sábado, 12 de outubro de 2013

O círculo e o quadrado


Fotografia de Clóvis Campêlo/2009

O CÍRCULO E O QUADRADO


Clóvis Campêlo

Há muito tempo que estava querendo escrever sobre o Movimento Sem Terra. Não queria, no entanto, emitir idéias enciclopédicas, formadas em cima de informações repassadas pelos órgãos (de)formadores de opinião ou de informações preconceituosas.
Queria escrever um texto que retratasse uma experiência pessoal, construtiva, vivida por mim dentro do movimento, mesmo que essa referência estivesse no passado, há alguns anos atrás.
A fotografia acima foi feita em 1996, em um acampamento do MST no município de Condado, na Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco. Essas crianças eram filhos de agricultores ali acampados e que esperavam a regularização da terra para começar a produzir.
Nessa época, eu trabalhava na Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco, que sempre prestava um apoio logístico e financeiro ao movimento.
O que me atrai na fotografia é a singeleza da sua composição. No seu despreendimento infantil, o menino não notou que compunha o equilíbrio da foto com as duas figuras geométricas: o círculo, formado pelo pneu, e o quadrado da camiseta, além, é claro, da simpática vaquinha malhada.
Essa criançada alegre, filhos de pessoas excluídas do sistema de produção da monocultura da cana, na sua alegria, em nada se diferenciavam de qualquer outra criança, independente da sua condição ou classe social. Estavam ali acompanhando os pais, na esperança de dias melhores e de uma intregração social mais justa.
No precário acampamento, todo montando em barracas feitas de lona de plástico preto, havia ainda uma escola para eles, um posto médico improvisado e uma pequena igrejinha.
Na terminologia do MST, o acampamento difere do assentamento porque está montado em terras que ainda não foram desapropriadas e distribuídas.
Indiferente a isso, a criançada cumpria o seu papel de simplesmente ser feliz, além de aprender que a vida comunitária, embasada no suprimento das verdadeiras necessidades do homem para sobreviver, pode ser exercida com plenitude e dignidade.

Recife, 2009

3 comentários:

Passiflora disse...

Estimado Clóvis
Parece que tem uma letra trocada no titulo da sua crônica ou estou enganado e a palavra "QUADRADE" existe?
Um abraço e desculpe por importunar!
Paulo, seu admirador.

Clóvis Campêlo disse...

Você tem razão, Paulo. Vou consertar agora. Grato pelo aviso. Abraços

Antonio Abujamra disse...

É realmente um homem de talento muito apaixonante e socialmente fica sendo indispensável.
Te amo muito.
Abu, o velho triste.