quinta-feira, 27 de junho de 2013

O bêbado do beco


O BÊBADO DO BECO

Clóvis Campêlo

Já que estão por aqui aparecendo diversas figuras estranhas, resolvi falar sobre o bêbado do beco.
De início, na realidade, devo dizer que nunca o ví. Apenas o escuto gritar ensandecido, em pleno delírio alcoólico, palavras que nem sempre devem ser desprezadas.
Confesso que numa noite (é sempre à noite que a sua voz aparece), quando eu já estava entrando naquela região estranha que antecipa o sono profundo, ouvi-o gritar indignado, entre outras palavras de ordem, que o povo unido jamais seria vencido.
Talvez todos achem que esse é um dito normal, dezenas de vezes escutado em passeatas de sindicatos, comícios revolucionários ou na voz de políticos inescrupulosos, em gritos amplificados pelos insuportáveis carros de som que invadem a cidade em épocas eleitoreiras.
Mas, àquela hora da noite, quando o silêncio já se prenunciava e quando muito apenas escutávamos o triste choro das atrizes da novela das nove horas, aquele grito soava deslocado e incompleto aos meus ouvidos.
Num ato impensado, pulei da rede e corri para o beco na esperança de ainda vê-lo gritando em voz alta outras palavras de ordem ou mesmo os palavrões cabeludos que também fazem parte do seu jargão inconfundível. Desci as escada em grande correria (não dava para esperar o elevador), pulando os batentes como um cabrito novo que descobre a planície pela primeira vez e entrei no beco escuro, ansioso. Para minha surpresa, ali encontrei apenas um cachorro vira-lata vadio, roendo uma canela de galinha roubada de alguma lata de lixo, em atitude de grande felicidade. Nenhum sinal do bêbado alucinado ou da sua voz de deus nórdico. Perguntei aos transeuntes que por ali ainda se arriscavam se alguém havia visto ou escutado aquela voz de trovão que se pronunciava em nome de uma possível unidade popular. Olharam-me como se eu estivesse louco.
Desisti e voltei à minha rede no terraço. Lá, fiquei a matutar as minhas dúvidas e alimentando a vontade de conhecer o dono daquela voz misteriosa e bêbada.
Um dia, quem sabe, mesmo que seja em sonho, ainda o encontro de bobeira no beco.
Então, poderei dizer-lhe o quanto o admiro e o quanto concordo com as suas palavras insensatas de bêbado.


Recife, 2008

terça-feira, 25 de junho de 2013

Cais do Porto


CAIS DO PORTO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1995

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Praça da Sé


PRAÇA DA SÉ
Fotografia de Clóvis Campêlo
Salvador, 2013

domingo, 23 de junho de 2013

Debaixo dos caracois dos teus cabelos


Fotografia de Clóvis Campêlo/1992

DEBAIXO DOS CARACOIS DOS TEUS CABELOS

Clóvis Campêlo

Durante muito tempo relutara em contar-lhe aquele segredo.
Será que ela o entenderia?
Agora tinha a certeza de que só havia uma maneira de saber: iria contar-lhe o que durante tanto tempo guardara à sete chaves.
Pelo pouco que já havia visto, sabia que aquela não era necessariamente a sua opção.
Fazer o que? Pensava assim e assim seria.
Afinal, quando a gente quer seduzir o outro procura fazer o que o outro gosta, não é mesmo?
Só restava, portanto, contar-lhe o segredo.
Lembrava que a coisa começara há muito tempo ao ver aquela fotografia em uma revista masculina. Até então nunca atentara para o detalhe.
Desde aquele dia ficara impressionado com a imagem.
É bem verdade que nem todas eram assim, fartas, imensas, repletas, atraentes, densas, cabeludas.
De início verificara a beleza daqueles olhos grandes e sensuais (ela era linda!).
Depois verificara que todo o corpo era proporcional e belo, uma obra-prima da natureza.
Existiria algo melhor do que aquilo? Duvidava!
Depois, seus olhos (os do observador, não os da coisa observada) fixaram-se naquele ponto imutável. Por trás da densidade, com certeza, escondia-se todo o resto.
Pois bem, desde o dia em que vira aquela fotografia descobrira que gostava de bucetas cabeludas.



Recife, 2008

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O pescador


O PESCADOR
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1994

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Escadas


ESCADAS
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1991

- Postagem revisada em 29/01/2018

domingo, 16 de junho de 2013

Frevo, por favor, qual é a tua?


Blocos Cordas e Retalhos
Fotografia de Clóvis Campêlo/2008

FREVO, POR FAVOR, QUAL É A TUA?

Clóvis Campêlo

Qual é a do frevo hoje?
Existe na música popular pernambucana atual vigor suficiente para enfrentar uma disputa de mercado?
Se existe, em que momento se deu essa transformação?
E até onde o frevo se situa dentro dessa metamorfose?
Caetano Veloso, em 1973, na sua fase pós-tropicalista, quando elogiava os lábios carnudos de Mick Jagger e usava bustiê, chegou a afirmar que o "novo" na MPB era o som do Quinteto Violado.
Para nós, tal afirmativa trazia, por parte do compositor baiano, o reconhecimento de que a música popular pernambucana adquiria, afinal, a maturidade necessária para incorporar, sem desprezar as suas raízes, elementos cosmopolitas que lhe permitiriam ocupar um lugar de destaque no disputadíssimo mercado nacional.
É bem verdade que depois de um primeiro disco antológico, o Quinteto Violado optou cada vez mais por um regionalismo repetitivo e estilizado (mais uma vez a indevida apropriação cultural da burguesia?), deixando de lado a fusão dos elementos locais e universais. Como consequência, regrediu e "crepusculou".
Essa fusão voltaria a se repetir com mais vigor ainda, na década de 1970, no trabalho de Alceu Valença, projetando-o nacional e internacionalmente e fazendo com que a sua música pudesse ser entendida tanto em Paris quanto em Santa Cruz do Capibaribe.
Hoje, quando o Velho Quiabo já demonstra sinais de esgotamento e exaustão da fórmula, tal fusão volta a se manifestar nos trabalhos do movimento mangue. Não é à toa, pois, que os mangueboys já ocupem determinados e cobiçados espaços.
No que diz respeito ao frevo, as reflexões e afirmativas acima poderão nos dar o tom e o ritmo (dançamos de acordo com a música?) adequados para que se estabeleça e fundamente uma discussão que extrapole o tolo sentimento bairrista (qual é a cor do som local?).
Se traçarmos uma linha que evolua da música folclórica, passando pela música popular, até chegarmos à música de consumo, vamos observar claramente que o frevo (que só ocupa um espaço na mídia durante o período carnavalesco) tem um pé na música folclórica e o outro na música popular. A chamada música baiana (que toca e tem mercado o ano inteiro) situa-se com um pé na música popular e o outro (sem nenhum constrangimento) na música de consumo.
Observamos, portanto, que a verdadeira questão extrapola o puro regionalismo para cair num problema mais amplo que é o "conflito" entre cultura popular e cultura de massa.
Cada vez mais, as populações dos grandes centros urbanos despem-se da sua herança cultural e afastam-se dos hábitos pragmáticos que orientavam a vida dos seus ancestrais e assumem "novos" valores, mais condizentes com as circunstâncias atuais.
Com o nosso povo e com a nossa cultura não é diferente.
Assim, é necessário que o frevo mude e se transforme porque a comunidade com a qual ele se identifica e na qual ele floresceu sob determinadas condições sociológicas, históricas e geográficas vem sofrendo um processo de transformação e assimilando valores menos provincianos e mais universais. Se mudou o retrato psicológico dessa gente, é necessário que o frevo, enquanto reflexo disso, também se altere sob o risco de caracterizar-se como uma peça de museu pura e inútil.
Afinal, a vida é feita de evoluções e mudanças.
Maestro, por favor, toque aquela Evocação!

Recife, 1994

sábado, 15 de junho de 2013

Igreja de Nossa Senhora do Montesserat


IGREJA DE NOSSA SENHORA DO MONTESSERRAT
Fotografia de Clóvis Campêlo
Salvador, 2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Violeiros de Olinda


VIOLEIROS DE OLINDA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Olinda, 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fim de tarde


FIM DE TARDE
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Farol da Barra


O FAROL DA BARRA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Salvador, 2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Meia lua inteira


MEIA LUA INTEIRA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1993

domingo, 9 de junho de 2013

O Farol de Itapuã


O FAROL DE ITAPUÃ
Fotografia de Clóvis Campêlo
Salvador, Bahia, 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Beira-mar


BEIRA-MAR
Praia de Stela Maris
Fotografia de Clóvis Campêlo
Salvador, Bahia, 2013

domingo, 2 de junho de 2013

Maracatu Nação Pernambuco


MARACATU NAÇÃO PERNAMBUCO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Olinda, Pernambuco, 1994

sábado, 1 de junho de 2013

Vendedora de caranguejos

 

VENDEDORA DE CARANGUEJOS
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1993

Igreja da Santa Cruz






IGREJA DA SANTA CRUZ
Recife, 2013
Fotografias de Clóvis Campêlo

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Taís


TAÍS
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1993

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A nau catarineta


A NAU CATARINETA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 2001

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O diálogo



O DIÁLOGO
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, Pernambuco, 2002

terça-feira, 28 de maio de 2013

Menino lavando louças


MENINO LAVANDO LOUÇAS
Fotografia de Clóvis Campêlo
Bonito, Pernambuco, 1995

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Vendedora de pipocas






VENDEDORA DE PIPOCAS
Fotografias de Cida Machado
Recife, Pernambuco, 2013

domingo, 26 de maio de 2013

Ariano Suassuna


ARIANO SUASSUNA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1990

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Rui de Aires Belo


RUI DE AIRES BELO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, Pernambuco, 1991

terça-feira, 21 de maio de 2013

Duas ou três coisas que elas não sabem sobre eles


DUAS OU TRÊS COISAS QUE ELAS NÃO SABEM SOBRE ELES

Clóvis Campêlo

Como diz o poeta Ferreira Gullar, eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz.
As mulheres sempre têm razão. Por isso, sentem-se infelizes.
Penso que um dos grandes erros das mulheres é querer entender o homem sob a ótica feminina.
Homem e mulheres são figuras distintas tanto física quanto psicologicamente.
Por outro lado, enquanto a mulher é mais idealista, o homem é mais instintivo.
A mulher se apaixona, o homem caça.
As regras sociais é que modificam isso e criam situações absurdas.
Quando um homem se sente atraído por uma mulher, ele instintivamente sabe que aquela atração se dá por conta da combinação genética adequada para a reprodução filial.
Como o homem é um reprodutor instintivo, natural, ele pode se sentir atraído por mais de uma mulher sem sentir nenhum constrangimento por isso. Pelo contrário: isso serve como auto-afirmação da sua condição masculina.
Ao homem-instinto interessa propagar a sua marca genética. É claro que as (in)conveniências sociais modificam o seu comportamento e o forçam a estabelecer estratégias de burla.
O homem quase nunca (é claro que existem as exceções patológicas) idealiza a relação com a mulher. Para ele, o objetivo final sempre é a relação sexual.
Não existe nenhum cretinismo nisso, porém. Isso faz parte da sua maneira instintiva de ser.
Sei que essas declaração podem gerar controvérsias, mas eu as estou fazendo desprezando a hipocrisia das conveniências sociais. Estou ficando nú, embora saiba que a minha nudez masculina possa incomodar e parecer provocação.
As mulheres sofrem pela sua capacidade de abstração, de idealizar, de sonhar.
Isso também faz parte da maneira de ser feminina. Só que o homem, dentro das suas estratégias de burla, percebe isso e pode disso fazer usos inescrupulosos.
Por outro lado, essa necessidade constante que o homem tem de disseminar a sua marca genética e que faz com ele se torne um caçador incansável, também lhe provoca estresse e cansaço. É aí que ele cede e procura um colo feminino para o descanso do guerreiro. A essa mulher escolhida, que no inconsciente e imaginário masculino pode lembrar a figura materna, ele se dedica de forma mais sincera.
Já disse algum estudioso maluco que na mulher "escolhida" o homem sempre procura o esteriótipo materno. Talvez ele tenha razão. Afinal, ele também era homem.
Pra finalizar, é coisa da prepotência masculina ocidental achar que o homem é "superior" à mulher. Os orientais, sempre mais sábios, dizem que a mulher é biologicamente superior ao homem pois o seu corpo está preparado para perpetuar a espécie humana gerando novos seres.
Afinal, se somos diferentes é por isso que precisamos tanto um do outro.
Viva o homem e viva a mulher.

Recife, 2008

sábado, 18 de maio de 2013

Porque hoje é sábado


Ao lado da escultura de Clarice Lispector
Fotografia de Cida Machado/2008

PORQUE HOJE É SÁBADO

Clóvis Campêlo

Hoje é sábado e o sábado tem sempre um significado diferente para mim.
É um dia especial, um dia de transição entre os chamados dias úteis e o domingo.
Aos sábados, a cidade ainda se movimenta, ainda não apresenta as ruas desertas dos domingos, mas também não apresenta a agitação dos outros dias.
Gosto de andar pelas calçadas das ruas do Recife, aos sábados.
Passear pelas praças e rever amigos como Liêdo Maranhão e José Rodrigues Correia Filho.
Antes, gostava de ir à Praça do Sebo para conversar com Melquisedec Pastor, o maior livreiro do Brasil. Agora, Melque se aposentou e deixou uma lacuna imensa, tão grande quanto a sua sabedoria, forjada no autodidatismo.
Sábado também é dia de encontrar o poeta e amigo José Calvino de Andrade Lima no seu Fiteiro Cultural, onde quixotescamente tenta ilustrar com literatura os bêbados renitentes da Rua Matias de Albuquerque.
Conta Calvinito, que numa sexta-feira à noite, por esquecimento, deixou o fiteiro aberto. Acordou no sábado pela manhã sobressaltado pelo descuido. Saiu de casa às pressas pensando no desmantelo que iria encontrar. Lá chegando, estava tudo do mesmo jeito como deixara na noite anterior. Aos malandros da noite e aos bêbados convictos não interessara a riqueza dos seus livros, a sabedoria impressa dos seus cadernos, a cultura enciclopédica que ali ficara exposta. Tudo estava a salvo. O povo da noite e das ruas não se interessava por aquilo.
Sábado é dia de atravessar a ponte Buarque de Macedo, rumo ao Recife Antigo, pensando nas caminhadas solitárias que Augusto dos Anjos fez por ali.
Sábado é dia de sentar na Praça Maciel Pinheiro e olhar o sobrado de onde Clarice Lispector, ainda menina, via o carnaval do Recife passar.
Sábado é dia de visitar a casa da Rua da União, hoje Espaço Pasárgada, onde Manuel Bandeira brincava nos quintais do avô paterno.
Sábado é dia de cumprimentar o poeta Ascenso Ferreira, imortalizado em pedras às margens do rio Capibaribe.
Sábado é dia de relembar o Bar Savoy onde tantos poetas escreveram textos antológicos e fizeram dedicatórias de amor eterno ao Recife.
Sábado é dia de deixar-me envolver por esta cidade que eu tanto amo.


Obs.: Texto inicialmente publicado no blog Inútil Paisagem, em 26/4/2008.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Bossa Nova


BOSSA NOVA

Clóvis Campêlo

Tom Jobim morreu no dia 8 de março de 1994, em Nova York, deixando para a música popular brasileira e para o mundo a Bossa Nova e um acervo musical de inquestionável valor. Não foi à toa, portanto, que em 1963 chegou ao topo das paradas musicais americanas com a música Garota de Ipanema, desbancando os Beatles fabulosos, pais do pop rock moderno, em pleno auge da sua carreira. Não foi à toa, também, que ao longo da sua vida profissional chegou a ter sete canções entre as reproduzidas mais de um milhão de vezes em todo o mundo. Tudo isso sem sair do tom.
Para alguns estudiosos da MPB, no entanto, como o crítico José Ramos Tinhorão, a Bossa Nova não teria passado de uma descaracterização elitista da nossa música popular. Na sua visão, Tom Jobim teria sido um deslumbrado rapaz da classe média carioca, admirador do jazz e da cultura americana, que abandonou as raízes em busca do sucesso.
Descaracterização ou não, na verdade, tanto a Bossa Nova quanto Tom Jobim revolucionaram a música brasileira. Segundo Bernardo Gutiérrez, "a estrutura do que foi chamada Bossa Nova é um milagre. Por trás de uma harmonia redonda e suave, desse doce balanço sonoro, esconde-se uma armação complicadíssima de arranjos jazísticos. E tudo repicado com o peculiar ritmo quebrado introduzido pelo violonista João Gilberto".
É bem verdade, também, que a revolução da Bossa Nova não se deu de maneira inesperada e súbita. Alguns compositores brasileiros como Assis Valente e Dorival Caimmy, já incorporavam nas suas composições, anteriores à Bossa Nova, vários dos elementos que caracterizariam o novo estilo. Estes espamos renovadores foram reconhecidos pelo ex-ministro Gilberto Gil, quando na introdução da música Aquele Abraço, na verdade um samba à moda antiga, homenageia Caimmy, João Gilberto e Caetano Veloso, os arautos baianos, em tempos distintos, da revolução da MPB.
No que tange à música pernambucana, até o lendário Capiba, que bebeu em fontes diferentes para compor o seu cancioneiro, deixou-se influenciar pela nova batida, usando acordes dissonantes para criar a melodia de A Mesma Rosa Amarela, poema de Carlos Pena Filho.
Assim, ao mesmo tempo em que se mostrava atento aos acontecimentos musicais do seu tempo, Capiba, embora de maneira tímida, também abria caminho para a elaboração de novas sínteses na música pernambucana. Mas isso já é outra história.

Recife, 2005

terça-feira, 7 de maio de 2013

Narciso moderno


NARCISO MODERNO

Clóvis Campêlo

Narciso moderno,
já não preciso de lagos,
vejo o meu rosto espelhado
em superfícies polidas.

Narciso moderno,
já não preciso ser belo,
nem morrer buscando o eterno,
nem deixar sangrar as feridas.

Nasciso moderno,
meus olhos são tubos de imagens
e em minhas veias correm
sangues intoxicados.

Narciso moderno,
já não carrego culpas
embora traga comigo
todos os sete pecados.

Narciso moderno,
sinto-me observado
pelo olhar escandalizado
dos semáforos,
sinal dos tempos de hoje.

Modernas cavalgaduras,
biônicas criaturas,
comigo disputam um espaço,
consomem o mesmo ar,
buscam uma saída.

Narciso moderno,
procuro o simulacro,
do mundo busco um retrato
vazio de emoção.

Narciso moderno,
basta-me um botão apertar
pra ver o mundo brotar
parido pela televisão.

Recife, 1990

sábado, 4 de maio de 2013

Waldemar Valente


Fotografia de Clóvis Campêlo/1991

WALDEMAR VALENTE

Waldemar de Figueiredo Valente nasceu no Recife, em 9 de novembro de 1908, e faleceu na mesma cidade, em 27 de novembro de 1992. Foi médico, antropólogo, escritor e professor e membro da Academia Pernambucana de Letras.
Formado em Farmácia (aos 18 anos) e em Medicina (aos 23 anos), pela então Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco.
Em 1933 trabalhou no combate à epidemia de malária no Rio Grande do Norte. De volta a Pernambuco, foi diretor do Serviço de Assistência Médica aos Flagelados, ligado ao DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, e diretor do Departamento de Cursos e de Educação Sanitária da então Secretaria do Interior, Instrução e Justiça, posteriormente transformada em Secretaria de Educação e Saúde (hoje, Secretaria de Saúde de Pernambuco).
Também foi professor e diretor do Ginásio Pernambucano e diretor do Departamento de Antropologia da Fundação Joaquim Nabuco, onde atuou por décadas.

Fonte: Wikipédia

O fim da Rádio Universitária AM do Recife



O FIM DA RÁDIO UNIVERSITÁRIA AM DO RECIFE

Clóvis Campêlo

A partir de janeiro de 2010, tivemos a satisfação de produzir e apresentar, ao lado do professor Bartolomeu Lima, o programa Trem das Onze, na Rádio Universitária AM do Recife.
Naquela época, a Rádio já se mantinha com dificuldades por conta do seu sucateamento e da falta de manutenção no equipamento técnico, apesar da programação esmerada e de alto nível que apresentava.
Em abril de 2011, com a desculpa de que seria reformulada, a Rádio foi desativada. Entre as promessas feitas pela direção, na época, estava a compra e implantação de um novo equipamento digitalizado, a mudança do local de funcionamento para o centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco, e a implantação na cidade de Caruaru, de uma outra antena que serviria de ponto de retransmissão, jogando o som da Rádio para todo o sertão pernambucano.
Hoje, dois anos depois, tudo continua na estaca zero. Ou pior. Além de não ter sido efetuada a reforma prometida no espaço destinado à Rádio, no Centro de Convenções universitário, o antigo prédio foi desocupado e todo esse material transferido para o Centro de Convenções de forma precária e nem sempre com o devido cuidado. Nenhum equipamento novo foi comprado e nem mesmo o velho transmissor foi recuperado para que voltasse a funcionar e devolver à comunidade recifense uma rádio com bons serviços prestados.
Consta que a UFPE talvez seja a única universidade federal brasileira a disponibilizar na sua estrutura uma rádio AM, uma rádio FM e uma emissora de televisão. Não entendemos, portanto, o por que de tanto descaso na administração desse patrimônio de todo o povo recifense e pernambucano.
Assim sendo, caberia ao atual reitor estabelecer um cronograma de obras e aquisição de equipamentos que viabilizem o retorno da rádio em um curto ou médio espaço de tempo.
Em que pese os argumentos apresentados por alguns de que as rádios AM seriam mídias ameaçadas de extinção, sabemos que não é assim. Existem pesquisas feitas no mundo inteiro e que mostram que as rádios AM estão entre as mídias com as mais altas médias de acessos diários.
Por outro lado, em um centro de formação de profissionais e de produção do saber, com é a Universidade Federal de Pernambuco, a rádio AM, de muita penetração popular, pode servir de instrumento de educação e de orientação eficiente no combate a doenças endêmicas ou provocadas pela falta de uma estrutura adequada na área de saneamento, educação e saúde. Em tese, uma rádio federal e ligada a uma universidade é do povo e ao povo deve servir.
Por fim, basta prestar atenção ao papel de informar, educar e divertir eficientemente que algumas rádios ligadas à iniciativa privada prestam e verificar que esse serviço poderia e deveria ser prestado com muito mais eficiência por uma rádio estatal.