sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A doença de Deus


A DOENÇA DE DEUS

Clóvis Campêlo

Já faz tempo que os muros de Londres foram pichados com a frase famosa.
Em 1966, eu ainda morava no Pina, pescando, jogando bola e acompanhando a trajetória dos Beatles e dos Brecheiros, os ted boys que incomodavam o bucolismo e a lentidão do bairro. A juventude era bela, poderia até me arriscar. Porém, se os Beatles revolucionaram o mundo, a revolução dos Brecheiros logo acabou, afundada nas drogas, na ilicitude e nas ruas do Pina.
E olhe que quase tudo nos parecia ser tão lógico. Hoje, dos Beatles, apenas dois sobrevivem. Os Brecheiros, morreram todos. O último, talvez, tenha sido Marco Bobão, morto quando o bairro já começava a se transformar, remodelado pela especulação imobiliária e pela engenharia das largas avenidas, que espantou terreiros de macumba, afoxés e maracatus, gafieiras, pescadores e o lúmpen proletariado que lhe era habitual. Ali conviviam o mundo pop de então, trazido pelo rádio, televisão e cinema, e a cultura popular dos excluídos e marginalizados. O Pina era um caldeirão cultural que fervia e cheirava mal.
A classe média, que admirava os Beatles e temia a ousadia dos Brecheiros, porém, não só sobreviveu como aumentou o seu espectro e se consolidou. Os tempos começavam a mudar. Enquanto os Beatles cantavam All You need os love, os Brecheiros olhavam escondidos as moças de família da classe média pinense tomando banho ou vestindo seus pijamas e camisolas para dormirem. Eu, nunca tive essa coragem, embora tivesse a vontade. Afinal, as filhas da classe média daquela época já eram belas e apetitosas. Hoje, são todas respeitáveis e loiras senhoras, embora algumas ainda mantenham um certo e discreto charme.
Mas, onde entraria Eric Clapton nisso tudo? Em 1966, London City teve os seus muros pichados por jovens enlouquecidos pela maconha e pelos acordes das guitarras de Clapton. Para eles, Deus era Clapton (ou vice-versa). Clapton tinha então vinte anos de idade, e dominava a cena pop inglesa tocando com os Beatles e os Rolling Stones, entre outros. Nas horas vagas, compunha músicas para a esposa do amigo fiel e traído. O nosso “Deus” ainda tinha as gônadas funcionais e atrevidas. O futuro absorveria e absolveria o ato. A música pop ganhava outros clássicos musicais para lhe alimentar a saga de lucros e todos viveriam felizes para todo o sempre. Para que fomentar sacrilégios inúteis?
Hoje, vejo no blog Sonoridades, do reacionário e careta Estadão, que aos 71 anos de idade, Clapton sofre de neuropatia, doença que geralmente acomete diabéticos e hipertensos. E tudo começou com inexplicáveis dores nas costas. A doença é incurável e provoca danos irreparáveis no sistema nervoso. Como diria Lupicínio, não há nervos de aços que resistam e estejam imunes a tantos adjetivos.
A realidade é que Clapton (ou God) envelheceu e está doente. E do mesmo modo que o tempo levou o vento dos anos 60, carregando os sons e as ousadias daquela época, também se prepara para passar a limpo o que veio depois e o que hoje existe e persiste. Inexorável tempo, mestre de todas as criações e de toda a destruição da vida.

Recife, outubro 2016

6 comentários:

Pedro Du Bois disse...

Pina, Recife; Clapton, Londres. Nunca fomos tão universais quanto nos anos 60. Hoje, por mais globOlizados que sejamos, nunca fomos tão corriqueiramente locais. Belíssimo trecho, caro Campêlo. Abraços.

Urariano Mota disse...

Comentei lá no Face:"Parabéns, Clóvis Campêlo. Taí um filão as er mais explorado". E acerscento aqui: se possível, publique em letras maiores.
A maioria de nós é míope.
Abraço

Wagner Ortiz disse...

Muito bem, Clóvis! Mais um textão de alto nível!

Aristóteles Coelho disse...

Cada um tem o deus q merece.
Eu tenho dois. O meu transitório neste momento é Ian Gillan

Walter da Silva disse...

... e por falar nisso, me vem a declaração do russo astronauta: "Estive lá no espaço sideral e não vi deus"; a outra é de JOHN LENNON: "Somos mais famosos do que Jesus Cristo". No anexo, há uma forma pessoal de ver o messias. Espero apreciem. (ou não)
abraço, WS

Urda Alice Klueger disse...

Que lindo, Clóvis! E que triste...