sábado, 16 de novembro de 2013

José Soares, o poeta repórter


JOSÉ SOARES, O POETA REPÓRTER

Clóvis Campêlo

José Francisco Soares nasceu na cidade de Alagoa Grande, na Paraíba, em 5 de janeiro de 1914.
Segundo Marcelo Soares, seu filho, ainda menino, o poeta se encantou com os desafios entre violeiros-repentistas, emboladores de coco e com os folhetos de feira que os poetas declamavam.
Em 1928, aos 14 anos, publicou seu primeiro folheto descrevendo o Brasil através dos seus estados.
Para sobrevivar, fez biscates como agricultor e almocreve e, em 1934, foi para o Rio de Janeiro trabalhar como pedreiro, sem jamais deixar de publicar suas obras.
Voltou ao Recife em 1940, quando montou uma banca de folhetos no oitão do Mercado de São José, onde vendia suas obras e as de outros poetas.
Nos anos 1960, tornou-se proprietário da Gráfica Tricolor, no bairro recifense de Casa Amarela, que manteve por três anos, passando a publicar na Encadernográfica Capibaribe, no bairro do Arruda.
Entre 1979 e 1980 assumiu, por pouco tempo, a direção da Gráfica da Casa das Crianças de Olinda, onde publicou e editou folhetos de sua autoria e de outros poetas. Seus principais folhetos são A renúncia de Jânio Quadros (60 mil exemplares vendidos); O assassinato do presidente Kennedy (45 mil exemplares), A lamentável morte do deputado Alcides Teixeira (55 mil exemplares); A lamentável morte do cantor Evaldo Braga (65 mil folhetos) e A morte do bispo de Garanhuns, Dom Expedito Lopes, que vendeu mais de 100 mil exemplares só em Pernambuco.
Seus temas recorrentes variam entre o gracejo, o futebol, os folhetos de encomenda, além dos folhetos de época e de acontecimentos políticos e circunstanciais, que o levaram a se autodenominar poeta-repórter.
Indagado, certa vez, sobre quantos folhetos havia escrito até então, respondeu, com o sorriso que o caracterizava: “Trezentos e dez títulos”. E completou: “Duzentos e oitenta publicados. Mas espero poder escrever ainda outro tanto”.
Não pôde. A morte antecipou-se a esse feito. Do que escreveu ficou evidente a sua vocação de comunicador popular. Ainda segundo Marcelo, uma das lembranças deixadas pelo poeta popular foi a de, todas as noites, assistir aos noticiários da televisão, tendo sempre lápis e papel pautado à mão para anotar os temas que exploraria depois.
Torcedor convicto do Santa Cruz, foi testemunha ocular da boa fase vivida pelo clube pernambucano nos anos 60 e 70, registrando com versos os feitos do Mais Querido, como na série Pedi um pente e me deram um penta, escrita para comemorar o pentacampeonato pernambucano de futebol conquistado de 1969 a 1973, e no folheto Chegou o Santa Cruz, a máquina de fazer gols, escrito para comemorar a vitoriosa excursão do Santinha ao Oriente Médio e Europa, em 1979, e que abaixo transcrevemos.
José Soares, o poeta repórter, faleceu em Timbaúba, no dia 9 de janeiro de 1981.

CHEGOU O SANTA CRUZ, A MÁQUINA DE FAZER GOLS

O Santa Cruz no Oriente / bancava e pintava o sete / quem joga a bola quadrada / não entra que se derrete / em todo Oriente Médio / o Santa virou vedete.
Joel sacudia a bola / na cabeça de Pedrinho / Pedrinho deitava a pelota / morta nos pés de Betinho / que jogava na esquerda / para o olé de Joãozinho.
Carlos Alberto Barbosa / era o dono da pelota / plantou-se na sua área / não saiu da sua rota / driblava com a direita / chutava com a canhota.
Volnei pintava bolinha / naquela defesa fula / Paranhos roçava estrovenga / do mesmo jeito que Lula / Alfredo Santos também / só batia na micula.
Betinho deitava e rolava / dava olé que nunca vi / a torcida do Oriente / angariou para si / tornou-se a maior vedete / do Mais Querido daqui.
Carlos Roberto deitava / e comandava o olé / vestindo a camisa 10 / só dava bola no pé / muita gente se enganava / pensando que era Pelé.
Jadir com a camisa 7 / pegava a maior pechincha / dava drible e banho de cuia / naquela defesa mincha / muitos gringos perguntavam / se era Mané Garrincha.
Neinha dentro da área / dançava num lá e cá / empolgou de uma maneira / que a torcida de lá / ficou dizendo que ele / é um segundo Vavá.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A proclamação da República


A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Clóvis Campêlo

Os mais críticos e pessimistas dirão que foi mais uma quartelada (ou a primeira) acontecida na história do Brasil. Os mais amenos, dirão que foi um levante político-militar acontecido em 1889. Segundo os historiadores, o evento, presenciado por poucos e nem mesmo notado pela maioria da população, aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, na Praça da Aclamação (atual Praça da República), quando um grupo de militares comandados pelo marechal Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador D. Pedro II e assumiu o poder no país.
Na verdade, naquela altura dos acontecimentos, o governo monarquista desagradava a quase todos os grupos que tinham força política e poder de decisão sobre os rumos da nação.
Os conservadores questionavam os atritos do imperador, homem ligado à ciência e aos conceitos científicos, com a Igreja Católica. Os grandes fazendeiros, não perdoavam o Império pela abolição da escravatura, ocorrida um ano antes, sem a indenização dos proprietários dos escravos.
Por outro lado, os progressistas questionavam a demora da monarquia em abolir a escravatura e a ausência de iniciativas desenvolvimentistas, entre as quais o direito à educação para todas as classes sociais. Era alto o índice de analfabetismo no país e a miséria grassava entre os menos afortunados.
Segundo os entendidos no assunto, Dom Pedro II era querido e admirado pelo povo. O mesmo não acontecia, porém, com o restante da corte. Para complicar ainda mais a situação, o imperador não tinha filhos do sexo masculino e, em caso da sua morte, assumiria o trono a Princesa Isabel, casada com o francês Conde D'Eu, homem arrogante e impopular, dono de vários cortiços no Rio de Janeiro, onde explorava a gente pobre com alugueis extorsivos.
Também contribuiu para o desgaste do imperador e do governo monarquista, o crescimento da nossa dívida externa que, em menos de vinte anos, de 1871 a 1889, aumentou em quase sete vezes o seu tamanho, gerando uma inflação anual de 1,75%.
No entanto, segundo vários dos textos por nós consultados, foi a insatisfação da classe militar, que se considerava sem vez e sem voz no país, que levou o acontecimento a cabo. Apesar de ser monarquista e da sua fidelidade ao imperador, o marechal Manuel Deodoro da Fonseca terminou por aceitar os argumentos apresentados por seus companheiros de farda. Comandando algumas centenas de soldados pelas ruas do Rio de Janeiro, montado em um cavalo que lhe fora oferecido no antigo Campo de Santana, proclamou a República em alto e bom tom. Consta que depois do ato histórico, teria apeado do cavalo e voltado tranquilamente para a sua residência.
Consta também que D. Pedro II ao tomar conhecimento da amplitude dos fatos, que até então lhes haviam sido convenientemente ocultados, decidiu não oferecer resistência, capitulando.

Recife, 2013

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Movimento dos barcos, movimento da vida



Fotografias de Clóvis Campêlo/2009

MOVIMENTO DOS BARCOS, MOVIMENTO DA VIDA

Clóvis Campêlo

O tempo flui, mesmo quando tudo parece parado.
E nesse movimento, o passado transforma-se em presente e futuro.
E os mesmos olhos que presenciaram o Ontem, voltam-se para o Hoje e o Amanhã.
A cidade e o mundo se transformam sob as forças do Homem e da Natureza.
O cenário é redesenhado em linhas retas e curvas.
É preciso estar atento e forte para percebermos todas as nuances das mudanças, todos os movimentos das marés, todas as rotas dos barcos.
Viver é preciso.
Navegar é preciso, mesmo que seja para chegarmos a um porto seguro onde o equilíbrio seja muito mais do que uma ilusão.
O barco, meu coração não aguenta tanta tormenta, alegria.
O barco, meu coração não contenta.
O barco, meu coração.
O porto? Não!

Recife, 2009

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Uma excursão vitoriosa e histórica


Em pé: Carlos Alberto Barbosa, Givanildo, Joel Mendes, Pedrinho, Alfredo Santos e Paranhos.
Agachados: Jadir, Betinho, Neinha, Carlos Roberto e Joãozinho. 

UMA EXCURSÃO VITORIOSA E HISTÓRICA

Clóvis Campêlo

Em 1979, sob o comando do técnico Evaristo Macedo, o Santa Cruz realizou uma excursão ao Oriente Médio e à Europa. Em doze jogos, colheu dez vitórias e dois empates. O ataque tricolor marcou 40 tentos, tendo a sua defesa sofrido apenas 10. Os principais artilheiros foram Neinha e Volnei, com 10 gols marcados, cada, e Betinho, com 8 tentos. A excursão foi organizada pelo empresário Elias Zacour e teve como chefe da comitiva José Nivaldo de Castro. O presidente do clube era Rodolfo Aguiar.
A delegação coral, com um grupo de 28 pessoas, saiu do Recife no dia 26 de fevereiro, uma segunda-feira de carnaval, fazendo escala em Paris, após dez horas de voo.

ENFRENTANDO O ORIENTE MÉDIO


No dia 3 de março, a equipe tricolor fez a primeira partida da sua história em canchas internacionais, enfrentando e vencendo a seleção do Kuwait, que tinha em seu comando o técnico Carlos Alberto Parreira, com gols de Neinha (2), Betinho (2) e Givanildo. O Santa Cruz jogou com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Alfredo Santos e Pedrinho; Givanildo, Betinho e Carlos Roberto; Jadir, Neinha (Volnei) e Joãozinho. Após o jogo, Parreira visitou a delegação coral no Miscilah Beach Hotel, fazendo grandes elogios ao futebol do meia Betinho.
Três dias depois, em 6 de março, no mesmo estádio, o Qadisyya Sporting Club, com capacidade para 25 mil pessoas, a equipe coral voltou a enfrentar o Kuwait, empatando em 1x1, com mais um gol de Betinho. O Santa Cruz atuou com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Alfredo Santos e Pedrinho, Givanildo, Betinho e Carlos Roberto; Jadir (Gonçalves), Neinha (Volnei) e Joãozinho (Zé Roberto).
No dia 8 de março, em seu terceiro jogo, sem contar com o lateral Pedrinho, machucado, o Santa Cruz derrotou por 3x0 a seleção da cidade de Bahrein, no Estádio Ysaqial. Nesse jogo, a maior dificuldade enfrentada pelo time coral foram os fortes ventos que assolavam o estádio, dificultando o domínio da bola. Os gols foram marcados por Betinho, Volnei e Neinha e o santinha venceu com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Lula e Alfredo Santos; Givanildo, Deinha e Betinho (Jadir); Gonçalves (Neinha), Volnei e Joãozinho.
No dia 11, o time pernambucano enfrentou o selecionado da cidade de Doha, capital do Katar, vencendo por 4x0, com gols de Betinho (2), Jadir e Neinha. A equipe coral atuou com Joel Mendes (Cláudio); Carlos Alberto Barbosa (Vassil), Paranhos, Lula e Alfredo Santos; Givanildo (Deinha), Carlos Roberto e Betinho (Gonçalves); Jadir, Neinha (Volnei) e Joãozinho (Zé Roberto). No dia 13, contra a seleção do Katar, o santa voltou a vencer. Impôs o placar de 4x1, com gols de Neinha (3) e Volnei. Atuou com a seguinte formação: Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Lula e Alfredo Santos; Givanildo, Betinho e Carlos Roberto (Volnei); Jadir, Neinha e Joãozinho.
No dia seguinte, dia 14, com uma equipe mista, contra o selecionado de Sargas, cidade a dez quilômetros de Dubai, o time tricolor voltou a vencer por 2x1, com gols marcados por Volnei. Consta que o jogo foi assistido por um público superior a dez mil pessoas e o santinha jogou com Joel Mendes (Cláudio); Vassil (Carlos Alberto Barbosa), Paranhos, Lula e Alfredo Santos; Givanildo (Carlos Roberto), Betinho (Neinha) e Deinha; Gonçalves, Volnei e Zé Roberto.
No dia 17 de março, na cidade de Abu Dabi, a 170 quilômetros de Dubai, na Arábia Saudita, o mais querido pernambucano enfrentou a seleção da União dos Emirados Árabes. O Santa Cruz venceu o jogol facilmente, com gols de Givanildo, Lula e Joãozinho. Formou com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa (Vassil), Paranhos, Lula e Alfredo Santos (Deinha); Givanildo, Betinho e Carlos Roberto; Jadir, Neinha e Joãozinho.
No dia 18, mais uma vez sem o tempo necessário para se recuperar, a equipe coral voltou a atuar, dessa feita na cidade de Riad, contra o selecionado de Al Halim, colhendo uma vitória de 3x0, sem a necessidade de utilizar todos os jogadores titulares.
No dia 20, ainda em Riad, mais uma grande atuação na goleada de 6x2 sobre o Nasser, com gols de Joãzinho, Givanildo, Jadir, Neinha, Volnei e Paranhos. Nessa goleada histórica, atuamos com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Lula e Alfredo Santos; Givanildo (Deinha), Betinho e Carlos Roberto (Volnei); Jadir (Gonçalves), Neinha e Joãozinho (Zé Roberto).
No dia 22, a equipe coral entrou em campo, ainda na Arábia Saudita, para enfrentar o El Helal, dirigido pelo treinador Zagalo e contando em seu elenco com o jogador Rivelino, tricampeão mundial.
Para decepção dos pernambucanos, Rivelino não jogou. O Santa, com uma atuação impecável, ganhou pelo placar de 3x0, gols de Carlos Alberto Barbosa, Betinho e Alfredo Santos, todo marcados no primeiro tempo de jogo. Ganhamos com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa (Vassil), Paranhos, Alfredo Santos e Pedrinho; Givanildo, Carlos Roberto (Volnei) e Betinho; Jadir, Neinha e Joãozinho.
Ao término do jogo, Zagalo elogiou o futebol apresentado pelo lateral Carlos Alberto Barbosa, afirmando tratar-se de um jogador de alto nível, com bom toque de bola, perfeito nos lançamentos, atacando com precisão. Elogiou, também, o ponta esquerda Joãozinho pela habilidade mostrada com a bola nos pés.
Apesar de não jogar, Rivelino chegou cedo ao estádio e esteve nos vestiários do Santa Cruz, abraçando os jogadores.
Antes, pela manhã, foi ao hotel onde o Santinha estava hospedado, conversando muito com o técnico Evaristo Macedo e com os jogadores Pedrinho, seu antigo companheiro no Corinthias, e Givanildo.
Atendendo a um convite de Rivelino, Evaristo Macedo, Pedrinho, Givanildo, Joel Mendes e Zé Roberto, deslocaram-se até a residência do jogador paulista, uma mansão próxima ao centro da cidade, onde almoçaram. Na ocasião, Rivelino e Givanildo relembraram a passagem que tiveram juntos na selação brasileira, sob o comando de Osvaldo Brandão, quando disputaram e venceram a Taça do Bicentenário, nos Estados Unidos.

RUMO À EUROPA


Com um saldo de nove vitórias e um empate, no dia 27 de março, a equipe coral chegava a Bucarest, para enfrentar a seleção da Romênia, destacando-se pela boa campanha no Oriente Médio.
Entre os jogadores, os mais procurados pela imprensa romena eram Givanildo, Neinha, Joãozinho e Betinho, o artilheiro do time na excursão, até aquele momento, com sete tentos marcados.
Antes do jogo, a imprensa romena destacou a campanha do Santa Cruz no Oriente Médio, assim como a grande vitória acontecida contra seleção da Checoslováquia, ainda no Recife, no dia 7 de fevereiro.
No dia 30, o Santa Cruz entrava em campo, sob um frio intenso, para enfrentar e vencer, no Republic Estadium, a seleção romena pelo placar de 4x2, com gols de Joãozinho (2), Neinha e Volnei, em um jogo onde o destaque pernambucano foi o zagueiro Paranhos. Andorren e Bruc, cobrando uma penalidade máxima, marcaram para a Romênia. O santa Cruz conquistou essa vitória histórica atuando com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Alfredo Santos e Pedrinho (Lula); Givanildo, Betinho e Carlos Roberto; Jadir, Neinha (Volnei) e Joãozinho. A Romênia perdeu com Bucanam; Iudorc, Muritan, Borges e Savals; Coran, Bruc e Ildes (Adrian); Han Torres, Ionesc e Andorren.
Partindo de Bucarest, o Santinha chegou a Paris após fazer escala em Zurique, na Suíça. Na chegada ao Aeroporto Charles De Gaulle, Givanildo foi o jogador mais procurado pela imprensa francesa.
No dia 1º de abril, o Santa Cruz entrava em campo, no Estádio Saint Quen, para jogar contra o Paris Saint Germain. Além de um frio muito grande, a equipe pernambucana enfrentou um campo enlameado. O primeiro tempo terminou com o placar em 0x0. Na segunda etapa, a equipe coral chegou a fazer 2x0, com dois gols de Volnei, aos 3 e 22 minutos. A equipe francesa reagiu e chegou ao empate, com tentos marcados por Lavorri e Darre, aos 25 e 28 minutos, ficando em 2x2 o placar final. O jogo foi apitado pelo juiz Jean Clair.
O Santa Cruz atuou com Joel Mendes; Carlos Alberto Barbosa, Paranhos, Alfredo Santos e Pedrinho; Givanildo, Carlos Roberto e Betinho; Jadir (Volnei, e depois Gonçalves), Neinha e Joãozinho. O Paris Saint Germain, com Paredeli; Von, Jan, Renoir e Lavorri; Diank I, Dotenar e Legori; Diank II, Bireaux e Darre.
Após o jogo, a delegação coral deixou a cidade no vôo 0091, da Air France, chegando ao Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, às cinco horas da manhã do dia 2 de abril. Às 8 horas, pelo vôo 504 da Transbrasil, saiu do Rio de Janeiro com destino ao Recife, onde chegou por volta do meio-dia.

FESTA NO RECIFE


Na capital pernambucana, a comitiva tricolor foi surpreendida pela presença de cerca de duas mil pessoas no Aeroporto dos Guararapes.
Entre a multidão, o Jornal do Commercio registrou a presença de Severino José do Nascimento, conhecido como Cão, que, segundo o dirigente Valdomiro Silva, foi o primeiro roupeiro da história do Santa Cruz. Presentes também estiveram Humberto, contínuo do Sindicato dos Arrumadores, conhecido como o Homem da Sombrinha e o Homem do Charuto, por suas perfoarmances nas arquibancadas durante os jogos do Santa Cruz, e Manoel Mota, primo de Capiba, vindo diretamente de Surubim para recpcionar o Mais Querido.
O poeta-repórter José Soares, uma das maiores expressões da literatura de cordel em Pernambuco, na época, também esteve presente, vendendo ao preço de Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros) o folheto Chegou o Santa, a máquina de fazer gols.
Para conter a euforia da torcida e garantir a segurança de todos, a Polícia Militar de Pernambuco destacou um efetivo de 155 soldados, dos quais 35 da Rádio Patrulha, comandados por quatro oficiais do 7º Batalhão de cavalaria, além de 36 militares do BPTRAN.
Entre os jogadores, Neinha e Volnei, artilheiros da excursão, eram os mais festejados pela torcida e pela imprensa esportiva local.
Com a invencibilidade obtida e os grandes resultados alcançados no exterior, o Santa Cruz tornou-se o novo Fita Azul do futebol brasileiro, tomando o título da Portuguesa de Desportos que anteriormente, em 1952, conseguira fazer onze jogos seguidos fora do país, sem perder.
Conselheiro do Clube Náutico Capibaribe e desportista reconhecido, o prefeito Gustavo Krause enviou o seguinte telegrama à direção coral: "Congratulo-me diretoria, atletas, técnicos e funcionários do Santa Cruz pelo sucesso alcançado recente em excursão ao Exterior que constitui mais um motivo de orgulho da sua imensa torcida e da satisfação para a cidade do Recife."
Do governador Marco Maciel, que já fora secretário de Conselho Deliberativo e representante do Santa Cruz junto ao Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Pernambucana de Futebol, a equipe coral recebeu a seguinte mensagem: "Minhas efusivas congratulações pela brilhante campanha e invicta jornada em campos europeus e do Oriente Médio à valorosa equipe do Santa Cruz, reafirmando valor e força do futebol nordestino, representando à altura o prestígio do futebol brasileiro".
Embalado pela excursão vitoriosa e pelo calor da sua imensa torcida, o Santa Cruz partiria para a disputa do Campeonato Pernambucano e para a conquista do título de bicampeão estadual.

Recife, 2009

sábado, 9 de novembro de 2013

Um título inequecível


UM TÍTULO INESQUECÍVEL

Clóvis Campêlo

Meus caros amigos, em 1970 o Brasil vivia uma das fases mais ferozes da ditadura militar, quando conquistamos a Copa do Mundo do México. Apesar das contestações dos teóricos esquerdistas, o povo foi às ruas e vibrou, referendando a conquista.
Naquela época, embora já movimentasse milhões e atingisse milhares de pessoas em todo o planeta, haja vista que foi a primeira copa transmitida via satélite para os países periféricos ao Primeiro Mundo, o evento ainda não se inscrevera no rol da indústria do entretenimento. Ganhar era uma circunstância e o importante ainda era competir. Era o chamado fairplay.
Mas, para alguns, o futebol era um dos ópios do povo, e utilizado, aqui no Brasil, pela ditadura militar para encobrir a sua violência repressiva e manter o regime de exceção. Consta, por exemplo, que o presidente Emílio Garrastazzu Médici influiu diretamente na convocação dos jogadores, impondo até a nome de Dario Peito-de-Aço, na época jogando no Atlético Mineiro, entre os jogadores convocados. Consta, também, e essa história seria depois desmentida pelo próprio treinador, de que João Saldanha teria sido afastado da direção técnica da seleção brasileira por conta da sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro.
O certo é que Zagallo assumiria o posto de técnico depois de Saldanha ter comandado o time durante as eliminatórias e ter classificado a nossa seleção com méritos. Com a mudança do treinador, mudaram também os jogadores convocados e o esquema de jogo, ficando para trás o convencional 4-2-4 de Saldanha, com Edu na ponta-esquerda, e entrando em cena o então inovador 4-4-3 de Zagallo, com Rivellino improvisado na esquerda como um falso ponta.
Na verdade, era o time de craques e as improvisações tiveram de acontecer para acomodar tantos bons jogadores em uma mesma equipe. Além de Rivellino na ponta-esquerda, Piaza improvisado como quarto-zagueiro e Tostão no comando do ataque. Os craques, com certeza, supriram as deficiências dos menos dotados tecnicamente, como o goleiro Félix e e zagueiro Brito. Consta até que, na verdade, a seleção era mesmo comandada dentro de campo por Pele é Gérson, embora Zagallo estivesse no banco de reservas ao lado de toda a comissão técnica.
No ataque, Pelé e Jairzinho complementavam a máquina mortífera de fazer gols. Em seis jogos, foram 19 gols marcados, superando a média de 3 gols por partida. Destaque ainda para os laterais Carlos Alberto Torres, Marco Antônio e Everaldo, além de Clodoaldo como cabeça de área.
Entre os reservas, jogadores de alto nível como o goleiro Leão e o meio-campista Paulo César Cajú.
Não é a toa que ainda hoje essa seleção brasileira de futebol seja considerada a melhor de todos os tempos entre os torcedores brasileiros e a crônica especializada.

Recife, 2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Alberto da Cunha Melo


ALBERTO DA CUNHA MELO

Clóvis Campêlo

Filho e neto de poetas, José Alberto Tavares da Cunha Melo nasceu na cidade de Jaboatão dos Guararapes, em 1942.
Sociológo,jornalista e poeta integrante da Geração 65 da literatura pernambucana, publicou em 1966 o seu primeiro livro de poemas, Círculo cósmico. Como sociológo, atuou durante onze anos na Fundação Joaquim Nabuco. Como jornalista, foi editor do Commercio Cultural e da revista Pasárgada. Também colaborou com o Jornal da tarde, de São Paulo, onde publicou textos na seção Arte pela arte, e manteve a coluna Marco Zero, na revista Continente Multicultural, do Recife.
Foi vice-presidente da União Brasileira dos Escritores de Pernambuco, na sua primeira gestão, e Diretor de Assuntos Culturais da Fundarpe.
Em vida, publicou 16 livros, sendo 13 de poesias, e participou de 33 antologias poéticas, duas delas internacionais, com destaque para Os cem melhores poetas brasileiros do século, organizada pelo jornalista e escritor José Nêumanne Pinto, e 100 anos de poesia. Um panorama da poesia brasileira no século XX, organizada por Claufe Rodrigues e Alexandre Maia.
Na década de 1990, o livro Yacala é publicado em Portugal, pela Universidade de Évora, com prefácio do crítico literário e professor da Universidade de São Paulo, Alfredo Bosi.
Em 2003, o seu livro Meditação sob os lajedos foi considerado um dos dez melhores livros publicados no Brasil, por um júri composto por 400 especialistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
Em 2007, o livro O cão de olhos amarelos foi agraciado com o prêmio Poesia 2007 da Academia Brasileira de Letras.
Em 2007, ainda, poucos meses antes de falecer, participou da Antologia Poética 2007, do grupo virtual Poetas Independentes, com cinco poemas, inclusive um inédito dedicado a Dom Hélder Câmara, Cancioneiro Para o Terceiro Mundo, sendo essa a sua última publicação em vida.
Alberto da Cunha Melo faleceu aos 65 anos, às 19:35 horas do dia 13 de outubro de 2007, no Recife, sendo sepultado no Cemitério Morada da Paz, na cidade do Paulista.
Segundo o Jornal do Commercio, do Recife, o poeta deixou uma vasta e consistente obra, de profunda preocupação com a existência humana.

Recife, 2009

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ferreirinha



Fotografias de Clóvis Campêlo/2008

FERREIRINHA

Clóvis Campêlo

Seu nome é José Ferreira da Silva e ele nasceu em 1935, no distrito de Oratório, em Surubim, cidade onde também nasceram Capiba e Chacrinha.
Em 1953, o seu pai veio morar no Recife, comprando uma mercearia no bairro da Várzea. Ferreirinha, então com 18 anos de idade, o acompanhou, juntamente com toda a família. Na Várzea, morou durante vinte e cinco anos.
Em 1978 mudou-se para Boa Viagem, onde vive até hoje, abrindo, em sociedade com um irmão, a Churrascaria Juçara, na avenida Domingos Ferreira, próximo ao Edifício Holliday. A churrascaria fechou em 1996 e Ferreirinha tornou-se prestamista, vendendo jóias para sobreviver. Hoje, é aposentado do INSS.
Em 1979, casou-se pela primeira vez. Desse casamento, não teve filhos. Enviuvou. Em 1991, casou-se novamente. Do segundo casamento tem uma filha, Karina, hoje com 14 anos, a grande alegria da sua vida.
Figura folclórica, é conhecido de todos no calçadão de Boa Viagem, onde há mais de 30 anos, caminha diariamente cerca de 10 quilômetros, sempre paramentado.
Começou vestindo-se com as cores da seleção brasileira de futebol. Durante essa época, ganhou o apelido de Brasileirinho.
Sócio do Sport Clube do Recife desde 1955, começou a vestir-se com as cores do rubro-negro da Ilha do Retiro para demonstrar a sua paixão clubística. Em maio deste ano, em comemoração aos 103 anos do clube, criou uma fantasia com as imagens de 103 leões, sendo notícia em vários jornais e televisões do Estado.
Como todo bom pernambucano, é devoto de Nossa Senhora da Conceição. Todo ano, dia 8 de dezembro, está no Morro da Conceição, pagando as suas promessas e reverenciando a santa. Esse ano, pagou promessa pela eleição de Marília Arraes, neta de Miguel Arraes de Alencar e eleita vereadora do Recife pelo Partido Socialista Brasileiro e por quem fez campanha.
Carnavalesco convicto, Ferreirinha todo ano pode ser encontrado no desfile do Clube dos Rapazes Irreverentes, o CRI, em Boa Viagem, e no desfile do Galo da Madrugada. Também brinca no Recife Antigo e, na quarta-feira de cinzas, ainda encontra energia para acompanhar o Bacalhau do Batata, em Olinda.
A explicação para tanta vitalidade talvez esteja no seu passado de maratonista. Participou por diversas vezes da Corrida de São Silvestre e da Meia Maratona do Rio de Janeiro. No seu acervo de corredor, tem 33 medalhas e onze troféus. Hoje, aos 73 anos, satisfaz-se apenas com as caminhadas diárias na orla de Boa Viagem onde é conhecido e admirado por todos.
Esse é o perfil de Ferreirinha, mais uma figura marcante do Recife.

Recife, 2008

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A voz do mangue


A VOZ DO MANGUE

Clóvis Campêlo

Para Chico Science

A voz do mangue vem da periferia do Recife, escoando pela planície aluvional até alcançar as antenas da Embratel e expandir-se: Pernambuco novamente falando para o mundo? 
A voz do mangue retoma a linha evolutiva da música popular pernambucana, reativando os crus acordes eletrônicos dos Silver Jets, Bambinos e Aratanha Azul para uni-los ao baque virado do pessoal de Dona Santa: maracatu atômico?
A voz do mangue traça a crônica da cidade prostituída com seus signos modernos que antecipam o amanhã (automóveis, motos, metrôs) e suas cicatrizes profundas que nos remetem ao passado ( mendigos, miséria e camelôs): que país é esse?
A voz do mangue nega, com o seu baticum, a apropriação indébita da estilização burguesa ao mesmo tempo em que pinta o trágico com as cores quentes do mercado: o produssumo queima a bagagem?
A voz do mangue reflete uma realidade poética e musical que é posterior à prosperidade açucareira dos casarões e sobrados, alimentando a literatura dos enjeitados: música de protesto?
A voz do mangue cresce com a força de pedreiros suicidas, oferece saídas e prega sem a convicção dos ignorantes: pedra evoluída? 


Recife, 1994

sábado, 2 de novembro de 2013

A morte de todos nós


A MORTE DE TODOS NÓS

Clóvis Campêlo

Todos nós morreremos um dia, isso é fato incontestável. A grande maioria de nós humanos, porém, viverá e morrerá no mais completo anonimato, com direito a choros e velas apenas dos amigos e parentes mais próximos. Ocupará uma vala comum ou uma sepultura modesta, de conformidade com a capacidade financeira da família, em algum cemitério da cidade e receberá uma placa simples, impressa sem alto relevo, enaltecendo algumas das suas virtudes e relatando as saudade dos amigos e parentes que ficaram. Nenhuma comoção a mais, com certeza, essas mortes provocarão. Aos poucos, esse sentimento de perda cairá naquilo que os poetas chamam de “saudade pacata”. Afinal, a vida continua e todos os que ficaram devem cuidar de fazê-la ao menos bem vivida e satisfatória.
Os famosos e as celebridades, porém, tem a morte anunciada em alto e bom tom, estampadas nas primeiras páginas dos jornais e nas capas das revistas em letras garrafais e citações bombásticas sobre o seu modo de ser (ou de ter sido).
Quem não se comoveu, por exemplo, com a morte de Tancredo Neves, o paizinho (como nos falou em cadeia nacional a atriz global Cristiane Torlone, na época) que iria nos libertar definitivamente das garras repressivas da ditadura militar? Quis a ironia e a história, porém, que o eminente político mineiro, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral do Congresso Nacional, morresse antes da posse. Esse fato, permitiu a José Sarney, que entrara na composição da chapa para garantir a adesão e o apoio de alguns setores mais conservadores da direita política brasileira, o direito de ser o primeiro presidente da Nova República, terminologia adotada para exprimir os novos tempos que haveriam de vir com o passamento do regime militar.
Quem não se espantou, por exemplo, com a morte prematura e precoce de John Lennon, em dezembro de 1980, no Dia de Nossa Senhora da Conceição, assassinado por um admirador enlouquecido que, na loucura do seu delírio, pretendia tomar-lhe o lugar. Não seria a primeira e nem a última vez, na história do mundo, que um louco a solta provocaria a comoção mundial, devidamente transformada em lucro pela mídia especializada em explorar a emoção alheia e sedenta pelos cifrões dos lucros inescrupulosos? Eu mesmo confesso que vivi e sofri aquele drama.
Enfim, poderia citar várias outros exemplos de mortes anônimas ou exploradas pelo sensacionalismo midiático (lembrei também do enterro do papa João Paulo II, uma grande produção colorida).
Por isso tudo e muito mais, agora que experimento a maturidade possível da terceira idade (eufemismo idiota sobre a velhice) não me sensibilizei muito nesse domingo ensolarado recifense quando li sobre a morte do compositor americano Lou Reed.
Continuei ao lado do amigo Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do povo, e de dona Cida Machado, a fotógrafa foliã, degustando um delicioso cação ao molho de coco e creme de leite, regado por uma cerveja geladíssima e compatível com o calor intenso que fazia na praia do Pina, naquele dia.
Descanse em paz, camarada Lou. De ti, guardarei apenas a voz revolucionária e inútil que um dia imaginou poder mudar o mundo.

Recife, 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Água mole em pedra dura pedra pedra até que Pedro


ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA PEDRA PEDRA ATÉ QUE PEDRO

Clóvis Campêlo

Pedro, a primeira ideia que nos veio à mente foi procurar o significado do seu nome no Google, esse dicionário moderno e que nos explica todas as incógnitas.
E veja só o que encontramos:

Pedro Henrique: Conjugação dos nomes Pedro e Henrique. Significa "rocha" e "governante da casa".
O nome Pedro tem origem no grego pétros, que significa "pedra", ou "rocha".
Henrique é um nome do germânico Heimirich, que quer dizer "Senhor do lar". É o resultado da junção das palavras heim que significa "lar" ou "casa" e rik, que quer dizer "senhor".

Ou seja, seu nome foi escolhido por seus pais antes mesmo de você nascer, quando ninguém imaginava as dificuldades pelas quais você passaria nos primeiros momento de vida. Não foi fácil, mas você a tudo superou, Pedro de pedra que foi desde o começo.
A sua fragilidade aparente e inicial, fez com que toda a família reunisse energias para a superação.
E você conseguiu, cresceu, tornou-se um menino bonito, forte e inteligente.
Um orgulho para todos nós que te amamos cada vez mais.
Talvez hoje você ainda não consiga entender o significado profundo de tudo o que aqui está escrito. Mas, não faz mal. A vida se constrói aos poucos. Para eu pressa? Você tem todo um futuro pela frente e nós sabemos que vai ser um futuro brilhante e de sucesso.
Seja feliz, meu filho!
Cresça e apareça!
Você merece!
Com um beijo dos seus avós Clóvis e Cida

Recife, out/2013


domingo, 27 de outubro de 2013

O caminho do poeta


O CAMINHO DO POETA

Clóvis Campêlo

Não saberia sorrir
cruzando as águas do rio,
lembrando que o poeta
por ali passou um dia.

Talvez o seu existir,
por falta de algum brio,
por medo de alguma meta,
não tenha sido alegria.

Talvez não tenha sentido
o azul claro do céu,
a brisa morna do mar,
os sons que cantam a vida;

talvez tenha preferido
da tristeza todo o véu,
o frio da noite a reinar,
a dor sangrando a ferida.

Recife, 2010

sábado, 26 de outubro de 2013

A batida da satisfação


A BATIDA DA SATISFAÇÃO

Clóvis Campêlo

Muitos poetas e compositores já confessaram ter passado por isso: acordar no meio da noite com uma ideia latejando na cabeça, anotá-la ou registrá-la em um gravador simples e retomar o processo criativo na lucidez do dia seguinte.
Assim também aconteceu com Keith Richards. Despertou na madrugada, com a frase “I can't get no satisfaction” lhe perturbando o juízo. Registrou a ideia e poucos dias depois, em parceria com Mick Jagger, estaria pronto um dos maiores sucessos da banda The Rolling Stones e uma das maiores músicas da história do rock'n'roll em todos os tempos. Isso aconteceu em 1965.
Quase 50 anos depois, assim como os Stones, a música ainda impressiona pelo vigor da melodia e pela atualidade crítica da letra. Tanto é assim, que na época do seu lançamento foi tocada inicialmente apenas em estações de rádio pirata por ser considerada sexualmente muito sugestiva e por ser percebida como um ataque ao status quo. Em compensação, “Satisfaction” hoje faz parte inclusive do acervo do Congresso norte-americano. Coisas desse mundo moderno em que vivemos.
A letra, escrita na sua maior parte por Mick Jagger, em que pese o sonho predestinado de Richards, aborda a incapacidade de um jovem em atingir o prazer sexual e toda ansiedade que lhe provoca a propaganda consumista do sistema, seja nas rádios ou nos canais de televisão (e nessa época, não existia ainda a internet e outras mídias mais modernas). Como diriam os velhos compositores dos Novos Baianos, o produssumo sempre queimou a bagagem.
Consta que a música foi gravada pela primeira vez em 10 de maio de 1965, com uma levada folk e Brian Jones tocando harmônica. Dois dias depois, os Stones a regravaram com Brian Jones ao violão e Keith Richard criando o solo distorcido que marcou definitivamente a música. Ainda não satisfeito com o resultado final, o guitarrista queria gravar outra versão, sendo convencido, porém, pelo restante do grupo a manter a segunda gravação que logo estouraria nas paradas de sucesso. Dizem os pesquisadores que o sucesso da música impulsionou as vendas da guitarra Gibson utilizada por Richards, esgotando todo o estoque disponível do instrumento até o final de 1965. Um estrondo.
Na versão final da música, porém, o que também nos impressiona é a bateria selvagem de Charlie Watts, baterista que integra o grupo desde 1963 e que participou de todos os discos da banda. Considerado pelos críticos como um dos maiores bateristas surgidos nos últimos 40 anos, Watts tem forte influência do jazz e é um dos mais antigos membros da banda, ao lado de Mick Jagger e Keith Richards.
Milionários e badalados, estes senhores sobreviveram ao tempo e hoje tocam por pura satisfação.

Recife, 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

A última pantera


A ÚLTIMA PANTERA

Clóvis Campêlo

És a última pantera
a me assustar a memória,
o fim de longa história,
a derradeira quimera.

Temo o teu olhar escuro,
tuas garras afiadas,
e imagino-te sentada
a me esperar no futuro.

A ti não peço clemência,
sei que nada adiantaria,
quando vir a sonolência.

Peço-te apenas, no dia
da tua interveniência,
que seja breve a agonia.

Recife, 2010

sábado, 19 de outubro de 2013

Pescadores e operários


PESCADORES E OPERÁRIOS

Clóvis Campêlo

Quando eu era menino lá no Pina, queria que o futuro chegasse logo e quebrasse os grilhões da infância que me forjava. A meninice tinhas suas limitações, embora também tivesse as suas vantagens, algumas das quais eu só iria perceber bem depois quando a nostalgia da vida adulta me atingisse.
Portanto, não me eram suficientes os quintais repletos de fruteiras onde disputávamos os frutos com os passarinhos. Muito menos a praia imensa onde pescávamos e jogávamos futebol. Nem o areal do Aeroclube, onde apanhávamos capim barba-de-bode para a construção de viveiros e gaiolas. Com certeza, o futuro me faria ultrapassar essas fronteiras e limites.
Naquela época, o tempo parecia caminhar lentamente. Era cansativa a rotina criativa da natureza. Queria ver o mundo dos homens, mesmo que fosse construído de concreto e maldades.
Acreditava que tudo ali era eterno e para sempre. Não sabia ainda que o para sempre sempre acaba. Estava acostumado a ver os pescadores saírem de manhã cedo para a labuta no mar. Moravam junto da maré, ao lado dos operários em construção, que também madrugavam. A diferença era que os primeiros iam trabalham de calção e camiseta, acompanhados por uma garrafa de cachaça. Os operários em construção não tinham esse direito. Calçavam velhas botinas pesadas e roupas pardas e padronizadas. Precisavam de transporte coletivo para chegar ao trabalho, enquanto os pescadores caminhavam decididos sobre a areia da praia. Muitas eram as histórias de morte entre eles, como a de seu Joca, que despencara do décimo andar do edifício que ajudava a construir no Recife Antigo, que naquela época chamávamos de Rio Branco, numa referência a estátua do Barão que até hoje ilustra a praça do Marco Zero. Ou as histórias de coragem de pescadores enfrentando tubarões e percorrendo sem rumo durante dias as águas nem sempre tranquilas do mar do Pina. Era um povo sofrido mas acostumado ao trabalho duro e pesado. Davam vazão à alegria quase sempre contida nas gafieiras do bairro, nas troças carnavalescas ou mesmo nos balcões das barracas que vendiam cachaça e conhaques de alcatrão. Vida simples e que se repetia nos filhos e netos, a maioria condenada ao mesmo destino. Parecia que a vida os marcara de forma definitiva.
Mas, mesmo naquele reduto espacial, onde o tempo caminhava em câmera lenta, as mudanças iam ocorrendo. Primeiro foram abrindo novas ruas e avenidas. Os manguezais foram sendo aterrados e dando lugar a novas construções para as classes sociais ascendentes. O povo foi sendo empurrado para longe e junto com ele também se foram as suas crenças e manifestações culturais. Adeus ao terreiros de candomblé, aos pastoris, aos bumba-meu-boi e caboclinhos, aos maracatus e fandangos. Junto com as novas classes sociais ascendentes, a televisão despontava na esquina. Era o futuro que eu tanto esperava.
Hoje, sinto falta daquilo tudo.


Recife, 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

O círculo e o quadrado


Fotografia de Clóvis Campêlo/2009

O CÍRCULO E O QUADRADO


Clóvis Campêlo

Há muito tempo que estava querendo escrever sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Não queria, no entanto, emitir idéias enciclopédicas, formadas em cima de informações repassadas pelos órgãos (de)formadores de opinião ou de informações preconceituosas.
Queria escrever um texto que retratasse uma experiência pessoal, construtiva, vivida por mim dentro do movimento, mesmo que essa referência estivesse no passado, há alguns anos atrás.
A fotografia acima foi feita em 1996, em um acampamento do MST no município de Condado, na Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco. Essas crianças eram filhos de agricultores ali acampados e que esperavam a regularização da terra para começar a produzir.
Nessa época, eu trabalhava na Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, que sempre prestava um apoio logístico e financeiro ao movimento.
O que me atrai na fotografia é a singeleza da sua composição. No seu desprendimento infantil, o menino não notou que compunha o equilíbrio da foto com as duas figuras geométricas: o círculo, formado pelo pneu, e o quadrado da camiseta, além, é claro, da simpática vaquinha malhada.
Essa criançada alegre, filhos de pessoas excluídas do sistema de produção da monocultura da cana, na sua alegria, em nada se diferenciavam de qualquer outra criança, independente da sua condição ou classe social. Estavam ali acompanhando os pais, na esperança de dias melhores e de uma intregração social mais justa.
No precário acampamento, todo montando em barracas feitas de lona de plástico preto, havia ainda uma escola para eles, um posto médico improvisado e uma pequena igrejinha.
Na terminologia do MST, o acampamento difere do assentamento porque está montado em terras que ainda não foram desapropriadas e distribuídas.
Indiferente a isso, a criançada cumpria o seu papel de simplesmente ser feliz, além de aprender que a vida comunitária, embasada no suprimento das verdadeiras necessidades do homem para sobreviver, pode ser exercida com plenitude e dignidade.

Recife, 2009

- Postagem revisada e atualizada em 14/01/2018

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A quietude tudo sana


A QUIETUDE TUDO SANA

Clóvis Campêlo

A quietude tudo sana
nem que movimento seja
a vida que a gente veja,
a visão que nos engana.

Entre a ilusão e o real,
instituem-se conceitos,
alguns, na razão perfeitos,
outros, mentira ideal.

No entanto, prossegue a vida
por ambos abastecida,
indiferente e fatal,

pois dentro do movimento
que seduz ao pensamento
viaja a morte, afinal.

Recife, 1992

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Serpentina


SERPENTINA
Fotografia de Clóvis Campêlo 
Recife/PE, 1992

sábado, 5 de outubro de 2013

Ruim de serviço


RUIM DE SERVIÇO

Clóvis Campêlo

Sou mesmo ruim de serviço. Nunca aprendi o pulo do gato, embora tenha pernas longas e ágeis de sagitário. Nunca as usei para fugir da polícia, como canta o poeta, mas me ajudaram a correr atrás de bola. E isso sempre me causou prazer.
Talvez até seja essa mesma a questão: a essência do prazer! O pulo do gato passa por aí, pelo exercício constante da sua procura, pelo empenho sem parcimônia dessa busca incessante, patológica, exaustiva.
O chute na bola, não! A bola sempre buliu comigo. Redonda, girandola, ágil, inquietamente sem rumo. Em suma, o sumo. A autorrealização. O equilíbrio em torno de si mesmo. A busca do gol, a meta final defendida por qualquer um dos goleiros opositores. A bola, quando bem executada, destrói exércitos.
A intimidade com a bola não vem do acaso. Transpõe fronteiras genéticas, projeta-se futuristicamente. Vem do passado e se firma no presente fugidio. A sua leitura não respeita as convenções temporais. É abstrata, desconstrutiva, enquanto o pulo do gato necessita de um espaço para se efetivar e estabelecer a infraestrutura do prazer.
Chuto, logo existo. E assim se consolida a jogada, bem sucedida ou não. O desdobramento já implica em outras regras, outros passes, outra hora. Se a perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro que joga na seleção, o gol é a superação de todos os impedimentos, de toda uma estratégia de resistência. O gol é o golpe final.
Uma outra diferença substancial: o gol nunca se realiza sozinho. É um feito coletivo, supõe uma equipe por trás (ou diante) do lance final.
O pulo do gato, não. É egoístico, pessoal, excludente e enganatório pela própria natureza.
O gol pressupõe um objetivo comum, construído coletivamente e por trás do qual está toda uma multidão representada.
O pulo do gato nos lança na individualidade desenfreada, na solidão da conquista mal remunerada e nem sempre gratificante ao final.
Por trás de cada uma dessas artimanhas, está toda uma concepção de vida, uma cosmovisão, uma proposta adulterante ou reconstrutiva do mundo e dos seres que o fazem. Enfim, é no gol ou no pulo do gato que se revela o caráter intrínseco de cada um de nós, dos nossos antecedentes e posteriores, até que alguém quebre essa sequência nem sempre lógica e pertinente e restabeleça o fluxo em sentido contrário e nem sempre antagônico, mas sempre complementar.
É no fim, enfim, que vislumbramos o (re)começo, o em torno, o entorno, o retorno, o contorno do abjeto objeto.
Consolida-se a alma de borracha, o longo e sinuoso caminho através do universo, mesmo que estejamos parados, pirados ou purificados.
Tenho dito.

Recife, 2013


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ariano Suassuna subindo o Morro da Conceição



ARIANO SUASSUNA SUBINDO O MORRO DA CONCEIÇÃO
O escritor, entre os fiéis, subindo o Morro da Conceição
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 1993

Entardecer


ENTARDECER
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, PE, 1992

sábado, 28 de setembro de 2013

Às margens do Capibaribe


ÀS MARGENS DO CAPIBARIBE

Clóvis Campêlo

Às margens do Capibaribe
ouvi o teu grito sentido,
o teu uivo de lobo desgarrado
buscando a alcateia.
Não temas, poeta, estamos contigo,
somos solidários e
irmanados na mesma fé.

Às margens do Capibaribe
vi o teu vulto solitário,
correndo por entre as árvores,
e a tua imagem confundia-se
com a do poeta Ascenso Ferreira.
Não te apresses, poeta, pois
não nos perderemos de vista,
estamos coesos e acesos
no mesmo ideal.

Às margens do Capibaribe
entendi que as nossas solidões
podem no rio desaguar,
formando um lago farto e profundo,
repleto de plenitude
e de alimento para as almas.
Não duvideis, poeta, pois o mundo,
na sua infinita e inconsistente
sabedoria, é feito de linhas tortas.

Cabe a nós, com o nosso discernimento
de bardos, transformá-lo e redefiní-lo.

O poeta não pode se furtar a cumprir o seu papel.

Recife, 2008

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O olhar


Fotografia de Clóvis Campêlo/1993

O OLHAR

Clóvis Campêlo

Aquele olhar, ao mesmo tempo, era chegada e despedida.
Talvez fosse apenas uma velha senhora, tal qual Carolina, na janela, vendo passar o tempo que ainda lhe restava.
Mas, nele havia um rastro tamanho de dignidade.
Era um olhar, ao mesmo tempo, sereno e inquisidor, indagando, sem ódio e sem medo, sobre o sentido da vida, sobre o acaso de estarmos ali, naquele momento, descobrindo-nos mutuamente.
Afinal, pelas ruas de Juazeiro do Norte, em dias de Padim Ciço, são muitos os transeuntes, crentes ou não, que por ali circulam em busca de si, da fé, dos céus.
É sempre um povo sofrido, calejado, euclides e forte. Antes de tudo, sertanejo.
Pelas ruas de Juazeiro do Norte, em Festa de Finados, sempre construimos um pouco mais da identidade do nosso povo, os nordestinados.
A imagem daquela velha mulher, na porta da casa simples de taipa, com as mãos serenamente cruzadas e inertes, depois de uma vida de lida e trabalho para sobreviver, trouxe, para nós, a constatação da nossa brasilidade.
Salve Juazeiro, salve Padim Ciço, mais uma vez salve o povo brasileiro!


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Amanhecer


AMANHECER
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

domingo, 22 de setembro de 2013

O caminho


O CAMINHO

Clóvis Campêlo

O caminho pode ser
apenas uma seta,
uma reta,
uma meta.

O caminho pode ser
uma visão,
uma ilusão,
belo clarão.

O caminho pode ser
o início,
o princípio
ou o precipício.

No entanto,
só nos resta caminhar...

Recife, 2010

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A face


A FACE
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, PE, 1992

sábado, 14 de setembro de 2013

O primeiro dia do resto da sua vida


O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA SUA VIDA

Clóvis Campêlo

O sonho fora terrível: dois operários em construção, amarrados e com os braços abertos, eram espancados em praça pública, pelos companheiros de obra, até a morte. Do outro lado da rua, sobre o lixo de um terreno baldio, um bebê de cabelos louros e encaracolados chorava, abandonado.
Deitara cedo, é verdade, e não conseguia entender porque sonhara aquele sonho estranho, em plena madrugada, quando o dia já começava a raiar.
Levantou da cama e olhou para a companheira que, bela, ressonava, tranquila, o sono dos justos. Era sempre assim: lutava contra a insônia e os pesadelos, enquanto ela dormia com a maior facilidade.
Durante anos se perguntara o por que disso, da insônia, da angústia. De nada adiantaram os anos de terapia ou mesmo os soníferos usados durante um certo tempo. Sabe lá Deus, quantas noites passadas em claro, nos últimos anos, ou dormindo mal e sonhando besteiras como as que sonhara há pouco.
Foi até a cozinha e colocou a água do café no fogo. Quando ela acordasse, o café já estaria pronto. Ao menos para isso, a insônia serviria. Pôs o pó do café no coador (detestava as cafeteiras que ferviam o pó junto com a água) e a água quente sobre ele, deixando o delicioso aroma invadir todos os cômodos do apartamento.
Logo ela acordaria, e repetiria a invariável pergunta: “Dormiu bem hoje?”. Já se acostumara com isso. Perguntava-se por que a repetição inútil da indagação. Tanto quanto ele, ela sabia da sua incapacidade de dormir bem. Sabia dos seus pesadelos e dos seus surtos depressivos.
Quando a ela dizia isso, alegando a inutilidade da pergunta, sempre respondia: “Lembre-se que hoje é o primeiro dia do resto da sua vida e nele você tem a obrigação de ser feliz. Esqueça o ontem e o amanhã. Concentre-se no agora. Liberte e libere as endorfinas”.
Odiava esse discurso otimista, mas como gostaria que ela estivesse certa.

Recife, 2010


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Os beatos de Juazeiro do Norte





Fotografias de Clóvis Campêlo/1993

BEATOS DE JUAZEIRO DO NORTE

Clóvis Campêlo


Em Juazeiro do Norte os beatos de Padre Cícero manifestam a sua fé de várias maneiras.
O grupo acima desfilava paramentado pelas ruas da cidade de forma organizada, como um exército do bem, entoando cânticos religiosos e de fé.

Recife, 2011

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cavalo marinho


CAVALO MARINHO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

sábado, 7 de setembro de 2013

As histórias de Monte Santo


AS HISTÓRIAS DE MONTE SANTO

Clóvis Campêlo

Cinquenta anos depois, volto a assistir ao filme “Deus e o diabo na terra do sol”, do cineasta Glauber Rocha, filmado em branco e preto na cidade baiana de Monte Santo. Algumas coisas deixam-me constrangido: a beleza intensa e bem cuidada de Yoná Magalhães, vivendo a sertaneja Rosa, mulher do protagonista Manuel (Geraldo del Rey), que contrasta com os rostos encovados das mulheres da cidade, que trabalharam no filme como figurantes, e o intenso sentimento de culpa burguês manifestado pelo autor em relação aos dramas e ao destino daquele povo.
Segundo o jornalista João Villaverde, em matéria publicada no Estado de São Paulo em 26 de maio próximo passado, em comemoração aos 50 anos do filme, Glauber escolheu a cidade baiana para cenário da primeira metade das filmagens por conta da longa escadaria de pedra encravada na serra de Santa Cruz, que levava a uma pequena capela no alto do monte. Queria homenagear Sergei Eisenstein, repetindo uma passagem do filme “O encouraçado Potenkim” na cena em que o personagem Antônio das Mortes, vivido por Maurício do Vale) assassina os fieis seguidores do beato Sebastião (interpretado por Lídio Ferreira).
O cenário perfeito da Serra de Santa Cruz, aliás, foi concebido bem antes, em 1775, pelo frade capuchinho Apolônio de Toddi que viu ali uma imensa semelhança com o calvário de Jerusalém. Com a colaboração dos fieis, marcou a serra com os passos da Paixão de Cristo e construiu a capela, rebatizando o lugar com nome de Monte Santo.
Nove anos depois, em 1784, com o cenário do frade capuchinho ainda em construção (só seria concluído em 1790), foi achado no município, pelo menino Bernardino da Mota Botelho, a Pedra do Bendegó, o maior meteorito já encontrado no Brasil e atualmente o 16º maior do mundo. A pedra hoje encontra-se exposta no Museu Nacional do Rio de Janeiro, por obra e graça do imperador D. Pedro II que tomou conhecimento do fato ao visitar a Academia de Ciência de Paris, em 1886, ordenando a sua remoção do interior da Bahia para a metrópole carioca. A monarquia começava a ruir e prenunciava-se a chegada positivista ao país da ordem e do progresso.
Nove anos depois de perder o Bendegó, em 1897, já sob a égide da República do marechal Deodoro da Fonseca, Monte Santo receberia em suas terras as tropas militares lideradas pelo marechal Carlos Machado Bittencourt, que montaram ali a base da empreitada para a derrubada de Antônio Conselheiro, na vizinha cidade de Canudos.
65 anos depois, foi nessas terras repletas de significados e de acontecimentos políticos e históricos, que Glauber Rocha realizou as filmagens da primeira parte do seu filme épico.

Recife, 2013