quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O olhar


Fotografia de Clóvis Campêlo/1993

O OLHAR

Clóvis Campêlo

Aquele olhar, ao mesmo tempo, era chegada e despedida.
Talvez fosse apenas uma velha senhora, tal qual Carolina, na janela, vendo passar o tempo que ainda lhe restava.
Mas, nele havia um rastro tamanho de dignidade.
Era um olhar, ao mesmo tempo, sereno e inquisidor, indagando, sem ódio e sem medo, sobre o sentido da vida, sobre o acaso de estarmos ali, naquele momento, descobrindo-nos mutuamente.
Afinal, pelas ruas de Juazeiro do Norte, em dias de Padim Ciço, são muitos os transeuntes, crentes ou não, que por ali circulam em busca de si, da fé, dos céus.
É sempre um povo sofrido, calejado, euclides e forte. Antes de tudo, sertanejo.
Pelas ruas de Juazeiro do Norte, em Festa de Finados, sempre construimos um pouco mais da identidade do nosso povo, os nordestinados.
A imagem daquela velha mulher, na porta da casa simples de taipa, com as mãos serenamente cruzadas e inertes, depois de uma vida de lida e trabalho para sobreviver, trouxe, para nós, a constatação da nossa brasilidade.
Salve Juazeiro, salve Padim Ciço, mais uma vez salve o povo brasileiro!


Recife, 2009

COMENTÁRIOS:

"Muito bonito e comovente. Escritor de "mão cheia". Um abraço."
Paulo Lisker, em 27/9/2013

"Saber olhar é uma das artes mais difíceis. Você é grande"
Antônio Abujamra, em 27/9/2013

"Olhar comovente!"
João Batista de Lima, em 09/8/2017

"Parabéns, Clóvis Campelo. Viva a sensibilidade dos filhos do povo brasileiro. Abraço."
Urariano Mota, em 09/8/2017

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