domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Galo de todos


A primeira vez


O GALO DE TODOS

Clóvis Campêlo

Amigos, em relação ao Galo da Madrugada, exercito um misto de admiração e crítica. Ambos os sentimentos, confesso, alimentados por opiniões de quem também ama o Galo e o queria diferente, e de quem gosta do Galo do jeito que o Galo é hoje.
Todos nós sabemos que o Galo da Madrugada nasceu nos anos 70 como mais um grupo de máscaras criado para animar o carnaval do Recife. Desfilou pela primeira vez, em 1977, pelas ruas do bairro de São José, com apenas 17 integrantes. Difícil, naquela época, imaginar que se tornaria uma multidão incalculável. Mas, tornou-se.
Os que o criticam (como uma parte de mim), entendem que ao longo dos anos, ao cair nas garras da indústria do entretenimento, o Galo foi abaianado, com a introdução de trios elétricos e a chegada de artistas que nada – ou quase nada – tinham a ver com o nosso carnaval. Contraditoriamente, porém, foi isso que permitiu a sua sobrevivência e o enfrentamento e a concorrência com o carnaval de Salvador, que, comercialmente, durante anos superou e ameaçou o carnaval do Recife. Assim, o Galo da Madrugada provou do acarajé da Bahia para se fortalecer e sobreviver. Os amantes da tradição carnavalesca recifense, porém, nunca o perdoaram. Apesar disso, o Galo se impôs e cresceu, com o respaldo dos recifenses que, ano a ano, vão às ruas engrossar as suas fileiras e projetá-lo mundo a fora. Não é a toa que hoje, no Rio de janeiro, o também tradicional Cordão da Bola Preta venha se esforçando para superá-lo e ocupar o seu lugar no livro dos recordes e nas manchetes da mídia mundial.
Por isso e muito mais, em nome da glória e da tradição do carnaval do Recife, a invasão do bairro de São José no sábado de Zé Pereira se justifique e seja cada vez mais necessária. Se é multidão o que a mídia (e a indústria do entretenimento) querem, é multidão que vão ter.
Por outro lado, os que condenam a “modernização” do Galo (como a “outra” parte de mim) e defendem a tradição das orquestras de frevo no chão com o povo atrás frevando, saudosistas de um tempo em que talvez houvesse mais harmonia e civilidade entre os foliões, não deixam de ter razão. Porém, do mesmo modo que isso acontece no Recife Antigo, onde a democracia do carnaval se exercita diuturnamente no período momesco, também pode e dever acontecer no bairro de São José. Ao povo o que é do povo! Nas ruas laterais do bairro, nas entrelinhas do Galo, também cabem orquestras de frevo desfilando e tocando para que o povo freve e desopile.
O Galo merece. Hoje, o Galo é muito maior do que possa perceber a nossa vã filosofia. E independentemente do vil metal que a tudo constrói e corrói, sobrevivera no coração e na alma do povo do Recife. Saravá!

Recife fevereiro 2015

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