quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Percebi


PERCEBI

Clóvis Campêlo

Percebi, já não é
tão fácil mudar,
é preciso se acostumar
com o que
cada um traz consigo.
E eu sei, tento, faço
e não ligo,
pois se não me expuser
como vou
conhecer os perigos.
Tenho calma
porque agora já estou sabendo,
vou levando como quem
não quer querendo,
vou chegando como quem
não quer chegar.
Se a tristeza me invade
em certos momentos,
dou um tempo,
forço um pensamento,
pois eu sei tudo há de passar.

Recife, 1976

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A tese


A TESE

Clóvis Campêlo

As palavras do filósofo
enchia-os de sofismas
e tingia, qual basófilo,
em cores vivas suas cismas -

dogmáticos ditados
pra quem busca resultados.

Mas, nas mãos o basiótribo
o levava a cometer
várias mortes sem recibos

de idéias concebidas
pra não terem próprias vidas.

Recife, 2006


sábado, 25 de janeiro de 2014

O Recife como ele sempre foi


O RECIFE COMO ELE SEMPRE FOI

Clóvis Campêlo

Nasci em plena Avenida Conde da Boa Vista, no centro do Recife, em um casarão que pertenceu à várias famílias tradicionais da cidade. Nele, posteriormente, por vários anos, funcionou uma clínica psiquiátrica suspeitíssima por manter em suas dependências como doentes mentais moradores de rua, para lá levados em um convênio macabro mantido durante décadas com a polícia estadual.
Sobre o casarão, aliás, consta também que, em uma reforma feita nos anos 50 do século passado, foi encontrado em suas paredes um esqueleto feminino. O acontecimento, lido por mim nos jornais da época, no Arquivo Público Jordão Emerenciano, suscitou-me a lembrança do romance A Emparedada da Rua Nova, do escritor pernambucano Carneiro Vilela. Talvez fosse um hábitos social, nos séculos anteriores, sepultar em casa os restos mortais dos entes queridos.
Hoje, o imóvel é tombado e continua de pé, mesmo com a construção de dois espigões residenciais em seu terreno para abrigar os recifenses trazidos pela modernidade. Enfim, a cidade cresceu e evoluiu.
Talvez por isso, também, mantenho até hoje um carinho especial pelo bairro da Boa Vista. Lá, durante muitos anos, os meus ancestrais maternos fizeram morada. Por lá ainda vive uma tia minha octogenária, a última das moicanas a resistir à vida e ao tempo.
Nos anos 60, a minha avó materna foi morar na Ilha do Leite, que em nada se comparava ao que é hoje. Saía com meus primos a passear de bicicleta pelos sítios ainda existentes, repletos de árvores frutíferas e e de alguns currais com vacas leiteiras. Fica difícil de imaginar isso por ali hoje em dia.
Mas para o menino que fui, interessava mesmo era o coração nervoso da cidade, na época, constituído pelas avenidas Guararapes e Conde da Boa Vista. Fico impressionado como essa parte da cidade estagnou do ponto de vista da construção de novos prédios e como decaiu do ponto de vista do interesse das administrações públicas e da iniciativa privada. Literalmente, essa parte da cidade foi abandonada e entregue à própria sorte. Numa evolução cruel e inexplicável, a cidade expandiu-se para outros lados, acabando com o glamour e o charme ali existentes.
Os que, como eu, já superaram a barreira da idade da razão, com certeza, lembram-se dos passeios nas calçadas à margem do rio Capibaribe, à noite, chamados romanticamente de “quem me quer”. Ou das vitrines fartamente iluminadas das ruas Nova e Imperatriz, hoje ocupadas por desocupados, moradores de rua, sem tetos e fumadores de craque. Tornaram-se ruas assustadoras e temerosas.
Mesmo sem a pretensão de alimentar saudosismos inúteis ou de querer negar a inevitabilidade do futuro, lembro com saudade daqueles tempos onde a cidade ainda nos parecia pequena e decente.

Recife, 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Escreviver é preciso?


Foto: Clóvis Campêlo/1991

ESCREVIVER É PRECISO?

Clóvis Campêlo

Para Jomard Muniz de Britto

Parafraseando o poeta, perguntaríamos: quem lê tanta notícia?
A leitura, afinal, alimenta a vida ou a vida deve ser dividida entre a leitura e o viver?
A lei da vida atura leituras diversas não vividas ou é a vida uma leitura adversa e não dividida?Entre a dúvida das leituras não vividas e a dívida das vidas não lidas, por quem balançaria o seu coração?
Por outro lado, que impulsos estranhos e ancestrais levariam os poetas a se esquecerem da vida e, divididos, distanciarem-se de si mesmos para a prática de outras leituras?
Esse impulso esquizóide serviria para um entendimento mais amplo do mundo que nos cerca - poetas e leitores - ou apenas serve para fazer-nos esquecer (fuga nº 2?) esse mesmo vasto mundo?
Enfim: escreviver ou viver visões?
E, raimundos ou severinos, buscar rimas ou soluções?
Navegar nas águas de um espelho é preciso ou não existem outras traduções/leituras possíveis para a ilusão da vida?

Recife, 1997

sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma questão de consciência


UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

Clóvis Campêlo

Olhou para mim e falou sem constrangimento: “Criei os meus filhos com esse dinheiro e agora estou ajudando a criar os meus netos. Sou feliz assim. Por isso, todos os dias venho trabalhar e dar a minha contribuição à repartição em que trabalho há mais de trinta anos. Sou funcionário público e me sinto orgulhoso em servir ao povo do meu país. Não me interessam os que não pensam assim, os que roubam e se locupletam com o dinheiro público. Não tenho nada a ver com isso e nem quero ter. É uma questão de consciência íntima. Cada um só dá o que pode ou sabe dar”.
Até hoje eu não sei se aquela falação foi um desabafo ou um momento definitivo de encontro dele consigo mesmo. Também sei porque foi a mim dirigida. Nem mesmo o conhecia, embora tenha com ele simpatizado desde o começo. Era um homem simples, como todos os homens de bem, e parecia ser feliz e estar em paz consigo mesmo.
Aquela atitude inusitada levou-me a refletir sobre o papel de cada um de nós neste mundo de Deus e do diabo, sobre a responsabilidade dos nosso atos e do exemplo a dar aos que nos rodeiam e amam.
Levou-me a refletir até mesmo sobre o direito de cada um equivocar-se com as ideias do mundo. Sim, porque penso que há os que erram repletos de má intenção e calculismo, e há os que erram por alguma concepção equivocada do seu papel na vida ou das ideias elaboradas.
Talvez tenha sido essa sinceridade exagerada, em um mundo onde quase todos dissimulam e tentam vender uma imagem nem sempre verdadeira de si mesmo, que me fez escrever essas mal traçadas linhas. Em um mundo repleto de espertezas, talvez essa seja realmente uma esperteza maior. Nem mesmo consigo imaginar, porém, como seria o mundo se todos pensassem e agissem assim.
Como a maturidade sempre nos traz a certeza da inutilidade das elucubrações impossíveis e inviáveis, não alimentei por muito tempo a ideia da perfeição, mas permiti-me imaginar as relações humanas e pessoais sem as veleidades existentes e sem a necessidade dos subterfúgios enganadores.
Durante alguns dias, aquele homem e a sua falação não me saíram da cabeça. Depois, fui voltando novamente as minhas atenções para os fatos imediatos da vida e aquela imagem foi se dissolvendo na minha mente, até se transformar em uma lembrança longínqua como um sonho ou uma miragem provocada pelo sol quente de um dia de verão nordestino.
Por fim, terminei por me voltar definitivamente à luta árdua pela sobrevivência, chegando até mesmo a admitir, em determinados momentos, a utilização de algumas estratégias desabonadoras em nome das vantagens imediatas que se ofereciam.
Verdadeiro ou não, aquele homem e a sua falação, foram gradativamente se perdendo na névoa do tempo e do passado.

Recife, 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mulheres de verdade?


Ataulfo Alves ou Gilberto Gil?


MULHERES DE VERDADE?

Clóvis Campêlo

Vejo no jornal, no final de semana, que Amélia, a mulher de verdade cantada por Ataulfo Alves e Mário Lago, existiu mesmo. Chamava-se Amélia dos Santos Ferreira, morou em Realengo, no Rio de Janeiro, e morreu aos 91 anos, deixando dez filhos, muitos netos e bisnetos.
A notícia foi dada na coluna de Ancelmo Gois. Não sei se houve choros e velas no seu enterro, mas, com certeza, deixou o seu nome definitivamente gravado na história da MPB. Alô, alô, Realengo, aquele abraço.
Além de Amélia, Realengo também comportou o quartel onde Gilberto Gil ficou preso, nos anos 60, durante o regime militar, antes de ser deportado e exilado. Também aí, surgiu outra grande contribuição à música popular brasileira, no samba reconhecidamente de desenredo. O Rio de Janeiro, porém, era e continua lindo.
No jornal, também, no contexto das matérias publicadas sobre os 70 anos do início da II Guerra Mundial, tomo conhecimento da existência de Aninha dos Torpedos. Mulher bonita e sedutora, vagava pelos portos das capitais nordestinas, principalmente Recife e Salvador, atraindo marinheiros brasileiros e americanos que pudessem lhe fornecer informações sobre as rotas dos nossos navios mercantes.
Segundo o jornalista Wagner Sarmento, do Jornal do Commercio do Recife, para cada marinheiro seduzido por Aninha correspondia sempre o torpedeamento de algum navio. Aninha passou a ser considerada como uma espiã nazista infiltrada na província, dilacerando corações e as carcaças dos navios. Muito mais um mito, porém, do que uma realidade, a sua existência nunca foi efetivamente comprovada.
Para finalizar, leio, no emaranhado de notícias dos jornais, a filiação da senadora Marina Silva ao Partido Verde, depois de 30 anos de militância no PT. Desse modo, ao trocar o vermelho das esperanças pelo verde de novas possibilidades políticas e partidárias, a ex seringueira passou a dividir diretamente com a ministra Dilma Roussef a possibilidade de termos, pela primeira vez na história do país, uma mulher no comando da nação.
Essas mulheres, de verdade ou não, sacudiram a minha imaginação nesse final de semana ensolarado.


Recife, 2009

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Rainha da Noite


A RAINHA DA NOITE

Clóvis Campêlo

Ela chegou de mansinho com quem não queria nada.
Vestida de negro, desfilou pela areia branca com a elegância de uma princesa etíope.
O mar calou-se definitivamente ante a sua chegada. Os ventos silenciaram e deixaram de bolinar as copas das árvores. Até a lua crescente estancou a sua trajetória milenar para dar uma espiadinha na sua altivez, jogando sobre ela uma luz prateada.
A orquestra eletrônica de 400 watts, comprada a módicas prestações mensais, parou de tocar para que todos pudessem ouvir as suas passadas na calçada de pedras portuguesas. Todos os dançarinos abandonaram o salão, pois sabiam que havia chegado a dona da festa.
Agitou a sua cabeleira negra e iniciou um estranho balé, onde os braços pareciam as ondulações das águas do mar. As pernas ágeis deslizavam no salão grená. Todos quedaram-se estáticos ante a rainha da noite.
Durante a madrugada inteira, ninguém ousou interromper a sua mágica dança ou emitir palavra qualquer. Apenas a contemplavam estarrecidos de felicidade e repletos de estranhos desejos.
Diante dela, Abraxas iluminaria ainda mais os seus olhos misteriosos, Mona Lisa abriria ainda mais o seu enigmático sorriso, a Estátua da Liberdade desistiria da sua arrogância libertária e para ela olharia invejosa, Pomba-Gira compreenderia que uma força maior a impeliria à inércia.
Quando o dia amanheceu, misteriosamente, assim como chegara, abandonou o salão e mergulhou nas águas azuis do Trapió, desaparecendo no rumo da Mãe África, sem deixar vestígios ou sinais.
Como num passe de mágica, todos os presentes despertaram e restaurou-se a mesmice da normalidade.

Recife, 2004

sábado, 11 de janeiro de 2014

A Noite Estrelada


A NOITE ESTRELADA

Clóvis Campêlo

É uma das mais conhecidas pinturas de Vincent van Gogh. Foi feita por ele aos 37 anos de idade, em 1889, enquanto estava internado em um asilo na cidade de Saint-Rémy-de-Provence, na França. Atualmente encontra-se na coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Segundo os seus estudiosos, a obra foi feita de memória e não a partir da visão de alguma paisagem. A parte central representa a aldeia onde ficava o sanatório, sob um céu enrolado e com alguns astros fora do lugar, como a constelação da Ursa Maior, deslocada mais para o sul. O cipreste à esquerda, foi adicionado em primeiro plano à pintura.
É nesse período que o artista rompe com a sua fase impressionista e desenvolve um estilo próprio, com o uso de fortes cores primárias, às quais ele atribuía significados próprios.
Apesar da forte definição dos contornos das imagens retratadas, o cenário sugere intenso movimento, com o lugarejo espremido entre o céu, que ocupa a maior parte da figura e uma estreita faixa de terra. Parece que o pintor tomava consciência naquele momento da nossa pequena dimensão no universo.
Por outro lado, o cipreste colocado à esquerda realça o primeiro plano da composição e serve de elo entre o agitado ambiente celeste e a calma das montanhas e do casario de Saint-Rémy.
Alguns estudiosos da obra chamam ainda a atenção para a imagem da lua, à direita da composição, que mais lembra o sol, clareando o azul da noite, e as imagens das estrelas, que sugerem pequenos sóis.
Assim como talvez já tenha acontecido com milhares de outras pessoas, esse foi o quadro de Van Gogh que sempre me chamou mais a atenção. Foi a partir dele que me interessei em pesquisar e conhecer mais a sua obra, embora sem nenhuma pretensão de um estudo pertinaz e intensivo.
A admiração apenas refletiu-se numa tentativa empírica de conhecimento da obra e da vida contida do autor holandês, que contrastava com a intensidade interna dos seus sentimentos conturbados.

Recife, 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Desconstrução


DESCONSTRUÇÃO

Clóvis Campêlo

Para que serve um grupo virtual de relacionamento?
Antes de mais nada, eu diria, para encurtar distâncias reais.
O mundo virtual, aliás, desconhece isso. Nele, distância é um empecilho que não existe.
No entanto, encurtar distâncias para que?
Aí surge um segundo momento de dramático insighting.
Poderíamos afirmar, sem medo de errar e de ser feliz, que o encurtamento das distâncias nos permitiria a criação e manutenção de novas amizades. Tudo bem.
A criação e a manutenção de nova amizades, porém, pedem a existência de pontos em comum, de áreas de interseção onde essa identidade possa se exercitar e se fortalecer. Ótimo. Se somos poetas ou literatos ou mesmo se temos arremedos de filósofos, podemos estabelecer aí esse ponto de identidade e de fortalecimento das relações na virtualidade.
Podemos estabelecer, a partir daí, que a comunicação se dê, aconteça e se efetive.
A comunicação, no entanto, está diretamente relacionada ao envio e recebimentos de mensagens, ao entendimento dos seus conteúdos, a dissipação dos ruídos eminentes e prováveis, e, principalmente, ao prazer que tudo isso pode proporcionar a seus emissores e receptores. Nada pior para a comunicação do o silêncio efetivo e constante, constrangedor, castrador, neurotizante. A comunicação se desconstrói a partir do silêncio. O silêncio, no entanto, comunica. O silêncio é a percepção da eminência dos limites. Não falo, logo desisto.
O silêncio também pode significar a maturação do desencanto: não me vejo no que o outro diz, logo, me calo, desisto.
O silêncio também pode significar que tudo já foi dito. Essa premissa, porém, demonstra uma profunda arrogância: se tudo já foi dito é porque somos sábios e já não precisamos das palavras do outro. Somos perfeitos, divinos e devemos ser alçados às nuvens, nefelibatas, seres flutuantes acima do bem e do mal. O silêncio nunca será uma provocação.
O silêncio nega, extermina, desapropria, rouba, angustia, mata.
O silêncio cheira mal, degrada. O silêncio é caquético.
Sejamos, pois, o barulho do trânsito desenfreado, dos carnavais frenéticos, das procissões féericas, das crianças na hora do recreio escolar, dos cachorros vagabundos fazendo sexo na rua.
O barulho é um chamamento, o fogo, a chama na palha.
O barulho alimenta a alma e nos deixa a convicção de que ainda precisamos um do outro.


Recife, 2009

sábado, 4 de janeiro de 2014

Palco do amanhã


PALCO DO AMANHÃ

Clóvis Campêlo

Solta as rédeas o domingo,
pela rua o sol escorre,
como sempre o tempo corre,
eu sozinho choramingo.

Sei que em breve o escuro
sobrepõe-se à alegria;
será mais um fim de dia
anunciando o futuro.

Por que então me angustio,
antecipando algum mal,
se sempre vem o estio

logo após o vendaval,
e se o amanhã é um fio
de luz, um outro sinal?

Recife, 2010