segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O amor que se canta



O AMOR QUE SE CANTA

Clóvis Campêlo

Assim como a mulher amada, toda cidade querida deve ser cantada em prosas e versos. E assim o fizeram dois grandes compositores da música popular brasileira: Capiba e Caetano Veloso.
Capiba, pernambucano nascido na cidade de Surubim, compôs Recife, cidade lendária. Caetano Veloso, baiano nascido em Santo Amaro da Purificação, compôs Sampa, hino de amor à capital paulista.
E embora Capiba, em momentos de diversidade afetiva, também tenha composto e cantado Olinda, cidade eterna (esta gravada por Caetano) e Igarassú, cidade do passado, será a primeira que irá nos interessar nesse momento de comparações.
Na sua canção, quase uma modinha, gravada por Chico Buarque no mesmo CD que o homenageou e também por João Gilberto, o pai da bossa nova, Capiba canta o seu amor não pelo Recife moderno de hoje, mas por uma cidade lendária que já não existia mais nem mesmo no seu tempo. É uma canção de saudades, como podemos verificar já nas primeiras estrofes:

Eu ando pelo Recife, noites sem fim
percorro bairros distantes sempre a escutar
Luanda, Luanda onde estás
É a alma de preto a penar

Recife, cidade lendária
de pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados
compridos, escuros
faz gosto se vê


E prossegue nas estrofes seguintes cantando um Recife bucólico, onde talvez as tradições da cidade pequena porém decente já desse lugar às inquietações da modernidade irreversível que se aproximava a passos galopantes:

Recife teus lindos jardins
recebem a brisa que vem do alto mar
Recife, teu céu tão bonito
tem noites de lua pra gente cantar

Recife de cantadores
vivendo da glória em pleno terreiro
Recife dos maracatus
dos tempos distante de Pedro I


E arremata finalmente, num grito ao mesmo tempo de capitulação e de revolta inútil:

Responde ao que vou perguntar
que é feito de teus lampiões
Onde outrora os boêmios cantavam
suas lindas canções.

Naquele momento final do brado, do mesmo modo que acontecerá com o compositor baiano na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua São João, alguma coisa transforma de maneira definitiva o coração e as convicções do compositor surubinense: o Recife se arremessava para o futuro, esquecendo do seu passado glorioso onde cabiam tanto Pedro I quanto os negros renegados dos maracatus. E a incerteza do futuro parecia machucar o poeta e compositor: ainda haveriam lindas canções? Ou aquela canção acima de tudo dorida e colorida pelas lembranças do passado serviria para lhe acalmar os ânimos naquele momento?

Em Sampa, um belo samba-canção, a relação de Caetano Veloso com a cidade paulistana é ao mesmo de tempo de susto e de enfrentamento. Talvez aquilo tudo fosse demasiadamente grande num primeiro momento para o filho de Santo Amaro da Purificação, mas eram as coisas do mundo presente, minha nega, e precisariam ser entendidas e ter a sua mais completa tradução. E o jogo precisaria ser rápido e definitivo:

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João


No segundo momento, onde o compositor ainda não se reconhece e nem consegue ver o seu rosto no perfil emaranhado da cidade, há o entendido de que diante daquela nova realidade, só lhe resta aceitá-la e mesmo sem decifrá-la plenamente entender-lhe o significado de ser o avesso do avesso do avesso:

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso


Aceitar provisoriamente a cidade, porém, não significa ter com ela uma relação de passividade ou de omissão diante dos seus problemas e da sua realidade dura e injusta. E surge a crítica, porém, já de uma forma apaixonada e não destrutiva. Afinal ele percebera que apesar de tudo e de toda a sua injustiça e dos seus injustiçados, poderia passear sem medo na sua garoa e como os Novos Baianos, poderia curti-la numa boa:

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa.


Este texto modesto e despretensioso é, acima de tudo, uma declaração de amor a Capiba e a Caetano Veloso, e a tudo o que eles significaram e significam na construção da música popular brasileira moderna. Foi a maneira que encontrei para agradecê-los e enaltecê-los um pouco. Tenho dito.

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