sábado, 27 de abril de 2013

O Galo da Madrugada dos 500 anos








Fotografias de Clóvis Campêlo/2000

O GALO DA MADRUGADA DOS 500 ANOS

Clóvis Campêlo

Todo mundo sabe que, no Recife, o sábado de Zé Pereira transformou-se no sábado do Galo da Madrugada.
A coisa começou timidamente, em 1978, na Rua Padre Floriano, no bairro de São José, quando Enéas Freire criou o clube de máscaras e alegorias que se transformaria em um dos itens mais referenciados do carnaval pernambucano. Diga-se de passagem, aliás, referenciado e reverenciado. Naquele mesmo ano, ao lado de 17 outros pioneiros, o Galo desfilou pela primeira vez nas ruas de São José.
Em 1995, o Galo da Madrugada foi oficialmente considerado pelo Guinness Book - o livro dos recordes - como o maior bloco de carnaval do mundo.
De lá para cá, o Galo só fez crescer. Segundo estimativas, neste ano de 2013 o Galo teria arrastado 2,5 milhões de pessoas pelas ruas do Recife, para alegrias de uns e tristezas e críticas de outros.
Para alguns, o Galo da Madrugada atual modificou de forma negativa o carnaval do Recife, deixando de lado a sua proposta original e se transformando num carnaval empresarial e que imita, na sua forma, o carnaval da Bahia. As ruas fechadas para a construção de camarotes, excluiria os foliões do trajeto do bloco, privilegiando quem tem condições de pagar por um camarote e assistir o desfile.
Para nós, que o acompanhamos a algum tempo, não restam dúvidas de que o clube hoje está inserido na indústria do entretenimento, transformando-se em fonte de lucro para os que o fazem e esquecendo da importância da participação popular, que, hoje, limita-se a ocupar as ruas periféricas do bairro de São José.
No entanto, apesar de toda essa discussão, o Galo permanece fazendo o carnaval do Recife e servindo de referência mundial. A cada ano, aparece com uma indumentária nova ou com alguma outra novidade que chame a atenção de todos.
No ano 2000, quando comemorava-se os 500 anos da descoberta do Brasil, o Galo da Madrugada, cujas cores oficiais são azul, branco, amarelo, vermelho e verde, vestiu-se com as cores da bandeira brasileira e integrou-se aos festejos comemorativos, colorindo a cidade de verde, amarelo, azul e branco.

sábado, 20 de abril de 2013

O diário público de Anne Souza











O DIÁRIO PÚBLICO DE ANNE SOUZA

Clóvis Campêlo

Descobri Anne Souza no Recife Antigo, durante o carnaval deste ano, quando andava eu com um frevo no pé, uma câmera na mão e muitas ideias possíveis na cabeça.
Aliás, não é de hoje que ando a observar as paredes do velho bairro onde a cidade nasceu. Elas servem para que artistas anônimos exerçam a sua arte e executem os seus trabalhos de grafitagem. Tenho vários deles fotografados e catalogados, muitos identificados apenas pelas características dos traços e da composição dos desenhos. São pintados diretamente sobre as paredes nuas e cruas e sofrem constantes intervenções que vão aos poucos acrescentando a eles novos detalhes ou modificando significativamente o resultado final. Uma espécie de arte coletiva e transgressora.
Com os desenhos de Anne Souza, não foi diferente. Desenhados sobre papel e colados nas paredes, geralmente no tamanho A4, de fevereiro para cá, muitos deles foram parcialmente rasgados ou riscados e tiveram a base escurecida pelo tempo e pela exposição ao sol. No meu modo de entender, ficaram até mais bonitos.
Retratam sempre o rosto da mesma mulher, na maioria das vezes de perfil, como nos desenhos egípcios. Vez por outra ela surge de corpo inteiro, nua ou em forma de uma sereia. Vez por outra também contracena com uma figura masculina, formando composições de uma simetria pós barroca. Em pouquíssimos desenhos a figura masculina aparece sozinha ou aparecem outras composições que não sejam figurativas e referentes ao sexo feminino.
Os desenhos estão colados em paredes de ruas escolhidas, formando uma espécie de via sacra profanizada.
Não sei quem é a Anne Souza que assina os pequenos quadros. O seu traço é simples e sugestivo e as figuras sempre estão em destaque em um fundo neutro. O seu diário é público e sem segredos ou disfarçatez, disponível a todos os olhos e espíritos abertos que andem pelo bairro velho da cidade misturando as visões do ontem com o presente.

Recife, 2013

sábado, 6 de abril de 2013

Subindo o Morro ou na cadência do samba


SUBINDO O MORRO OU NA CADÊNCIA DO SAMBA

Clóvis Campêlo

Em 2008, no Dia Internacional da Mulher, mais uma vez, lá fomos nós subir o Morro da Conceição.
Nós, que tantas vezes já subimos o Morro em ocasiões especiais, quando da festividades da Santa, dia 8 de dezembro, sempre nos emocionamos com a belíssima paisagem desfrutada e com o intenso calor humano ali reinante.
Lá, no Morro, Wilson já estava nos esperando.
A primeira parada foi na casa de José Belo da Silva, o Zé Belo, natural da cidade de Limoeiro, de onde saiu aos 6 anos de idade para fixar-se no Morro da Conceição. Na época da visita, aos 72 anos de idade, que, por coincidência, estavam sendo comemorados no dia da visita, Zé Belo, apesar dos cigarrinhos que ainda traga, demonstra uma boa saúde e uma memória privilegiada.
Falou-nos das tradições do Morro, como os clubes de futebol alí existentes e que eram respeitados em todo o Recife: Tabajara, Taquarani, Forte do Morro e Onze da Lira, todos já extintos, e do Maracatu Águia de Ouro, fundado em 1939, e atuante até hoje.
Disse-nos também dos clubes dançantes que ali havia e que eram mantidos por vereadores, como Rui Alves, Romildo Gomes e Roberval Lins. Inclusive, hoje, no prédio onde funcionava o clube recreativo e dançante mantido pelo vereador Rui Alves, está a sede da Escola de Samba Cultural Galeria do Ritmo.
Ainda segundo Zé Belo, além da Galeria do Ritmo, que está no Morro desde 1963, também existiram na comunidade outras escolas de samba como a Unidos do Dendê e a Leão do Norte, ambas já extintas.
Zé Belo nos falou ainda da Cova da Onça, bar famoso no Morro e que não mais existe, e do clube Acadêmico, onde até hoje a comunidade se diverte.
Ainda segundo Zé Belo,a estátua de N. Sª. da Conceição chegou ao Morro em 1904, vinda da França, e a Igreja foi construída em 1907. Segundo ele, houve muita dificuldade para levar a estátua até o seu pedestal, porque as ladeiras ainda não eram asfaltadas.
Contou-nos ainda, que em 1959 aconteceu uma tragédia na comemoração da festa da Padroeira do Morro. Às 4 horas da manhã, quando se iniciava a celebração da missa pelo Arcebispo do Recife, houve um curto-circuito nas gambiarras das barracas e nos brinquedos da quermesse, provocando uma correria entre as pessoas, que pensavam se tratar de tiros, e que resultou no falecimento de doze fiéis. Depois da tragédia, a parte profana da festa foi transferida para o campo do Ipiranga, na Avenida Norte.
Mesmo assim, as ruas e ladeiras do Morro, ainda segundo Zé Belo, só começaram a ser calçadas em 1960, na gestão do prefeito Pelópidas da Silveira.
Curtindo a oportunidade de um bom papo, disse-nos ainda que a água do Morro era fornecida por um chafariz e vinha bombeada da Rua do Motor. Antes, o pessoal ia buscar água num cacimbão que havia perto do campo do Ipiranga e cuja água era salobra e imprópria para o consumo humano. A água encanada só chegou ao Morro em 1963, depois de muita luta do Conselho de Moradores, destacando-se nessa batalha a figura de dona Odete Gomes de Almeida. Dona Odete, hoje já falecida, teve o seu trabalho reconhecido pela comunidade e pelos poderes públicos que deu o seu nome à praça que existe na frente da igreja.
Na Galeria do Ritmo, nossa segunda parada, fomos recebidos por Valdir Barros, presidente da Escola, e José Genival de Farias, o Amarão, diretor da Ala dos Compositores. Segundo Valdir, confirmando as informações de Zé Belo, a Escola de Samba, na verdade, foi fundada no Alto José do Pinho, onde uma roda de amigos se reunia embaixo de um pé de oiti para batucar um sambinha nas horas vagas. Dessa reunião ocasional, surgiu a idéia de fundar a escola de samba, a qual logo se transferiu para o Morro da Conceição, onde permanece até hoje. Hepta campeã do carnaval recifense de 1999 a 2006, a Escola de Samba Cultural Galeria do Ritmo, cujo lema é "Aqui se aprende a cantar, tocar e sambar", e de onde saíram astros da música popular pernambucana, como Paulo Márcio e a Banda Labaredas, hoje mantém uma escolinha de percussão para crianças a partir dos cinco anos de idade.
Esse trabalho educativo, que se alterna com a escola convencional, faz com que a criançada se mantenha ocupada durante todo o dia, mantendo-se afastada da rua, da violência e do tráfico de drogas, uma realidade contundente nas comunidades periféricas, como o Morro da Conceição. Além das atividades culturais, a meninada também recebe alimentação (leite e sopão).
O presidente Valdir nos contou ainda da falta de patrocínios para a Escola e da dificuldade de se fazer samba na terra do frevo.
Na época, a Escola estava fechando um contrato com a Prefeitura de Ipojuca, na Zona da Mata Sul do Estado, para fazer diversas apresentações na cidade como forma de arrecadar dinheiro para a agremiação se manter.
Desse contato interessantíssimo, regado a cervejas geladíssimas, surgiu o convite para participarmos do ensaio da Escola, no próximo dia 16.
Como já era 3 horas da tarde e ninguém é de ferro, fomos almoçar no Bar da Geralda, um dos restaurantes mais conceituados do Morro e que figura em diversas listas gastronômicas recifenses.
Geralda Cardoso da Silva é uma senhora simpática, de 47 anos, natural da cidade de Surubim, radicada no Morro há mais de vinte anos, e que nos serviu um cozido pernambucano pra poeta nenhum botar defeito.

Recife, 2008

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O fruto


O FRUTO

Clóvis Campêlo

Que o teu fruto me alimente o corpo,
tua beleza me alimente o espírito;
que a tua pele me aqueça e acalme
e que eu possa sempre estar ao teu lado.

Que tudo seja doação sem sacrifício
e que os deuses entendam o clamor
da tua alma.

Que os teus olhos estejam sempre acesos
e percebam toda a minha felicidade.

Que sejas sempre a outra metade.


sábado, 30 de março de 2013

Pernambuco Cantando Para o Mundo



Fotografias de Cida Machado/2008

PERNAMBUCO CANTANDO PARA O MUNDO

Principais momentos do programa “PE Cantando Para o Mundo”, do dia 22 de fevereiro de 2008, na Rádio Universitária AM, onde fomos entrevistados pela jornalista Luciana Amorim, no quadro Artista da Terra.

LA – Chegou a hora do nosso Artista da Terra. Hoje, vamos conversar com o escritor pernambucano Clóvis Campelo. Ele que se define como aprendiz de poeta e fotógrafo amador. Formado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, Clóvis publica trabalhos em jornais conceituados do nosso Estado e em sites como o Interpoética e o Plataforma Para a Poesia, entre outros. É moderador do grupo virtual Poetas Independentes e está hoje conosco para conhecermos mais sobre ele e o seu trabalho. Lembramos que ele esteve no nosso primeiro programa falando sobre os Poetas Independentes. Boa tarde, Clóvis.

CC – Boa tarde, Luciana. É um prazer retornar aqui, nós que participamos do primeiro programa e vemos que ele vem crescendo em qualidade e audiência. É bom estar com vocês novamente.

LA – Nós é que agradecemos. Clóvis. Como começou a sua paixão pela poesia?

CC – A paixão pela poesia começou há muito tempo atrás, junto com a paixão pela fotografia também. Às vezes é difícil conciliar as duas coisas, mas a gente vai administrando.

LA – E há quanto tempo você trabalha fazendo poesias?

CC - Desde a adolescência. No começo, uma coisa muito incipiente. Depois, observando os grandes mestres, procurando aproveitar o que eles têm de melhor e aprendendo com eles a fazer cada vez mais.

LA – Tem autores que te influenciaram?

CC – Tem. Eu vou começar pelo final. Ultimamente, quem muito me influenciou foi Alberto da Cunha Melo, recentemente falecido. Não só pelo conteúdo dos seus poemas, como também pelo fato dele ter criado uma nova forma de fazer poemas. Existem muito poucas formas de se fazer poemas. Algumas são antiquíssimas, como o soneto. Dificilmente os autores que criam, criam em cima de uma forma nova. Geralmente, eles pegam as formas existentes e usam aquilo para fazer a sua poesia. Alberto criou uma forma chamada "retranca" e que se refere ao futebol porque são poemas de onze linhas - um quarteto, um dístico, um terceto e outro dístico. Dentro dessa forma, ele criava os seus poemas. Observando isso aí, procurei seguir essa linha e aprendi muito com ele, nesse sentido.

LA – No início da sua carreira, algum poeta específico lhe influenciou?

CC – Sim. Todos os poetas modernistas. Eu comecei querendo ser modernista. Depois, procurando as formas mais tradicionais, num caminho inverso ao que as pessoas geralmente fazem. Então, todos os poetas modernistas, como Manuel Bandeira, me influenciaram muito. Aqui no Recife, tem uma pessoa que particularmente me influenciou muito não só pela sua capacidade de criar como pelas suas atitudes pessoais que foi Jomard Muniz de Brito. Durante muito tempo, eu tive uma grande admiração por ele. Tem outro poeta aqui também que eu gosto muito, que me influenciou muito que é Wilson Araújo de Souza. Wilson é um poeta contemporâneo, maranhense, radicado aqui no Recife há muito tempo e que também me influenciou muito no começo.

LA – E a poesia de Clóvis Campêlo hoje, ela segue uma classificação certa ou você ainda busca inspirações no Romantismo, no Modernismo. Como você poderia classificar a sua poesia hoje?

CC – Eu classificaria a minha poesia como uma poesia que ainda está em fase de desenvolvimento. Eu ainda sou um aprendiz nesse sentido em que eu falei: olhar os grandes mestres e tentar aprender com eles. De uma maneira geral, eu não me sinto preso a nenhuma forma de fazer poesia. É uma coisa muito livre, muito circunstancial.

LA – E como surgiu o seu trabalho com fotografia? Você tem um blog que divulga suas poesias e suas fotografias.. Como surgiu esse trabalho com a fotografia?

CC - Fotografia e poesia são coisas muito parecidas no sentido de que ambas formam imagens. A fotografia, trabalhando com a luz. Os poemas, com as letras e sugerindo imagens. Houve uma época em que eu trabalhei na Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Previdenciários e nessa época nós fizemos um jornal lá e então eu tive a possibilidade de trabalhar mais como fotógrafo. Houve uma época, também, em que eu participei de um grupo chamado Grupo 3, que era um grupo que tinha uma proposta interessante, porque a fotografia surgiu como conseqüência da necessidade dos artistas renascentistas de copiarem a realidade exatamente como ela é. Então criaram aquela história da câmera escura que evoluiu e chegou à câmera fotográfica. O Grupo 3 tinha uma proposta que era o inverso. Em vez de se fazer uma fotografia que retratasse a realidade, era transmutar essa realidade deixando até mesmo de ser figurativista. E tem umas coisas interessantes que foram feitas por esse grupo, do qual faziam parte duas pessoas que eu admiro muito e que também são poetas e fotógrafos, que são Bartolomeu Lima e José Rodrigues Correia Filho, tem dois trabalhos que nós fizemos no grupo que se chamavam “Paredes” e “Restos de Campanha”. Nós chegamos inclusive a expor no MISPE esse trabalho, “Restos de Campanha”, que é um trabalho que busca fazer com que a fotografia perca esse sentido figurativista de copiar a realidade e cria algumas composições que se aproximam do abstrato.

LA – O que poderia falar ainda sobre o seu trabalho aqui em Pernambuco? Como você faz e divulga o seu trabalho?

CC – Fotografia é uma coisa que considero hoje muito mais um hobby do que uma profissão. Então é uma coisa que a gente faz pelo prazer de fazer. Já a poesia, eu acredito que com o grupo Poetas Independentes onde nós tivemos a possibilidade de conviver com outras pessoas que são poetas, grandes poetas, a gente amadureceu e aprendeu muito.

LA – E vocês convivem virtualmente com poetas de outros Estados, várias partes do Brasil e até do Exterior. Como é que você faz a divulgação desse trabalho?

CC – No ano passado nós conseguimos fazer um livro que é a “Antologia Poética 2007” dos Poetas Independentes. Nós temos essa proposta de lançar uma antologia de dois em dois anos. Sempre num caminho inverso. Em vez de sermos um grupo de poetas já existente e que se lançou na rede, nós começamos na Internet e depois partimos para editar e publicar um livro.

LA – Na sua opinião como é o reconhecimento da literatura aqui em Pernambuco?

CC – A literatura pernambucana sempre foi muito rica, principalmente a poesia. E você sobreviver no meio dessas cobras criadas, às vezes, exige uma capacidade de superação muito grande. Mas é importante também porque convivendo com esse pessoal que é muito bom, Recife sempre teve grandes poetas, Pernambuco sempre teve grandes poetas, faz com que você também tenha esse ímpeto de crescer, de querer chegar no estágio onde os grandes poetas pernambucanos estão.

LA – E a receptividade das pessoas, dos pernambucanos?

CC – De uma maneira geral a poesia não é uma coisa muito acessível ao grande público. É claro que existe a poesia de cordel que é mais fácil, existem algumas coisas assim, mais acessíveis. Mas existe um público bom consumidor de poesia, que tem um nível bom também de entender os trabalhos mais elaborados.

LA – Muito obrigado, Clóvis, por aceitar mais uma vez o nosso convite.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Tudo


TUDO

Clóvis Campêlo

Tudo arde,
tudo é fardo,
tudo é charme,
tudo é tarde,
tudo é dardo,
tudo é alarme.
Onde cabe em nós o NADA?


Recife, 2009

segunda-feira, 25 de março de 2013

O início



O INÍCIO

Clóvis Campêlo

Não é fácil romper com a inércia.
Romper com a inércia significa romper com o equilíbrio.
Mover-se exige isso.
Ao mesmo tempo, o movimento significa afastamento e aproximações, novos cenários, novos desfrutes e possibilidades.
Isso também traz medo, embora excite e libere a imaginação.
Ninguém sabe o que pode vir após o Cabo da Boa Esperança...
Navegar, porém, é preciso.
Em busca do novo, em busca do inusitado.
Navegar é preciso!


sexta-feira, 22 de março de 2013

A mentira, o desejo e o sonho


A MENTIRA, O DESEJO E O SONHO

Clóvis Campêlo

Havia um ângulo de tensão em seu olhar
e nós estávamos embaixo do viaduto
respirando os primeiro raios do sol.
O velho caudilho havia morrido ontem
e, no entanto, estava mais vivo
do que nunca.
Um mendigo dormia
imune à eletricidade da manhã
e eu buscava uma razão
para quebrar a inércia.
Você arrotava cuba-libre,
eu tinha medo da solidão,
metia as mãos nos bolsos
e coçava os testículos.
O dia nascia impune
na praia do Pina
iluminando as nossas
caras cansadas
e eu sentia pena
das putas do Bar da Central.
O meu coração era um fio de nylon
e a cidade bocejava preguiçosa.
O professor havia ido embora
sem conseguir nos iludir
com a sua falsa alegria tropicalista,
péssimo ator que era.
Emmanuel estava conosco
e o diabo também.
Éramos os bobos da corte
e não queríamos ser degolados.
Éramos a personificação
da mentira, do desejo e do sonho.

Recife, 1985

terça-feira, 19 de março de 2013

Igreja Basílica de Nossa Senhora do Carmo






IGREJA BASÍLICA DE NOSSA SENHORA DO CARMO
Bairro do Santo Antônio
Recife, março 2013
Fotografias de Clóvis Campêlo

segunda-feira, 11 de março de 2013

Igreja Concatedral de São Pedro dos Clérigos






IGREJA CONCATEDRAL DE SÃO PEDRO DOS CLÉRIGOS
Recife, março 2013
Fotografias de Clóvis Campêlo

domingo, 10 de março de 2013

Poema ao guerreiro


Fotografia de José Carlos de Paula/2004

POEMA AO GUERREIRO

Para Ernesto "Che" Guevara

Clóvis Campêlo

Toxina capitalista
caindo no precipício
de uma garganta profunda.

Ente revolucionário
morrendo à beira do mangue
de susto, de bala e vício.

No fim, apenas o início
de uma alegria que inunda
e estanca o sangue na lama
enquanto a vida derrama.

Recife, 1994

sexta-feira, 8 de março de 2013

Ratos


O rato gigante de Nova York

RATOS 

Clóvis Campêlo 

Diz a lenda que em Nova York existe cerca de 8 milhões de ratos. Ou seja, um rato para cada habitante. Coisa de primeiro mundo.
No entanto, no Recife, a nossa Veneza Brasileira, dizem que a população de roedores excede em cinco vezes a população humana. Ou seja, seriam cinco ratos para cada mortal humano. Um recorde. Coisa de terceiro mundo.
Não sei se as estatísticas acima procedem e se realmente superamos a capital do mundo nessa questão. Mas, no início do ano passado, no bairro do Bronx, foi capturado e morto um rato com quase um metro de comprimento, deixando os moradores assustados. Na verdade, um super rato na terra dos super-heróis fantásticos. Em 2011, porém, em outro bairro da cidade, conforme o site da Globo Notícias, um roedor parecido já havia sido abatido. Para provar que a história não era invenção ou brincadeira, a imagem do rato gigante foi publicada por um usuário no twitter e depois reproduzida por vários jornais, entre eles os ingleses Daily Mail e The Sun.
Aliás, sobre os ratos de Nova York já existe até um livro publicado. Trata-se da obra “Ratos: Observações Sobre a História e o Habitat dos Habitantes mais Indesejados da Cidade”, de Robert Sullivan. Segundo consta, entre 2001 e 2002, para escrevê-lo, o escritor americano todas as noites, munido de óculos noturnos infravermelhos, observava uma colônia de ratos que se banqueteava com os restos de comida de um restaurante chinês em Eden's Alley, uma pequena rua no distrito financeiro da cidade. O livro chegou a ser elogiado pela crítica literária do The New York Times, Michico Kakutani, que o descreveu como “fascinante... um compêndio instigante e informativo de fatos, teorias e reflexões”. Por seu lado, o The New York Observer disse que o livro não se limita aos ratos, oferecendo às pessoas “uma visão mais profunda da história de Nova York e da essência da humanidade”.
Sobre os ratos, Sullivan os descreve como animais de hábitos noturnos e dotados de um excelente paladar, capazes de detectar minúsculas quantidades de veneno. Devido a atração que sente pelos cabos elétricos, podem ser responsabilizados por 26% dos rompimentos dos cabos da cidade. Seus dentes crescem 12,5 centímetros por ano, o que lhes permite roerem até aço e concreto. Seus esqueletos se contraem permitindo que passem por buracos com apenas a largura média dos seus crânios. Ainda segundo ele, quando não estão atrás de comida, os ratos estão fazendo sexo. Copulam mais de vinte vezes por dia, com o maior número possível de fêmeas. Nas colônias compostas só por ratos machos, fazem sexo uns com os outros.
Segundo o biólogo Luiz Eloy Pereira, do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, as fêmeas procriam mais quando há muito alimento. Em situações de fartura, têm uma gestação de apenas 22 dias, podem ter até 13 filhotes de uma só vez e engravidar novamente 21 horas depois do parto, podendo dar à luz em um ano a mais de 200 filhotes. No entanto, em tempos de pouca comida, controlam a população parindo menos e até mesmo devorando a produção excedente.
Vida de rato não é fácil.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Escadas




ESCADAS
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 1991


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"Centrefó" de armação


"CENTREFÓ" DE ARMAÇÃO

Clóvis Campêlo

Aramis Trindade nasceu no bairro de São José, no Recife, oriundo de uma família de jornalistas. O seu avô, Francisco Trindade, atuou no jornal recifenses "A Província". Seu tio, Djalma Trindade, foi redator do jornal "A Noite". Seu pai, Aristófanes Trindade, trabalhou na Folha da Manhã, no Jornal Pequeno e no Diário de Pernambuco, entre outros. Consta que foi ele, Aristófanes, que, na década de 30, que levou Tará, segundo os estudiosos do assunto, o maior jogador que já passou pelo futebol pernambucano, para jogar no Santa Cruz. Seu irmão, Bóris Trindade, trabalhou na Folha da Manhã, Jornal do Commercio, Correio do Povo e Diário de Pernambuco.
No jornalismo pernambucano, Aramis marcou época, destacando-se sobretudo na área esportiva. Em 1946, aos 16 anos, começou na Folha da Manhã e não mais parou. Criador de tipos e bordões espirituosos, consta que foi ele que batizou o Santa Cruz com o nome de Repúblicas Independentes do Arruda, embora outros pesquisadores afirmem que a denominação foi criada pelo falecido jornalista Júlio José, na década de 70, quando o Santa Cruz mantinha-se hegemônico no futebol pernambucano e aumentava de forma positiva o seu patrimônio material.
Em 1958, Aramis formou-se em advogado pela Faculdade de Direito do Recife. Bacharel feito, aos poucos foi trocando o jornalismo pela advocacia, destacando-se na área trabalhista.
Faleceu em no dia 8 de junho de 2004, aos 74 anos, vítima de um enfarte. Segundo o Diário de Pernambuco, o seu caixão foi enrolado com a bandeira do Santa Cruz, clube ao qual a família Trindade sempre esteve ligada ao longo dos anos.
Em 1987, Aramis lançou o livro "Centrefó" de Armação, contando casos e fatos relacionados com o futebol pernambucano, notadamente ao Santa Cruz Futebol Clube.
Na crônica que dá nome ao livro, Aramis conta a história do atacante Zezinho, contratado pelo dirigente coral Benjamim Vanstein ao Santos de São Paulo.
Com o seu estilo crítico e irônica, Aramis mostra como, na época, década de 60, era comum os dirigentes pernambucanos serem ludibriados pelos clubes do sudeste, quase sempre nos empurrando verdadeiros pernas-de-pau como jogadores de categoria.
Ao saberem que o dirigente tricolor estava em São Paulo para contratar um grande atacante, os jogadores santista resolveram ajudar Zezinho, que se encontrava encostado no clube.
Deixaram Zezinho arrasar no treino, marcando cinco tentos e impressionando vivamente o cartola pernambucano.
Sob grande expectativa, Zezinho chegou ao Recife e foi escalado para estrear num clássico contra o Naútico. Jogo iniciado e nada de Zezinho entrar na área para mostrar as suas qualidades de centro-avante rompedor. Impaciente, o treinador indaga ao jogador:
- "Ô Zezinho, que diabo de centrefó é você? O pau tá comendo na frente e você aqui na linha média, como se fosse meia?
Cínico, Zezinho responde: - "Ô mestre, sou centrefó de armação..."


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Escadas



ESCADAS
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 1991


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Breves e mal ensaiadas reflexões sobre o machismo


BREVES E MAL ENSAIADAS REFLEXÕES SOBRE O MACHISMO

Clóvis Campêlo

Quando Deus nos modelou (os machos) e colocou a massa no forno, na região da púbis, o barro não rachou. Pelo contrário, projetou-se para fora, formando uma protuberância, uma saliência atrevida. Esse (feliz) acaso, provocado pelo excesso de alguma substância diferenciada no barro utilizado, supostamente colocou-nos, ao longo da história da humanidade, do lado do poder.
E isso é fácil de explicar: ela significava força, massa muscular, uma capacidade maior de execução dos trabalhos físicos. E isso nos valorizou (os machos).
Nas sociedades primitivas, esse (feliz) acaso nos tornou guerreiros, intrépidos, atrevidos, sanguinários, valentes. Quase sem querer, dominamos o mundo.
As mulheres viviam felizes cuidando das suas tarefas de mulheres e chorando os guerreiros mortos nos campos de batalha.
Mas, rei morto, rei posto, o choro era curto e logo arranjava-se outro macho mantenedor e defensor da prole.
E essa condição não existia só no ocidente. Na China feudal, anterior à Revolução Cultural do Grande Timoneiro, era comum as famílias maldizerem e exterminarem as filhas fêmeas, porque significavam uma boca a mais e uma menor força de trabalho no campo. De certo modo, isso só se modificou a partir da revolução comunista, que em menos de cem anos transformou um país medieval e repleto de grandes injustiças sociais numa grande potência mundial.
Nas sociedades mais modernas, onde a mais valia e a possibilidade do lucro sempre as orientou e ditou as leis, essa condição não só foi mantida como foram criadas regras sociais que a justificassem. Quem quiser que fosse de encontro à elas (as regras sociais)! Sempre estivemos todos nelas enquadrados.
Na medida em que o desenvolvimento tecnológico foi substituindo a força de trabalho masculina pela força de trabalho das máquinas e equipamentos, foram se consolidando as condições adequadas (do ponto de vista do lucro do sistema) para que as mulheres fossem se emancipando e ocupando outros lugares e papeis nas sociedades. Isso sempre rendeu uma aparente satisfação (para elas) e a manutenção do lucro (para os donos do sistema).


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Visões do Recife (II)





VISÕES DO RECIFE (II)
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, Pernambuco, 1998


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

É de fazer chorar!


Fotografia de Clóvis Campêlo / 2008

É DE FAZER CHORAR!

Clóvis Campêlo

No carnaval do Recife nunca tem gato na tuba. O som rola livre e solto e nas escala de dó, fá e sol os músicos executam com maestria os compassos seguros da marcação do frevo.
Porém, se na tuba nunca teve gato, já teve gajo executando a inspiração gaiata de parodiar o lema positivista do nosso símbolo pátrio. Deu bandeira. “Desordem e retrocesso” foi a palavra de ordem.
Para usar uma palavra do agrado do poeta caruaruense Demóstenes Felix, eu diria que o Carnaval é DESCONSTRUÇÃO.
Carnaval é permissividade, e assim sendo faz com que as pessoas dispam-se dos estereótipos e passem a viver, de forma lúdica, outros personagens.
No Carnaval, podemos até mesmo assumir o papel de antípoda de nós mesmos, sermos o OUTRO. E sendo o outro, encurtarmos as distâncias conceituais, fazer cair por terra as máscaras do faz-de-conta, as convenções e as normas que regem a sociedade.
Assim sendo valem as sátiras sociais, as críticas políticas, a mudança dos costumes, a transmutação do indivíduo. Vale a catarse.
Por isso, é de fazer chorar quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar.
Por isso, a quarta-feira de cinzas é sempre tão ingrata: retornamos à realidade, repomos as indumentárias neurotizantes do dia-a-dia, reassumimos os papéis que nos são impostos pela vida e aos quais nem sempre escolhemos.
Enfim, deixando de ser o outro, voltamos a ser nós mesmos e nós perdemos novamente. Deixamos de ser curvas e voltamos e ser retas.
Assim, reconstituímos a “ordem” e o “progresso” até que venha o próximo carnaval.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Visões do Recife (I)





VISÕES DO RECIFE (I)
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, Pernambuco, 1998