sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Quando o dia não nasce no mar


QUANDO O DIA NÃO NASCE NO MAR

Clóvis Campêlo

Em São Luís do Maranhão, o sol não atravessa a cidade como um cão corta uma rua ou um rio sangra uma planície aluvional. Em São Luís, o dia não nasce no mar.
Em São Luís do Maranhão, o sol e os ventos marinhos fazem caminhos distintos.
São Luís olha para o Norte, para o Caribe, além da Bahia de São Marcos.
Fundada em 8 de setembro de 1612, é a única cidade brasileira inventada pelos franceses. São Luís é diferente. São Luís mistura o baticum do boi-bumbá com a cadência do reggae. São Luís é multicultural.
São Luís é democrática: divide a ilha Upaon-Açu (Ilha Grande, na linguagem dos extintos tupinambás, seus primeiros habitantes), com as cidades de Raposa, Paço do Lumiar e São José do Ribamar.
São Luís tem história: tombada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1997, São Luís possui um acervo arquitetônico colonial com mais de 3.500 prédios, que ocupam mais de 220 hectares do seu centro histórico. Entre eles, o Palácio la Ravardiére, construção de 1689, onde hoje funciona a Prefeitura da cidade.
Apesar da sua origem francesa, São Luís tem a maior fachada externa de azulejos portugueses do Brasil.
São Luís é festa. São Luís comove. São Luís nos deixa com um gosto de quero mais.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Oh linda situação!










Fotografias de Clóvis Campêlo 2012

OH LINDA SITUAÇÃO!

Clóvis Campêlo

Olinda é sempre uma festa para os olhos.
Seja a arquitetura centenária das suas igrejas, como a Igreja da Sé, sejam os seus casarões antigos em ruas recobertas por calçadas de pedras portuguesas.
Seja nos seus bonecos carnavalescos, como o boneco do bloco Barbapapa, de Hilário Nóbrega, seja nos bonecos criados pela população para enfeitar as lojas de artesanato que se espalham pela parte histórica da cidade.
Nada mais bonito do que a visão do porto do Recife que se tem no Alto da Sé. Ou os seus telhados ancestrais com eiras e beiras.
Pode ser ainda a beleza das mulheres olindenses ou a própria vista do céu e do mar, que em Olinda adquire mais intensidade.
Olinda é sempre uma festa para os olhos.

dezembro de 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A voz de um cantor


A VOZ DE UM CANTOR

Clóvis Campêlo

Tudo em Aristides Guimarães nos acalma. Inclusive os blues. Aristides não tem pressa. Nunca teve. Aristides é zen. Talvez por isso tenha se mantido tão jovial ao longo do tempo. Talvez por isso, só tenha lançado o seu primeiro disco em 2006.
Essa espera, porém, não nos trouxe desvantagens. Pelo contrário. O seu trabalho é um trabalho de quem nunca fez concessões ao sistema; de quem nunca se preocupou em atender aos anseios, nem sempre escrupulosos, da mídia. É um trabalho limpo.
Essa atitude transparece já na primeira música, Branca de Rendas, onde, cercado de ventos, o artista se permite ajeitar as pastilhas de plástico colorido de uma pulseira encontrada nas areias da praia de Pitimbu.
Essa mesma ausência de pressa diante da vida o leva a observar, da janela de casa, as luzes coloridas dos semáforos e o silêncio da noite, em De Madrugada.
Esperar, aliás, é um dos verbos mais conjugados nas letras das composições. Esperar a passagem do sol, da chuva, de um amor duvidoso (Passageiro do Sol). A espera, inclusive, demonstra a passividade zen do indivíduo-observador diante da vida. Aqui, o verbo não significa ação. Significa tolerância, quietude e equilíbrio.
Em entrevista ao Programa Sopa Diário da TV Universitária, em 22/3/2006, quando do lançamento do seu CD, Aristides comparou-se ao compositor Cartola, na arte de esperar, que só veio a gravar o primeiro disco aos 70 anos de idade.
Eu iria mais longe nessa comparação. As músicas de Cartola sempre nos falam do momento posterior aos conflitos emocionais vividos pelo poeta quando o horizonte já se mostra novamente promissor e radiante.
Em Aristides, vamos encontrar a mesma atitude: é sempre latente o prazer de olhar o ambiente e os objetos ao seu redor (a cidade parada de madrugada, a chuva invadindo o chão da casa, a lua flutuando acima do prédio). Nesse cenário, Aristides movimenta-se com cuidado, com cautela, embora absolutamente à vontade, para que não se quebre o encanto e o equilíbrio destes instantes mágicos do poeta consigo mesmo. Até mesmo a ausência da pessoa amada é cantada com esperanças de realizações futuras.
O único momento evidentemente nostálgico do disco vamos encontrar em Acalma um Blues. Mas, aí não é a "voz" de Aristides que se manifesta e sim a do parceiro Geraldo Maia.
Ilude-se, porém, quem acha que, na sua passividade zen, o compositor é apenas intuitivo e não tem um "norte" na elaboração das suas músicas. Embora não faça concessões, Aristides usa com desenvoltura todas as opções disponíveis na hora de compor ("gosto de samba, rock, funk, de maracatu e blues"). Isso fica claro em A Linha da Raiz.
Para finalizar, gostaríamos de falar sobre a música Você Roubou os Meus Segredos, remanescente dos tempos do Laboratório de Sons Estranhos (LSE). Despida da roupagem pop daquela época, ganhou um excelente arranjo de Fernando Barreto, com direito a metais em surdina e tudo o mais.
Por tudo isso, Aristides Guimarães elaborou um disco com pretensões de tornar-se cult.
Quem experimentou, viu!


PS.: Texto escrito em 2006 quando do lançamento do CD do cantor e compositor e postado originalmente no blog Inútil Paisagem.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Francisco Julião (II)







FRANCISCO JULIÃO
Recife, 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo

sábado, 8 de dezembro de 2012

Francisco Julião (I)







FRANCISCO JULIÃO
Recife, 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Banho de cuia


BANHO DE CUIA

Clóvis Campêlo

Seu Afonso era um dos biscateiro mais conceituados do Pina naquela época. Espécie de braço direito do meu pai, era ele quem fazia tudo lá em casa, desde o esgotamento da fossa, até a pintura da casa, serviços de encanador ou eletricista ou mesmo a construção de algum cômodo extra.
Quando o meu pai comprou os dois toneis de duzentos litros, cada um, para suprir a falta de água crônica no bairro, ele foi convocado para cimentá-los e o fez com competência. No Pina dos anos 60, a água só chegava nas torneiras à noite. Durante o dia, só na torneira do quintal, entre os dois coqueiros vermelhos que o meu pai plantara e que alimentava sistematicamente com salitre do chile, é que chegava um filete incerto e frágil. Banho de chuveiro, nem pensar. O que prevalecia era o banho de cuia ou, quando chovia, o banho na bica que ficava na quina do telhado, ao lado do pé de goiaba branca da China.
Não era à toa que dona Rosa havia construído no quintal da sua casa, no famoso Beco da Tapa, um banheiro coletivo para os banhos públicos e pelos quais cobrava preços módicos.
Do mesmo modo, na Rua Estudante Jeremias Bastos, onde eu morava, havia o chafariz público de dona Quitéria, e outro no Encanta Moça, onde os vendedores de água abasteciam as carroças puxadas por cavalos para vender o precioso líquido nas ruas e comunidades próximas.
Essa situação só se modificaria nos anos 70, com a construção pelo DNOCS do açude do Rio Tapacurá, afluente do Rio Capibaribe, inaugurado em 1973, na cidade de São Lourenço da Mata, e com uma capacidade máxima de 94,2 milhões de metros cúbicos. O açude acabaria com os problemas de fornecimento de água na zona sul do Recife, mas, nessa altura, já havíamos nos mudado do Pina.
Isso tudo me veio à mente agora com a informação divulgada pela grande imprensa de que o fornecimento de água no Grande Recife estará comprometido e racionado até o dia 10 de dezembro para priorizar a continuidade das obras da Cidade da Copa. Uma sacanagem imposta pela FIFA e pelo grande capital internacional que vem investindo nesse acontecimento. O futebol, hoje, faz parte da rentável (para eles) indústria do entretenimento, justificando o abuso e o sacrifício da população metropolitana.
Mesmo com o Recife sendo apenas uma sub-sede, com a realização de um pequeno número de jogos, somos obrigados a suportar isso. Já não basta terem alterado a leis em vigor para permitir aos gringos pagarem em dólares pela cachaça consumida.
Toda a infra-estrutura exigida pelos organizadores e patrocinadores da Copa do Mundo de 2014 não visam o bem da população, e sim, garantir a possibilidade de lucro para as empresas investidoras. Para mim, o cúmulo da patifaria.
Enquanto isso, sou obrigado a voltar ao banhos de cuia dos meus tempos do Pina.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ariano Suassuna e Rachel de Queiroz






ARIANO SUASSUNA E RACHEL DE QUEIROZ
Recife, 1991
Fotografias de Clóvis Campêlo


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fixando no papel o tempo e o espaço


Henri Cartier-Bresson

FIXANDO NO PAPEL O TEMPO E O ESPAÇO

Clóvis Campêlo

Sempre gostei de fotografar. Adquiri esse hábito da minha mãe, dona Tereza, que vivia de câmera na mão registrando as cenas familiares. Nunca indaguei a ela o por que dessa mania. Só sei que a herdei e mantive o legado de capturar e aprisionar imagens no papel.
Nunca gostei, porém, de lidar com as imagens em movimento. Sempre me pareceu muito complexo lidar com essa sucessão de imagens que se movem e desdobram em cenas seguintes. Fixá-las, para mim, sempre foi o grande lance. Descobrir o momento decisivo, como dizia o francês Cartier-Bresson, e fixá-lo.
Uma boa fotografia, aliás, dispensa comentários ou legendas. Ela rompe as amarras temporais e espaciais e cria o seu próprio significa. A composição fala por si só e sugere novos significados e novas interpretações.
Quem já curtiu o supra citado Cartier-Bresson ou o brasileiro Sebastião Salgado. sabe o que digo. Esse último, aliás, fotografa intensivamente seus motivos e, sintomaticamente, aproveita apenas um por cento do material coletado. A seleção rigorosa garante sempre um material de excelente qualidade, no que se refere aos conteúdos. Também dispunha de um laboratorista exclusivo para garantir a textura e a composição que considerava adequada para as suas fotografias. Hoje, em tempos de fotografias digitais, não sei como tem se virado. Bresson não alcançou a fotografia digital e fotografou sempre em película e com a mesma máquina, uma velha Leica. Mas, para quem gosta de fotografias, são dois fotógrafos indispensáveis.
Dona Tereza, minha mãe e incentivadora inconsciente, valia-se apenas da sua velha Kodak Xereta, justificando a época do “make yourself” e comprovando que o equipamento é apenas um acessório que pode ser bem utilizado pelo fotógrafo, ou não. No seu afã de preservar a memória familiar, deixou um grande acervo de fotografias, o qual vasculho nas noites insones ou quando pretendo ilustrar o blog da família com imagens antigas ou de pessoas queridas que já se foram. Uma herança valiosíssima.
Quanto a mim, fotógrafo amador, em todos os sentidos que a palavra possa ter, e aprendiz de poeta, sempre me dividi entre fazer poemas com a luz ou criar imagens com as palavras. E, confesso, não é tão fácil alimentar essa convivência entre o escriba e documentador. Geralmente, quando um emerge o outro mergulha. Isso nunca me impediu, porém, de escrever poemas para fotografias feitas ou de fotografar assuntos ou objetos para complementar poemas.
Sem nenhuma pretensão de alcançar qualquer status como poeta ou fotógrafo, alimento apenas a minha auto satisfação, embora saiba que do ponto de vista quantitativo tanto o meu acervo fotográfico quanto o meu arquivo de poemas e de outros textos já alcançam uma marca considerável e intensa.
Salve Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado e dona Tereza!
Salve a poesia da fotografia e as imagens do poema!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Praia de Calhetas







PRAIA DE CALHETAS
Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco
Fotografias de Cida Machado e Clóvis Campêlo

sábado, 1 de dezembro de 2012

Miguel Arraes de Alencar



MIGUEL ARRAES DE ALENCAR
Recife, 1989
Fotografias de Clóvis Campêlo