quinta-feira, 3 de maio de 2018

Pelé na MPB


PELÉ NA MPB

Clóvis Campêlo

 
Maior e melhor jogador de futebol de todos os tempos, Pelé também enveredou pelas trilhas da MPB. Vejamos o que diz sobre isso o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Seu envolvimento com a música popular se deu paralelamente à de jogador e sempre de maneira amadora, compondo e gravando algumas músicas individualmente ou ao lado de astros da música popular como Elis Regina, Jair Rodrigues e Gilberto Gil, além de tocar constantemente violão em concentrações de seu clube e da seleção brasileira. Sua carreira também serviu de inspiração para vários cantores e compositores que fizeram músicas para homenageá-lo”.
O que nos interessa no momento, porém, não é o Pelé compositor, e sim o Pelé cantado e decantado nas composições dos seus admiradores. De acordo ainda com o mesmo site, são inúmeras as referências e homenagens a Pelé dentro da MPB. A título de ilustração citaremos algumas feitas antes de 1962, quando a nossa seleção conquistou o bicampeonato mundial de futebol. Apesar de Pelé ser ainda um jovem atleta em ascensão, as referências ao seu sucesso já eram muitas: “Em 1960, a Orquestra e Coro RGE gravou a marcha "Pelé, Pelé", de Alceu Menezes. Em 1961, o cantor Luiz Vanderley gravou pela RCA Victor o cha cha cha "Rei Pelé", de Wilson Batista, Jorge de Castro e Luiz Vanderlei. Essa composição foi regravada dois anos depois pelo Coro do Clube do Guri. Em 1962, a dupla sertaneja Craveiro e Cravinho gravou a cana-verde "Pelé dos pobres", de Sulino, Moacir dos Santos e Fernandes. No mesmo período, o cantor Paulo Tito gravou o baião "Pelé", de Gordurinha”.
Depois do bicampeonato conquistado no Chile, em 1962: “Em 1963, o choro "Pelé", de Oiram Santos foi gravado por Eli do Banjo na gravadora Copacabana. Em 1969, prestou histórico depoimento ao MIS (Museu da Imagem e do Som), então dirigido pelo jornalista Ricardo Cravo Albin e que resultou num LP lançado pelo próprio MIS”.
Imaginem então depois do tri, conquistado em 1970, no México: “Em 1970, parte desse depoimento foi relançado em compacto através da Revista Manchete e da gravadora CID contendo ainda a narração do milésimo gol do jogador, além de gols feitos por ele na Copa de 1970. Também nesse disco, o Rei interpreta a "Canção de Natal", sem indicação de autoria. Em 1974, quando já tinha se despedido da seleção brasileira e o Brasil se preparava para jogar a Copa da Alemanha, e a torcida não sabia quem poderia substituí-lo, o sambista Luiz Ayrão compôs o samba "Camisa dez" no qual cantava a angústia da torcida brasileira ao perguntar: "Dez é a camisa dele / Quem é que vai no lugar dele?". No mesmo ano, o cantor Jackson do Pandeiro gravou o rojão "O Rei Pelé", de Jackson do Pandeiro e Sebastião Batista. Em 1977, Caetano Veloso fez sucesso com uma composição que incluiu os versos "Eu canto a canção que comove/Pelé disse love, love, love", numa alusão às palavras do Rei do Futebol por ocasião de sua despedida dos gramados. Como cantor, gravou em 1969 com a cantora Elis Regina o compacto simples "Tabelinha - Elis x Pelé", pela gravadora Phillips, interpretando as músicas "Perdão não tem" e "Vexamão", de sua autoria. Em 1978, foi lançada pela WEA o LP "Pelé", com a trilha sonora original do filme lançado no mesmo ano sobre sua despedida do futebol. Com produção e arranjos de Sérgio Mendes, o disco apresenta o jogador cantando em duas faixas em dueto com a cantora Gracinha Leporace, "Meu mundo é uma bola" e "Cidade grande". Também fazem parte do disco mais duas composições de sua autoria, "Nascimento" e "Voltando a Bauru", além de composições de Sérgio Mendes. Em 1979, lançou pela Som Livre um compacto simples com as músicas "Criança" e "Moleque danado", de sua autoria. Em 2005, ao participar do programa do ex-jogador argentino Maradona na TV em Buenos Aires acompanhou-se ao violão interpretando uma composição de sua autoria. Como compositor, seu grande sucesso foi a balada "Meu mundo é uma bola" gravada por ele mesmo”.
No entanto, apesar da extensa lista acima, lembramos ainda de algumas composições que ficaram de fora do levantamento de Cravo Albin.
A primeira, o frevo “A lua disse”, de Gildo Branco, lançado no carnaval de 1960. Cronista do seu tempo, o compositor aborda numa mesma composição as figuras ilustres de Yuri Gagarin e Pelé, protagonistas de fatos importantes vividos naquele tempo: “Gagarin subiu, subiu, subiu, / foi até ao espaço sideral, / chegou perto da lua e sorriu: / "Vou embora pro Brasil / que o negócio é carnaval". / A lua disse: "Não vá demore mais, pois ouvi que lá na Terra / querem me passar pra trás". / Mas o Gagarin não ligou e deu no pé: "Vou mesmo pro Brasil, eu quero é conhecer Pelé".
A segunda, uma marchinha lançada no carnaval carioca de 1963, cujos autores e intérpretes não consigo lembrar e nem consegui localizar nas minhas pesquisas: “Ai, ai, Adão / me conta como é que é / se a Eva era branca /como foi que nasceu Pelé? / Adão, Adão, Adão / a história não tem razão / ou então no paraíso / a macieira também dava jamelão”.
A terceira, a música Rasta Pé, de Chico Evangelista, segundo alguns um dos pioneiros do reggae no Brasil, e falecido em 2017. Evagelista ficou conhecido nacionalmente em 1980 ao participar do festival MPB 80 com a música citada: “Rasta pé. É, moçada! / No passo dessa dança. Barra mansa. / Pisada de Afoxé / A bola conhece Pelé / Moqueca leva dendê. / Xerém, xaxado, xaréu. / Bicho do bico de brasa. / De olho pregado no céu. / Da estrada lá de casa. / Eu vi um jabuti. / Comendo jabuticaba”.
A última, para não nos alongarmos muito mais, na música “Meio de campo”, feita por Gilberto Gil em homenagem ao jogador Afonsinho, um samba-de-breque onde Pelé, mesmo não sendo o homenageado, é usado como referência mais do que positiva na escala de valores do compositor baiano: “Prezado amigo Afonsinho / Eu continuo aqui mesmo. / Aperfeiçoando o imperfeito. / Dando um tempo, dando um jeito. / Desprezando a perfeição. / Que a perfeição é uma meta. / Defendida pelo goleiro. / Que joga na seleção. / E eu não sou Pelé nem nada. / Se muito for, eu sou um Tostão”.
No nosso entender, Pelé sempre mereceu tudo isso.


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