da juventude. Pode ser. Não o conheci nessa época.
Sabedor de que era torcedor fanático do Santa Cruz, há algum tempo atrás, presentei-o com uma camisa do Mais Querido. Não uma camisa oficial, confesso, daquelas que custam os olhos da casa. Comprei uma “similar”, na Rua do Rangel, no centro histórico do Recife, a qual foi recebida por ele com muita alegria. Sua alegria, porém durou muito pouco. Na primeira lavagem, a camisa foi roubada da janela do seu barraco, onde ele improvisa um varal em dias de sol quente. Um outro sujeito mais esperto, também torcedor do Santa Cruz, suponho, levou-a sem constrangimentos. A vida é mesmo assim: tanto nos dá quanto nos retira coisas preciosas.
Jardineiro de mão cheia, depois que deixou a malandragem, Bueiro sempre se virou cuidando dos jardins e das plantas da vizinhança. No entorno do seu barraco, sempre há mudas de hortelã (miúda e graúda), alfavacas, babosa, jasmins de cheiro, capim-santo e outras coisas mais. Mas, na medida que a idade foi avançando e as crises de asma tornando-se mais assíduas, Bueiro foi declinando dessa atividade. Chegou ao ponto de, muitas vezes, precisar da ajuda dos amigos e vizinhos para garantir o fubá e a sardinha do café da manhã. Sem lenço e sem documentos, nem ao menos podia recorrer aos recursos da seguridade social e da previdência pública.
No entanto, na eleição municipal passada, foi ajudado e salvo por um candidato a vereador local, que lhe conseguiu a segunda via da carteira de identidade e a concessão de um benefício de prestação contínua do INSS, também conhecido como loas, direito garantido para quem é pobre na forma da lei e não tem nenhuma outra fonte de renda, além de nunca ter contribuído para a previdência social. Ou seja, renda distribuída com justiça pelo governo federal
De pobre de marré-bê-cê, Bueiro passou a ser beneficiário do INSS. Ajeitou o barraco, trocando as paredes de madeira por alvenaria; comprou uma bicicleta nova para lhe garantir a locomoção e o transporte; passou a comer e a se vestir melhor. Logo lhe apareceu uma candidata a companheira, disposta a dividir com ele o barraco novo e os minguados. Sua vida se transformou de maneira positiva e decente.
Mas, o que teria isso tudo a ver com o impeachment da presidenta Dilma? Nada, se o nosso personagem não recebesse o falado e, geralmente, tão criticado benefício de prestação contínua.
Segundo a Wikipédia, fonte que tanto me apraz consultar, o benefício de prestação contínua,prestado pelo INSS, consiste em uma renda de um salário-mínimo para idosos e deficientes que não possam se manter e não possam ser mantidos por suas famílias. Considera-se idoso quem tem mais de 65 anos e deficiente quem não possui capacidade para a vida independente e para inserção/reinserção social e no mercado de trabalho. A família deve ter renda per capita menor que um quarto de salário-mínimo, mas recentes decisões judiciais aceitaram critérios mais elásticos para cumprir o espírito da lei, que é beneficiar famílias em condição de miséria. Se já houver um idoso da família recebendo o BPC, isso não será considerado no cálculo da renda familiar para concessão de um segundo benefício. O BPC não pode ser acumulado com outros benefícios previdenciários.
Esse benefício valioso para os excluídos e que põe em prática a distribuição de renda sistemática e justa por parte do governo federal, está na mira da reforma previdenciária prevista pelo novo governo. Isso é de se temer!


Recife, setembro 2016

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Dona Maria vai à praia


DONA MARIA VAI À PRAIA
Recife, agosto 2016
Fotografia de Clóvis Campêlo

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia de Olinda


IGREJA DE NOSSA SENHORA DA MISERICÓRDIA DE OLINDA

Clóvis Campêlo

A Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia é um pequeno templo católico da cidade de Olinda, no estado brasileiro de Pernambuco, construído em 1540 e que possui na fachada o brasão do rei D. Sebastião.
Suas origens remontam ao século XVII, quando antes do grande incêndio de 1631 já havia registro das atividades, no mesmo local, de uma igreja com uma enfermaria anexa. Destruída sua sede pelo fogo, os Irmãos da Misericórdia abandonaram a cidade e se instalaram no Arraial do Bom Jesus até 1635, passando depois a administrar um hospital criado no Engenho de São João da Várzea, voltando para Olinda somente após a retirada holandesa, em 1654.
No ano seguinte o antigo templo queimado foi reconstruído no mesmo sítio, mas ora em menores proporções. Deve ter sofrido várias reformas ou acréscimos até fins do século XVIII, uma vez que há diversas datas inscritas na fachada e no interior, sendo a última de 1771, sobre o arco do cruzeiro.
Entrando a Casa de Misericórdia olindense em decadência no século XIX, o hospital foi extinto em 1860, mas seu prédio, junto com o da igreja, foram cedidos em 1896 à Ordem Beneditina. A igreja foi tombada pelo IPHAN em 1938.
A Igreja da Misericórdia está situada à beira de um declive acentuado à esquerda, e possui um adro com muros de arrimo e escadaria de acesso assimétrica. A fachada é singela mas elegante, com uma feição geral barroca e com reminiscências da renascença portuguesa. O frontispício, em torno da entrada única, é sóbrio, apenas com duas volutas que se alçam sem apoio, e sobre elas um brasão real em relevo. De ambos os lados, janelas com lintel em M achatado, arrematado por um pequeno florão com motivo de concha. Os marcos são de pedra de arenito, assim como as pilastras nas extremidades, as cornijas e o perfil do frontão, em voluta dupla coroado por uma cruz e e pequenos pináculos. À esquerda da igreja, o campanário, com duas janelas quadradas, cornija, abertura em arco para o sino e coruchéu em bulbo rodeado de pináculos.
No interior a nave tem paredes caiadas, remanescentes de azulejaria sob o coro e rica obra de talha no teto, onde pinturas ilustrando cenas da vida de Nossa Senhora são emolduradas por grossos frisos entalhados. No painel do centro, uma imagem da Virgem da Misericórdia. O piso é de ladrilhos de desenho geométrico, e se destaca à direita da nave um púlpito com dossel, igualmente de rica decoração.
Junto ao arco do cruzeiro, de pesada moldura com ornamentação de complexidade quase churrigueresca, há dois altares laterais com dossel e expressiva estatuária, especialmente o da direita, com um Cristo Escarnecido de fino acabamento. A capela-mor é completamente revestida de entalhes, douraduras, pinturas decorativa marmorizadas e painéis a óleo, num estilo já tendendo ao rococó, com destaque para o formoso frontão do retábulo, com grande voluta em S, medalhão central e arremate em cúspide. No nicho central, um crucifixo e, abaixo, a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia. O teto da capela é também pintado com perspectiva ilusionística de arquitetura e um brasão real ao centro.
Na sacristia se preservam um lavatório de mármore de duas cores, de origem portuguesa, e várias peças entalhadas em jacarandá, além de objetos de culto em metais preciosos. Apesar de sua grande riqueza a igreja até 2005 estava em mau estado de conservação, com muitas pinturas e entalhes em estado de decadência.

Fonte: Wikipédia

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Casa de Banhos


A CASA DE BANHOS

Clóvis Campêlo

Ficava situada nos arrecifes que separam o oceano do porto da cidade do Recife, nas proximidades da antiga Ponte Giratória. Foi construída em 1880 por Carlos José de Medeiros, que solicitou autorização do Governo para a construção. Era uma construção de madeira e ferro que lembrava um navio sem mastro.
De início, funcionava como a residência do construtor e da sua família, que posteriormente resolveu explorar comercialmente o local, transformando-o em uma hospedaria para fins medicinais. Foi denominado oficialmente como Grande Estabelecimento Balneário de Pernambuco, ficando conhecido no boca do povo, no entanto, como Casa de Banhos.
Segundo a Fundaj, em 1902, possuía cinco banheiros que permitiam o uso simultâneo de 350 pessoas. Continha 102 compartimentos próprios para a higiene dos banhistas, um grande salão de refeições, duas salas, um gabinete de leitura e outras dependências.
No início do século XX, o local era frequentado pelos recifenses e também era muito procurada pelos estrangeiros, tanto para o repouso quanto para os banhos salgados nas suas piscinas naturais.
Nos jornais recifenses eram propagadas as suas condições de higiene e conforto e citadas as curas de várias doenças, inclusive o beriberi, alcançadas por hóspedes que frenquetavam o local, a preços nunca superiores aos cobrados pelos hotéis da época.
As roupas utilizadas para os banhos eram feitas de baeta, um tecido felpudo de lã, e os calções estendiam-se até os joelhos.
Consta que a Casa de Banhos transformou-se em negócio tão próspero que foi comprada pelo inglês Sydney Rodhes, que introduziu vários melhoramentos e inovações nos locais, aumentando também a tabela de preços. Isso provocou a intervenção do Governador do Estado, general Emídio Dantas Barreto, que alterou o primeiro regulamento do estabelecimento, datado de 31 de outubro de 1895, reduzindo os preços e tornando obrigatórios e gratuitos a concessão de banhos diários para vinte doentes pobre da Santa Casa de Misericórdia do Recife.
No final da década de 1920, depois de um período de decadência, a Casa de Banhos foi destruída por um incêndio.

Recife, 2010

Admirável mundo novo


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Clóvis Campêlo

O ovo da serpente está na chocadeira. Creio que devemos aguardar, já que não nos restam muitas outras opções. Como toda máquina irracional, a chocadeira limita-se a cumprir o papel que lhe foi designado, sendo para ela indiferente a origem do ovo a ser chocado e, muito menos, as intenções de quem lá o colocou. Afinal, não deve caber à máquina desafiar a determinação humana.
Se aos venenos cabe a função de autodefesa, inerente a muitas espécias, a peçonha difere por seu um instrumento de ataque e domínio. Por conseguinte, é muito mais mal-intencionada. Isso, analisando as questões sob a lógica ilógica do ser humano, pois aos animais não cabem questionamentos sobre o que a natureza lhes destinou. Se a composição existe é porque a ela cabe alguma função equilibrante no seio das coisas naturais. A perfídia é unicamente humana. Afinal, evoluímos para que?
Pensar, contrapor definições, arquitetar planos, tudo isso faz parte da natureza humana. Aos animais, cabe apenas o instinto de preservação da espécie e de sobrevivência do indivíduo. As leis que regem isso não se transformam ao sabor das conveniências, embora possam evoluir e sofrer transformações decisivas. No equilíbrio persistente da natureza, não há lugar para subterfúgios.
O subterfúgio escamoteia as várias faces da verdade, criando um ilusório jogo de espelhos e de falsas imagens e concepções. Muitos se perdem por aí. Muitos se arrependem depois, embora não tenham a noção do mal causado aos outros ou a si próprios e busquem explicações idiotas ou a autopunição, perdidos no vácuo inútil a que foram atirados por si mesmos.
Aos animais, também não cabe a inocência. As suas mentes animais não acumulam informações e atitudes inúteis e desnecessárias. Submetidos às tensões constantes da guerra da sobrevivência, exercitada diuturnamente, não lhes cabem definições românticas ou imbecis. É correr ou morrer.
Se nós, humanos, no uso imperfeito dos 10% da nossa cabeça animal, não tivéssemos exagerado na elaboração de tantas regras sociais inúteis e enganosas, talvez não estivéssemos hoje perdidos dentro de nós mesmos, nesse labirinto imagético. Essa ilusão nos leva a pensar que nem mesmo precisamos nos preocupar com as nossas sobrevivências. As instituições e as normas é que devem cuidar disso. Então, para que alimentar angústias? Nem mesmo conseguimos mais explicar os erros de percurso. Acompanhamos a boiada nessa vida de gado marcado. Ah!, admirável mundo novo.
Alguns acham que mesmo assim evoluímos. As novas gerações se distinguirão pela capacidade de abstração e domínio dessa nova realidade virtual e positivamente esquizofrênica (se isso for possível!). No entanto, será cada vez mais difícil e impossível estarem aqui e agora. E as suas sobrevivências poderão estar cada vez mais ameaçadas pelo tipo de comportamento mental adotado. Afinal, será mais fácil caçar pokémons do que fugir instintivamente dos perigos da vida real.
Seremos mais felizes, então? Pouco importa! Os artefatos químicos darão conta disso. Afinal, eles também são comercialmente viáveis.

Recife, setembro 2016