terça-feira, 3 de setembro de 2013

Tu pisavas nos astros distraída...

Fotografia de Clóvis Campêlo/2013

TU PISAVAS NOS ASTROS DISTRAÍDA...

Clóvis Campêlo

Alguns doiram a pílula. Outros, vivem vestidos de doirado, palhaços das eternas e perdidas ilusões. Gostam dos guizos falsos da alegria e cantam suas fantasias entre as palmas febris do coração. Uma questão de opção, com certeza.
De ti, porém, só sei que nada sei. E mesmo quando pisas nos astros altaneira e distraída, sabes bem o que é a alegria dessa vida. E a tua alegria pode vir a ser a minha alegria, apesar da minha ignorância, da minha falta de tato, da minha falta de luz.
Para ti, o meu coração é a uma porta sem trinco e a lua, a brilhar com afinco, salpica de estrelas o chão da minha esperança. A minha alma desfeita em trapos coloridos, na corda qual bandeiras agitadas em estranho festival.
Não basta, porém, uma única canção para dimensionar a imensidão desse afeto, desse artefato elaborado, dessa sonoridade inacabada.
E mesmo quando do sol a claridade for encoberta pela sombra dos teus pés, restará um tênue raio de luz a desafiar uma possível escuridão.

Broto


BROTO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, PE, 1992

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

sábado, 31 de agosto de 2013

Quando setembro vier


QUANDO SETEMBRO VIER

Clóvis Campêlo

Para mim, agosto sempre foi o mês dos ventos. E essa ventania que antecipava o verão, trazia-nos o tempo de empinar papagaios. As geringonças eram construídas pelos próprios meninos do Pina, com tala de coqueiro, cordão, papel celofane e e cola artesanal, feita com araruta ou goma.
Depois, preparava-se o cerol, uma mistura de cera com vidro moído, colocado nas linhas para se derrubar os papagaios alheios. Na queda, o artefato derrubado era de quem o pegasse primeiro. Era preciso agilidade nas pernas e esperteza para se sobrepor ao bando destrambelhado que não respeitava nem o perigo dos carros na Avenida Boa Viagem. O trunfo era exibido como uma conquista de guerra e trazia respeito ao conquistador.
Mas isso, já faz tempo, 30 ou 40 anos atrás. Hoje, mudou quase tudo. Gabriel, meu filho mais novo, ainda alcançou esse tempo nos terrenos baldios do Cordeiro, hoje todos eles ocupados e construídos. Os espaços vazios da cidade estão se extinguindo. Cresce a população e disso se aproveita a especulação imobiliária para transformar o verde na natureza em concreto retilíneo e cinza. Não há o que reclamar, porém. O novo e o progresso sempre vem, e é isso que faz o mundo avançar rumo ao futuro.
Lamento, porém, pelo meu neto, Pedro, que não conheceu e não vai mais conhecer essa brincadeira. Para ele, essas atividades coletivas, que integravam a molecada e amadureciam as relações humanas na infância, foram substituídas pelos jogos informatizados, onde muito se exercita a mente e pouco o corpo. Já não vale a máxima da mente sã em corpo são. Esse conceito foi substituído pelo prazer das vitórias virtuais, do mundo mágico dos computadores, onde, no final, tudo se recompõe e restaura-se o equilíbrio edênico. Ou seja, entre mortos e feridos, todos escapam. Ao menos isso.
Mas, se de início, a minha pretensão era passar pelos ventos de agosto rumo ao sol de setembro, terminei por demorar-me demais nessas digressões, ocupando quase todo o espaço que me cabia (por determinação própria, pois detesto textos muito longos). As lembranças do azul do céu do Pina e dos seus verdes mares ainda me excitam a memória e soltam a imaginação, irmãs quase siamesas.
Tudo isso apenas para lembrar que mais um agosto se encerra hoje, já sem o estigma do mês dos desgostos, nem mês dos cachorros loucos, onde o diabo anda solto e muito menos o mês da sogra, figura injustamente por nós ridicularizada, mas com uma nova referência para lhe recompor a imagem.
Foi em uma dessas noites do mês de agosto que ora se encerra que a cidade do Recife teve uma das noites mais frias do ano, com o termômetro alcançando a marca dos 17 graus centígrados.
Naquela noite, a cidade se superou e velhos casacos de lãs com cheiro de mofo foram resgatados e exibidos com orgulho pelos nordestinados recifenses acostumados ao calor úmido da Mauricéia.

Recife, 2013

sábado, 24 de agosto de 2013

O velho Messias


O VELHO MESSIAS

Clóvis Campêlo

O velho Messias morava no Pina, em um cortiço chamado Estoril, na Rua Capitão Rebelinho, que no início dos anos 80 foi demolido para a construção do Edifício Ubatuba.
Era uma figura fantástica. Lanterneiro competente, durante a II Guerra Mundial ganhou muito dinheiro trabalhando para os americanos, no Recife. Gastou tudo com bebidas e mulheres. Costumava dizer que boêmia era tão boa que era de regresso.
A sua história mais fantástica aconteceu durante a Intentona Comunista, na década de 30. Messias trabalhava numa oficina na Rua Imperial, quando um dos fregueses pediu-lhe para guardar um pacote. O pacote, repleto de panfletos subversivos, foi descoberto. Mesmo inocente, Messias foi preso e fichado como comunista.
A partir dessa data, aderiu à ideologia. Passou a andar sempre vestido de branco, com um lenço vermelho na lapela.
Quando do golpe militar de 1964, já envelhecido, foi novamente perseguido e discriminado pelos amigos do bairro, que temiam represálias do governo da ditadura.
Pobre, doente e desamparado, faleceu no Recife, no final dos anos 70.
A fotografia acima foi feita pouco tempo antes da sua morte.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Liêdo Maranhão declama Augusto dos Anjos



LIÊDO MARANHÃO DECLAMA AUGUSTO DOS ANJOS
Olinda, 03/01/2010
Vídeo de Clóvis Campêlo

Hermilo Borba Filho


HERMILO BORBA FILHO

Clóvis Campêlo

Hermilo Borba Filho nasceu no dia 8 de julho de 1917, na cidade de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco.
Desde os anos 40, desenvolveu no Estado uma grande atividade intelectual, sendo diretor e criador de grupos que marcaram época no teatro regional, como o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP) e o Teatro Popular do Nordeste (TPN).
De 1953 a 1957, atuou em São Paulo, onde fez parte da Comissão Estadual de Teatro. Nesse período, também dirigiu a Companhia Nydia Líca/Sérgio Cardoso, a Companhia Cacilda Beker, o Grupo Studio Teatral e o Teatro Paulistano de Comédia.
Teve várias peças suas apresentadas no Brasil e no Exterior, além de vários livros traduzidos na França e na Argentina, onde o romance "Margem das lembranças" chegou a ter proibida a sua publicação.
Em 1969, foi condecorado pelo Governo da França como Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras.
Durante a ditadura militar, integrou o conselho editorial do jornal oposicionista Movimento.
Faleceu no dia 2 de junho de 1976.

Recife, 2008

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O astro


O ASTRO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

domingo, 18 de agosto de 2013

Lilliputiana


LILLIPUTIANA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 2013

sábado, 17 de agosto de 2013

A maturação da vida


A MATURAÇÃO DA VIDA

Clóvis Campêlo

Caros amigos, para que serve a vida a não ser para ser vivida? A pergunta, muito antes de ser poética, é existencial. Como diria aquela velha compositora biriteira, só nos resta viver. E a vida, para ser bem vivida, deve ser, acima de tudo, satisfatória. Ninguém vive bem alimentando frustações ou adiando realizações.
No entanto, diz o bom senso que projetos de vida mirabolantes sempre tendem ao fracasso. Assim, como caldo de galinha e cautela nunca fizeram mal a ninguém, é sempre bom não quer dar um passo maior do que as pernas podem dar. Reconhecer as suas potencialidade e limitações pode ser um bom começo. A isso geralmente dão o nome de maturidade e, via de regra, só nos chega quando já estamos em adiantado estado de vida.
À juventude, aliás, dá-se sempre o direito de achar que o mundo é simples e que as soluções dos seus problemas também passam pelo viés da simplicidade.
Quem vai querer entender, por exemplo, os intrincados mundos da ciência, dos negócios e das pesquisas? Para que se gastar tanto dinheiro com isso em vez de matar a fome e as doenças do chamado Terceiro Mundo? Eu mesmo, confesso, até hoje, mesmo em adiantado estado de vida, ainda não consegui entender, imaturo que sou.
Afinal, estamos todos no mesmo barco ou não? Somos irmãos, todos filhos do mesmo pai, ou alguns pagam por crimes que nunca cometeram ou nem sequer chegaram a imaginar?
Como de boa vontade o inferno sempre está cheio, fico a imaginar que esse estado de coisas é filho da esperteza de alguns, do convencimento da burrice de outros e da libertação conceitual de outros poucos abnegados e abdicados seres. O preço da liberdade é a eterna irrelevância.
De uma coisa, porém, eu tenho certeza: nenhuma das gigantescas estruturas criadas pelo Homem para dominar o mundo e os seus habitantes mais frágeis são capazes de se sustentarem por si próprias. São estruturas artificiais, estáticas, vampirescas e servem apenas para confundir e enfraquecer ainda mais as estruturas mentais dos homínculos dominados e escravizados. Um dia, meus filhos, nada disso será teu. Guarda portanto as tuas energias para o que realmente lhes seja dela merecedor. Não existe segurança alguma em nada, mas o prazer sempre estará a disposição de todos os que renegarem as tramas diabólicas do poder constituído e descobrirem o prazer da volta ao equilíbrio edênico do universo verdadeiro e paralelo.
Tudo é aqui e agora. Nada para o amanhã inexistente ou para um futuro de falsas premissas e inviável pela própria natureza. Os labirintos existem para os incautos. A infelicidade também.

Recife, 2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Urbe


URBE

Clóvis Campêlo

Repletos de mortalidade
os homens a violentam
e acolhem-se em suas entranhas
enquanto ela eterniza-se.

Composição de estranha forma,
na epiderme da natureza,
em concreto se calcifica
retilínea e angulosa.

E dessa simbiose entre
sangue e cimento forma-se
um equilíbrio roto e frágil,
motor de uma vida enganosa.

Recife, 1991

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ronildo Maia Leite



Fotografias de Clóvis Campêlo / 1991

RONILDO MAIA LEITE

Clóvis Campêlo

Sobre a sua morte, assim se pronunciou o jornal Estado de São Paulo, em nota assinada pela jornalista Ângela Lacerda:
“Foi enterrado na manhã de hoje no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, Pernambuco, o corpo do jornalista Ronildo Maia Leite. Pernambucano de Garanhuns, Ronildo conquistou quatro prêmios Esso de Comunicação - regionais - e escreveu 15 livros. Ele tinha 78 anos e deixou oito filhos de três casamentos e 11 netos. Sua morte foi causada por uma infecção respiratória. Ronildo se formou na primeira turma de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, passou por quase todos os jornais do Estado, foi repórter da revista Veja, colaborador da IstoÉ e chefiou durante 19 anos a redação Norte-Nordeste do jornal O Globo”.
Segundo a Enciclopédia Nordeste: “Ronildo Maia Leite nasceu em Garanhuns a 30 de outubro de 1930. Estreou no jornalismo aos 13 de anos de idade, em Garanhuns, sua cidade natal, no extinto Garanhuns Jornal. Em 1951, ingressou no Jornal Pequeno, do Recife, de onde saiu, em 1955, para o Diario de Pernambuco. Formado pela primeira turma de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, foi laureado da Cadeira de Técnica de Jornal, recebendo o prêmio instituído pelo Moinho Recife. Em 1963, foi secretário de Redação da Última Hora, Edição Nordeste, cuja circulação foi interrompida pelo movimento militar de 1964. Foi preso no instante em que preparava, ao lado de Múcio Borges da Fonseca e Eurico Andrade, uma edição extra sobre a resistência dos governadores nordestinos. Entre 1967 e 1970, ocupou a Secretaria de Redação do vespertino da empresa Jornal do Commercio, conquistando dois dos três prêmios nacionais de melhor manchete, conferidos pela Northon Publicidade, com os títulos de primeira página: Um branco fuzilou a paz (assassinato de Martin Luther King) e Praga vermelha: é o sangue dos jovens (invasão da Tchecoslováquia pelas tropas russas). Ganhou quatro Prêmios Esso: com a as reportagens A Cidade Invicta (a eperiência democrática do Recife em 1945) e Exu – 200 anos de guerra (a luta entre as famílias Alencar e Sampaio, de Exu), ambas publicadas pelo Diario de Pernambuco; 10 anos da Anistia e Pernambuco no centro do golpe, cadernos especiais produzidos pela equipe do Jornal do Commercio; além de uma Menção Honrosa, do mesmo prêmio, com o texto Baleia dando sopa na costa, japonês fisga, publicado na Revista do Nordeste. Morreu no Recife, a 05 de julho de 2009, um ano depois de sofrer um acidente vascular cerebral”.
Poderíamos aqui colocar diversas outras menções à competência profissional de Ronildo Maia Leite e aos prêmios por ele recebidos. Afinal, era um grande e respeitável jornalista. Autor de vários livros e membro da União Brasileira dos Escritores, Seção de Pernambuco, foi por nós fotografado no seu apartamento, situado na Rua Maestro Nelson Ferreira, em Jaboatão dos Guararapes, em 1991, para o trabalho do Grupo 3 intitulado Escritores Pernambucanos Contemporâneos – um levantamento fotobiográfico, o qual, por falta de patrocínio, nunca chegou a ser publicado.
Em janeiro deste ano, em parceria com a Câmara Municipal do Recife, a Prefeitura da Cidade do Recife o homenageou dando o seu nome à Biblioteca Popular de Afogados.


domingo, 11 de agosto de 2013

Mão na parede


MÃO NA PAREDE
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

sábado, 10 de agosto de 2013

Dona Maria, uma brasileira


Fotografia de Clóvis Campêlo/1994

DONA MARIA, UMA BRASILEIRA

Clóvis Campêlo

Descobri Dona Maria em Mirandiba, vendendo comida perto da feira. Era um dia de sexta feira e nós estávamos na cidade movidos pela curiosidade e pelo inusitado.
Mirandiba fica no sertão de Pernambuco, a 423 quilômetros do Recife, na região do Rio Pajeú, desgarrada da rodovia BR-232. Com pouco mais de 13 mil habitantes, entrou para a história política do Estado por ter sido a primeira cidade pernambucana a eleger um prefeito do Partido dos Trabalhadores.
Na época, eu fazia parte da Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários de Pernambuco e acompanhado da jornalista Wedja Gouveia e de Manoel, motorista, fomos em busca da matéria para o nosso jornal, o SindPress.
Queríamos entender como "o modo petista de governar" havia sensibilizado o povo daquele grotão perdido nos confins do Estado, em 1994. O que haveria mudado para que isso acontecesse?
O prefeito eleito pelo PT, Nelson Pereira, hoje deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil, era oriundo do PMDB e chegara ao poder depois de uma briga regionalizada onde o que menos interessava era a sigla partidária. Ou seja, mudara tudo e não mudara nada. Continuava tudo na mesma.
Tentamos conversar com Dona Maria sobre isso, mas para ela a vida era ir à feira e vender os seus quitutes. Não tinha nem ilusões e nem desilusões. Já se acostumara com a alternância dos coronéis no poder e instintivamente sabia que nada disso modificaria a sua vida.
E na verdade, a passagem do Partido dos Trabalhadores pelo poder, naquela pequena cidade do sertão pernambucano, em nada transformou o seu perfil ou a qualidade de vida do seu povo. O modo petista de governar era muito mais um refrão do que uma nova perspectiva de realidade.
E Dona Maria, uma brasileira, continuaria a sua rotina de fazer e vender comida na feira esperando que um dia o futuro finalmente chegasse a Mirandiba.



Recife, 2010

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Olhar


OLHAR

Clóvis Campêlo

Calado, quieto,
parado,
disparo o meu olhar
incandescente;
ultrapasso pontes,
pontos, linhas,
planos e horizontes;
penetro no infinito
incendiado
de azul e
inacabado
fogo,
pleno, perplexo,
perfeito cenário.

Recife, 1993

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O astronauta


O ASTRONAUTA
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

Poema para Liris


POEMA PARA LIRIS

Clóvis Campêlo

Só sei que te escondes
nas torres da Pituba
e perder-me em Ondina,
aos pés do Cristo,
foi preciso.

Mas, se grito e tu respondes,
mesmo nas águas turvas
da fímbria do mar da Bahia,
ressuscito e te avisto,
quando for preciso.

Recife, 2009

domingo, 4 de agosto de 2013

Tabaca


TABACA
Fotografia de Clóvis Campêlo 
Recife, 1992


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Bobo da Corte


O BOBO DA CORTE
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

terça-feira, 30 de julho de 2013

O Quinteto Violado na Livraria Cultura





O QUINTETO VIOLADO NA LIVRARIA CULTURA
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 2008

sábado, 27 de julho de 2013

Lula no 5º Congresso Nacional da CUT








LULA NO 5º CONGRESSO NACIONAL DA CUT
Fotografias de Clóvis Campêlo
São Paulo, 1994

O que me atrai é o que me assusta


O QUE ME ATRAI É O QUE ME ASSUSTA

Clóvis Campêlo

Evoluir talvez seja quebrar paradigmas, romper convenções, desafiar a lógica. Se respeitarmos sempre as normas, o mundo não se move no rumo das mudanças. Seguir fielmente os modelos pré-concebidos que nos são impostos, talvez seja a melhor maneira de se apodrecer em vida e alcançar altos níveis de insatisfação pessoal.
Como já disse o poeta, gente é pra brilhar e não pra morrer de fome ou de tédio. Navegar contra a correnteza, no entanto, exige uma certa dose de coragem e de irresponsabilidade controlada. E o que mais nos poderá amedrontar nessa "contravenção" rumo à liberdade, será a percepção de que em alguns momentos fundamentais estaremos completamente sozinhos ou "mal" acompanhados.
Esse sentimento, porém, embora possa ser assustador, será o combustível necessário e que servirá de alimento aos espíritos inquietos e renovadores.
Assim sendo, o caminho da segurança não contemplará necessariamente a rota da felicidade.
Por outro lado, a felicidade poderá ser reconhecida nos atalhos acidentados de quem forja o próprio caminho caminhando.
Destoar dos padrões gerais e imobilizantes também exige uma certa dose de cautela para que a carapuça da discriminação não nos caia sobre as cabeças. Os homens "corretos", com suas leis anti-naturais, não costumam perdoar.
Enfim, sentir-se livre talvez seja ter a certeza de que somos definitivamente responsáveis por nossas vidas, nossos riscos, nossos terrores e êxtases.
Viver em comunhão conosco mesmos e coerentes com os nossos planos de vida, só nos custa isso.
Que o fogo das nossas vidas seja como a chama de uma vela acesa, que para arder plenamente se auto-consome.
Não precisamos ter medo da felicidade e da auto-satisfação.

Recife, 2009

- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 46.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Um jogo de palavras


UM JOGO DE PALAVRAS

Clóvis Campêlo

Que o futebol veio parar no Brasil, na virada do século XX, trazido da Inglaterra pelos filhos da nossa aristocracia, todos já sabem. Como consequência, durante décadas, as palavras de origem inglesa predominaram na nossa terminologia futebolística até se aportuguesarem ou serem substituídas por palavras da nossa língua.
Desse modo, durante muito tempo, zagueiro foi full-back; chuteira, boots; centroavante, center-four; cabeça de área, center-half; escanteio, corner; empate, draw; finta, dribbling; goleiro, goal-keeper; toque de mão, hands; pontapé inicial, kick-off; bandeirinha,linesman; jogo, match; juiz, referee; impedimento, off-side; jogador, player; cara ou coroa, toss; apito,whistle; etc.
Essa linguagem "antiga" nos veio novamente à tona durante a Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, e durante a Olimpíada de Atlanta, em 1996, ambas na terra de Tio Sam. Utilizada pela televisão americana nas transmissões, constituiu-se novidade para as gerações mais recentes, enquanto que para as gerações mais velhas trouxe recordações dos tempos voluntariosos do nosso futebol.
A influência da televisão na utilização de novos termos no jargão futebolístico, aliás, deu-se a partir da Copa do Mundo de 1970, no México, a primeira a ser televisionada para quase todo o planeta. Quem não se lembra do famoso repeteco que a televisão mexicana exibia no vídeo a cada jogada repetida na telinha? Era o progresso tecnológico operando o milagre da multiplicação das imagens e influenciando diretamente o nosso modo de falar.

ORIGENS E EQUÍVOCOS

De um modo geral, dos neologismos criados e que enriqueceram o linguajar do futebol alguns merecem destaque, como, por exemplo, a palavra gandula. Os modernos dicionários definem o termo como "menino incumbido de ir buscar e devolver a bola que sai de campo". Poucos sabem , porém, que o termo originou-se de um jogador argentino chamado Gandula que atuou no Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Muito gentil, ele apanhava a bola fora do campo para entregar ao companheiro de profissão encarregado de repô-la em jogo, mesmo quando era um adversário.
Dois outros termos interessantes, mas que não vingaram no gosto popular, foram balípodo e ludopédio. Tanto o primeiro, formado com os radicais gregos bales (bola) epodos (pé), quanto o segundo, do latim ludo (jogo) epedes (pé), foram criados pelos puristas de plantão para substituir o anglicismo futebol, sem sucesso. Consta ainda que o escritor Lima Barreto, por não suportar o esporte bretão, criou a palavra bolapé, usada por ele com um sentido pejorativo. Avesso às novidades modernosas, o escritor carioca via no futebol uma transgressão aos costumes da época.
Alguns outros termos criados são interessantes por fazerem referência direta ou indireta a jogadores que marcaram época no futebol brasileiro de outrora, embora muito destes termos já estejam em desuso. É o caso de belinada, rebatida violenta conforme o estilo de Bellini, o nosso capitão na Copa de 1958; charles, jogada inventada pelo hoje conhecido Charles Miller e que é feita com a parte lateral externa do pé; domingada, jogada defensiva falha e que foge ao estilo clássico com que Domingos da Guia domiva a apelota (outros, porém, consideram que o termo originou-se como uma referência pejorativa ao penalte sem bola cometido pelo grande jogador brasileiro na Copa de 1938);elástico, drible rapidíssimo inventado por Roberto Rivelino; jogar o fino, jogar bem e com inteligência, numa referência ao antigo jogador Danilo Alvim, que, por sua magreza, era conhecido como "o fino da bola";folha-seca, chute de muito efeito, com a bola parada, inventado pelo bicampeão Didi, e, garrinchada, usado quando um jogador tentava, sem sucesso, imitar os dribles desconcertantes de Mané Garrincha.

OUTRAS PALAVRAS

Outros termos tornam-se interessantes por fugirem ao sentido original, assumindo outras conotações: amarelar(correr do jogo por medo ou nervosismo); armandinho(jogador sem ímpeto ofensivo); arrepiar (jogada brusca e decidida na defesa); banheira (impedimento); bonde, perna-de-pau e cabeça-de-bagre (jogador de baixo nível técnico); cartola (dirigente de clube ou federação);catimba e cera (atitudes retardam o jogo e irritam o adversário); chapéu, lençol e banho-de-cuia (jogada aérea de efeito); frango ou peru (gol tomado facilmente pelo goleiro); morcego ou chupa-sangue (jogador que não esforça); traíra (jogador que se vende ao adversário); corta-luz, chuveirinho, etc.
Um grande criador de termos e máximas do futebol foi o falecido técnico Gentil Cardoso, que marcou época no futebol brasileiro nas décadas de 50 e 60. É dele, por exemplo, a expressão dar zebra, criada para determinar um resultado inesperado, numa referência ao clandestino jogo-do-bicho, já que a zebra não se encontra entre os vinte e cinco animais que o compõem.
Para finalizar, o termo canarinha, utilizado hoje para designar a seleção brasileira de futebol, devido a cor amarela das camisas, só surgiu a partir da Copa de Mundo de 1954. Antes, a nossa seleção utilizava camisas brancas como primeiro uniforme, abandonadas após a fatídica derrota na Copa de 1950. Para o nosso escrete,amarelar foi uma atitude que deu certo.

Publicado no jornal Folha de Pernambuco, Recife, 28.05.1998, 5ª feira, Caderno Copa 98, pág. 2.

Paredes


PAREDES
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

Paulo Cavalcanti






PAULO CAVALCANTI
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 1991

domingo, 21 de julho de 2013

Retratos do Recife











RETRATOS DO RECIFE
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 2013

O número 1


O NÚMERO 1
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

sábado, 20 de julho de 2013

O querer


O QUERER

Clóvis Campêlo

Não te quero redundante,
cuspindo o óbvio e olhando
apenas o que os olhos vêem.
Quero-te inquisidora,
virando-se pelo avesso,
saindo da boca pra fora,
buscando a resposta
não importa qual seja
o preço.

Não te quero rotineira,
trilhando a mesmice que já
nos servem pronta e empacotada.
Quero-te a afrontar o perigo,
desbravadora dos sete mares,
correndo risco de vida
pois navegar é preciso.

Não te quero a lamentar
o tempo desperdiçado,
com os olhos cheios de nada.
Quero-te alvissareira
a desenhar no presente
o branco linho do futuro
qual ágil bordadeira.

Recife, 1991

Composição em três cores


COMPOSIÇÃO EM TRÊS CORES
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, 1992

- Postagem revisada em 02/02/2018