sábado, 14 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Entre a neurastenia e o estresse
ENTRE A NEURASTENIA E O ESTRESSE
Clóvis Campêlo
É interessante como no dinamismo de uma língua algumas palavras deixam de ser utilizadas e são substituídas por outras. A palavra neurastenia é uma delas.
O Minidicionário Escolar da Língua Portuguesa, da Companhia Melhoramentos, assim a define: “1. Fraqueza do sistema nervoso. 2 Esgotamento nervoso”. Hoje, ninguém mais é chamado de neurastênico, ninguém mais sabe o que é neurastenia. Hoje, existe o estresse e o estressado. Segundo o mesmo dicionário, estresse é a “reação do organismo a influências nocivas de ordem física, psíquica, infecciosa, capazes de perturbar o equilíbrio interno”.
Ou seja, a primeira definição nos dá a impressão de que o problema é orgânico, interno; enquanto na segunda, a alteração ocorre por conta de fatores externos diversos que nos influenciam. Existe uma certa diferença nas definições, portanto.
Segundo a Wikipédia, Virgínia Woolf, Marcel Proust e Max Weber seriam neurastênicos notáveis. A primeira, durante toda a sua vida foi forçada a fazer repousos terapêuticos, os quais descreve no livro “On Being III”, traduzido em “Por estar doente”, onde a escritora tenta estabelecer a doença como um assunto sério da literatura.
Marcel Proust, na verdade, era um maníaco depressivo, condição essa adquirida, talvez, em razão do consumo desenfreado de açúcar – as madalleines – que o autor descreve na sua obra “Em busca do tempo perdido”. Filho de família rica e frequentador dos salões da sociedade francesa da época, podia se dar ao luxo de ter uma alimentação excessivamente rica em carboidratos. Maravilhado, descobri a certo tempo que o petisco tão louvado pelo autor, tratava-se nada mais nada menos do que os bolinhos de bacia tão consumidos nas feiras das cidades do Nordeste do Brasil. Aliás, a ligação entre o consumo demasiado de alimentos adocicados e os surtos depressivos já são considerados pela medicina moderna, coisa desconhecida naquela época.
Max Weber, sociólogo e historiador, teria tido uma grave crise neurastênica, após a morte do pai, com o qual havia rompido pouco antes. Com certeza, Freud explicaria o fato. A verdade é que, entre 1897 e 1901, esteve internado em sanatórios, tendo ficado vários meses em Roma, onde recuperou as forças.
Já o termo estresse foi usado pela primeira vez em 1936, pelo médico Hans Selye, na revista Nature.
Na verdade, em ambos os casos, existe um sofrimento do indivíduo causado pelo enfrentamento de situações que lhe provocam ansiedade e depressão, embora essa capacidade de enfrentamento de tais situações varie de indivíduo para indivíduo.
Enfim, o mundo moderno em que vivemos, com suas exigências e seus desafios constantes serve de motivo para que estressados ou neurastênicos aprendam a com ele conviver e superar os impasses constantes que se oferecem.
Sobreviver é preciso.
Recife, fevereiro 2015
domingo, 8 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Quem puxa aos seus não degenera!
QUEM PUXA AOS SEUS NÃO DEGENERA!
Clóvis Campêlo
Isso quem diz é o dito popular. Mas, se a voz do povo é a voz de Deus, não há do que reclamar. Assim, herdamos dos nossos antecessores não só as características positivas, como também o que há de ruim e negativo.
Do meu pai, por exemplo, herdei a hipertensão severa que, como doença degenerativa que é, já se desdobra em outras consequências. Meu pai morreu cedo, em consequência de acidente vascular cerebral hemorrágico acontecido poucos dias antes do seu aniversário de 63 anos. Morreria poucos meses depois, em outubro de 1983.
Assim como ele, fiquei hipertenso cedo, aos 33 anos. De lá para cá tem sido uma longa caminhada de convivência e conhecimento da doença. Embora tenha deixado de fumar na época, só larguei a cervejinha agora, aos 63 anos, depois de de uma isquemia cerebral que me deixou dez dias no hospital, em novembro próximo passado. Coincidentemente, a isquemia também aconteceu poucos dias antes do meu 63º aniversário. Na UTI do hospital, reencontro Paulo Felinto, um primo da minha mãe, da cidade do Rio Formoso, o qual não via há mais de 30 anos. Recuperei-me e tive alta, mas Paulo não teve a mesma sorte, vindo a falecer. Quando se entra na chamada terceira idade, tudo pode acontecer a qualquer hora do dia ou da noite.
Da minha mãe, herdei a diabetes melitus. No entanto, contrariamente à hipertensão, a doença só veio se manifestar no início de 2013. Outra doença que evolui, mesmo com os cuidados necessários, e nos priva de alguns dos muitos prazeres da vida. Diante da evidência desse dois males, só nos resta repensar a vida e o nosso comportamento diante dela.
Não nos basta, porém, a dieta adequada. O uso de medicamentos passa a ser necessário e, assim, nos vemos diante de outros problemas e situações. Se a medicação por um lado nos ajuda a controlar as doenças, por outro lado pode nos provocar reações inconvenientes e problemáticas. As chamadas doenças iatrogênicas podem se desenvolver a partir daí. Reações alérgicas são possíveis, mesmo para medicamentos que já são utilizados há muito tempo. Alterações físicas, químicas e psicológicas podem ocorrer no nosso organismo, provocando sintomas nem sempre agradáveis ou suportáveis. É preciso estar atento e forte na observação e no controle desses efeitos. Nessa estratégia de sobrevivência, médicos e pacientes tornam-se quase parceiros. Quiçá se tornem até amigos ao longo dos anos.
Mas a herança genética familiar pode até mesmo nos levar à doenças herdadas de parentes mais distantes. Hoje, sofro também de artrite gotosa, provocada pelo excesso de ácido úrico no meu organismo, por minha incapacidade orgânica de eliminar convenientemente as purinas. Meus pais não sofriam desse mal. Descubro, porém, um primo longínquo, pelo lado materno, portador desse mal e de onde pode ter vindo essa minha outra herança. Chamava-se João. Eu o conheci já velho, quase cego, capengando com as juntas entrevadas. Atendia a todos, sem ressentimentos pela alcunha de João da Gota. Je vou salue, João, pela dignidade de ter vivido a vida do que jeito que a vida a ti se ofereceu. Além de João, a todos eu saúdo pela herança genética que fez de mim o que eu sou.
Afinal, quem puxa aos seus não degenera!
Recife, fevereiro 2015
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Perder uma batalha não significa perder a guerra!
Clóvis Campêlo
Convenhamos, amigos corais, ser derrotado às vésperas de completarmos 101 anos não faz bem a ninguém. Ainda mais quando o vencedor é o nosso maior adversário no âmbito estadual. Mas, sejamos justos, o time da Ilha sobrou em campo enquanto nós fomos apenas voluntariosos no primeiro tempo e incapazes no segundo. Não existimos no ataque, enquanto a defesa e o meio-campo ainda se mostram desarticulados. Mas, nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio dos dois para que tudo se recomponha e surja uma nova perspectiva no horizonte. Perdemos uma batalha, mas não a guerra. Refaçamos as forças e vamos à luta. O tempo bem que pode ser o nosso maior aliado.
Em que pese a derrota passada, porém, hoje é um dia de festas e alegrias. Nesta terça-feira, dia 3 de fevereiro de 2015, completamos mais um ano de vida e de glórias. Um time de futebol nascido no seio da classe média recifense, quando o esporte bretão ainda era uma atividade elitizada. Nascemos para vingar e vingamos.
Do bairro da Boa Vista até o Arruda, foram muitos anos e uma longa caminhada. E no Arruda, construímos a nossa grandeza.
Pra falar a verdade, foi depois na sua inauguração, em 1970, que conquistamos a grande maioria dos nossos títulos dentro de campo.
Um estádio erguido com a ajuda e determinação de uma torcida fiel.
Desde a desapropriação da área pertencente ao comendador Arthur Lundgren, nos anos 50 do século passado, pelo prefeito José do Rego Maciel, até a reforma e ampliação do estádio em 1982, é bem verdade com a ajuda do governo do Estado de Pernambuco, sempre houve essa parceria e simbiose entre a agremiação e a torcida coral. Juntos, superamos momentos tensos e negativos e construímos, pedra sobre pedra, a história de um dos maiores clubes de massa do Brasil. A fidelidade canina dessa relação entre torcida e clube nos projetou nacional e internacionalmente.
Soubemos superar, principalmente, os momentos de adversidade e improdutividade dentro dos gramados para renascer das cinzas e se impor com galhardia novamente.
Talvez a cobra coral tenha sete vidas como os gatos. Talvez, como os gatos, tenha a capacidade de cair sempre em pé e no momento seguinte já estar pronta para o bote. É esse fôlego incomum que nos fará construir mais 101 anos de história e de glórias.
Parabéns, Santinha! Feliz aniversário, Cobra Coral! Vida eterna às Repúblicas Independentes do Arruda.
Recife, 03/02/2015
Convenhamos, amigos corais, ser derrotado às vésperas de completarmos 101 anos não faz bem a ninguém. Ainda mais quando o vencedor é o nosso maior adversário no âmbito estadual. Mas, sejamos justos, o time da Ilha sobrou em campo enquanto nós fomos apenas voluntariosos no primeiro tempo e incapazes no segundo. Não existimos no ataque, enquanto a defesa e o meio-campo ainda se mostram desarticulados. Mas, nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio dos dois para que tudo se recomponha e surja uma nova perspectiva no horizonte. Perdemos uma batalha, mas não a guerra. Refaçamos as forças e vamos à luta. O tempo bem que pode ser o nosso maior aliado.
Em que pese a derrota passada, porém, hoje é um dia de festas e alegrias. Nesta terça-feira, dia 3 de fevereiro de 2015, completamos mais um ano de vida e de glórias. Um time de futebol nascido no seio da classe média recifense, quando o esporte bretão ainda era uma atividade elitizada. Nascemos para vingar e vingamos.
Do bairro da Boa Vista até o Arruda, foram muitos anos e uma longa caminhada. E no Arruda, construímos a nossa grandeza.
Pra falar a verdade, foi depois na sua inauguração, em 1970, que conquistamos a grande maioria dos nossos títulos dentro de campo.
Um estádio erguido com a ajuda e determinação de uma torcida fiel.
Desde a desapropriação da área pertencente ao comendador Arthur Lundgren, nos anos 50 do século passado, pelo prefeito José do Rego Maciel, até a reforma e ampliação do estádio em 1982, é bem verdade com a ajuda do governo do Estado de Pernambuco, sempre houve essa parceria e simbiose entre a agremiação e a torcida coral. Juntos, superamos momentos tensos e negativos e construímos, pedra sobre pedra, a história de um dos maiores clubes de massa do Brasil. A fidelidade canina dessa relação entre torcida e clube nos projetou nacional e internacionalmente.
Soubemos superar, principalmente, os momentos de adversidade e improdutividade dentro dos gramados para renascer das cinzas e se impor com galhardia novamente.
Talvez a cobra coral tenha sete vidas como os gatos. Talvez, como os gatos, tenha a capacidade de cair sempre em pé e no momento seguinte já estar pronta para o bote. É esse fôlego incomum que nos fará construir mais 101 anos de história e de glórias.
Parabéns, Santinha! Feliz aniversário, Cobra Coral! Vida eterna às Repúblicas Independentes do Arruda.
Recife, 03/02/2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Campeões do mundo
Clóvis Campêlo
Hoje, 29 de junho, Dia de São Pedro, faz 53 anos que conquistamos na Suécia o nosso primeiro título de campeões mundiais de futebol.
Jogamos vestidos de azul, com camisas compradas na véspera do jogo, já que a Suécia, a dona da casa e a outra seleção finalista, jogaria de amarelo.
A partida foi realizada às 14 horas, no Estádio Rasunda, em Estocolmo, sendo assistida por mais de 51 mil pessoas. O Brasil jogou e ganhou com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo.
Ganhamos e ganhamos bem. 5X2 foi o placar com gols brasileiros de Vavá (2), Pelé (2) e Zagalo. O jogo foi apitado pelo árbitro francês Maurice Gulgue.
Consta que essa foi a primeira Copa do Mundo televisionada, sendo acompanhada por vários países europeus. O lançamento da segunda versão do satélite soviético Sputinik, em janeiro de 1958, permitiu a transmissão dos jogos para toda a Europa. Segundo a Wikipédia, 11 países europeus aderiram ao consórcio capitaneado pela estatal Sveriges Radio, que detinha os direitos de transmissão. Também foi a primeira Copa cujas eliminatórias foram disputadas por países da Ásia e da África.
Poucos meses antes da Copa de 1958, o avião que transportava alguns jogadores do Manchester United, que era a base da seleção inglesa, caiu em Munique. Enfrentamos a seleção inglesa, ainda pelas oitavas de finais, no dia 11 de junho, em Gotemburgo, empatando por 0x0. Esse, aliás, ainda sem Pelé e Garrincha no time, foi o único jogo que não ganhamos, em 1958. Consta que após esse jogo, os jogadores brasileiros se reuniram com o treinador Vicente Feola e decidiram que Garrincha e Pelé entrariam no time em substituição a Joel e Dida. A decisão mostrou-se acertada pois no jogo seguinte, contra a União Soviética, vencemos por 2x0 com grande atuação de Garrincha.
Uma outra curiosidade interessante sobre a Copa e a seleção brasileira diz respeito à camisa 10 de Pelé, que iniciou o torneio como reserva do nosso escrete. Consta que os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos não enviaram para a FIFA a relação dos nosso jogadores com a respectiva numeração. Feito o sorteio pela própria FIFA, coube a Pelé a camisa nº 10, que se tornaria mítica e seria eternizada por aquele que até os dias de hoje é considerado como o Rei do Futebol em todo o mundo.
O Brasil, que no início da Copa não constava entre os favoritos, realizou seis partidas, ganhando cinco e empatando uma. O nosso ataque marcou 16 tentos e a defesa sofreu apenas 4 gols. Uma campanha meritória para uma equipe desacreditada. A conquista abriria espaço para o bicampeonato no Chile, em 1962, e para a conquista do tri, no México, em 1970. Serviria também para a afirmação do nosso futebol diante do mundo inteiro e para estimular a nossa auto-estima, jogando por terra o complexo de vira-latas de que tanto falava o jornalista e escritor Nélson Rodrigues.
Salve a seleção!
Obs.: Texto publicado originalmente no Blog Inútil paisagem, em 29/6/2011
sábado, 31 de janeiro de 2015
O relógio
Clóvis Campêlo
Inventa o relógio o tempo
de forma desnecessária
já que a vida é liquída
e jorra incensantemente.
Inventa o relógio a morte
de forma inteligente
já que o espaço é sólido
e se desmancha no ar.
Recife, 2011
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
A identificação do romance com as características das artes modernas
José Guilherme Merquior
Clóvis Campêlo
Quando o Romantismo surge na literatura européia, refletindo a consolidação e o desdobramento de uma nova ordem social, já encontra o romance solidificado enquanto gênero literário. É a partir do Romantismo, no entanto, que o romance se afirmará definitivamente como uma grande forma literária e com maturidade suficiente para exprimir e questionar os aspectos vários do homem e do mundo.
Porém, se é no Romantismo que o gênero romanesco atinge a sua maturidade e firma-se como uma espécie literária de primeira grandeza, será dentro do Modernismo que o romance, como de resto toda a arte moderna, apresentará os elementos definidores da sua contemporaneidade.
José Guilherme Merquior, no livro "Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da cultura", estabelece estes elementos ao confrontar as realizações artísticas do século XIX com as características da arte moderna, conforme verificamos abaixo:
"Neste ponto é que pedimos auxílio à história da cultura, pois é mais fácil captar a singularidade do estilo moderno por meio de uma comparação global da arte moderna (letras, drama, plástica e música) com as grandes realizações estéticas do século XIX do que por meio de um confronto estritamente interliterário. Em si, essa circunstância nada tem de admirável, já que o século XIX abrange precisamente a época inicial da cultura contemporânea, situada entre a Primeira Revolução Industrial e o arco que compreende a "Segunda Revolução Industrial" (G. Friedman) e a Grande Guerra de 1914-18; como é de esperar, essa cesura histórica no interior da civilização urbano industrial (a qual por sua vez, não é senão o apogeu da civilização do Ocidente moderno, configurada no século XVIII) sublinha as diferenças epocais de estilo ao nível de todas as artes, em bloco, relegando a um plano secundário a evolução particular de cada uma delas."
Dessa maneira, seguindo o esquema comparativo estabelecido por Merquior entre o Romantismo e as artes modernas, verificaremos que um dos aspectos que caracteriza a literatura moderna, em comparação com a literatura romântica, é a mudança de uma concepção mágica de arte para uma concepção lúdica. A arte romântica, que se sentia comprometida com a salvação e com o resgate espiritual do homem, cede lugar à atitude lúdica dos modernos. Segundo Merquior, na obra citada, "os líricos românticos encaravam o verbo poético como um organon cognitivo único, garante do mergulho no Todo, para revigoramento do ego e regeneração da alma". Investia-se, portanto, a obra ficcional de poderes elevados que visavam a busca da verdade e da felicidade humana. Os modernos, por seu lado, preocuparam-se em desmistificar as pretensões românticas, convertendo a arte-magia em arte-jogo, tanto no que se refere à forma quanto no que se refere ao conteúdo.
Em referência ao conteúdo, o estilo moderno caracteriza-se por uma postura parodística, em relação aos sentimentos e às situações, ultrapassando a tensão entre o objeto e a verbalização desse objeto (perspectivismo), marca registrada do lirismo realista pós-romântico (Baudelaire) e precursor da poética atual, para decretar uma variação no próprio tom dogmático dessa verbalização. Desse modo, a arte moderna tende a brincar com os seus temas mesmo quando os leva à sério. A adoção do grotesco em substituição à tragicidade romântica é um outro aspecto da estética moderna que termina por resultar no desaparecimento dos heróis (protótipos míticos assumidos coletivamente) para dar lugar ao surgimento de anti-heróis (indivíduos que não escapam dos encargos da vida moderna).
No que concerne à forma, a arte moderna é decididamente experimentalista, chegando ao experimentalismo pleno e superando o alto nível de consciência artesanal desenvolvido pelos românticos. Se entre os românticos o conhecimento estético sobrepunha-se ao saber racional, como forma de libertação do imaginário reprimido pelas normas da sociedade burguesa e industrial, muito embora aí se possa constatar uma atitude nostálgica de procurar no passado o éden perdido, a arte moderna desvencilha-se da rigidez formal e parte em busca de linguagens experimentais. Ao mesmo tempo, ao centrar no processo produtivo a ênfase da obra, renegando o caráter dogmático do conteúdo romântico, a arte moderna provoca uma modificação correlata na atitude do destinatário, levando-o a participar dos ritos simbólicos propostos pelo artista e tirando-o da condição de receptor passivo.
Consideremos, também, ainda dentro do esquema comparativo que se propõe a mostrar a evolução da arte romântica até a estética moderna, que se na nostalgia passadista da primeira, em busca do resgate de valores éticos e religiosos outrora importantes, já se manifestava um antagonismo em relação aos padrões dominantes na cultura ocidental burguesa, a arte moderna transformará essa oposição cultural em ruptura. Tal transformação se dará, no entanto, sem que ocorra o retrocesso passadista do Romantismo. Os modernos se voltarão para outras culturas, estabelecendo um movimento que Merquior identificará como uma desocidentalização do éden mítico.
Recife, 1993
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Do romance de cavalaria ao romance do século XVII
DO ROMANCE DE CAVALARIA AO ROMANCE DO SÉCULO XVII
Clóvis Campêlo
Da prosificação e das metamorfoses sofridas pelas canções de gesta, surge o romance de cavalaria. E ainda isento de subjetivismos, o romance de cavalaria circula entre a realeza e a fidalguia espelhando uma prática de vida cortês e guerreira.
Contrapondo-se a ele, ainda com base na classificação feita por Vitor Manuel de Aguiar e Silva, na sua Teoria da Literatura (São Paulo, Martins Fontes, 1975, p.252), temos o romance sentimental, que apresenta um cunho erótico, quando ambientado entre a burguesia, e um cunho emotivo, quando em ambiente aristocrático. Embora as diferenças formais não apresentem aqui aspectos significativos é em relação ao conteúdo, mais uma vez, que elas também se mostram. O romance de cavalaria, estruturando-se em torno do amor sublimizado e da aventura, valoriza as peripécias externas motivadas pelo amor e revela, sempre, um final feliz para os amores narrados, o que serve para restabelecer a velha ordem alterada por conta desses acontecimentos. O herói das novelas de cavalaria ainda apresenta o cacoete épico de lutar contra as transformações da realidade social que o cerca e que favorece a manutenção de uma determinada ordem.
Por seu lado, o romance sentimental caracteriza-se por uma análise meticulosa do sentimento amoroso, deslocando espacialmente o eixo da narrativa e dando início a um processo de subjetivização que se desdobraria até os dias atuais.
O cunho erótico do romance sentimental burguês, contrapondo-se ao caráter sentimental do romance aristocrático, também pode ser interpretado como mais uma demosntração do caráter subversivo desse gênero. Os finais trágicos por eles apresentados, no entanto, mostram-nos, ainda, a predominância da estrutura mantenedora da velha ordem.
Com o romance pastoril, surgido no período renascentista, temos um primeiro "olhar-para-trás" romanesco. Mesclando a prosa com o verso, caracteriza-se por ser uma forma narrativa marcadamente culta e que contrapõe a hipocrisia da vida social da época a um mundo idealizado e estereotipado. No entanto, se o romance pastoril já delineia uma postura mais crítica em relação ao mundo em que se situa, ao mesmo tempo, assume uma atitude fugidia de afastamento dessa mesma realidade. Da sua época, o romance pastoril renega o tempo e o espaço, deixando visível em sua tendência passadista e elitista o impasse cultural daquele momento. Ressuscita, desse modo, ao tentar aproximar-se da cultura clássica, os mitos do "locus amoenus" e do "fugere urbem". Observamos, ainda, que ao idealizar o mundo, embora sob a ótica de um saudosismo aristocrático, o romance pastoril já outorga aos seus autores poderes inusitados em relação a esse mesmo mundo. Se ao criador épico cabia a tarefa de descrever as peripécias no mundo de um herói restaurador da ordem, no romance pastoril, embora sob uma conotação um tanto quanto esquizóide e já manifestada em relação às fases anteriores do romance, cabe ao autor essa condição de restaurador cósmico.
O romance picaresco surge na espanha do século XVII e termina por influenciar toda a literatura européia daquela época, encaminhando a literatura para uma visão realista da sociedade seiscentista. O espírito subversivo do romance picaresco, no entanto, transcende essa visão realista e substitui definitivamente o herói épico por um anti-herói (o pícaro). Abandona de vez os temas fidalgos para centar a sua atenção em "um indivíduo que tem consciência da legitimidade da sua oposição ao mundo e que ousa considerar, em desafio aos cânones dominantes, a sua vida mesquinha e reles como digna de ser narrada" (Vitor Manuel de Aguiar e Silva, na obra supra citada, p. 255).
Segundo Mario Gonzáles ( em O Romance Picaresco, São Paulo, Editora Ática, 1988, p. 5), no romance picaresco "ao contrário dos costumeiros relatos das aventuras de fantásticos cavaleiros andantes ou inverossímeis pastores polidamente apaixonados, os próprios protagonistas - na maioria dos casos - contam suas vidas de marginalizados em luta pela sobrevivência". Mais uma vez desloca-se o eixo da narrativa e o confronto entre o indivíduo e o mundo que o cerca, exposto no romance picaresco, será estendido até o romance moderno.
É no século XVII, ainda, sob a influência do Barroco, que o romance conhecerá uma grande proliferação e assumirá as características, tanto formais quanto de conteúdo, que o farão caminhar para o romance moderno. Perdendo o seu caráter exuberante e inverossímel (hoje, de certo modo, sendo reutilizado pelo romance pós-moderno e pelo realismo fantástico) para querer mostrar o mundo que o rodeia de maneira real, embora sob a ótica de quem narra (verossimilhança e subjetivismo). A partir daí, o romance passará a refugar a "narrativa puramente imaginosa do barroco" (Vitor Manuel de Aguiar e Silva, na obra citada, p. 259), afastando-se cada vez mais da utilização da estética clássica e, encaminhando-se para um novo público, ascenderá na escala de valores dos gêneros literários.
Recife, 1993
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
A modernidade romanesca
A MODERNIDADE ROMANESCA
Clóvis Campêlo
O romance moderno, enquanto afluente caudaloso das artes contemporâneas, reflete as transformações e as influências sofridas por estas como consequência do processo evolutivo a que está sujeita as sociedades dos nosso dias.
Consideremos que um dos aspectos da modernidade e do sentido de oposição cultural romanescos está na sua ausência de raízes na cultura greco-latina e na sua condição de autêntica criação das modernas literaturas européias. De certo modo, o espírito de oposição cultural manifesto pelas artes a partir do romantismo, acompanha o romance desde o seu nascer. Antes de seguirmos essa linha de raciocínio, porém, vamos definir a etiologia da palavra romance, tomando como base as palavras esclarecedoras de Vitor Manuel de Aguiar e Silva sobre o assunto:
"Na Idade Média, o vocábulo romance (espanhol romance, francês romanz, italiano romanzo), designou primeiramente a língua vulgar, a língua românica que, embora resultando de uma transformação do latim, apresentava-se já bem diferente em relação a este idioma. Depois, a palavra romance ganhou um significado literário, designando determinadas composições redigidas em língua vulgar e não na língua latina, própria dos clérigos. Apesar das suas funções semânticas, o vocábulo romance passou a denominar sobretudo composições literárias de cunho narrativo. Tais composições eram primitivamente em verso - o romance em prosa é um pouco mais tardio -, próprias para serem recitadas e lidas, e apresentavam muitas vezes um enredo fabuloso e complicado". (01)
Observamos, portanto, que o mesmo contexto cultural que permitiu o afloramento dos substratos linguísticos transformadores do latim em novas línguas, também abriu espaços para o surgimento de um gênero literário sem identidade com a tradição cultural antiga (a ideologia do dominador) e reveladora do conflito cultural a que estavam submetidas as camadas sociais não dominantes. Nesse sentido, não é de se estranhar que tais composições apresentassem um enredo fabuloso e complicado. Guardadas as devidas proporções, podemos fazer outra ligação ainda pertinente, aproximando-nos ao que José Guilherme Merquior, ao analisar o experimentalismo formal do modernismo, define como uma subversão das virtudes da obra pela ótica de "ideologias em eclipse". (02)
O romance dessa época, que aguiar classifica como "medieval" (03), ao ser confrontado com as canções de gesta, das quais era contemporâneo, mais uma vez nos fornece os indícios de que, além de corresponder ao paradigma luckaciano de que "todo novo estilo surge como uma necessidade histórico-social da vida " (04), traz em si, embora de maneira ainda tênue, o germe da oposição cultural que viria a se radicalizar nos românticos.
Do ponto de vista formal, difere aquele desta no que se refere ao "andamento": enquanto o romance medieval era lido e recitado, a canção de gesta era cantada.
É no aspecto conteudístico, porém, que se mostra a mais marcante divergência entre as duas formas: enquanto as canções de gesta contavam as façanhas de um herói mítico personificador dos valores de uma coletividade, o romance medieval centrava-se nas ações de um personagem comum, embora ainda ligado ao ambiente cortês.
Recife, 1993
Referências bibliográficas:
01. Vitor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, São Paulo, Martins Fontes, 1976, p. 250.
02. José Guilherme Merquior, Formalismo e Tradição Moderna: o problema da arte na crise da cultura, Rio de Janeiro, Forense-Universitária; São Paulo, Ed. da USP, 1974, p. 83.
03. Vitor Manuel de Aguiar e Silva, op. cit., p. 250.
04. George Luckás, Ensaios sobre literaturas, 2 ed., São Paulo, Ed. Civilização Brasileira, s.d., p.57.
01. Vitor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, São Paulo, Martins Fontes, 1976, p. 250.
02. José Guilherme Merquior, Formalismo e Tradição Moderna: o problema da arte na crise da cultura, Rio de Janeiro, Forense-Universitária; São Paulo, Ed. da USP, 1974, p. 83.
03. Vitor Manuel de Aguiar e Silva, op. cit., p. 250.
04. George Luckás, Ensaios sobre literaturas, 2 ed., São Paulo, Ed. Civilização Brasileira, s.d., p.57.
domingo, 25 de janeiro de 2015
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