terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Entre a neurastenia e o estresse


ENTRE A NEURASTENIA E O ESTRESSE

Clóvis Campêlo

É interessante como no dinamismo de uma língua algumas palavras deixam de ser utilizadas e são substituídas por outras. A palavra neurastenia é uma delas.
O Minidicionário Escolar da Língua Portuguesa, da Companhia Melhoramentos, assim a define: “1. Fraqueza do sistema nervoso. 2 Esgotamento nervoso”. Hoje, ninguém mais é chamado de neurastênico, ninguém mais sabe o que é neurastenia. Hoje, existe o estresse e o estressado. Segundo o mesmo dicionário, estresse é a “reação do organismo a influências nocivas de ordem física, psíquica, infecciosa, capazes de perturbar o equilíbrio interno”.
Ou seja, a primeira definição nos dá a impressão de que o problema é orgânico, interno; enquanto na segunda, a alteração ocorre por conta de fatores externos diversos que nos influenciam. Existe uma certa diferença nas definições, portanto.
Segundo a Wikipédia, Virgínia Woolf, Marcel e Proust e Max Weber seriam neurastênicos notáveis. A primeira, durante toda a sua vida foi forçada a fazer repousos terapêuticos, os quais descreve no livro “On Being III”, traduzido em “Por estar doente”, onde a escritora tenta estabelecer a doença como um assunto sério da literatura.
Marcel Proust, na verdade, era um maníaco depressivo, condição essa adquirida, talvez, em razão do consumo desenfreado de açúcar – as madalleines – que o autor descreve na sua obra “Em busca do tempo perdido”. Filho de família rica e frequentador dos salões da sociedade francesa da época, podia se dar ao luxo de ter uma alimentação excessivamente rica em carboidratos. Maravilhado, descobri a certo tempo que o petisco tão louvado pelo autor, tratava-se nada mais nada menos do que os bolinhos de bacia tão consumidos nas feiras das cidades do Nordeste do Brasil. Aliás, a ligação entre o consumo demasiado de alimentos adocicados e os surtos depressivos já são considerados pela medicina moderna, coisa desconhecida naquela época.
Max Weber, sociólogo e historiador, teria tido uma grave crise neurastênica, após a morte do pai, com o qual havia rompido pouco antes. Com certeza, Freud explicaria o fato. A verdade é que, entre 1897 e 1901, esteve internado em sanatórios, tendo ficado vários meses em Roma, onde recuperou as forças.
Já o termo estresse foi usado pela primeira vez em 1936, pelo médico Hans Selye, na revista Nature.
Na verdade, em ambos os casos, existe um sofrimento do indivíduo causado pelo enfrentamento de situações que lhe provocam ansiedade e depressão, embora essa capacidade de enfrentamento de tais situações varie de indivíduo para indivíduo.
Enfim, o mundo moderno em que vivemos, com suas exigências e seus desafios constantes serve de motivo para que estressados ou neurastênicos aprendam a com ele conviver e superar os impasses constantes que se oferecem.
Sobreviver é preciso.

Recife, fevereiro 2015

3 comentários:

Inaldo Soares disse...

Adorei, sobretudo pelo resgate das expressões"neurastênico"/"neurastenia", comumente usadas pelos meus pais, lá atrás, na minha tenra infância.
Pulando para a vida adulta, excelentes as explicações sobre a neurastenia de Proust, Weber e Virginia Woolf.
A pergunta que me fica é se, nos dias de hoje, somos/ficamos neurastênicos estressados ou estressados neurastênicos?

Inaldo Soares disse...

Mais uma cosita: dias desses, caminhando no calçadão, cruzei frente à frente com você, mas não tive coragem de falar, por ter percebido que você não me reconhecera. Confesso ter ficado meio neurastênico. Ou foi estressado?

Clóvis Campêlo disse...

Interessante, amigo Inaldo, é que outro dia, no calçadão, cruzei com um cara que tinha a sua cara (ou pelo menos a cara que conheci a 30 nos atrás). Lembrei até daquela música "O Sósia", de Roberto Carlos. Poderia ter falado contigo também, mas fiquei na dúvida. Na próxima vez, falemo-nos, ok? Abraços