domingo, 14 de setembro de 2014

A negra Saúna


A NEGRA SAÚNA
 
Clóvis Campêlo
 
A negra Saúna era agregada na casa do capitão Batista. Suja e maltrapilha, tinha os pés rachados e os cabelos desgrenhados como um Macunaíma de subúrbio. Fazia o trabalho menos nobre daquela residência, como alimentar e banhar os cachorros, lavar os banheiros e cuidar dos chiqueiros dos porcos que havia no fundo do quintal. Aliás, era tratada pela família quase como se fosse um deles: dormia no chão, em um cantinho da cozinha, aos pés do fogão. Era a última a dormir e a primeira a levantar quando o sol raiava.
Um dia, antes do sol nascer, Saúna reuniu os seus trapinhos e fugiu pela porta da cozinha. Sumiu para nunca mais ser vista. A humilhação era grande demais, mesmo para ela que nunca fora ninguém e nunca tivera nada na vida. A matriarca dona da casa, esposa do capitão Batista, durante dias reclamou da falta de consideração de Saúna, que ali, naquela casa, sempre fora tratada como uma pessoa da família e agora a deixava na mão sem nenhum aviso prévio. Ingratidão, isso sim! A retribuição era sempre essa.
Na verdade, Saúna não era negra, e sim uma cafuza, uma caboré, filha de um índio bêbado com uma prostituta negra, trazida ainda menina pela família do capitão Batista da cidade de Tacaimbó, no agreste pernambucano.
Do mesmo modo, o capitão Batista não era capitão, e sim um velho cabo, reformado como suboficial da Força Área Brasileira, um ex-combatente da 2ª Guerra, que fizera patrulhas noturnas no litoral pernambucano. Mas, aquela patente sempre o orgulhara e impunha respeito naquele bairro de classe média.
Durante dias, correu na rua da fábrica de redes o boato de que Saúna teria fugido com o filho mais velho do verdureiro. Mas, poucas pessoas acreditaram nisso, haja vista a feiura da negra e a sua sujeira.
Na verdade, o fato nunca foi devidamente esclarecido e, para as pessoas daquela comunidade, Saúna terminou mesmo por se transformar no símbolo da ingratidão.
Para mim, tantos anos depois, a negra teria mesmo era fugido da escravidão disfarçada e consentida que lhe fora imposta por aquela família. Mais do que Macunaíma, sempre me lembrara a figura da escrava Bertoleza, personagem do romance O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, que se suicida ao descobrir que fora traída por João Romão, o homem que amava. Na vida real, a saída de Saúna foi muito mais esperta e honrosa.
 
Recife, setembro 2014

Um comentário:

Passiflora disse...

Eng. Agr. PAULO LISKER Recife
DISSE:
Gostei.
Bom que ficou gente como vosmecê para relembrar estórias, assim como "A NEGRA SAÚNA" do tempo que na nossa terra dava o gostoso Araçá, Pinha e Manga Rosa que de alguma forma adoçava o amargor da vida das empregadas sem direitos, coisa muito comum no nosso querido Brasil.