terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A praia do Pina




 


 

 




A PRAIA DO PINA
Participação especial de Cida Machado
Recife, dezembro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

domingo, 11 de dezembro de 2016

O Poeta da Vila


O POETA DA VILA

Clóvis Campêlo

Noel Rosa, o Poeta da Vila, nasceu no dia 11 de dezembro de 1910, no bairro de Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro. Nasceu de um parto muito difícil, que incluiu o uso de fórceps pelo médico obstetra, como medida para salvar as vidas da mãe e bebê. Segundo a Wikipédia, nasceu com hipoplasia (desenvolvimento limitado) da mandíbula, o que lhe marcou as feições por toda a vida e destacou sua fisionomia bastante particular. Faleceu na Cidade Maravilhosa, em 4 de maio de 1937. Mesmo morrendo tão jovem, vitimado pela tuberculose, teve tempo suficiente para criar grandes canções e tornar-se um dos mestres da MPB em todos os tempos.
Aliás, é difícil falar de Noel Rosa sem cair na redundância. Muito já foi dito e escrito sobre ele e suas composições. Entre suas músicas, tenho uma predileção especial por Último desejo, não só pela interpretação marcante que lhe foi dada por Araci de Almeida, como também por ser a música preferida de dona Tereza, minha mãe, que a cantava na cozinha da nossa casa, no Pina, enquanto preparava os bifes para o almoço.
Consta que a música foi por ele composta para Juraci Correia de Morais, a Ceci, jovem dançarina que Noel conheceu no Cabaré Apolo, e por quem se apaixonou. Segundo o site Revista de História, "começaria aí um dos casos de amor mais líricos da história da canção popular brasileira".
Aliás, existe na MPB uma outra música, criada por Antônio Almeida e Ciro de Souza, contemporânea da composição de Noel Rosa, que também fala de uma Juraci (Desde o dia em que te vi, Juraci, nunca mais tive alegrias...) e que talvez faça referências à mesma pessoa.
Segundo o site Eternas Músicas, Último Desejo foi composta no ano de 1937 quando Noel Rosa com tuberculose já em estágio bastante avançado, e sentindo que não viveria muito tempo, compôs em homenagem ao seu grande amor. A composição teria sido uma espécie de despedida do poeta em relação à sua amada. Foi sua penúltima composição cuja letra foi entregue a Ceci por um amigo comum pouco antes do falecimento de Noel Rosa. A outra Juracy foi composta em 1941.
Último Desejo, aliás, que tem a sua primeira parte em tons menores, parece-nos um melancólico lamento. A segunda parte, em tons maiores, menos triste e mais propositiva, mostra-nos a disposição do poeta em impor de maneira firme e decidida a imagem que pretendia deixar como lembrança.
Ainda segundo a Wikipédia, Noel teve ao mesmo tempo várias namoradas e foi amante de muitas mulheres casadas. Em 1934, casou-se com Lindaura, moça da alta sociedade carioca. Mas era apaixonado mesmo por Ceci, a prostituta do cabaré, sua amante de longa data. Era tão apaixonado por ela, que escreveu e fez sucesso com outra música Dama do Cabaré, inspirada em Ceci, que mesmo na vida fácil, era uma dama ao se vestir e ao se comportar com os homens, e o deixou totalmente enlouquecido pela sua beleza. Ele dava-lhe presentes, joias, perfumes e ela o compensava com noites inesquecíveis de amor.
Com certeza, a música popular brasileira deve a este amor boêmio, algumas das suas grandes composições.


Recife, dezembro 2016

sábado, 10 de dezembro de 2016

No Morro da Conceição











NO MORRO DA CONCEIÇÃO

Textos e fotografias de Clóvis Campêlo

Transformado em santuário, esperava encontrar o Morro da Conceição invadido pelo gentio. Estava quase vazio. Talvez eu tenha ido no dia certo (8 de dezembro) mas na hora errada (no começo da tarde). No auge do meu desapontamento, cheguei a pensar que aquela tradição religiosa do povo recifense, decaía. Ledo engano, porém. Mais tarde, vejo na televisão a multidão acompanhando a imagem da Santa, vinda do Recife Antigo na direção do Morro. Entendi, então, que, descuidado na minha falta de fé, havia errado o foco. 
No Morro, sigo em frente até chegar aos pés da imagem e deslumbrar-lhe a beleza. Vista de qualquer um dos lados, encanta. E, sob o milagre da multiplicação e da produção comercial em série, alimenta a fé do povo. Ao mesmo tempo, alimenta a alma e o comércio da fé. As barraquinhas, antes restritas ao comerciantes autônomos, agora, em parte, também são mantidas pela própria Igreja. Nada mais justo, já que viemos do capital e ao capital retornaremos. Como disse o poeta, a grana ergue e destrói coisas belas.
Alimentadas a fé e a alma, restaria o corpo. Para a fraqueza física dos pobres mortais, sopa com pão, tapioca com café e suco de laranja. Afinal, ninguém é de ferro e a fome física pode se equiparar à fome de fé. Devemos, portanto, cuidar dela e aplacá-la para conseguirmos manter a outra de pé. Poderíamos até afirmar, com a convicção dos incrédulos, que são fomes inseparáveis.
Subir o Morro, porém, não é fácil quando se carrega consigo mesmo a dívida de alguma promessa feita. Hoje, muitos poucos se arriscam a subir o Morro nadando, de joelhos ou com tijolos nas cabeças para pagar alguma graça alcançada. Antes, essa movimentação era bem maior.
Assim, em dia de Nossa Senhora da Conceição, o Morro nos oferece ao mesmo tempo exemplos de fé religiosa, de gratidão popular e de oportunismo comercial. Até mesmo a necessidade fisiológica do povo de Deus, que não queira se sujeitar aos fétidos banheiros químicos oferecidos pela municipalidade, pode custar alguns trocados a mais. Mas, diante da fé que sempre removeu montanhas, isso não significa absolutamente nada.

Recife, dezembro 2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nélson Ferreira e Bajado



NÉLSON FERREIRA E BAJADO

Clóvis Campêlo

Nélson Ferreira e Bajado nasceram no mesmo dia, 9 de dezembro.
O primeiro, em 1902, em Bonito, cidade situada no agreste pernambucano, filho de um violonista vendedor de jóias e de uma professora primária. Aprendeu a tocar violão, violino e piano. Fez sua primeira composição aos catorze anos, a valsa Vitória, sob encomenda.
O segundo nasceu em 1912, na cidade de Marial, na zona da mata sul do estado. Seu nome de batismo era Euclides Francisco Amâncio.
No Recife, Nelson Ferreira tocou em pensões, cafés e saraus e nos cinemas Royal e Moderno, sendo considerado o pianista mais ouvido na época do cinema mudo.
Bajado, radicou-se em Olinda em 1934, de onde não mais saiu. No início, sobrevivia pintando cartazes para cinema e trabalhando como operador da máquina do Cinema Olinda, função que exerceu até 1950.
Nélson Ferreira foi diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco, convidado por Oscar Moreira Pinto. Também foi diretor artístico da Fábrica de Discos Rozenblit, selo Mocambo, única gravadora de discos instalada nos anos 1950 fora do eixo Rio/São Paulo. Com sua orquestra de frevos criou fama e projetou-se em todo o Brasil.
Segundo o site Escritório de Arte, em 1956, Bajado iniciou de forma profissional sua carreira de artista plástico, realizando a pintura de painéis e murais em centros comerciais e na decoração do Carnaval de Olinda. Retratou ainda os grandes clubes carnavalescos da cidade; Pitombeira dos Quatro Cantos, Elefante, O Homem da Meia-Noite, Vassourinhas, assim como o frevo rasgado na Ribeira, Largo do Amparo, Varadouro e na Praça do Carmo.
Segundo a Wikipédia, Nélson Ferreira é um dos compositores nordestinos com maior número de músicas gravadas na discografia brasileira. Grande parte delas, no entanto, restringiu-se a Pernambuco e ao Nordeste. Sua primeira composição gravada foi Borboleta não é ave, em parceria com J. Borges, pela gravadora Odeon, em 1924 pelo Grupo do Pimentel, como samba, e pelo cantor Baiano, como marcha. A composição mais famosa, um frevo de bloco, foi Evocação número 1, a primeira das 7 evocações compostas por ele, e que foi sucesso no carnaval de 1957 no Rio de Janeiro, cantada em ritmo de marcha.
Bajado, em 1964, junto com alguns amigos de profissão, inaugurou o Movimento de Arte da Ribeira, em Olinda, onde passou a expor seus trabalhos. Durante sua vida artística, reproduzir ainda inúmeras telas sobre a vida cotidiana, o sofrimento, as emoções e a cultura do povo pernambucano. O artista possuía um temperamento calmo e brincalhão. Fluiu na arte, com a simplicidade de um homem humilde. Era considerado um artista primitivo, inserido no estilo da arte contemporânea. Sua tendência artística era a liberdade de estética, comum na arte moderna. Morreu em 1996, aos 84 anos de idade, em sua residência localizada na Rua do Amparo, nº 186, Olinda-PE.
Nélson Ferreira morreu no Recife, no dia 21 de dezembro de 1976, deixando inacabado mais um disco de frevos que preparava para o carnaval de 1977.
Um detalhe importante: ambos eram torcedores do Santa Cruz. Bajado imortalizou o clube coral em inúmeras telas e Nélson Ferreira compôs um frevo para o Santinha, além de também homenagear com músicas e frevos os outros grandes clubes da capital pernambucana.
Portanto, salve Nélson Ferreira e salve Bajado, dois grandes artistas da cultura pernambucana. 

Recife, dezembro 2016