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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Voar é preciso?


Fotografia de Clóvis Campêlo / 2018

VOAR É PRECISO?

Clóvis Campêlo

Por que os pássaros voam? Sobre isso, vejamos o que diz o site Mundo Estranho: “Esse dom invejável está intimamente associado às penas, que, embora leves e flexíveis, são, ao mesmo tempo, fortes e resistentes. Dependendo da espécie, um pássaro pode ter entre 1 000 e 25 000 penas espalhadas pelo corpo. Mas elas não são as únicas responsáveis pelos shows aéreos que as aves costumam apresentar – na verdade, cada elemento da anatomia desses animais foi feito para que eles pudessem voar. “O formato aerodinâmico do corpo, o esqueleto, a musculatura, o modo de vida e o hábitat são outros fatores que ajudam no deslocamento aéreo”, afirma o ornitólogo Martin Sander, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, RS. Ainda assim, as asas são as peças principais, por exercerem dois papéis fundamentais: como um propulsor, elas impulsionam o pássaro à frente; e, como um aerofólio, dão a sustentação necessária para mantê-lo flutuando no ar.
Hoje, voar é uma capacidade quase exclusiva das cerca de 9 600 espécies de aves existentes, mas nem sempre foi assim. Outros animais de médio porte também já foram capazes de deslizar pelo céu. Era o caso dos pterodátilos. Os cientistas acreditam que esse réptil se comportava como uma ave marinha, voando em bandos e frequentando praias há cerca de 200 milhões de anos. Já o mais antigo fóssil de ave encontrado é o de uma espécie do período jurássico, entre 208 e 144 milhões de anos atrás. Batizado de Archaeopteryx lithographica, ele foi achado na Alemanha em 1860”.
Assim, para os pássaros, voar não passa de uma condição inerente as suas várias espécies. E isso, o homem sempre invejou e tentou imitar, seja através de máquinas e engenhocas, seja através de asas artificiais. Ícaro que o diga!
Segundo o site Saber Cultural, essa é a lenda: “Na mitologia grega, Ícaro era filho de Dédalo, um dos homens mais criativos e habilidosos de Atenas, conhecido por suas invenções e pela perfeição de seus trabalhos manuais, simbolizando a engenhosidade humana. Um de seus maiores feitos foi o Labirinto, construído a pedido do rei Minos, de Creta, para aprisionar o Minotauro. Por ter ajudado a filha de Minos a fugir com um amante, Dédalo provocou a ira do rei que, como punição, ordenou que ele e seu filho Ícaro fossem jogados no Labirinto. Dédalo sabia que a sua prisão era intransponível, e que Minos controlava mar e terra, sendo impossível escapar por estes meios. "Minos controla a terra e o mar", disse Dédalo, "mas não o ar. Tentarei este meio". Dédalo projetou asas, juntando penas de aves de vários tamanhos, amarrando-as com fios e fixando-as com cera, para que não se descolassem. Foi moldando com as mãos, de forma que estas asas se tornassem perfeitas como as das aves. Estando o trabalho pronto, o artista, agitando suas asas, se viu suspenso no ar. Equipou Ícaro e o ensinou a voar. Então, antes do voo final, advertiu seu filho de que deveriam voar a uma altura média, nem tão próximo do sol, para que o calor não derretesse a cera que colava as penas, nem tão baixo, que o mar pudesse molhá-las. Eles primeiramente se sentiram como deuses que haviam dominado o elemento ar. Ícaro deslumbrou-se com a bela imagem do sol e, sentindo-se atraído, voou em sua direção, esquecendo-se das orientações de seu pai. A cera de suas asas começou rapidamente a derreter e logo Ícaro caiu no mar. Quando Dédalo percebeu que seu filho não o acompanhava mais, gritou: "Ícaro, Ícaro, onde você está?". Logo depois, viu as penas das asas flutuando no mar. Lamentando suas próprias habilidades, chegou seguro à Sicília, onde enterrou o corpo e chamou o local de Icaria em memória de seu filho”.
A fotografia cima mostra dois pombos exercitando a arte de voar em um final de tarde na praia da Boa Viagem. Porque voam em sentidos aparentemente contrários, eu não o saberia dizer. Também foge do meu conhecimento o que orienta esses voos, o que determina essa necessidade e em função de que. Simplesmente voam com a liberdade que a Natureza os dotou.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Um bicho diferente










Fotografias de Clóvis Campêlo / 2015

UM BICHO DIFERENTE
 

Clóvis Campêlo

Faz tempo que os rios e os mangues do Recife foram invadidos pelas garças. Brancas e elegantes, sempre dão um ar romântico e naturalista à cidade feita em pedra e concreto.
Em julho de 2015, porém, nas lamas do Rio Capibaribe, em frente ao prédio do Paço Alfândega, fotografei este pássaro diferente e que contrastava com a brancura das garças. Sem dúvida alguma, um bicho diferente e para mim desconhecido.
Alguém se arriscou a dizer que tratava-se de um socó, e eu, movido pela curiosidade do desconhecimento, fui em busca da veracidade dessa informação.
No Google, o moderno pai dos burros, descubro que são inúmeras as espécies de socó.
A Wikipédia, outra generosa fonte moderna de informação, diz o seguinte: "O termo socó é a designação comum a várias aves pelecaniformes, usualmente paludícolas, da família dos ardeídeos. Tais aves são de ampla distribuição, hábitos diurnos, crepusculares ou noturnos, sendo encontradas isoladas ou aos pares". Diante de tamanha sapiência, fico na mesma. Ou melhor, as minhas dúvidas aumentam.
O que seriam, por exemplo, aves pelecaniformes? O dicionário virtual WikiAves, assim me explica: "Ordem dos pelicanos, das garças, curicaca, guará e afins. Aves de médio a grande porte que vivem em regiões com abundancia de água. Uma característica importante são as patas totiplamadas, cujos dedos são unidos por uma membrana, especializadas para o meio aquático do qual as aves dessa ordem retiram o seu alimento. Têm ampla distribuição geográfica, reproduzindo-se em colônias de diversos indivíduos, mostrando assim uma outra característica comum da ordem, o gregarismo. Destacam-se também os bicos protuberantes e que em muitas espécies terminam em um gancho. São verossímeis pescadores e na base de sua dieta constam peixes, crustáceos e invertebrados aquáticos". Agora sim, sinto que o meu bicho estranho pode ser incluído nessa ordem. Resta-me agora saber o que são aves paludícolas. Mais uma vez o WikiAves me dá a resposta: são aves que estão sempre associadas a ambientes aquáticos. Fico satisfeito.
Resta-me ainda, porém, descobrir o significado de ardeídeos. Volto à minha pesquisa e descubro o seguinte no Dicionário Informal: "Ardeídeos é o nome de uma família de aves, da ordem Ciconiformes, que inclui as garças e os socós. Seus membros vivem em bandos, normalmente em rios, lagoas,
áreas pantanosas e manguezais. Se alimentam principal-
mente de peixes, sapos e outros animais aquáticos".

Pronto. Dou-me quase por satisfeito, muito embora entre as espécies de socós pesquisadas não tenha encontrado uma imagem que se identifique com o meu bicho esquisito. Decido, porém, que ele deve mesmo ser um socó, aproveitando-se da riqueza da flora e da fauna dos nossos mangues.
Seja bem vindo, portanto, amigo socó. Eu te cumprimento em nome dos humanos que quase conseguem enfeiar esta cidade cercada pelas águas.
Que a tua presença e as tuas cores sirvam para acrescentar mais vida ao nosso ambiente urbano, onde outrora outros bichos já se fizeram mais presentes e atuantes.
Seja bem vindo!
 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre passarinhos e ecologia


SOBRE PASSARINHOS E ECOLOGIA

Clóvis Campêlo

A paz é uma utopia inventada pelo homem. Mesmo na Natureza, entre os animais, ela não existe. Mata-se para sobreviver e isso é justo e natural. É a lei da vida, A cadeia alimentar mantendo o equilíbrio ambiental e ecológico. O bicho-homem é que mata em nome do lucro e das falsas ideologias. E isso é trágico.
Outro dia, viajando para a cidade de Canhotinho com o meu amigo Bartolomeu Lima, demos uma paradinha estratégica na Bica da Mijada da Velha, em São Benedito do Sul, para um refrigério necessário. O dono do local era passarinheiro e logo surgiu uma inevitável conversa sobre a criação de passarinhos. Contou-nos ele que já tivera problemas com o Ibama por conta das gaiolas mantidas no seu estabelecimento às margens da rodovia. No entanto, indagou por que as usinas de produção do açúcar também não eram multadas, já que os defensivos e agrotóxicos usados na monocultura da cana causavam uma mortandade e um extermínio de aves muito grandes, trazendo um prejuízo maior do que o hábito do matuto de criá-las em cativeiro, bem alimentadas e livres dos predadores naturais. Segundo ele, mesmo ali, naquela cidade situada na zona da mata sul do Estado e ainda cercada por áreas de preservação da Mata Atlântica já era notória a diminuição dos passarinhos e da fauna em geral. Para mim, a indagação é corretíssima e merece uma reflexão.
Outro dia, domingo de manhã cedinho, na feira do Cordeiro, onde são vendidos pássaros importados de outras regiões do planeta (Austrália, Nova Zelândia, Japão, China, etc.), presenciei a fuga de um gaiolão de várias espécies de aves chinesas. Assim como aconteceu com os pardais trazidos da Europa nos anos 60, logo elas estarão devidamente adaptadas e se reproduzindo no novo habitat. Esse é um outro problema a ser seriamente considerado, pois isso implica em rápidas modificações na nossa fauna. A Natureza leva anos ou séculos para proceder a essas mudanças, dependendo das necessidades de adaptação ou sobrevivência das espécies, e o bicho-homem, movido por interesses pecuniários e anti-naturais interfere de maneira brusca e negativa nesse processo.
Consideremos ainda a contradição que existe na nossa legislação de tentar preservar as nossas espécies animais e ser conivente com a caça e o extermínio das espécies animais de outros países. Isso também é justo e ecologicamente correto?
Enfim, todas essas considerações me vieram à cabeça após a morte trágica de Brasão nas garras de um carcará que cumpria apenas o papel que lhe fora estabelecido pela Mãe Natureza, nas suas leis sábias e independentes das considerações conceituais do bicho-homem.
A cultura, a civilização, a modernidade, nada mais são do que ilusões por nós criadas para justificar as nossas atitudes antinaturais e mortíferas.



domingo, 20 de novembro de 2011

A morte de Brasão


A MORTE DE BRASÃO

Clóvis Campêlo


Uma das coisa mais curiosas que me lembro no livro “Henfil na China”, escrito nos anos 70 pelo falecido cartunista do Pasquim, eram os chineses oriundos das áreas rurais criando galinhas nas cozinhas dos apartamentos construídos pelos governo para realocá-los.
Não sou chinês e nem crio galinhas, mas gosto de criar passarinhos. O hábito, eu herdei do meu pai. Na nossa casa, no Pina, sempre havia muitas gaiolas para serem cuidadas por mim e por meu irmão, Carlinhos.
Com o meu tio Luís Regueira, cansei de me embrenhar de madrugada pelas matas de Camaragibe para passarinhar. Saíamos de casa bem cedo, levando uma sacola com mantimento (pão, goiabada e queijo de coalho), para pegar o ônibus no Recife Antigo. Antes de voltarmos para casa, à tarde, ainda desfrutávamos de um bom banho nas águas limpas do Riacho do Flamengo, hoje completamente poluído e perigosíssimo, local de desova da bandidagem.
Hoje, embora ainda existam resquícios da Mata Atlântica circundando o Recife, os passarinhos escassearam. Uns dizem que por conta dos pardais, pássaros alienígenas importados da Europa, nos anos 60, para combater o lacerdinha, um inseto que naquela época invadira o Recife e causava transtornos à população. Os lacerdinhas sumiram, é verdade, mas os pardais ficaram e espantaram os pássaros nativos (curiós, galos-de-campina, canários, patativas, papa-capins, caboclinhos, bigodes, guriatãs, etc).
Em agosto do ano passado, recebo um papa-capim de presente, trazido por um amigo meu do seu sítio, em Abreu e Lima. Resolvo chamá-lo de Brasão, atacante que, na época, estava em destaque no Santa Cruz. E, apesar de morar em um apartamento de classe média, no bairro do Cordeiro, logo arranjei no terraço um lugar de destaque para ele. Começava ali uma grande relação de amizade. Nesses quinze meses de convivência, acostumei-me a acordar de manhã cedo com o canto de Brasão. Era como se fosse um bom dia amigo.
Ontem, abruptamente, essa relação foi interrompida. Pelo celular, recebo a incrédula notícia: burlando a vigilância da família Campêlo, um gavião que andava rondando o terraço pegara Brasão desprevenido. Para o gavião, nada mais justo do que querer alimentar-se com a carne gorda e bem cuidada de Brasão. Para mim, que raciocino diferente e passionalmente, aumentou um pouco mais o meu vazio existencial.