sábado, 18 de maio de 2013

Porque hoje é sábado


Ao lado da escultura de Clarice Lispector
Fotografia de Cida Machado/2008

PORQUE HOJE É SÁBADO

Clóvis Campêlo

Hoje é sábado e o sábado tem sempre um significado diferente para mim.
É um dia especial, um dia de transição entre os chamados dias úteis e o domingo.
Aos sábados, a cidade ainda se movimenta, ainda não apresenta as ruas desertas dos domingos, mas também não apresenta a agitação dos outros dias.
Gosto de andar pelas calçadas das ruas do Recife, aos sábados.
Passear pelas praças e rever amigos como Liêdo Maranhão e José Rodrigues Correia Filho.
Antes, gostava de ir à Praça do Sebo para conversar com Melquisedec Pastor, o maior livreiro do Brasil. Agora, Melque se aposentou e deixou uma lacuna imensa, tão grande quanto a sua sabedoria, forjada no autodidatismo.
Sábado também é dia de encontrar o poeta e amigo José Calvino de Andrade Lima no seu Fiteiro Cultural, onde quixotescamente tenta ilustrar com literatura os bêbados renitentes da Rua Matias de Albuquerque.
Conta Calvinito, que numa sexta-feira à noite, por esquecimento, deixou o fiteiro aberto. Acordou no sábado pela manhã sobressaltado pelo descuido. Saiu de casa às pressas pensando no desmantelo que iria encontrar. Lá chegando, estava tudo do mesmo jeito como deixara na noite anterior. Aos malandros da noite e aos bêbados convictos não interessara a riqueza dos seus livros, a sabedoria impressa dos seus cadernos, a cultura enciclopédica que ali ficara exposta. Tudo estava a salvo. O povo da noite e das ruas não se interessava por aquilo.
Sábado é dia de atravessar a ponte Buarque de Macedo, rumo ao Recife Antigo, pensando nas caminhadas solitárias que Augusto dos Anjos fez por ali.
Sábado é dia de sentar na Praça Maciel Pinheiro e olhar o sobrado de onde Clarice Lispector, ainda menina, via o carnaval do Recife passar.
Sábado é dia de visitar a casa da Rua da União, hoje Espaço Pasárgada, onde Manuel Bandeira brincava nos quintais do avô paterno.
Sábado é dia de cumprimentar o poeta Ascenso Ferreira, imortalizado em pedras às margens do rio Capibaribe.
Sábado é dia de relembar o Bar Savoy onde tantos poetas escreveram textos antológicos e fizeram dedicatórias de amor eterno ao Recife.
Sábado é dia de deixar-me envolver por esta cidade que eu tanto amo.


Obs.: Texto inicialmente publicado no blog Inútil Paisagem, em 26/4/2008.

4 comentários:

Luiz Eurico disse...

Clóvis, o Melc ainda vive? Ele era amigo de meu avô e do meu pai. Do meu avô ele dizia que fora um de seus primeiros fregueses, ainda na Livraria Rangel, à rua do Livramento.
Dizia ainda, do vovô Luiz de Melo, que tinha o porte de um lord inglês, ele que andava sempre de terno e gravata, negro esguio e elegante, com seu inseparável guarda-chuva preto, no antebraço.
Grande Melquisedec! Depois da cirurgia cardíaca, nunca mais soube dele. Cheguei a visitar seu apartamento, ali na José de Alencar, se não me falha a memória. Fui também na Bispo Cardoso Ayres, onde ele escondia um tesouro de livros raros. Abraço, Clóvis!

Clóvis Campêlo disse...

Infelizmente Melq já faleceu, Luiz Eurico. Quando escrevi esse texto, em 2008, ele ainda estava vivo, embora aposentado.

Passiflora disse...

Clóvis, linda crònica.
Meus parabéns.
Paulo

Clóvis Campêlo disse...

Grato, Paulo "Passiflora" Lisker. Abraços