quarta-feira, 30 de abril de 2014

O louco e o poeta


Fotografia de Diego Nigro/JC

O LOUCO E O POETA

Clóvis Campêlo

A cidade do Recife amanheceu consternada nessa segunda-feira. De madrugada, um maluco destruiu partes da escultura do poeta Ascenso Ferreira, situada no Cais da Alfândega. Dizem que em vida o poeta gostava de por ali passear nos fins de tarde, admirando o por do sol por trás do Capibaribe. Em função disso, o local foi escolhido para acolher a sua imagem.
Em qualquer cidade do mundo, é duro ser estátua, amigos. Nos anos 60, o compositor Erasmo Carlos já afirmava isso em uma de suas músicas. No caso do compositor paulista, o que lhe afligia eram os pombos na cabeça e os brotos passando incólumes ao seu lado. No caso do poeta pernambucano, o perigo veio de um louco solto pelas ruas, um lúmpen perdido nas noites recifenses.
Mas afinal o que o teria levado a cometer tamanha sandice? No seu delírio quixotesco de louco, a imagem poética daquele homenzarrão às margens do rio deve ter lhe sugerido um monstro a ser derrotado, um moinho de vento imponente a desafiar-lhe a insanidade.
Bastou-lhe uma pedra, um paralelepípedo proparoxítono, para enfrentar e derrotar o perigo imaginário. E sempre haverá uma pedra no caminho, amigos, para desestabilizar a inércia da vida ou da noite. Alguns poucos golpes e o vilão solitário desfigurou o rosto bonachão e pacato do poeta. Depois, mirou e atingiu as suas mãos de poeta, repletas dos versos danados e revolucionários do modernismo brasileiro. Inerte em seu sono de pedra, só restou ao bardo aguardar em silêncio as luzes do dia com a resignação dos feridos de morte. Mesmo desfigurado, porém, manteve-se de pé. Afinal, feito de ferro e pedra deve ter no íntimo a certeza do renascimento.
Ao louco vencedor, além dos louros da vitória no combate desigual, coube a glória de atravessar solene a ponte Maurício de Nassau, sem pedágios ou bois voadores a lhe incomodar a insanidade noturna. Talvez visasse um outro poeta logo adiante, uma outra imagem imponente situada sobre a ponte a contemplar eternamente os ares poéticos do encontro dos rios.
Se era essa a sua intenção, porém, não logrou êxito. Logo adiante foi detido por uma viatura policial. A próxima vítima estava a salvo. O seu corpo diminuto não seria sacrificado pela loucura gratuita do dom quixote urbano. Encerrava-se ali mais uma tragicomédia pós-moderna. E, loucuras a parte, com certeza, entre mortos e feridos, todos terão o direito de escapar. A imagem do poeta dos Palmares será reconstituída e deverá caber às autoridades competentes a responsabilidade pela proteção e tratamento adequados a serem dispensados ao meliante tresloucado.
Afinal, de poeta e de louco todos nós temos um pouco.

Recife, 2014

terça-feira, 29 de abril de 2014

Vai!


VAI!

Clóvis Campêlo

Vai que a juventude
dessa brisa
espanta
e nem um pouco
me afugenta
a dor.

Vai que a inquietude
dessa vida
é tanta
que nem um louco
lhe entende
a cor.

Vai que a negritude
dos teus olhos
é manta
que me acoberta
e aquece
de amor.

Vai que um dia
tudo se transforma
e se agiganta
e nós seremos
o sol a se por.

Vai!

Recife, 2008

sábado, 26 de abril de 2014

No tempo das mariquitas


NO TEMPO DAS MARIQUITAS

Clóvis Campêlo

Havia uma época em que as mariquitas invadiam as locas das pedras da praia do Pina. Eram uns peixinhos vermelhos, quase que inadequados para o consumo humano, por conta do excesso de espinhas. Nas marés baixas, quando o mar secava e as pedras ficavam expostas, nós os pescávamos com facilidades nas pequenas poças de água que se formavam sobre os corais.
Naquela época o antigo emissário que havia, levando os dejetos coletados da estação sanitária da Cabanga, o famoso cano do Pina, atraia uma grande quantidade de peixes. Pescar ali, era fácil. Tanto se pescava com varas de anzóis, com de rede ou de mergulho. Até mesmo a pesca predatória com bombas ainda se praticava. Perigosíssima e absurda, pois tanto servia para matar um número excessivo de peixes, a maioria dos quais não seriam utilizadas pelos pescadores, como para estourar os tímpanos de algum mergulhador incauto que estivesse por perto na hora da explosão.
Na verdade o cano do Pina funcionou até o início dos anos 80, quando foi desativado pela Compesa. Em 2004, por ordem da CPRH, o cano foi definitivamente retirado pela Prefeitura do Recife, quando da revitalização da praia. A desativação do cano diminuiu a poluição das águas mas também afastou os peixes e outros animais marinhos (siris, moreias, guajás, tatuís, etc.) do local, inclusive as mariquitas.
Um outro fator de afastamento da fauna marinha foi o assoreamento da praia, notadamente no trecho que vai do paredão de Brasília Teimosa até a Rua Ondina, no Pina. Esse processo foi tão acentuado e acelerado nos últimos anos, que os barcos de pesca que ancoravam na praia em frente à sede da Colonia Z-1, tiveram que ser deslocados para a Bacia do Pina.
Assim, fatores naturais influenciaram na mudança da rotina de trabalho dos pescadores e em alguns hábitos culturais e religiosos, como a procissão marítima de São Pedro. Realizada todos os anos no dia 29 de junho, passou a ter uma parte terrestre e outra marítima, haja vista que o andor com o santo, saindo da sede da Colônia Z-1, passou a atravessar as ruas locais até alcançar os barcos no outro lado do bairro.
Naquela época, no tempo das mariquitas, a fartura de substâncias orgânicas eram tão grande, que até alguns tubarões eram atraídos em busca dos peixes que compunham a sua cadeia alimentar. Quem pescava de mergulho, como o meu irmão Carlinhos, sabia disso. A partir da segunda faixa dos corais (existiam três faixas de corais separando os canais navegáveis, quando a maré estava baixa) era provável dar de cara com algum daqueles seres cartilaginosos, mas que raramente atacavam. A fartura de alimentos disponíveis os tornavam dispostos a conviver pacificamente com os mergulhares, diferentemente de hoje quando atacam banhistas até próximo da beira-mar.
No tempo das mariquitas, aliás, ainda não havia ocorrido no bairro a explosão demográfica provocada pela aceleração da especulação imobiliária. O Pina, com a sua praia tranquila, ainda era um bairro bucólico. Hoje, derrubam-se quarteirões inteiros de casas e pequenos prédios para a construção de espigões gigantescos e modernos. Faz tempo que as antigas casas de banho, onde se alugavam roupas (calções e maiôs) para o desfrute da praia, acabaram-se. Sumiram junto com as mariquitas.

Recife, 2014

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O peru de Obama e as viúvas do Ipase


O PERU DE OBAMA E AS VIÙVAS DO IPASE

Clóvis Campêlo

Todos se lembram: o primeiro presidente norte americano negro perdoôu o peru branco. O nome do bicho: Courage. Veio da Carolina do Norte, onde nasceu, numa fazenda especialista em criar perus, para enriquecer o jantar do Dia de Ação de Graças do presidente.
O peru anistiado, porém, não viverá o resto dos seus dias na Casa Branca. Foi encaminhado para a Disneylândia, onde, com certeza, será transformado em mais uma atração turística.
Consta que essa história de presentear o presidente com um peru vem desde o presidente Eisenhower, em 1953. Transformou-se numa tradição. Diz ainda a lenda que o primeiro presidente a poupar o peru presenteado foi John Kennedy, nos início dos anos 60, quando o sonho dourado americano ainda não se desvanecera.
Enfim, histórias da Carochinha do Norte que nós, brasileiros e americanos do Sul, desde a mais tenra idade, escutamos.
Mas, o que teria o peru americano de Obama a ver com as saudosas viúvas do IPASE?
Lembro que nos anos 60, quando eu ainda era um menino e jogava bola nas areias da praia do Pina, era costume do meu pai, em dezembro, levar para casa os perus que comprava ou mesmo recebia de presente das viuvinhas que atendia no extinto IPASE. Aqueles pobres e comprometedores perus, já que dona Tereza, minha mãe, sempre via naquela benevolência uma possibilidade de traquinagem extra conjugal, nunca foram perdoados. Todos os dias, depois do almoço, eu e meu irmão, sentávamos no batente do terraço que havia na cozinha para cevar os perus. Tudo o que sobrava das refeições do dia e da véspera era “enriquecido” com água e farinha de mandioca e literalmente enfiado garganta a dentro dos animais, sem chance nenhuma de defesa ou contestação. Aos perus violentados, só restava a obrigação de digerir e engordar.
Como naquela época ainda não havia os aleijões transgênicos e congelados dos chesters, quando o Natal chegava os perus, com seus fígados engordados pela alimentação forçada, eram sacrificados e colocados na mesa para o deleite da família e dos vizinhos que sempre participavam, intercambiando quitutes e votos de felicidades.
Lembro disso sem nenhum sentimento de culpa. Achava e ainda acho legítimo todo aquele ritual que unia a família, terminava por dissipar as desconfianças maternas e garantia uma ceia de Natal decente e condigna.
Eramos felizes e não sabíamos que o futuro nos traria costumes diferentes e saudades de coisas simples que pareciam ser eternas.
Hoje já não existem quintais, perus a serem engordados ou mesmo vizinhos amigos e participativos, ávidos para demonstrarem a afeição e o o respeito que alimentavam aquela relação de amizade e boa convivência.
Com toda sinceridade, sinto falta disso.


Recife, dez/2009

sábado, 19 de abril de 2014

Como é gostoso o meu português


COMO É GOSTOSO O MEU PORTUGUÊS

Clóvis Campêlo

Existe hoje, na língua portuguesa falada e escrita no Brasil, uma grande confusão quanto ao uso correto das palavras perda e perca.
A primeira, segundo o aurélio que me acompanha há décadas, trata-se de um substantivo feminino, que significa ato ou efeito de perder, privação de alguma coisa que se possuía, privação da presença de alguém, extravio, sumiço, prejuízos sofridos pelo credor em consequência da diminuição do seu patrimônio, ou mesmo morte, desaparecimento ou falecimento.
A segunda, ainda com base na mesma fonte, nomeia um peixe acantopterígeo, de água doce, e de carne muito saborosa. Mas, na linguagem popular e coloquial também pode significar perda, prejuízo ou dano.
Ao mesmo tempo, ainda, perca também pode se referir a uma flexão do verbo perder, no tempo condicional.
Ou seja, talvez eu me perca nesse texto ao achar que seria uma grande perda não perceber a possibilidades dessas duas nuances.
A rigor, porém, entendo que dentro da utilização da norma culta o termo perda seja mais bem indicado na construção frasal. Entendo, no entanto, que sendo a língua uma entidade viva e que se transforma ao longo do tempo no sentido de facilitar a comunicação entre as pessoas e as instituições, nada impeça que o segundo termo seja usado sem constrangimentos. Afinal, a língua é do povo como o céu é dos satélites e dos intelsates.
E foi assim, submetido aos ditamos da fala popular, misturando os dialetos locais com o latim vulgar disseminado pelos romanos no continente europeu, que a língua portuguesa, a última flor do Lácio, nasceu. E foi assim que ela também se modificou, depois de formada, assimilando novas palavras e expressões nos lugares e países para onde foi levada pelos portugueses conquistadores da Idade Média.
E ainda é assim, nos tempos de hoje, que ela continua a se transformar e assimilar novas expressões criadas por quem a fala e pelas novas necessidades oriundas das invenções e transformações do mundo moderno.

Recife, 2014

sábado, 12 de abril de 2014

Morrer deve ser tão frio


MORRER DEVE SER TÃO FRIO

Clóvis Campêlo

Morrer deve ser tão frio,
solidão no cais do porto,
como as águas de um rio
desaguando num mar morto.

Fechando o início de um cio,
findando um trajeto torto,
alívio, talvez, desconfio,
depois, talvez, desconforto.

Talvez, quem sabe, um fio
cortando uma vida, aborto;
talvez, quem sabe, um envio,

o exílio de um rei deposto.
Morrer deve ser tão frio,
solidão no cais do porto.

Recife, 1994

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O caminho do poeta


O CAMINHO DO POETA

Clóvis Campêlo

Não saberia sorrir
cruzando as águas do rio,
lembrando que o poeta
por ali passou um dia.

Talvez o seu existir,
por falta de algum brio,
por medo de alguma meta,
não tenha sido alegria.

Talvez não tenha sentido
o azul claro do céu,
a brisa morna do mar,
os sons que cantam a vida;

talvez tenha preferido
da tristeza todo o véu,
o frio da noite a reinar,
a dor sangrando a ferida.

Recife, 2010

terça-feira, 8 de abril de 2014

Um poeta kami-quase


UM POETA KAMI-QUASE

Clóvis Campêlo

Sou daqueles que ainda gostam de consultar o dicionário. Mesmo em tempos de google e wikipédia, que nada mais são do que dicionários transvestidos de modernidade. O dicionário é uma das bússolas do escritor e dos aprendizes de poeta. Assim, folheio o meu velho aurélio, companheiro de décadas, em busca da palavra uivo, a qual ele assim define: voz lamentosa de diversos animais quando parecem chorar, grito agudo.
A palavra, eu a encontrei no texto Aos Pariceiros dos Anos 80 (um uivo recifense) do livro Poemas Diversos, do poeta pernambucano Valmir Jordão. Desnecessário dizer que a primeira correlação feita por mim foi com o poema O Uivo, de Allen Gisberg. Pois se o uivo americano dos anos 50 serviu (e ainda serve) como roteiro para se compreender a cultura beat em confronto com o reacionarismo americano daqueles anos, o longo poema de Valmir Jordão traça um perfil completo dos poetas marginais recifenses dos anos 80 e da sua “contracultura” em confronto com a obtusidade da província naquelas eras.
Não o conheci naquela época, porém. Dele me aproximei no começo dos anos 90, quando eu integrava a direção do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco e ele fazia parte de um pelotão de militantes voluntários, sempre a postos em busca de uma revolução que nunca veio. Para mim, rapaz de boa família, respeitador e politicamente correto, ele representava a força caótica do lúmpen, que precisava ser canalizada para a transformação social final. Como de poeta e de louco, ele sempre teve um pouco, atraia-me e me assustava ao mesmo tempo.
De lá para cá, mudei eu, mudou o movimento sindical, que se profissionalizou e deixou o voluntarismo de lado, e talvez também tenha mudado o poeta. Assim, o reencontro no Paço Alfândega, no Recife, de livros em punho, vendendo-os num corpo-a-corpo ingrato. Essa é e sempre foi a sua vida: escrever, militar, permitir-se a resistência. Editar seus livros e vendê-los sempre me pareceu uma tarefa árdua e interminável, um trabalho de Sísifo, mas que aparentemente lhe alimenta a resistência física e ideológica. Seus poemas são recheados desse material questionador e crítico, que traz nas entrelinhas uma nova e inviável proposta cósmica. Instigante e quixotesco.
Em alguns poemas mais recentes, entretanto, mostra-se o poeta mais ameno e, de certo modo, mais romântico. Poema para Clara, por exemplo, é um deles. Não só pela forma arcaica do soneto por ele utilizada, mas por algumas construções frasais inéditas e pelas metáforas diferenciadas. Criativamente, o poeta inquieta-se mais uma vez e sem perder a essência da sua verve, permite-se caminhar por caminhos mais suaves emocionalmente.
No hai-kai Da História, essa minha desconfiança inicial confirma-se nos versos novos da mudança: “revolução? esqueça / chega de afiar guilhotinas / e perder a cabeça.”
Em outro hai-kai, Dos Poetas, a confirmação do insighting e da disposição para talvez seguir caminhos inusitados ditados pela nova consciência: “poesia? é questão de fé / torna-se um Sidarta / ou um São Tomé.”
Os seus textos confirmam: o bardo sobreviveu a si mesmo e às suas convicções ideológicas. Aguardemos, assim, quais serão os novos rumos do poeta kami-quase.

Recife, 2014

sábado, 5 de abril de 2014

Salve Olinda, eternamente linda!


SALVE OLINDA, ETERNAMENTE LINDA!

Clóvis Campêlo

Sempre te vi e sempre te amei, Olinda!
Sempre me vi atraído por tuas ladeiras íngremes, cobertas de pedras portuguesas!
Sempre adorei olhar as tuas varandas coloniais, onde o passado se debruça para ver o futuro chegar!
Para mim pouca importa o teu título pomposo de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.
Sempre te vi altaneira, olhando com desdém para a planície onde o Recife insistiu em se plantar.
Sempre curti os teus hippies fedorentos que insistem em negar a ordem e o progresso.
A ti, ofereço o espanto dos meus olhos, minha imagem cansada, quase sexagenária, que se alimenta do teu ar salitroso.
Oh Olinda, eternamente linda, que bela situação a tua, erguida sobre sete colinas.
Quanta fé me irradia o teu carnaval profano e o silêncio profundo das tuas igrejas centenárias.
A ti, ofereço as minhas mãos calejadas de uma poesia inútil.
A ti, ofereço as cicatrizes das minhas retinas sensibilizadas com a tua eterna beleza.
Salve o verde dos teus mares, o azul dos teus céus, o vermelho do teu sangue libertário.
Salve a ti, Olinda eternamente linda!
Recife, 2011

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Borboleta


BORBOLETA

Clóvis Campêlo

Borboleta:
solta, livre, leve.
Quem se atreve?

Recife, 2007

terça-feira, 1 de abril de 2014

Uma poesia sem angústias


UMA POESIA SEM ANGÚSTIAS

Clóvis Campêlo

Dizem que as amizades nascidas virtuais são como amor de carnaval e logo se acabam. Mas, não sei bem se é assim. Na internet, tenho conhecido pessoas extraordinárias e que conseguem mexer comigo e com a minha maneira de ser. Uma delas, foi a poetisa mineira Elane Tomich.
Libriana, nascida em Belo Horizonte no dia 9 de outubro (mesmo dia em que nasceu o ex-beatle John Lennon), tem como qualidade latente a crença de que dias melhores sempre virão. O amanhã sempre lhe será melhor e os problemas possíveis servirão cada vez mais para exercitar-lhe a capacidade de sobrevivência. Isso nunca me foi dito por ela diretamente, mas reflete-se com intensidade nas suas postagens facebookianas e nos seus textos e poemas.
Acaba de lançar o livro “Véspera de mim”, do qual me foi enviado gentilmente um exemplar. Dele me sirvo para sedimentar os meus pontos de vista sobre a sua pessoa e a sua obra, certificando-me assim do que a minha capacidade de observação e a minha intuição já me indicavam.
Nos versos do poema que dá nome ao livro, por exemplo, já se anuncia esse libelo esperançoso:

“Hoje é véspera de mim. / Amanhã, quando amanhecer / Terei um filho que verei crescer / Serei para sempre muito mais que assim / E vestirei meu contentamento / Passado a limpo por forte tormento / E em grande orgia de despojamento / Será queimado o meu testamento”.

Nada mais autobiográfico do que a estrofe acima. Talvez por isso, por conta desse otimismo desenfreado, em um mundo cada vez mais dominado pelo receio do futuro, o seu sorriso sempre franco e aberto, a sua expressão de menina feliz, mesmo já entrando na fase madura da vida, ao lado dos filhos e netos.
E esse é o seu canto de amor, de esperança, de fé e de credo, que suplanta qualquer ideologia possível para exaurir-se em energia transformadora, em energia do bem. Mostra-se a poetisa acima do bem e do mal, não em delírio inútil e desvairado, mas na sua capacidade de interpretar positivamente todas as nuances da vida, todas as alegrias e falsetas que lhe são servidas (e a todos nós outros, humanos) pela existência. O que a diferencia de outros seres e pessoas, na vida e na poesia, é essa disposição transformadora e de superação. A sua música sempre nos traz latente uma nova mensagem de esperança.
No poema “Ainda que seja cedo”, mais uma demonstração dessa sua capacidade de simplesmente ser feliz:

“Ainda que seja cedo / que o sol desbrilhe por medo / atrás de uma nuvem de chuva / em ameaça de morrer / ao se jogar do telhado.
…..
Nessa noite encompridada / pela luz que emudeceu / nosso amor brinca sem medo / ainda que seja cedo!”

É tão intensa a alegria que existe nos textos de Elane Tomich que uma pequena crônica como essa é insuficiente para a explicitar. Fica latente em nós, a vontade de prolongar essa análise em outros comentários e artigos.

Recife, 2014

sábado, 29 de março de 2014

Um pouco de redundância, por favor!


UM POUCO DE REDUNDÂNCIA, POR FAVOR!

Clóvis Campêlo

Somos seres miméticos. Aprendemos a viver assim. Repetimos gestos e ideias à exaustão. Do beabá inicial aos discursos filosóficos transcendentais, somos repetitivos e raciocinamos em bloco. A redundância nos redime.
Por isso, as atitudes diferenciadas tendem a ser punidas e eliminadas. Constituem-se em ameaça à continuidade das coisas. Até no jargão futebolístico, existe a máxima de que em time que está ganhando não se mexe. Basta repetir-se e pronto, o sucesso está garantido.
Exercitar o senso crítico, portanto, não é nada fácil no mar de mesmices em que vivemos. Afinal, para que nadar contra a corrente se o final sempre é o mesmo? Só os mais inquietos, patologicamente inquietos, aventuram-se a tanto.
No entanto, se a mesmice cansa e bitola, o excesso de novas informações também pode travar os 10% utilizados pela nossa cabeça animal. A novidade deve sempre ser servida em doses homeopáticas, haja visto que o excesso deixa de ser remédio e transforma-se em veneno. E, se não nos matar, vai jogar-nos no isolamento temporal, do qual, em alguns casos, só se consegue sair depois da morte. Para quem não acredita em reencarnações, aliás, o pós morte não serve para nada. Finda a vida, findo o mundo, finda as palavras. O morto não pensa, não fala, não discute mais e nem externa ideias ou ideais. O morto apenas se decompõe.
Aos vivos, portanto, cabe a continuidade e a comunicatividade do mundo. E tome redundâncias! Exercitar o senso crítico em relação a si mesmo e aos cosmos, no mundo dos vivos, não é nada fácil, embora extremamente necessário na maioria das vezes. Pensamos, logo existimos! Questionamos, logo resistimos! Até quando, porém, acho que nem mesmo Deus sabe!
Como, apesar de só utilizar 10% da sua cabeça animal, a espécie humana conseguiu evoluir e sofisticar o ato de raciocinar, vive a contradição de ter de alimentar a redundância para sobreviver nos níveis superiores da linguagem e de ter que exercitar novas formas de informação para transgredir e evoluir. Assim caminha e sempre caminhou a humanidade ao longo do tempo.
O homem sábio, portanto, tenta exercitar o equilíbrio na vida, na linguagem e nas informações. Hora tende para um determinado lado, hora para o outro, mas sempre com a consciência de que tenta evoluir e ser entendido ao mesmo tempo. De nada adianta o hermetismo ou o ludismo das invenções mirabolantes se o resultado final for o desentendimento.
Os inventores e artistas que tendem por esse caminho correm o risco de morrerem incompreendidos e só serem decifrados e decodificados pelas gerações futuras e posteriores, quando a contravenção se transformar em regra e consolidar-se como matéria assimilada e incorporada ao modo de vida dos nossos sucessores.
Aos afobados futuristas, portanto, eu peço um pouco de redundância, por favor!

Recife, 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Pedaços


PEDAÇOS

Clóvis Campêlo

Há tanto tempo me perco,
há tanto tempo me acho,
nem mesmo sei dos meus medos,
nem onde estão meus pedaços.



Recife, 2006

sábado, 22 de março de 2014

Torto


TORTO

Clóvis Campêlo

Quando a morte a ti trair
e enganar-te a inteligência,
não penses pedir clemência,
nem peças para sair.

Vista-se com domingueira,
enfeite o leito com flores,
disfarce com mil odores
a hora que é derradeira.

No entanto, se alguém em "ais"
liberta gritos primais
em ânsias de despedida,

mostre-lhe um riso morto
- o certo se escreve torto -
e apenas é o fim da vida!

Recife, 1991

quinta-feira, 20 de março de 2014

Entre a cabeça e o coração


ENTRE A CABEÇA E O CORAÇÃO

Clóvis Campêlo

Entre a cabeça e o coração,
estão mais que sete buracos,
sensores democráticos.
Entre a cabeça e o coração,
estão todos os sabores,
a matiz de todas as cores,
os sons da audição.
Entre a cabeça e o coração,
estão o gosto e o tato,
o ilusório e o de fato,
o real e a sensação.

Recife, 2011

terça-feira, 18 de março de 2014

Bom dia, mulher-aranha!


BOM DIA, MULHER ARANHA!

Clóvis Campêlo

Bom dia, mulher aranha!
Mais uma vez tecendo a sua teia,
como é da natureza de todas as aranhas.
Dizem que o canto das aranhas
é mais poderoso do que
o canto das sereias.
Acredito!
Eu mesmo já me sinto
irreversivelmente por ele
envolvido.
De nada adiantou aumentar
o volume dos Stones na vitrola.
De nada adiantou o grito aflito
da buzina do meu carro.
De nada adiantaram os
três apitos da fábrica de tecidos
ferindo os meus ouvidos.
Rendo-me e peço clemência.
Submeto-me ao encantamento
da doce melodia.
Mergulho na rede com a certeza
do inelutável e do ineludível.
Mais uma vez,
o futuro me absolverá!

Recife, 2006

sábado, 15 de março de 2014

A poetisa que veio do frio


A POETISA QUE VEIO DO FRIO

Clóvis Campêlo

É duríssima a tarefa de meter a colher nos textos alheios. Ainda mais quando não se é convidado. Mas, alimentado pela curiosidade que move montanhas, arrisco-me a trilhar o caminho quente que me aponta o vento frio vindo do sul – talvez o minuano.
A curiosidade existia até mesmo antes do carteiro chegar e o meu nome gritar com o livro na mão. E embora o seu título – Requiém – sugerisse um canto triste de celebração à vida que já se fora, sigo o caminho vivo que se oferece, pois é caminhando que se faz a caminhada.
Descubro surpreso que, na verdade, o que a poetisa canta é a vida fluindo. E mesmo exaurindo-se nesse fluir, é chama intensa a queimar o seu combustível. O livro nada mais é do do que a constatação de que a vida plena é mesmo aquela que precisa ser consumida para manter o caminho aceso e transitável. Não há outra possibilidade. Mesmo podendo exercer a contestação cósmica, necessita o poeta da vida para construir/consumir as suas visões e proposituras.
Nos seus versos, entende a poetisa que a transitoriedade da vida sempre esbarra na mutação final da morte libertadora, mesmo que seja para cair em outra situação que ainda seja incógnita, mas novidade.
Assim é a pedra de alma inquieta que rola, rola e se desmancha, ou o mundo, que num ímpeto libertário, solta-se da sua mão, escorrega no escuro, e num deserto furo (buraco negro?), lá se vai, lá se vai.
Em outro poema curtíssimo, hai-kai transfigurado, ordena à vida que fuja e que se esconda, pois que a morte ruge e urge.
No poema Visões, a poetisa exercita ao máximo o seu tom contestatório, expondo as contradições do discurso vazio do homem moderno, cujas ações e atitudes jogam por terra a redundância das máximas inúteis e contrariadas.
Em outro poema, Requiém, o qual serve para intitular o livro, fala das dores das esperas inúteis, muito embora deixe também transparecer que sempre haverá um recomeço e uma nova esperança a ser exercitada. No bojo da transitoriedade do presente, o futuro reabilitará o passado sempre e as dores outonais diferenciam-se de todas as outras dores da vida, pois que o outono nada mais é do que uma síntese amadurecida dos tempos vividos.
Na fotografia da contracapa do livro, aliás, a poetisa parece procurar no infinito os vestígios do que definitivamente já se foi, passado a se metamorfosear em futuro. Nem mesmo parece querer observar as notícias do mundo que ainda existe e que estão estampadas nas primeiras páginas dos jornais iluminados pelo sol da manhã na banca de revistas por detrás de si.
Eliane Triska, a poetisa que veio do frio, nasceu em Porto Alegre, em 1953, mas o mar da vida a levou para Canoas, cidade situada a pouco mais de 13 quilômetros da capital gaúcha, numa região anteriormente habitada pelos índios Tapes. É de lá, da sua aldeia, que emite os poemas sinceros e universais que compõem o livro recém-lançado.


Recife, 2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tudo valerá


TUDO VALERÁ

Clóvis Campêlo

Se nem tudo vale a pena,
a pena valerá tudo.
Mesmo com alma pequena
existirá um contudo

que beirando o absurdo,
em trajetória serena,
emitirá um som surdo
de transformação amena.

E assim, surgindo do nada,
dar-se-á novo universo,
compondo nova camada,

do anterior o inverso,
com cores mais camaradas
e organizado diverso.

Recife, 1994

terça-feira, 11 de março de 2014

Em vão


EM VÃO

Clóvis Campêlo

Pela cidade em vão vagueio,
procuro rostos conhecidos
outrora e que me são perdidos
entre outros vultos alheios.

Encantaram-se os amigos,
mergulho em outra multidão,
embora seja o mesmo chão
pisado em tempos antigos.

Oh, cidade estranha e cruel,
nem mesmo o azul do teu céu
me faz sossegar as entranhas;

nem mesmo o brilho das tuas águas
a mim tranquiliza as mágoas,
a ansiedade tamanha.

Recife, 2008

sábado, 8 de março de 2014

Sonho


SONHO

Clóvis Campêlo

Ontem à noite, sonhei
que dobravas a esquina
de qualquer rua do Pina.
Como os atalhos
eu mesmo traço,
apanhei-te de surpresa
em um abraço.
Notei que estremecias
e acordei de sobressalto
em plena luz do dia -
já não estavas mais
em meus braços!
Não convencido,
olhei para o teu retrato
na parede do meu quarto.
Ainda sorrias e
o sonho não começara
Aquietei-me
e fui dormir em paz.


Recife, 2006

quinta-feira, 6 de março de 2014

Auto-retrato


AUTO-RETRATO

Clóvis Campêlo

Sou a reta e sou a curva,
a mão esquerda e a direita,
o verão na praia do Pina
e a chuva que adoça o caju.

Sou a revolução que não houve,
as dúvidas da certeza
e a alegria das dúvidas.

Sou o pai e sou o filho,
o vento que anuncia tempestades,
o raio que corta o céu ao meio
no meio da tarde.

Sou martelo agalopado,
entidade de corpo fechado,
soneto na nova medida
e a bandeira de São João.

Sou Elefante e Pitombeiras,
sou o Galo da Madrugada,
sou o barulho da feira
e o som da procissão.

Sou o amarelo de Nossa Senhora
e o azul de Iemanjá,
sou calmaria sem vento,
sou selva de pedra e cimento,
relva plantada no chão.

Sou o tudo e sou o nada,
o silêncio e a batucada;
sou o sul e sou o norte,
faca cega e navalha de corte.

Eu sou o fogo da vida
e sou o sopro da morte!

Recife, 2006


terça-feira, 4 de março de 2014

De olho em Cuba


DE OLHO EM CUBA

Clóvis Campêlo

De olho em Cuba,
vim do Pina lançando.
Lançando impropérios
contra a arrogância
sanguinária de Tio Sam,
lançando impropérios
contra o motociclista bêbado,
lançando impropérios
contra os buracos das ruas,
lançando impropérios
contra as aves do mangue
que insistem
em seus vôos libertários
enquanto o Homem
destrói o planeta.

Recife, 2008

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A forma


A FORMA

Clóvis Campêlo

Quedar-se ante a dureza
da forma. Com consciência,
fazer do verso a ciência
e do verbo a natureza:

rio que corre em leito estreito,
junção de vários conceitos.

Cuide porém o poeta
pra que a obra, completa,
se mostre qual pele nua

e, de poesia repleta,
a palavra seja crua.

Recife, 2007

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sambas e futebol


SAMBAS E FUTEBOL

Clóvis Campêlo

Segundo os estudiosos do assunto, foi no século passado que a música popular brasileira desabrochou de vez. De evolução em evolução, nos anos 50 criou consistência suficiente para se consolidar e desaguar em um movimento como a bossa nova. Embora contestada por alguns, que a acusam de americanizar definitivamente a MPB, a bossa nova mudou para sempre os rumos da nossa música popular, dando-lhe vigor suficiente para projetar-se pelo mundo a fora e o conquistar.
Esse meio tempo vivido pela música brasileira entre a incipiência e a maturidade, serviu para o aparecimento de compositores identificados com os novos assuntos e costumes da nossa sociedade. O futebol, com certeza, foi, e continua sendo até hoje, um deles. E o Clube de Regatas Flamengo, na condição de um dos maiores times de massa do Brasil, teria uma posição de destaque no imaginário e na capacidade criativa desses compositores.
Um desses compositores chamava-se Wilson Batista. Carioca, nascido na cidade de Campos, no dia 3 de julho de 1913, foi autor de mais de 700 músicas, muitas das quais falando do seu amor e da relação com o clube rubro-negro carioca. Como tema para os seus sambas rubro-negros, Wilson não deixava escapar até mesmo os momentos de derrota e decepção.
Na música “E o juiz apitou”, por exemplo, uma parceria feita entre ele e Antônio Almeida, narrando uma derrota do Flamengo para o Botafogo. O próprio Antônio Almeida, em depoimento publicado na revista nº 36 da coleção MPB Compositores, assim declara: “Wilson era flamenguista doente. Fomos ver um Flamengo x Botafogo, em General Severiano. O Mengo perdeu o jogo e ele saiu angustiado do estádio. Pegamos o bonde para voltar pro Café Nice e Wilson criou um caso com o motoneiro, dizendo que não pagaria a passagem, tão aborrecido que se encontrava com a derrota do seu 'mais querido'. Eu pedi calma e el reagiu assim: 'Eu tiro o domingo pra descansar e vou ao futebol me aporrinhar'. Fizemos ali mesmo, de parceria o samba. Wilson era assim'.
Um outro parceiro e grande amigo de Wilson Batista, o compositor Jorge de Castro, nessa mesma revista, afirmaria que Wilson nunca foi muito de compor. O seu negócio era o tema. “Eu imaginava uma história e contava pra ele, que fazia a música e a letra”. Foi assim, que juntos lançaram mais de 100 músicas, entre as quais o “Samba rubro-negro”, cuja letra segue abaixo:
“Flamengo joga amanhã / eu vou pra lá / vai haver mais um baile no Maracanã / O mais querido / tem Rubens, Dequinha e Pavão / eu já rezei pra São Jorge / pro Mengo ser campeão. / Pode chover, pode o sol me queimar / que eu vou pra ver / a charanga do Jaime tocar: / Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar / Quando o Mengo perde / eu não quero almoçar / eu não quero jantar”.
Só para terminar, o médio Dequinha, citado na letra e que marcou época no clube carioca ao lado de Rubens e Pavão, era potiguar e se destacou nos anos 50, jogando pelo América pernambucano antes de ser contratado pelo Flamengo.

Recife, 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pelas ruas do Recife


PELAS RUAS DO RECIFE

Clóvis Campêlo

Pelas ruas do Recife
surge a novidade,
afirmam-se credos seculares,
renascem mitos modernos.

Pelas ruas do Recife
dorme-se o sono dos justos,
cessam as palavras,
falam por si sós os fatos.

Pelas ruas do Recife
caminha a humanidade,
correm as notícias,
dispara a revolução.

Pelas ruas do Recife
travam-se todas as lutas,
cruzam-se todos os olhares,
reverenciam-se todos os deuses.

Pelas ruas do Recife
transitam todos os anjos,
ocorrem todas as mortes,
condensam-se todas as imagens.

Recife, 1999

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O refém


Escultura de Francisco Brennand
Fotografia de Clóvis Campêlo/2007

O REFÉM

Clóvis Campêlo

Para Alberto da Cunha Melo

Lembrava apenas do silêncio,
promessas nunca as fizera,
aquela luz era uma quimera,
sobre o escuro estava pênsil.

Não adiantaram os tratados,
angústias antes do mergulho,
o corpo agora era um entulho,
inteiro, mas dilacerado.

Sabia de todos os pecados,
lera-os em todos os livros,
compunham agora o seu crivo,
eternamente o seu legado.

Não adiantaram as palavras,
fazer-se cosmos, demiurgo,
restava-lhe agora o expurgo
resultante daquela lavra.

Recife, 2007


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sem tradução


SEM TRADUÇÃO

Clóvis Campêlo

Dedico este texto à poetisa baiana Liris Letieres e seu olhar de petardo

Já disse o poeta que o olhar feminino não se traduz. Traz no seu íntimo todos os segredos e mistérios do mundo. E quem seríamos nós, pobres seres humanos do sexo masculino, para enveredarmos pela sinuosidade desses labirintos?
Mas, na inquietude das almas dos homens, também há um lugar para o mistério. O sexo forte existe acima de tudo para isso: capitular ante a sedução dos olhares de Eva e defender esse legado da horda sedenta que dele procurar se aproximar e abrigar-se. Um gigantesco trabalho, facilitado hoje pelas convenções sociais, pelo mito do amor e pelas conveniências do sistema em que vivemos.
Já disse um outro poeta (ou terá sido um cientista revolucionário?), que a atração do macho pela fêmea, que se dá sempre através do seu olhar, traz a identificação da conjunção genética adequada para a reprodução e a manutenção da espécie. Portanto, o tesão nada mais seria do que a ação da Natureza nos sinalizando sub-repticiamente sobre a chegada do momento decisivo para o encontro ideal. Nós, seres humanos racionais é que fazemos disso interpretações equivocadas ou confusas e desordenadas. Quanto se trata do olhar feminino, toda inocência poderá ser castigada.
Quem poderia interpretar, por exemplo, o olhar da Mona Lisa? Enquanto muitos se preocuparam com o seu sorriso, a exemplo do doutor Freud, que no alto do seu saber psicanalítico o interpretou como uma atração erótica subjacente de Leonardo da Vinci para com a sua mãe, para mim, são os olhos claros da madona que nos irradiam o mais profundo mistério. Segundo a Wikipédia, esse novo compêndio do saber universal, o olhar da Gioconda parece acompanhar quem a observa. É ao mesmo tempo incógnita e sedução, mas sem tradução.
E o que dizer do olhar dissimulado de Capitu, a personagem machadiana, que nos incomoda sem nunca ter sido visto por qualquer um de nós? Esse privilégio foi dado pelo autor brasileiro apenas a Bentinho, o Dom Casmurro, que por ela se apaixona (o mito do amor) e se desencanta, transferindo para o leitor a sua visão apaixonada (no início) e crítica (no final). A dúvida de Bentinho sobre Capitu e o seu olhar dúbio arrasta-se até os dias de hoje, deixando o mistério em aberto e nós sem condições de concluirmos a nossa leitura e interpretação pessoal. Uma eterna dúvida sem tradução, criando assim em nós a tradição da dívida.
Já disse o poeta que o olhar feminino não se traduz. Traz no seu íntimo todos os segredos e mistérios do mundo. E quem seríamos nós, pobres seres humanos do sexo masculino, para enveredarmos pela sinuosidade desses labirintos?


Recife, 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Amor de Perdição


AMOR DE PERDIÇÃO

Clóvis Campêlo

A segunda geração do Romantismo português se deu entre 1838 e 1860. Essa geração, livre das influências arcádicas ainda presentes na primeira geração romântica, ultrapassou os limites da estética, desembocando no ultra-romantismo, onde se esgotaria, resultando, por sua vez, no Realismo.
Pertencente a segunda geração, Camilo Castelo Branco é o típico representante dessa fase. Em suas obras, das quais Amor de Perdição se constitui na mais famosa, a estética romântica se apresenta em toda a sua plenitude.
Ora, sabemos que as circunstâncias sociais, políticas, econômicas e culturais que permitiram a ascensão burguesa e a consolidação da ideologia romântica abriram espaços para o aparecimento de um público consumidor que se relacionava com o autor de maneira diferente. Saindo de cenário a figura do mecenas protetor, era necessário ao escritor atingir o sentimento das camadas ascendentes para que o seu produto, temperado com as novas matizes, fosse aceito e garantisse a sua sobrevivência.
Escrevendo sempre por encomendas e enfrentando dificuldades financeiras desde muito cedo, Camilo Castelo Branco teria de ser possuidor de uma agudeza de espírito suficiente para sintonizar com o estado emotivo do grande público. Em que pese o caráter romântico da sua própria vida, sempre envolvido em conquistas amorosas e em polêmicas, manifesta essa visão pragmática mesmo no fim da vida quando envereda pelos caminhos do Realismo, já a gosto do grande público.
No prefácio para a quinta edição portuguesa de Amor de Perdição, publicada em 1879, portanto já bem depois da segunda fase do Romantismo português (a primeira edição é de 1862), o autor reconhece que “visto à luz elétrica do criticismo moderno”, o romance se apresenta “romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e umas idéias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo”. Mais adiante, afirma que romance que “fez chorar”, agora “faz rir”. Tal opinião refaz o ponto de vista expresso pelo autor no capítulo XIX do próprio livro quando afirma que “um romance que se estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos”. Autocrítica? Duvidamos, considerando que no mesmo prefácio citado, o autor, ironicamente, afirma que “o bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas”. No máximo, entendemos que o autor teria tido a sensibilidade de perceber que o público leitor estaria se mostrando receptivo a uma nova estética advinda do esgotamento da filosofia ultra-romântica.
No que se refere ao romance propriamente dito, ele é composto de vinte capítulos, mais a introdução e a conclusão, onde é contada a história do amor entre Simão Botelho, tio do autor, e Teresa de Albuquerque. Segundo o próprio romancista, o livro foi escrito em quinze dias, na cadeia da cidade do Porto, onde Camilo se encontrava preso sob a acusação de adultério.
O romance é narrado na terceira pessoa, pelo próprio autor, usando o pretérito como tempo narrativo. Da sua condição de narrador, aproveita-se o autor para tecer considerações filosóficas, algumas repletas de uma ironia mordaz que nos lembram, de longe, a prosa machadiana. Observemos, também, que em vários momentos os sentimentos do narrador se confundem com os sentimentos do personagem Simão, o que se explicaria, talvez, pelo fato do livro haver sido escrito por Camilo em uma situação que muito se assemelhava à situação vivida pelo tio: estava prisioneiro na mesma cadeia, como conseqüência igualmente de uma relação amorosa.
No primeiro capítulo, o autor traça uma pequena genealogia mostrando as origens da família de Simão, sua também, onde não faltam doses de sarcasmo e ironia, como ao atribuir às broas de milho comidas na juventude pelo seu avô, Domingos Botelho, a culpa pela sua feiúra e pouca inteligência. Ao descrever a descendência da avó paterna, dona Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco, Camilo também não deixa por menos ao mencionar a glória “um pouco ardente” do general seu antepassado morto frito em um caldeirão sarraceno. Neste capítulo, o autor traça ainda, embora da maneira superficial que lhe é peculiar, o perfil psicológico de Simão, mostrando-o como uma pessoa impetuosa e agressiva, o que mais adiante, no desenrolar da história, resultaria no assassinato que o levaria à prisão fatal. Embora dotado desse temperamento decisivo, Simão, como quase todos os personagens românticos, notadamente os camilianos, não resiste à força do amor que, embora de início o redima, termina por ser a sua perdição.
No segundo capítulo, o autor situa historicamente o acontecimento: início do século XVIII, quando Portugal dividia-se entre os admiradores das teorias liberais vindas da França, entre os quais se colocava Simão, e os setores mais conservadores que ainda defendiam a monarquia absolutista. Atravessando um momento difícil, Portugal tentava manter-se neutro na questão entre a Inglaterra e a França. Indispor-se com a primeira significava enfrentar uma guerra que levaria ao enfraquecimento econômico da nação portuguesa, pois além do comércio crescente que Portugal mantinha com a Inglaterra e que seria interrompido, também seria cortado, pela forte esquadra inglesa, o acesso marítimo ao Brasil. Por outro lado, indispor-se com a França significava a possibilidade de ter o território português invadido pelas forças francesas, aliadas aos espanhóis. Adepto das idéias francesas, que considerava portadoras do progresso – segundo José Hermano Saraiva, a questão entre absolutistas e liberais, em Portugal, teria aí se iniciado -, Simão é preso por defende-las em praça pública, sendo enviado à casa dos pais, em Viseu, onde conhece Teresa, filha de um vizinho desafeto do seu pai, e por quem se apaixona, dando início à trama do romance.
A partir daí os capítulos restantes dedicam-se exclusivamente à narração do drama passional que envolve Simão e Teresa. Possuídos pelo sentimento da paixão, caminham inapelavelmente para o desfecho fatal.
Além de Simão e Teresa, são personagens dignos de destaque no romance os pais do protagonista, Domingos e Rita, ele de família fidalga, mas de parcos atributos físicos e mentais; ela, bonita, filha de um capitão de cavalos. Do casamento entre eles, “desgostoso”, segundo o autor, nasceram os filhos Manuel, o mais velho e pai de Camilo, Simão e três irmãs que pouco destaque têm no romance. Pelo lado de Teresa, podemos destacar o seu pai, Tadeu de Albuquerque, que se opõe ao romance por ser desafeto de Domingos Botelho, e Baltazar Coutinho, primo de Teresa, escolhido por Tadeu de Albuquerque para desposa-la, que acaba sendo assassinado por Simão, no desenrolar da história. Podemos citar ainda João da Cruz, ferreiro liberto da prisão graças a um indulto concedido pelo pai de Simão, e que, por conta desse favor, sente-se na obrigação de protegê-lo na sua empreitada, e Mariana, filha de João da Cruz, que se apaixona por Simão e também termina tragicamente.
Dentro desse contexto o romance acontece e chega a um final infeliz: um amor arrebatador entre dois jovens filhos de famílias inimigas, que, impossível de se concretizar, deságua na morte. Se o espírito romântico, por um lado, já admitia a possibilidade de um relacionamento dessa natureza, onde os sentimentos desafiam a hierarquia familiar prenunciando fissuras nessa estrutura, por outro lado, ainda não oferecia condições para um desfecho que não fosse a tragédia.
Assim, admitia o gesto embora o castigasse.


Recife, 1992

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Canção para Marylin


CANÇÃO PARA MARYLIN

Clóvis Campêlo

Inerte em sono de pedra
reténs em teu corpo apenas
as cores do simulacro.

Teus olhos planos não vêem
velhos tempos e espaços
outrora já habitados.

No entanto, sempre serás
ícone de eras modernas,
fulgurante clarão da América,
a eterna deusa morta.

Recife, 1994

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Um campeão centenário


UM CAMPEÃO CENTENÁRIO

Clóvis Campêlo

Assim como eu, O Santa Cruz nasceu no bairro da Boa Vista, no centro do Recife. O ano? 1914, quando a cidade ainda era um arremedo do que é hoje.
Não nasceu no seio da burguesia pernambucana ou da aristocracia açucareira e mercantil que mandava os filhos da pátria mãe gentil estudar na Europa e adquirir hábitos bizarros e diferenciados. Foi assim, na bagagem dos que regressavam, que o futebol chegou por estas plagas. Foi assim que ele aportou na cidade maurícia e terminou por seduzir os meninos da classe média que antes só se atreviam o olhá-lo de longe. Para eles, a bola ainda era um mundo a ser conquistado.
Pois bem, assim o foi. Onze desse meninos filhos da classe média, premeditando o sucesso, fundaram o Santinha na noite do dia 3 de fevereiro daquele ano longínquo.
De lá para cá, muita água rolou nesses cem anos que se completam na próxima segunda feira, dia 3 de fevereiro de 2014. Período de glórias e êxtases e períodos de insucessos comprometedores nem sempre explicáveis.
Do Pátio da Santa Cruz ao Arruda, o Santinha perambulou por vários locais e bairros, construindo parte da sua história. Mas foi no Arruda, a partir dos anos 40, onde se firmou e afirmou. De início, o terreno pertencente ao comendador Arthur Lundgreen foi alugado. Depois, comprado com a ajuda do prefeito José do Rego Maciel, que posteriormente teve o estádio inaugurado no início dos anos 70, mais precisamente em 1972, batizado com o seu nome.
A construção do estádio foi importantíssima para a nossa consolidação enquanto clube de futebol e na conquista dos títulos mais significativos. Em 1969, com ele ainda em construção, quebramos a sequência do hexa timbu e desbancamos o time da Ilha do Retiro, dando início a uma sequência vitoriosa que nos levaria ao pentacampeonato estadual.
Os anos 70, aliás, foram por demais significativos. Montamos grandes equipes e conquistamos grandes vitórias contra equipes campeãs nacionalmente. Elevamos o nome do Santa Cruz no cenário futebolístico nacional, tornado-o respeitável e digno de menção. Não foi a toa que encerramos a década com uma grande excursão pelo Oriente Médio e Europa, retornando dela invicto e ganhando da Confederação Brasileira de Futebol o título de Fita Azul do Futebol Brasileiro, em reconhecimento a essa bela campanha.
Hoje, depois de uma fase em queda no futebol brasileiro, onde chegamos a alcançar os mais baixos patamares, como uma fênix estamos renascendo e ascendendo novamente, caminhando para retornar ao lugar de destaque que sempre merecemos no futebol brasileiro.
A força da nossa torcida, presente na vida do clube mesmo nos piores momentos por nós vividos, serviu para mostrar ao mundo inteiro por que somos considerados o clube Mais Querido do futebol pernambucano.
Isso tudo deve ser lembrado com orgulho na próxima segunda-feira, dia 3 de fevereiro de 2014, quando estaremos comemorando o nosso centenário.

Recife, 2014