sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Insônia


INSÔNIA

Clóvis Campêlo

A primeira lembrança que esse título me traz à mente é o livro homônimo de Graciliano Ramos lançado em 1947 pela Editora José Olympio. Seu Clóvis, meu genitor, tinha na estante de casa toda a coleção do escritor alagoano, que tive a sorte de ler ainda na adolescência.
Meu pai não era um intelectual no sentido estrito do termo, mas tinha uma pequena e eclética biblioteca caseira onde desfilavam alguns grandes autores: Graciliano Ramos, Albert Camus, Vladimir Nabokov, entre outros. Mas tinha também na estante autores populares, como Marcial Lafuente Estefanía, um espanhol que gostava de escrever sobre o velho oeste, e heróis da literatura de massa americana, como Irving Le Roy, detetive de cabelos prateados, e Shell Scott, um ex-fuzileiro naval americano que lutou na Guerra do Pacífico e que criava peixinhos dourados no seu escritório. Diante deles, costumava decifrar as mais incríveis incógnitas policialescas.
Entre as heroínas, lembro-me de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Integrante da Resistência Francesa na II Guerra Mundial, usava a sua beleza e formosura para arrancar informações dos oficiais nazistas. Descoberta e fuzilada pelos alemães, Giselle deixaria uma filha, Brigitte Montfort, que transformada em agente super espiã da CIA, ajudaria Tio Sam na Guerra Fria contra a expansão ideológica da então União Soviética. Cercados por tantos e fabulosos heróis, estávamos à salvo do perigo vermelho no Pina dos anos 60.
Contudo, amigos, não era minha intenção ir tão longe nessa abordagem memorialista da pequena biblioteca do meu pai. Queria apenas fazer referência ao livro de Graciliano Ramos, tomando-o como leitmotiv para falar da insônia que hoje de vez em quando me atormenta.
De início, também lembrei-me da falta de sono que atormentava Michael Jackson e que terminou por fugir do seu controle e levá-lo à morte. O astro pop ficava várias noites sem dormir e tentava explicar isso como resultante da adrenalina que lhe deixava excitado após cada show. Afirmava que perdia, em média, quatro quilos por apresentação e de madrugada, na solidão dos quartos de hotel, não conseguia conciliar o sono. Diariamente, necessitava de um coquetel de sedativos e soníferos para desfrutar de algumas horas de descanso. Embora não nutrisse por ele grandes admirações, não deixei de me comover com o seu drama pessoal.
De Graciliano Ramos a Michael Jackson, muita águas rolaram na minha vida e no mundo. Hoje, ambos estão mortos, muito embora ainda sejam respeitados e admirados nas suas respectivas áreas.
Quanto a mim, utilizo a minha insônia como motivo para mais uma crônica. Nas madrugadas barulhentas do bairro da Madalena, onde hoje moro, faço da varanda do meu apartamento um mirante privilegiado onde procuro observar a lua e as estrelas no céu, à noite, e o movimento incensante dos automóveis pela madrugada.
Tudo ao som de Moonlight Serenade, de Glenn Miller.

Recife, julho 2014

terça-feira, 29 de julho de 2014

Quem canta os seus males espanta?


QUEM CANTA OS SEUS MALES ESPANTA?

Clóvis Campêlo

Faz tempo isso. Encontrei o amigo na Ponte da Boa Vista, no centro do Recife, debaixo da maior chuva. Cantava e dançava na rua. Estava feliz. E como sempre foi muito performático, tentava demonstrar isso a todos os transeuntes.
O motivo de tanta felicidade? Conseguirá, finalmente, seduzir a mulher pela qual estava apaixonado. Achava que a empreitada valia uma demonstração pública de maluquices. O povo olhava admirado e, é claro, sem entender muita a coisa. Eu mesmo imaginei que houvesse enlouquecido, até que me explicasse o fato. Mesmo assim, achei que era muita atitude para pouco resultado. Como pode se iludir um homem apaixonado!
O tempo passou e mostrou que eu tinha razão. Depois de dez anos e dois filhos, separaram-se. Ela gostava de outro. Sempre gostara e ele, na sua paixão desvairada, não conseguira perceber isso. Cada um seguiu o seu caminhar. A vida, camaradas, sempre insiste em prosseguir.
Para mim, cantar na chuva sempre foi coisa de americanos. E ele, o meu amigo apaixonado, não se parecia nem um pouco com o Gene Kelly. Talvez, visualmente, estivesse mais para Malcolm Mcdowell, que interpretou o vilão sádico de Laranja Mecânica, cantando a mesma música, numa sequência em que espanca um homem e estrupa a sua mulher.
Mas, afinal, cada um, canta onde se sente mais à vontade para tal. Dona Tereza, minha mãe, por exemplo, adorava cantar na cozinha, enquanto preparava o almoço. Catava o feijão interpretando Noel Rosa (“Nosso amor que eu não esqueço...”) e batia os bifes com Maysa Matarazzo (“O meu mundo caiu...”). Nos dias em que brigava com o meu pai, desafogava a raiva caprichando nas porradas e amaciando a carne. Hoje, tenho a clara percepção de que esses foram os melhores e mais macios bifes que eu comi na minha vida.
Cantar, cantava também embriagado o velho Manoel, homem de cor apaixonado por dona Lourdes, mulher branca de peitos fartos e lhe incendiar a imaginação: “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa do amor, por Deus esculturada...”. Ela, com seus óculos escuros de madona experiente, fingia não perceber que a canção lhe era destinada. E aquele canto ao mesmo tempo alegre e nostálgico do cantor apaixonado, rasgava no Pina as noites quentes de verão. Houve um tempo em que Manoel, lanterneiro de mão cheia, era o seu mantenedor. Ganhara muito dinheiro com os americanos na ocupação da Segunda Guerra Mundial.
A pensão de dona Lourdes (estritamente familiar, faça-me o favor!), ficava próxima ao Cassino Americano, onde os garbos soldados de Tio Sam se divertiam. Ali, em noites de luar, quando a musicalidade do mar se fazia notar com mais esplendor, o velho negro dera provas incontestáveis do seu amor pela matrona.
Com o fim da guerra, no entanto, não encontrara a paz o seu coração. Dona Lourdes apaixonara-se por um velho taifeiro americano que resolvera dar baixa da marinha ianque e viver o resto dos seus dias contemplando, ao seu lado, a magia do mar do Pina.
Só restara ao poeta apaixonado, noite após noite dedilhar ao violão o seu canto plangente: “Oh linda imagem de mulher que me seduz...”

Recife, 2014

domingo, 27 de julho de 2014

Tudo melhora todo o tempo?


TUDO MELHORA TODO O TEMPO?

Clóvis Campêlo

A vida não nos permite nenhuma outra alternativa do que caminhar sempre na linha reta do tempo. E, se o futuro a Deus pertence, o passado é nosso, um velho filme guardado nos porões da mente, podendo ser resgatado a qualquer momento.
Se o futuro é uma página em branco aguardando o seu desenho, o script do passado não pode ser modificado, a não ser pela imaginação. Todo esse processo se dá aqui e agora, no momento fugidio do presente.
Só nos resta, assim, caminhar para o futuro, para a frente, mesmo sabendo que lá, em alguma esquina do tempo, encontra-se o lance final, o umbral da transformação solitária. Para onde vamos? Sabe-se tanto quanto de onde e por que vinhemos!
Esse questionamento inútil é privilégio (ou sofrimento) que contempla apenas o ser humano. Divagamos, subjetivamos e sofremos por isso. Para que angústia diante do inevitável da vida?
Mesmo assim, é de bom alvitre pensar que tudo melhora todo o tempo. Se nos é dado o direito de criar mecanismos compensatórios, esse pode ser um deles. O acervo memorialista do indivíduo (e talvez de todo o coletivo humano) é sempre definido pelo que já se passou. Os bons momentos vividos e as realizações gratificantes insistem em se repetir. Por seu lado, as experiências negativas e traumatizantes criam em nossos inconscientes bloqueios defensivos e isolantes. Assim, instintivamente, tendemos a repetir o que achamos que pode ser certo e satisfatório sempre. Não entendemos, dialeticamente, que o que mantém a vida pode ser o mesmo que a ceifa. Do mesmo modo, a ameaça imaginada também pode ser a salvação. Ao nosso racionalismo, alimentado por séculos, não cabe entender isso.
O ideal seria alimentarmos a indiferença diante do que nos foge ao controle. Até porque talvez não exista controle algum sobre nada. A ideia do controle generalizado seria mais uma tentativa desesperada de sobrevivência do nosso ego (sem o corpo, ele não mais existe).
Talvez, como diria o poeta Bandeira, só nos reste relaxar e dançar um tango argentino. Chega de enganarmos a nós mesmos. Afinal, pior do que está ainda pode ficar. O somatório da experiência humana é que nos diz isso. Por que, então, insistir em nadar contra a corrente do tempo retilíneo?
Ou então colocar na vitrola aquela canção do Roberto. É preciso saber viver. Sem medos e sem ódios. Exercitar o olhar calmo dos mártires diante do inevitável.
Talvez entender que viver é praticar a capacidade de suportar a vida no que ela ainda não nos mostrou de pior. Resignar-se como o cordeiro a ser imolado.
Deixemos que os quatro fabulosos continuem a cantar “Is getting better all the time”!

Recife, 2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Seu Ariano


SEU ARIANO

Clóvis Campêlo

E lá se foi seu Ariano. O mês de julho, fica assim marcado por mais uma morte literária. Um autor que soube fazer a junção da cultura erudita com a tradição oral da cultura popular. Juntou tudo, colocou no liquidificador da imaginação e criou, entre outras coisas, o Movimento Armorial.
Lançada em 1970, segundo definição do próprio Ariano no Jornal da Semana de 20 de maio de 1975, a arte armorial seria aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico da literatura de cordel, com a música de viola, rabeca ou pífano que a acompanha, e com a iconografia das xilogravuras que ilustram as suas capas.
Alguns podem até questionar que esta teria sido mais uma apropriação indébito da arte do povo por um autor pequeno burguês, muito embora tenha resultado em obras fantásticas e de grande identificação como o imaginário do homem nordestino da classe média.
Outros, podem até classificá-lo como xenófobo, haja vista a sua aversão pelo “modernismo” influenciado por culturas alienígenas. Quem não se lembra, por exemplo, do questionamento que teria feito a Chico Science sobre a adoção de tal nome: “Por que não Chico Ciência?”. Quem não se lembra, por exemplo, que sempre desconsiderou a Bossa Nova como um movimento musical autenticamente brasileiro, acusando-a de descaracterizar a MPB sob a influência do jazz? Quem não se lembra, por exemplo, da aversão que nutria pelo Movimento Tropicalista dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, por achar que avacalhava a cultura brasileira expondo os seus ridículos e contradições?
Poucos se lembram, porém, de que a tradição cultural popular nordestina está enraizada na cultura portuguesa medieval, transplantada para cá por nossos invasores e colonizadores. Nesse sentido, mestre Ariano “apenas” recusava-se a aceitar as influências modernizadoras da nossa cultura, reconhecendo como autêntico somente o que se manteve inalterado ou pouco modificado pela passagem do tempo.
Poucos se lembram também que embora professasse ultimamente o credo socialista, resultante da aproximação que teve com o ex-governador Miguel Arraes, do qual foi vizinho no bairro de Casa Forte, nos anos 70, anos de chumbo da ditadura militar, foi secretário de cultura no governo biônico do prefeito Antônio Farias, entre 1975 e 1978, além de sócio fundador do Conselho Federal de Cultura, em 1967, indicado pelo reitor Murilo Guimarães da UFPE.
A aproximação com o ex-governador Miguel Arraes no início dos anos 90, aliás, levou-o a ocupar o cargo de Secretário Estadual de Cultura.
De agnóstico à cristão, de integrante do governo militar da ditadura ao credo socialista, assim foi Ariano Suassuna. Subindo o Morro da Conceição para homenagear a Santa ou dando as suas aulas-espetáculos nas universidades brasileiras, marcou presença na vida cultural brasileira dos séculos XX e XXI.

Recife, 2014

sábado, 19 de julho de 2014

Reminiscências e histórias julianas



REMINISCÊNCIAS E HISTÓRIAS JULIANAS

Clóvis Campêlo

Para mim, o mês de julho começa no dia 3, com o aniversário do meu neto Pedro. No dia 29, nasceu seu Clóvis, meu pai. Entre as duas datas natalícias, ainda comemoro no dia 5 o aniversário de dona Carmelita, a minha avó materna, e dos meus tios maternos Maurício e Luiz, nos dias 11 e 15, respectivamente,
Foi no dia 20 de julho de 1969, aliás, que a missão Apollo 11 pousou na lua. Os astronautas americanos Neil Amstrong e Edwin Aldrin, tornaram-se, assim, os primeiros seres humanos a pisar no solo lunar. Na noite desse acontecimento, eu participava de uma semana de arte popular organizada pelo grupo Juventude Unida de Brasília e Pina (Jubrapi), no salão de festas da paróquia de Brasília Teimosa. Foi uma noite de apresentações dos grupos de samba e maracatus do bairro, além de uma exposição de artistas plásticos e poetas populares. Engana-se quem pensa que o povo não tem uma cultura sólida e ancestral.
Curti tudo isso na companhia do meu amigo Valmir Sá e de Gracita Salgueiro, uma garota encantadora que estava na minha alça de mira havia tempos e que morava na mesma rua em que eu morava. Começamos a namorar naquela mesma noite. Juntos, assistimos o baticum dos maracatus e dos sambas suburbanos, vimos na pequena televisão em preto e branco o noticiário sobre a conquista da lua, e depois nos beijamos no portão da sua casa. Parafraseando o outro Amstrong, o Louis do piston, eu cantarolava “What a Wonderful World”!
Composta em 1967 por Bob Thiele e George David Weiss especialmente para Amostrong, a canção fala nas coisas simples do dia a dia e na esperança de um futuro melhor e mais promissor para a espécie humana. Ainda havia muito a ser aprendido por nós, adolescentes, e, portanto, a música vinha a calhar naquele momento histórico e pessoal.
Amstrong, o músico, por sinal, faleceria em Nova Iorque, no dia 6 de julho de 1971, quatro anos apenas após ter gravado a música acima.
O mês de julho também, dentro da tradição da Igreja Católica, é devotado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, em reverência ao sangue de Jesus derramado na cruz. Consta que, em 1848, o Papa Pio IX foi expulso de Roma pelas forças revolucionárias. No ano seguinte, os exércitos franceses permitiram-lhe voltar à Cidade Eterna, após um ataque que durou de 28 de Junho a 1 de Julho. Invocando e dando graças pelo sangue derramado por Jesus por amor aos homens de todos os tempos, o Sumo Pontífice criou esta festa, situando-a no dia em que lhe foi possível voltar a Roma. O Papa seguinte, Pio X, estendeu a festa à Igreja Universal. Nos nossos dias, quase esquecida, a festa é celebrada solenemente em algumas congregações religiosas.
Em julho, nós recifenses, reverenciamos Nossa Senhora do Carmo, a padroeira da cidade, cuja festa comemora-se no dia 16. Julho também é o mês de San'Ana, a mãe de Maria, com festa no dia 26.

Recife, 2014


terça-feira, 15 de julho de 2014

Sem choro nem vela!


SEM CHORO NEM VELA

Clóvis Campêlo

Desonerados pela goleada sofrida contra a Alemanha, disputamos o terceiro lugar no sábado, em Brasília, e voltamos a amargar outra derrota: Holanda 3x0. Assim, de revés em revés, superamos duas marcas negativas ao longo da história da nossa seleção de futebol: levamos dez gols em dois jogos seguidos, fato absolutamente inédito, e sofremos duas derrotas consecutivas em uma mesma copa do mundo, o que não acontecia desde 1974, quando perdemos por 2x0 para a Holanda de Cruijf e Neeskens, e perdemos depois, na disputa pelo terceiro lugar, para a Polônia de Lato.
A nossa campanha, aliás, nesta Copa do Brasil foi bastante sofrível: em sete jogos, três vitórias, dois empates e duas derrotas. Marcamos onze tentos e sofremos quatorze, com um saldo negativo de três gols. Até a vitória contra a Colômbia, uma campanha razoável. Depois, o desastre total, o vexame.
Baseados na campanha vitoriosa da Copa das Confederações, no ano passado, quando no jogo final derrotamos por 3 x 0 nada mais nada menos do que a Espanha de Iniesta, campeã do mundo em 2010, na África do Sul, e vencedora do Campeonato Europeu de Seleções, em 2012, repetimos praticamente os mesmos jogadores e o mesmo esquema tático.
Desde a primeira fase, porém, que o rendimento brasileiro não se mostrou o mesmo. Quando o lateral esquerdo Marcelo, no jogo de abertura da Copa, marcou um gol contra em favor da Croácia, foi pouco confortado por toda a equipe. Apenas o goleiro Júlio César lhe foi solidário e o consolou. Toda a restante da equipe ficou indiferente, como se não tivesse nada a ver com o acontecido. Marcelo, aliás, que segundo alguns comentaristas esportivos brasileiros seria o jogador brasileiro cujo nível técnico mais se aproximaria do de Neymar, teve um desempenho apenas razoável. Toda a equipe, aliás, seguiu esse nível técnico. Até mesmo a dupla de zaga, formada por David Luiz e Tiago Silva, mostrou um desempenho de baixa qualidade, cometendo erros individuais e coletivos fatais e que influíram diretamente no resultado dos dois últimos jogos, comprometendo-se e comprometendo o conceito de grandes jogadores do qual desfrutavam.
No último jogo contra a Holanda, inclusive, quando um grande público compareceu à Arena Mané Garrincha, em Brasília, esperando uma grande vitória da Canarinha e uma atuação reabilitadora, mais outra imensa decepção. Vimos um time sem alma e sem garra ser facilmente envolvido pela Holanda de Robben e Van Persie que, sem muito esforço, nos impôs uma outra goleada.
Resta-nos agora iniciar um trabalho de renovação humano e conceitual, já que muitos dos jogadores do elenco atual estarão com a idade avançada na Copa do Mundo da Rússia, em 2018, e já que os nossos conceitos táticos mostraram-se dentro de campo ineficazes e superados.
Nesta Copa do Mundo, lá se foi uma camisa amarela sem direito a choro e nem vela!

Recife, 2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Vencer e mudar!


VENCER E MUDAR!

Clóvis Campêlo

Amigos brasileiros, para nós agora o importante é vencer e mudar! Chega de incompetência e fair-play! Já sabemos que vamos enfrentar a Holanda, na disputa pelo terceiro lugar. O esquema de jogo holandês assemelha-se ao da Alemanha: força, velocidade e competência tática. O time de Robben chega à disputa pela terceira colocação sem perder de ninguém e com o mérito de ter goleado a favorita Espanha no seu jogo inicial. É bem verdade que depois andou se atrapalhando com seleções menos expressivas, mas pratica um futebol cartesiano que se assemelha aos germânicos. É água mole que bate em pedra dura até que fure. Resta-nos engrossar com eles e reverter com categoria a situação conceitual que nós é adversa.
Mas, será que já superamos o trauma da goleada para nos impor? Muito mais do que uma obrigação, isso, para nós, deve ser uma questão de honra! O selecionado brasileiro é formado por jogadores profissionais amadurecidos e bem sucedidos em suas carreiras individuais. Não teriam o direito de cometer outra falseta. Podemos até perder novamente, mas imbuídos de um espírito de luta que não foi utilizado contra a Alemanha. Afinal, ainda somos a Pátria de chuteiras e temos a tradição de um pentacampeonato disputado e ganho com méritos dentro de campo!
A seleção argentina chega à final da Copa 2014 com uma equipe relativamente modesta. Em nenhum momento da competição chegou a empolgar. Mas, teve o mérito de saber superar os obstáculos e alcançar o objetivo maior. Para eles, a possibilidade de serem tricampeões mundiais no Brasil, dentro do Maracanã, o templo do futebol, é fantástica. Não sei se conseguirão esse feito, pois considero que a Alemanha é muito mais equipe. Mas, decisão é decisão e em termos de superação os argentinos sempre surpreendem.
Sinceramente, amigos, para mim, a Copa do Mundo 2014 perdeu muito da sua graça com a eliminação do Brasil. Talvez por conta desse espírito desanimado é que tenha achado chatíssimo o jogo de anteontem, entre argentinos e holandeses. Um jogo truncado, com um respeito mútuo excessivo e que terminou sendo decidido na loteria dos pênaltis.
Preocupa-me agora a seleção brasileira. Desperdiçada a possibilidade do hexacampeonato e com uma média de idade alta entre os jogadores participantes da Copa 2014, precisaremos iniciar já um trabalho de renovação. Acredito que essa geração merece ser aposentada, ao menos em termos de seleção brasileira, do mesmo modo que Felipão e Parreira. Todos eles já deram a sua contribuição ao futebol brasileiro. Que troquem as chuteiras da glória pelas sandálias da humildade e da aposentadoria.
Que uma nova geração de valores surja e nos reabilite a credibilidade diante do mundo. Ninguém de bom senso poderá negar a qualidade dos nossos jogadores. Ninguém de bom senso, também, poderá negar que essa geração, com pouquíssimas exceções, foi superada pela dinâmica do futebol moderno.

Recife, 2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O arfante peito meu


O ARFANTE PEITO MEU

Clóvis Campêlo

Nascido depois, amigos, não fui testemunha da decisão entre Brasil e Uruguai, em 1950. Toda a informação que tenho hoje sobre aquela tragédia, obtive através da imprensa falada, escrita e fotografada. Tudo em preto e branco, como permitia a tecnologia da época. A bola de Ghiggia entrando, a cara desolada de Barbosa, o choro desconsolado das arquibancadas. Tudo variando do branco da camisa que vestia a seleção brasileira no dia fatal ao preto das sombras que assolaram o Maracanã. Mesmo assim, até ontem, esse fantasma me assombrava.
É claro que a partir de 1958, quando em tons amarelos ganhamos nossa primeira copa do mundo, a coisa se transformou e a eterna dor da derrota no Maracanã transformou-se em ímpetos de alegria e orgulho. A seleção brasileira passou a ser a pátria de chuteiras, redimindo-nos dentro de campo e elevando bem alto a nossa auto-estima. Aquele era um país que ia para a frente dentro e fora de campo, dizia o Gauss da época.
É bem verdade que entre os jogadores brasileiros que participaram da Copa em 1950, alguns sobreviveram à catástrofe, como Nílton Santos, que se tornaria bicampeão mundial, em 1958 e 1962, e seria considerado o maior lateral esquerdo de todos os tempos no futebol mundial. O próprio Barbosa, embora não tenha mais voltado à seleção brasileira, também teve uma longa carreira, após o Maracanaço, chegando, inclusive, a defender o glorioso Santa Cruz, no final dos anos 50, quando foi supercampeão pernambucano pela equipe coral. A maioria, porém, ficou definitivamente marcada pelo fracasso daquela decisão. No final, tudo aquilo conseguido durante o torneio, toda a bela campanha, foi reduzido à nada com a derrota.
Ontem, amigos, ao vivo e à cores, a situação repetiu-se para nós, com o agravante de uma goleada inesperada. Por mais que estivéssemos mal na competição, com uma equipe desentrosada e sem um esquema tático definido e eficiente, ninguém esperaria uma derrota por 7x1 para a Alemanha. Em dez minutos, ainda na primeira etapa, a máquina germânica nos impôs cinco tentos, sem que a nossa seleção conseguisse esboçar qualquer reação possível. Descuido, desatenção e desânimo, assim poderíamos definir a questão. Assim, na derrota achapante, diluiu-se o sonho do hexa. Assim, na capital mineira, mostrou-se para nós um horizonte nada belo. A síndrome do fracasso em terras brasileiras voltou a nos assolar. Fomos atropelados por uma seleção que prima pela atenção e repetição sistemática de jogadas bem ensaiadas. A criatividade brasileira, tão mal executada nesta Copa, caiu definitivamente por terra diante do mecanicismo alemão.
Resta-nos agora por em prática o senso de responsabilidade que ainda nos resta e nos prepararmos para enfrentar o perdedor do jogo de hoje, entre Holanda e Argentina, no próximo sábado, em São Paulo.
A vitória talvez sirva para aquietar o arfante peito meu.

Recife, 2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Esse jogo não é 1x1!


ESSE JOGO NÃO É 1 x 1!

Clóvis Campêlo

No retrospecto da Copa 2014, amigos, a Colômbia leva vantagem sobre a seleção brasileira. Foram quatro jogos, com quatro vitórias inquestionáveis, inclusive, a última, sobre o Uruguai, que faz parte do seleto grupo dos campeões mundiais. Nós, brasileiros, conseguimos apenas duas boas vitórias e dois minguados empates. Estamos, portanto, em desvantagem.
Porém, no âmbito geral, o futebol colombiano nunca ocupou uma posição de maior destaque. Sua melhor colocação em copas do mundo, aconteceu em 1962, na Copa do Mundo do Chile, quando fomos bicampeões, ao ocupar 0 14º lugar. Naquela copa, inclusive, teve o grande mérito de empatar em 4 x 4 com a poderosa seleção da União Soviética. Nos demais jogos disputados, contra Uruguai e Iugoslávia, derrotas por 2x1 e 5x0. Aquela copa do mundo, aliás, foi a primeira disputada pela Colômbia. Depois, uma longa ausência em participações no mundial, só voltado à cena em 1990. Em 1994 e 1998, repetiu a dose, conseguindo a classificação para a fase final. Em 2002, 2006 e 2010, esteve mais uma vez ausente da disputa, haja vista a não classificação nas eliminatórias sul-americanas. E só. Volta agora, em 2014, como uma das sensações. Hoje, fará o seu teste de fogo ao enfrentar um país que já é penta campeão do mundo e busca a sexta conquista. Não vai ser fácil. Essa, inclusive, será a primeira vez que as duas seleções se encontrarão, numa copa do mundo.
No âmbito da Copa América, apenas uma vez, em 2001, quando a competição foi disputada no país, consegui vencer. Antes, em 1975, chegou ao vice-campeonato. E mais nada.
Entre os craques que vestiram a também camisa amarela colombiana, destaque para o meia Valderrama, que entre 1985 e 1998, com a sua vasta cabeleira, disputou 111 jogos pela seleção (foi o jogador que mais atuou) e marcou 11 gols. René Huguita, o folclórico goleiro de lances fantásticos e inusitados, foi outro grande destaque do selecionado colombiano, entre 1987 e 1999, atuando em 69 jogos e marcando três gols. No elenco atual, que disputa a Copa do Mundo do Brasil, está outro grande goleiro colombiano, Faryd Mondragón, que aos 46 anos de idade tornou-se o jogador mais velho a participar de uma copa do mundo e nela atuar, sem falar em James Rodrigues e Cuadrado.
Assim, mesmo sem a tradição de muitos títulos conquistados, a seleção colombiana já tem muitas histórias pra contar.
Do outro, a seleção brasileira, a única a participar de todas as copas já disputadas e a única a conquistar cinco títulos mundiais. Além de muitas e valiosas histórias, de uma relação imensa de grandes craques revelados ao mundo, a tradição de grandes conquistas. Se derrotarmos a Colômbia e passarmos para as semifinais, por conta da nossa tradição de grandes vitórias, não teremos feito mais do que a nossa obrigação de ganhar e chegarmos ao hexa.
Uma vitória colombiana significará para eles a superação e a quebra de mais um estigma, elevando o nome do país andino a um patamar superior no contexto do futebol mundial.
Por isso, amigos, não acredito que esse jogo seja 1 x 1!

Recife,2014

terça-feira, 1 de julho de 2014

E agora, Maria?


E AGORA, MARIA?

Clóvis Campêlo

Tudo parecia pronto para uma tarde festiva e vitoriosa, quando Maria, a colombiana, apareceu na sala vestindo uma camiseta vermelha, destoando da predominância amarela que ali se instalara. Talvez um descuido, talvez um ato falho, mas a situação gerou muitas brincadeiras e desafios.
Começa a peleja e logo a seleção brasileira faz um a zero, num gol meio malassombrado de David Luiz. Logo, no entanto, manifesta-se na Canarinha a síndrome da bunda na parede. Tentamos garantir o placar minguado na defensiva, esquecendo que a melhor defesa sempre é o ataque. Como se já não bastasse jogarmos com dois volantes pouco criativos (Luís Gustavo e Fernandinho, que não repetiu a atuação do jogo anterior contra camarões), temos um meia, Oscar, sumido no jogo e esquecido em campo. O Chile empata, numa bobeira de Hulk (logo ele, o super-herói brasileiro!) e ficamos com a impressão de que o nosso escrete sentiu a porrada. Começa a pressão em cima de Maria, a colombiana, para que trocasse a camiseta vermelha por outra amarela. Maria sucumbe à pressão brasileira e faz a troca, mas a nossa seleção parece não ter entendido os anseios da torcida e continua mal na partida. Termina o primeiro tempo com um certo alívio para nós, brasileiros. Volta a esperança de que, na segunda etapa, Felipão (como se ele fosse um grande estrategista!) acerte os ponteiros da seleção e consigamos praticar um futebol digno de pentacampeões.
Porém, recomeça o jogo e, apesar da camisa amarela de Maria, a colombiana, e do suposto esporro de Scollari, continuamos mal em campo. Aumenta a pressão chilena. Parece que o nosso meio campo desaprendeu de vez a jogar. Não funciona e a todo momento tentamos a chamada ligação direta da defesa para o ataque. Isolado, lá na frente, Fred pouco ou nada consegue fazer. Recuado para buscar jogo e marcado até com uma certa deslealdade, Neymar Jr. não produz. Somos muito mais um amontoado de jogadores em busca desesperadamente do gol do que um time coeso e praticante de um futebol coletivo. Assim se encerra o tempo regulamentar e vem a prorrogação. Nela, escapamos milagrosamente da derrota com uma bola na trave no finalzinho da segunda etapa. Na cobrança dos pênaltis, porém, a nossa redenção. Júlio César se impõe e defende dois. Neymar Jr. converte a última cobrança e nos classifica para as quartas-de-finais. A emoção acumulada aflora de vez e muitos não conseguem conter o choro. Escapamos por pouco.
Séria, Maria, a colombiana, a tudo assiste. Na sequência da tarde, vê a Colômbia derrotar o Uruguai com uma exibição de gala de Cuadrado e James Rodriguez. Com a classificação inédita, a Colômbia será a nossa adversária nas quartas-de-finais.
E agora, Maria?

Recife, junho 2014

sábado, 28 de junho de 2014

Um homem quase morto



UM HOMEM QUASE MORTO

Clóvis Campêlo

Respiro. Ainda estou vivo. Talvez seja um bom sinal. Talvez seja apenas o indício de um sofrimento maior.
Afinal, o que pode querer um homem comum, de carne e ossos, na véspera de completar setenta anos de idade? Confesso que não consigo imaginar! Nem mesmo me atrevo a fazer planos à longo prazo. Para que? O tempo e a morte não poupam ninguém. Sei disso muito bem e não me atrevo a querer contrariá-los.
Mas, afinal, não era minha intenção falar sobre isso ao iniciar esse texto. Sei que a vida é bela. E nesse percurso entre o nascimento e a morte, até as pedras se encontram. Rolam e falam. Cantam. Tocam. Pedras de toque. Não tenho do que reclamar. Escolhi o caminho e o trilhei. Com todos os encantos e percalços. Fui, vi e venci. A mim, não cabe e nunca caberá a nostalgia. Fiz revoluções e o novo sempre veio.
Tal qual o Rei Midas, soube transformar o óbvio em ouro. Pura alquimia da imaginação. Também não me caberia nunca contestar os sonhos alheios. Apenas os alimentei. Em dados momentos, conscientemente. Em outros, nem tanto. Nem tudo depende da nossa própria vontade, eu sei. É um emaranhado de circunstâncias. Tive a sorte de estar no lugar certo, na hora certa, com a atitude adequada. A felicidade talvez seja isso.
Mas, aos quase setenta anos, bem que cabe uma reflexão sobre isso. Tudo tem o seu preço e comigo não foi diferente. Pulei que nem uma guariba, balancei o rabo que nem um boiola (coisa que nunca fui), participei do banquete dos mendigos, fiz-me de insatisfeito. Imagem é tudo. E cá com meus botões, funcionou. Hoje, quase setentão, não consigo disso me livrar. Exigências do mercado? Com certeza! E não sou bobo para matar a galinha dos ovos de ouro. Não a inventei, mas se caiu nas minhas mãos é minha, não a largo fácil.
Muitos ficaram pelo caminhos. Não superaram as pedras. Ou sonharam sonhos errados. Fui cuidadoso. Reciclei-me. Reinventei os vícios, os ócios, os sócios. Funcionou. E ainda dizem que não cabem espertezas na vida. Coitados!
Nunca abri mão, porém, da competência. Viver é competir. Ainda mais numa sociedade de mercados. Impus-me, vendi-me, superei-me, amadureci. Em todos os processos, porém, exercitei a consciência. Acho-me até coerente. O inferno são os outros. Acredito nisso. Piamente.
Como será o fim? Para mim, pouco importa. Serei por ele tragado. Aos outros é que caberá a tradução. Só espero que seja grandioso, multicolorido, épico, transcendental, teatral. Mesmo que a consciência me traia, em algum lugar do universo, estarei a observar o grande final.
Afinal, o espetáculo não pode parar.


PS.: Texto escrito para Mick Jagger na véspera do seu 70º aniversário.

Recife, 2010

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A festa do futebol


A FESTA DO FUTEBOL

Clóvis Campêlo

Haja surpresas e decepções nessa Copa do Mundo. Dentro e fora do campo. Aqui no Recife, por exemplo, a prefeitura da cidade pisou na bola ao boicotar a festa. A cidade maurícia terminou por ser a sede menos animada e menos ornamentada, apesar das invasões de torcedores mexicanos e norte-americanos. Perdemos, assim, uma boa oportunidade de incrementar maiores lucros com os turistas amantes do futebol que por aqui chegaram.
Dentro de campo, a percepção de que o futebol da Península Ibérica entrou em um processo de decadência. Espanha e Portugal decepcionaram, notadamente a primeira, atual campeão do mundo e da Europa. A equipe envelheceu física e taticamente. Renovar será preciso.
Em termos de Copa do Mundo, considero a Espanha, juntamente com a Inglaterra e a França, como as grandes zebras das copas anteriores por eles vencidas. A Inglaterra, em 1966, vencendo a Alemanha com um gol duvidoso de Hurst, o qual até hoje é questionado. Curiosamente, na Copa do Mundo de 2010 a situação se repetiu, sendo, no entanto, anulado o gol inglês. Foi na Copa de 1966, aliás, que Portugal fez a sua melhor campanha, conquistando o terceiro lugar. Naquela época, integravam a seleção portuguesa jogadores nascidos em Moçambique, que era uma possessão portuguesa, como Eusébio e Coluna. Nunca mais, nem mesmo com Cristiano Ronaldo, os patrícios repetiram essa façanha no torneio.
Uma outra decepção para mim, na Copa 2014, tem sido os times africanos. Esperava muito mais, por exemplo, de seleções como Nigéria e Camarões. Os africanos estagnaram, mesmo tendo jogadores espalhados pelo mundo e jogando em grandes clubes. Se, em valores individuais, continuam nos impressionando, deixam-nos com a impressão de que involuíram no que tange às questões táticas, esquecendo de que o futebol é um esporte coletivo que pede um espírito de grupo.
Mas, por outro lado, seleções como Costa Rica e Colômbia surpreendem pelos bons valores individuais e pelo desempenho coletivo. São agradáveis surpresas. Vamos esperar que na fase do mata-mata, continuem evoluindo e alcançando posições inéditas no futebol mundial.
No que tange à seleção brasileira, apenas no último jogo contra Camarões é que nos empolgou, parecendo redescobrir a leveza e a qualidade técnica que sempre marcaram o nosso futebol. Mas, vale a pena lembra que os camaronenses, já desclassificados, jogaram abertamente, cedendo para nós espaços valiosos e que foram bem aproveitados. A Canarinha pareceu que ainda não atingiu o ponto ideal. Se, porém, mantiver o nível da última atuação e continuar em um processo evolutivo, poderá se impor e atingir o objetivo, que é a conquista do hexa campeonato mundial.
Essa é a nossa esperança e a nossa vontade. Dentro de casa, não podemos e não devemos repetir o fiasco de 1950. Os deuses do futebol não nos devem repetir essa falseta. Só precisamos fazer a nossa parte.

Recife, junho 2014

terça-feira, 24 de junho de 2014

Alumbramento


ALUMBRAMENTO

Clóvis Campêlo

Que desça a tranquilidade
vinda com hora marcada
e que se anuncia
após a passagem do
cometa.
Que se tranquilizem
todos os neurônios,
cesse a adrenalina,
retorne a rotina celular.
Tu, oh poderosa força,
tens a capacidade
de alterar todas as marés,
semear a força do vento,
tremer todas as terras
e, com teu olhar de fogo,
calar todas as vozes.
O impacto da tua visão
tem a luminosidade
de mil bombas atômicas.
O calor que de te irradia
dissolve a estrutura
do mais sólido dos
metais.
Diante de ti,
quedamo-nos estáticos
e deixamos que nos sugue
todas as forças
e nos esgote.
Tens a beleza e a maldade
de todas as deusas
e deixamo-nos
por ti imolar
num misto de prazer
e sofrimento.

Recife, 1994

sábado, 21 de junho de 2014

Beatriz


BEATRIZ

Clóvis Campêlo


Para Beatriz Gouveia

Quase Pedro, por um triz,
não da pedra, carne e osso,
um invisível colosso,
sinceramente Beatriz.

Partindo do quase nada,
hipérbole, bissetriz,
gerando o que eu sempre quis,
um novo ser na manada.

E na manhã da chegada,
toda de luz e alvoroço,
vestida de branco-giz,

por todos anunciada,
fruta a sair do caroço,
será presente Beatriz!



Recife, 1995

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Temperada


TEMPERADA

Clóvis Campêlo

Temperada a língua,
Pedrinho canta toadas
enquanto o dia míngua.


Recife, 2009

sábado, 14 de junho de 2014

Só se não for brasileiro nessa hora!


SÓ SE NÃO FOR BRASILEIRO NESSA HORA!

Clóvis Campêlo

Ganhamos a primeira, amigos, mas, sinceramente, o futebol apresentado pela seleção brasileira não me agradou. Mesmo vencendo a Croácia por 3 x 1, jogamos sem alma e sem velocidade. Não sei se a postura demasiadamente retraída da seleção brasileira foi orientada por Felipão ou se foi uma atitude provocada pelo nervosismo da estreia.
Também não gostei da cerimônia de abertura da Copa, que me pareceu pobre, inadequada e mal ensaiada, verdade seja dita.
Assisti ao jogo no recesso do lar, ao lado da família e de alguns amigos. Entre eles, Maria, uma colombiana de 22 anos que em 15 dias aprendeu a gostar da cachaça pernambucana e da seleção brasileira de futebol. Maria é de Medellin, uma cidade com aproximadamente 4 milhões de habitantes. Chegou ao Recife vinda de São Paulo e logo se aclimatou. Torcedora do Nacional de Medellin, hoje, o seu maior desejo é conhecer Flávio Caça-Rato, muito comentado na sua terra natal. Já lhe prometi de presente uma camisa do glorioso Santa Cruz Futebol Clube.
Apesar de alguns recalcitrantes, a Copa do Mundo se iniciou com sucesso e segue forte. A afirmação da nossa brasilidade, da qual o futebol é um dos pilares, falou mais alto. Como já disse o poeta, quando algo deve realmente acontecer, tudo conspira a favor e não adiante nadar contra a corrente.
Diferentemente de 1950, quando perdemos o jogo final para o Uruguai e instituímos a tragédia nacional, existe um clima de equilíbrio e cobrança em relação à seleção brasileira de futebol. Hoje, ela é composta por jogadores milionários e experientes, apesar da pouca idade de alguns, e tem tudo nas mãos para chegar ao hexacampeonato.
Em 1950, o governo brasileiro gastou uma fortuna para construir o Estádio do Maracanã e permitir que 200 mil pessoas (aproximadamente 10% da população da cidade do Rio de Janeiro, naquela época) assistisse a final e a derrota brasileira. Hoje, um projeto dessa envergadura seria duramente criticado e taxado de megalomaníaco.
Mas, naquela época, o futebol já era uma paixão nacional. Em uma votação patrocinada pela Coca-Cola para eleger o craque nacional mais querido, o centro-avante pernambucano Ademir Menezes obteve uma votação maior do que a obtida pelo presidente Getúlio Vargas na sua reeleição, imaginem.
Na véspera do jogo final (onde, aliás, tudo de ruim e inadequado aconteceu na concentração da seleção brasileira), Ademir Menezes deixou-se fotografar nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Cidade Maravilhosa, entornando uma garrafinha do refrigerante famoso.

Recife, junho 2014

sábado, 7 de junho de 2014

A Lei da Palmada


A LEI DA PALMADA

Clóvis Campêlo

Diz o dito popular que de boas intenções o inferno anda cheio. E se a voz do povo é a voz de Deus, Ele, o Todo Poderoso, mais do que ninguém, deve saber que isso é verdade verdadeira.
Além do mais, até que o ponto o Estado deve interferir na relação familiar e na educação dos filhos pelos pais? A chamada Lei da Palmada, que oficialmente se chamará Lei Menino Bernardo, em homenagem ao neto do senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Brasileiro, que acompanhou a votação da lei no colo da apresentadora Xuxa Meneghel, foi aprovada pelo Senado.
Ninguém de bom senso vai concordar de que a violência física é uma boa educadora. Se assim o fosse, a Febem já teria formado verdadeiros cidadãos, em vez de aprofundar os seus internos no caminho do crime e da exclusão social. E, se entre o nosso aparato legislativo, já temos o Estatuto da Criança e do Adolescente, para que se criar uma lei ainda mais restrita e pontual?
Por si só, a lei já é polêmica. Torna-se ainda mais discutível por incluir no rol dos seus possíveis atingidos os médicos, professores e agentes públicos que tomarem conhecimentos das violências praticadas pelos pais contra os filhos e não as denunciar às autoridades competentes. Estes poderão ser punidos com multas que atingem até o valor de 20 salários mínimos (mais de 15 mil reais). Os pais contraventores, entre outras coisas, deverão ser encaminhados para programas especiais de proteção à família e a cursos de orientação, além de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. A eles, não caberá nenhuma punição pecuniária.
Se, como se dizia antigamente, a família é a célula mater da sociedade, a violência exercitada no seu interior reflete apenas a violência reinante no ambiente social em que vivemos. E para esse mal, já existe o remédio legal adequado, muito embora ele não atinja e não modifique as suas possíveis origens. Para se modificar a relação familiar, seria necessário modificar-se a relação social, educar o homem para vida comunitária e para o respeito ao seu semelhante. E isso, efetivamente, não combina com as pretensões individualistas atuais, que nos educa para a eficiência na esperteza e na ganância do trato com o outro.
Aonde todo esse aparato repressivo e de intervenção do Estado na relação social e familiar vai nos levar, eu não sei. Mas, com alguma certeza, não será ao equilíbrio e a uma condição de evolução humana.
Quanto mais dura e lei, maior a necessidade da burla e da criação de mecanismos enganatórios. Numa sociedade onde se reflita a satisfação das necessidades sociais e a satisfação das necessidades pessoais do cidadão, cada vez menos será necessária a intervenção regulatória estatal.
Por isso, como dizia aquele antigo comercial televisivo, dura lex sed lex, no cabelo só gumex!

Recife, junho 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

Repouso


REPOUSO

Clóvis Campêlo

Calado soa o silêncio
colado ao meu ouvido
- zumbido.
O som soa coado
- silêncio.
O som coado dobrado
- ressoa.
Repousa o espaço entre
- parado.
Nem futuro, nem passado
- presente.
De movimento ressente
o tempo estagnado.
A mente sente e atalha
- trabalha.
O corpo relaxa e pousa
- repousa.
Recife, 1976