sábado, 20 de outubro de 2012

As características da arte moderna


Picasso

AS CARACTERÍSTICAS DA ARTE MODERNA

Clóvis Campêlo

Segundo José Guilherme Merquior no livro "Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da cultura", de 1974, é dentro da própria consciência geradora do saber da cultura ocidental que a estética moderna encontrará campo para dar vazão ao sentimento de insatisfação que a invade. Mostra-nos o autor que nada "poderia ser mais eloquente do que a simples menção da influência de duas ciências humanas na arte moderna: a psicanálise e a antropologia". E ambas se prestam a esse papel por provocarem constantes "deslocamentos" no pensamento que as gerou. Assim, munidos de novos "instrumentos", os artistas modernos encontram condições de manifestar a negação e a perplexidade da arte em relação aos caminhos dos tempos contemporâneos. Valorizando os impulsos libertários do inconsciente, bloqueados pela ética do pensamento conservador, os modernos passam a salientar o "caráter repressivo do princípio da realidade" como uma limitação às possibilidades vitais do homem. Assumem, desse modo, uma postura "vocacionalmente surrealista", instalando, no bojo do seu pensamento, a "mística da liberdade espiritual", fonte da contracultura de vanguarda no final do século passado.
A desconfiança da arte moderna ante os valores da cultura ocidental faz com que, juntamente com a vontade de ruptura cultural, desenvolva-se, na primeira, uma tendência ao hermetismo. Tal tendência intensifica o isolacionismo cultivado pelo artista a partir do pós-romantismo, afastando, com desdém, a estética moderna das massas (muito embora estas se mostrem cada vez mais alfabetizadas) e encaminhando a arte moderna para uma postura semântica elitista. O poeta moderno cerca de obstáculos o acesso ao significado da mensagem poética e, almejando alcançar um público seleto, cria obras que jogam com significados incertos, esquivos e obscuros.
Por compreender que o fácil entendimento das obras significa a banalização e a alienação da informação (tal assertiva torna-se interessante em um mundo caracterizado pela "democratização" da informação e pela proliferação do simulacro enquanto meio de consciência cósmica, ao mesmo tempo em que serve para desnudar mais um aspecto contraditório das artes modernas), o bardo moderno envereda por caminhos esotéricos e inusitados (mudança quanto ao conteúdo), enquanto adota contra a linguagem comum (alteração quanto à forma) o que Ramon Jakobson, numa tentativa de definir a literatura sob a ótica dos formalistas, classificou como "violência organizada".
Concomitantemente a esse movimento de afastamento das massas verificado na estética moderna, a arte de vanguarda experimenta uma "universalização dos horizontes mentais", estabelecendo entre os artistas modernos uma comunicabilidade definitivamente diluidora do sentimento de "cor local" dos românticos e que, transcendendo as nacionalidades, provoca o cruzamento de temas e estilos, em que pese cada literatura estar irremediavelmente ligada ao espírito da sua língua.
Desse modo, segundo a ótica de Merquior, são quatro os movimentos que caracterizam a passagem da arte romântica para a arte moderna: a mudança de uma concepção mágica de arte para uma concepção lúdica, desdobrada em visão grotesca (jogo quanto ao conteúdo) e experimentalismo (jogo quanto à forma); transformação da oposição cultural romântica em ruptura; afastamento das grandes massas e tendência para o hermetismo, e, encaminhamento da poética atual para o cosmopolitismo e para um futuro planetário.
No entanto, se o primeiro movimento faz com que a arte moderna manifeste uma saudável tendência de revigoramento e renovação, ao mesmo tempo em que nega os valores culturais que contradizem a afirmação humana, tendência essa confirmada no movimento de ruptura (afastamento), o terceiro movimento (elitização e hermetismo) é contraditório e caminha em sentido inverso aos anteriores. Por seu lado, o quarto movimento (cosmopolitismo) parece nos indicar que a grande arte, perdida a sua função mágica e situada em uma cultura de massa onde prevalece a divisão de classes (característica supranacional), exercita essa permeabilização universalista como forma de uma adaptação necessária à sua sobrevivência.
Para finalizar, consideremos que o conceito de arte moderna, ainda segundo Merquior, prende-se muito mais aos fatores internos observados nas obras de arte do que a sua contemporaneidade. Tal fato se deve a permanência, ainda hoje, na tradição da arte moderna de elementos românticos não submetidos ao novo estilo e que atuam como fatores de estreitamento e de enfraquecimento da arte moderna, reduzindo a sua capacidade de elaboração de uma crítica da cultura e diminuindo a sua energia criadora. Dessa maneira, nem toda a arte contemporânea pode ser considerada "arte moderna", assim como podemos estabelecer a existência de diversos graus de "modernidade".

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Poema para Saramago


POEMA PARA SARAMAGO

Clóvis Campêlo

Quando chegares aos céus
não mais terás consciência
para percebê-lo.
Serás etéreo, vapor,
nuvem passageira.
No entanto, também serás
a essência preservada
da natureza,
simples circunstância.
O teu, era um sonho
terreno, consistente,
feito em rocha,
não mais caberia
nas nuvens.
O que te alimentava
era o desvendar
e a recriação constante
do código dos homens.
Nada era definitivo
e a verdade escondia-se
nas entrelinhas.
Talvez tenhas sido
o bobo da colina
ou o último guardião
das possibilidades negadas.
Teu vulto frágil
era assustador
e o verbo, desde
o princípio, recusava
o sonho inútil
e o tempo desperdiçado.

- Publicado no jornal Folha de Pernambuco, Recife, quinta-feira, 24/6/2010, Caderno Programa.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Sufragando e naufragando no vermelho



SUFRAGANDO E NAUFRAGANDO NO VERMELHO

Clóvis Campêlo

Eleição é sempre um tempo de reencontro, conosco mesmo e com os outros.
Lembro que no já longínquo ano de 1982, em plena Avenida Guararapes, no centro do Recife, às vésperas de mais uma eleição, com o democrata (a palavra ainda não havia sido deturpada) Marcos Freire disputando o governo do Estado contra o biônico Roberto Magalhães, ao lado dos amigos Valmir Sá e Gílson Ayres (já falecido) discutíamos sobre em quem votar.
Enquanto Gílson defendia o voto no incipiente Partido dos Trabalhadores, que tinha em Manoel da Conceição (torturado e o mutilado por um dos governos da ditadura militar), eu e Valmir defendíamos o “voto útil” no PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), surgido naquele mesmo ano após uma fusão do antigo MDB com o Partido Popular (PP) de Tancredo Neves, em nome da restauração da democracia e pelo fim do regime arbitrário que mesmo exaurido ainda se mantinha. Além do mais, Miguel Arraes estava de volta, após o exílio na Argélia, e era preciso fazer-lhe justiça, elegendo-o deputado federal.
Arraes se elegeu deputado federal com 191.471 mil votos, votação recorde em todos os pleitos estaduais até então, abrindo caminho para o seu retorno ao executivo estadual, em 1986.
No entanto, para governador, perdemos todos nós. O petista Manoel da Conceição teve uma votação irrisória e Marcos Freire, inesperadamente, foi derrotado por Roberto Magalhães. A democracia ainda engatinhava, pensávamos nós, e na sua imaturidade ainda permitiria aquele equívoco.
Anos depois, às vésperas de uma outra eleição estadual, reencontro Gílson Ayres em plena Avenida Conde da Boa Vista, também no centro do Recife. Sem a presença de Valmir Sá, reavaliamos as nossas posições. Eu, finalmente, havia optado e postava no peito a estrela vermelha do PT, na esperança de uma revolução para a esquerda que sucedesse a revolução que já tínhamos sofrido para a direita. Para minha surpresa, Gílson era agora um direitista empedernido, criticando as utopias socialistas que ainda me alimentavam alma e fazendo campanha para o mesmo Roberto Magalhães que havia sido governador biônico do regime militar. Mudanças, mudanças, mudanças...
Penso nisso agora que, depois de muitos anos votando no Partido dos Trabalhadores, abri mão dessa prerrogativa para votar em um candidato olímpico, Roberto Numeriano, do Partido Comunista Brasileiro. O que me levou à isso? A patifaria interna do PT na escolha do seu candidato, jogando no lixo a propalada democracia interna e, sob a mão de ferro do Diretório Nacional, empurrando-nos goela abaixo um candidato “biônico”, o senador Humberto Costa. Com esse gesto de autoritarismo, muitas foram as perdas para o partido e isso se refletiu diretamente na campanha e na eleição. O partido encolheu, no Recife, perdendo vereadores, a prefeitura e o respeito dos seus eleitores.
Durante a própria campanha, refletiu-se também na falta de rumo e propostas do candidato petista. Foi uma campanha mal feita e desorientada. Entendo que isso tudo prejudicou o desempenho do partido muito mais do que o julgamento do famigerado mensalão.
Passado o cataclismo, penso que resta ao Partido dos Trabalhadores calçar as sandálias da humildade, fazer um mea culpa e, principalmente, retomar os rumos e as ligações sociais que fizeram desse partido uma agremiação única na história partidária brasileira. Se isso não acontecer, não acredito que ele possa sobreviver com a dignidade e a retidão suficientes para levar em frente um projeto nacional, de reforma política e administrativa desse país.
Precisamos de revoluções benignas na educação, na saúde pública, na habitação, no transporte coletivo e em outras áreas que devem ser monitoradas e administradas sempre pelo poder público.
Para mim, hoje, não interessa à caça às bruxas. Quem deve, deve pagar pelo que fez. No entanto, não somos tolos o suficiente de acreditar que a “justiça” é neutra e justa. O jogo pelo poder é muito mais sujo e hipócrita do que imagina a nossa vã filosofia, e ao PT também cabe a culpa de ter acreditado e apostado nele.

Recife, 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Amsterdão não é aqui!


AMSTERDÃ NÃO É AQUI!

Clóvis Campêlo

Não só o Haiti não é aqui, como vaticinou o poeta baiano, mas também Amsterdã.
Consta que o mundo é apenas um só.
O que mudam são as visões, os olhos de quem o vê.
O olho olha e vê e sente o que quer sentir.
O olhar faz parte integrante da maneira de ser do fotógrafo.
Antes de fotografar, ele vê...
O registro, no celulóide ou nas retinas, é apenas um detalhe secundário e posterior. O importante é ver.
No entanto, embora o registro seja algo secundário e posterior, da sua efetivação dependerá muita coisa.
Se o registro ocorrer apenas nas retinas e na massa cinzenta do fotógrafo, que um dia os vermes da terra irão devorar, muita coisa não se terá ganhado. A humanidade será privada de compartilhar dessa visão idílica ou terrível (tanto faz!).
Se o registro se der na fita de celulóide ou no magnetismo digital, poderá ser multiplicado ad infinitum. Será perpetuada e muitos outros olhos e mentes a compartilharão no presente e no futuro.
A diferença fundamental é essa! Socializar as visões, tendo o cuidade, porém, de não se expor desnecessariamente.
E viva o simulacro!

Recife, 2006

domingo, 30 de setembro de 2012

Fazendo do alimento o seu remédio


FAZENDO DO ALIMENTO O SEU REMÉDIO

Clóvis Campêlo

Do meu amigo de longas datas José de Arimateia, que hoje mora na cidade de Atibaia, em São Paulo, recebo um e-mail interessante. Nele, o cirurgião americano Caldwell Esselstyn, 77 anos, fala sobre a dieta que aplica nos seus pacientes cardiopatas e que não só evita e detém as doenças cardíacas, como também as reverte.
A alimentação por ele proposta se baseia no uso exclusivo de folhas, frutas, legumes e grãos integrais, deixando definitivamente de lado as carnes (vermelhas ou brancas), o leite e seus derivados, as massas e os cereais refinados e açúcar. O método alimentar, aperfeiçoado nos últimos 30 anos, propõe que garfos e facas substituam os bisturís nas nossas vidas.
O método do médico americano foi tema do documentário Forks over knives (Garfos em vez de bisturís), lançado nos States e ainda inédito no Brasil. O filme conta a história exitosa dos pacientes de Esselstyn tratados pelo método na Cleveland Clinic, de Ohio, e que superaram suas cardiopatias e evitaram cirurgias de alto risco ao adotar a dieta.
Em entrevista por telefone ao jornal Folha de São Paulo, o cirurgião afirma o seguinte: “Se você come a dieta típica ocidental, cheia de carne, óleo e laticínios, você vai ver que, entre mil pessoas, algumas terão infarto aos 40 anos, outras aos 50, outras aos 60, 70 ou 80. Você pode dizer que, geneticamente, quem tem infarto só aos 80 é mais forte para resistir a essa dieta extrema. Por outro lado, se todo mundo come uma dieta baseada em vegetais, todos são poupados”.
Segundo dr. Esselstyn, toda vez que comemos azeite, óleo, leite manteiga, queijo, sorvete iogurte e carne, machucamos o endotélio, delicado revestimento das artérias que produz uma molécula chamada óxido nítrico, que é vaso dilatadora e protege as paredes dos vasos sanguíneos.
No seu método curativo, o médico coloca sob suspeita até mesmo o uso do azeite de oliva na alimentação diária: “Quando você estuda o efeito do azeite de oliva com um teste de ultrassom da artéria braquial, no braço, que mede os danos ao endotélio, vemos que o óleo machuca os vasos”.
Afirma ainda: “A medicina tem evoluído no sentido de criar uma lista cara de remédios e de procedimentos perigosos, como a colocação de stents e pontes de safena. Com o tempo, é preciso colocar outro stent, fazer outra ponte, tomar mais remédios, e, no fim, a pessoa morre do coração assim mesmo. Os médicos, não sei o porquê, passaram a acreditar que as pessoas não são capazes de mudar seu estilo de vida. A revolução da saúde nunca vai acontecer por causa da descoberta de um remédio. A revolução vai acontecer quando as pessoas estiverem informadas do ponto de vista nutricional, para evitar as comidas que vão fazê-las perecer por uma doença”.
E encerra a sua entrevista com uma crítica pertinente: “O Brasil está destruindo a atmosfera e o mundo ao queimar as florestas que são ótimas para capturar o CO2. Por quê? Para produzir carne, que vai fazer as pessoas morrerem cedo e ter vidas miseráveis e infelizes. Se toda essa área for substituída por vegetais, é possível produzir muito mais. Vamos comer plantas, é para isso que fomos criados”.
Tive o trabalho de encaminhar esse material para as mais de 300 pessoas que compõem a minha lista de relacionamento e apenas três dessas pessoas (menos de 1%) se sensibilizaram ao apêlo.
Enfático, o meu amigo Alberto Felix, que mora em Osasco, assim respondeu: “Que merda! Nós vamos comer casca de pau e folha de mato e ser feliz? Uma porra! Eu quero churrasco, picanha, chambaril e mão de vaca (sem esquecer uma boa feijoada). Os naturebas podem ir para o partido de Marina e Sting!”
O músico e poeta Wagner Ortiz foi mais ponderado nas suas colocações: “Gostei, Clóvis. Venho tentando mudar minha alimentação nas últimas décadas, preferindo saladas, frutas, produtos orgânicos e integrais, mas é difícil deixar aquele bifinho suculento. É a cultura adquirida, nós aprendemos isso. Agora, temos que aprender a comer somente verduras!”
Ubiratan Souza, músico e compositor maranhense, mesmo não respondendo diretamente, teve o cuidado de repassá-lo para a sua lista de contatos.


Recife, 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Maníaco depressivo


MANÍACO DEPRESSIVO

Clóvis Campêlo

Fiz o que me pediram e desenhei a árvore.
Era um pé de jenipapo não muito frondoso, situado no sopé de um pequeno morro. Em um dos seus galhos, cantava um sabiá. Perto dali, passava um riacho de águas translúcidas, repleto de pequenos peixes que nadavam tranquilamente.
Na época em que desenhei a árvore, eu era apenas um rapaz de vinte e poucos anos. Mas, a lembrança se reportava ao tempo da minha infância, quando as férias escolares se dividiam entre temporadas nas praias e temporadas no engenho.
Eram lembranças pueris de um garoto assustado com seus próprios medos.
A casa grande do engenho ficava em cima de outra pequena colina, de frente para o nascente. Do seu grande terraço, podíamos observar a igrejinha, encimando a colina frontal. Por trás da igrejinha, onde os senhores da casa grande iam agradecer a Deus os privilégios que lhes foram por Ele concedidos, ficava um resto de mata atlântica, paraíso preservado e onde ainda podiam ser caçados pacas, cutias e outros pequenos bichos indefesos.
Por trás da casa grande, havia um pequeno jardim repleto de roseiras e pés de jasmins. À noite, aquele perfume suave e marcante invadia o quarto onde dormíamos o sono dos justos e dos injustos. Mais adiante, um pequeno rio, de onde derivava o riacho repleto de arenques, trazia, vez por outra, capivaras que eram caçadas e mantidas em cativeiro para engordarem e serem comidas.
Lembro também que havia um bode velho, um pai de chiqueiro, que, íntimo da casa e de todos, tinha a liberdade de passear livremente pela cozinha e pelo terraço.
Tudo parecia estar no seu devido lugar: o vento que balançava as palhas da cana-de-açúcar, o gado no curral, meu tio com o seu chapéu de cow-boy americano e a mesa farta, enorme e retangular, onde todos se reuniam três vezes ao dia para as refeições, e onde nós, crianças, escutávamos as histórias de Cumadre Fulorzinha e de outras entidades que alimentavam o imaginário da gente sofrida e conformada do campo.
Não imaginava que aquele quadro pintado na minha imaginação e que faria inveja a qualquer pintura de Debret, estava delineado o meu diagnóstico: síndrome maníaco depressiva.
Não podia imaginar que nas lembranças de um passado já tão digerido e catalogado, estaria retratada a minha incapacidade de situar-me no presente de forma feliz e adequada.
Aquela terra tinha árvores onde cantava o sabiá e o seu canto melancólico e melodioso para sempre estaria gravado na minha memória de menino assustado por seus próprios medos.

Recife, 2010

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mulher de plástico, homem de vidro


MULHER DE PLÁSTICO, HOMEM DE VIDRO!

Clóvis Campêlo

Amor é latifúndio, sexo é invasão.
Nem sempre a auto-crítica nos redime.
Nos textos e na vida.
Existem os erros de cálculo e os aparatos aparentes.
Não sou o que você queria que eu fosse.
Sou frágil, de vidro, refratário.
Nem mesmo sou o que eu queria que você pensasse que eu sou.
Sou o outro, o escondido, o antípoda de mim, o que nunca veio à tona.
Seu coração é de elástico, mulher fabricada em série, mulher de plástico.
Somos uma mistura heterogênea, impossível, inviável, concepção inconcebível.
Só mesmo a loucura da minha mente de vidro, transparente em suas piores intenções, poderia te ter criado.
Somos uma louca invenção, um amor impossível e ridículo como todos os grandes amores.
Você nunca existiu.
Eu sou um mito.

Recife, 2011

sábado, 15 de setembro de 2012

Submerso


SUBMERSO

Clóvis Campêlo

Aos teus pés aquietei-me
como um cão com frio
em busca de calor.
E sentindo-me ao mesmo
tempo preenchido
e vazio,
adormeci.
Acordei séculos depois
quando a neve do tempo
já clareava o alto
das montanhas
e os teus cabelos.
E no entanto,
não havia mais frio.
Olhei nos teus olhos
e tive a confirmação
de que neles estavam
todos os segredos
do mundo,
a pedra filosofal,
a negação do tempo
e do espaço.
Mais uma vez
a inquietude
levou-me a escalar
montanhas,
arriscar-me em íngremes
picos vermelhos,
navegar em rios
submersos em úmidas
cavernas.
A mim,
não mais interessava
a claridade do dia,
o verde das matas,
o azul dos céus.
Apenas queria
o silêncio e a quietude
do teu corpo.

Recife, 2010

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A maxambomba


A MAXAMBOMBA

Clóvis Campêlo

Segundo o pesquisador Neldson Marcolin, a maxambomba foi o primeiro sistema de transporte urbano sobre trilhos do Brasil, antecipando-se até mesmo aos bondes de burros.
Inaugurado em 1867, o serviço foi explorado pela firma inglesa Brazilian Street Railway Company Limited, após concessão dada pelo governo da Província.
Por essa época, ainda segundo o pesquisador citado, o Recife já era um importante centro financeiro e comercial. A implantação da maxambomba, uma corruptela da expressão inglesa machine pump (bomba mecânica), trouxe as condições necessárias para a impulsão do seu desenvolvimento.
Até os anos de1860, proliferava o uso de cavalos e carroças para se enfrentar os terrenos aladiços que compunham o cenário urbano recifense e se chegar a Olinda e aos povoados distantes que se formavam às margens dos rios. Por essa época, a população do Recife era de pouco mais de 75 mil habitantes. A implantação de uma ferrovia urbana percorrida pela pequena locomotiva e seus vagões de passageiros foi a solução encontrada.
De início, as locomotivas começaram puxando apenas três vagões, chegando, depois, a circularem com 17 carros. Até1890, cada carro transportava 28 passageiros, sendo desenvolvido posteriormente um novo modelo que levava o dobro de passageiros.
As máquinas eram importadas da Inglaterra, chegando a existir no Brasil daquela época 14 locomotivas.
Com 22 quilômetros de trilhos e 20 estações, a maxambomba circulou no Recife até 1914, quando foi substituída pelos bondes elétricos.
Segundo o historiador Leonardo Dantas Silva, a implantação da maxambomba na cidade estimulou a construção de pontes para dar passagem aos seus trilhos, como a ponte de ferro que foi feita, em 1884, ligando os bairros da Capunga e da Madalena, e que antecedeu a atual Ponte da Capunga.

Recife, 2009

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Mário Souto Maior


Fotografia de Clóvis Campêlo/1991

MÁRIO SOUTO MAIOR

Clóvis Campêlo

Nasceu no dia 14 de julho de 1920, na cidade de Bom Jardim, em Pernambuco.
Em 1945, foi nomeado prefeito da cidade de Orobó, no sertão pernambucano.
Em 1967, tornou-se assessor da diretoria executiva do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS), hoje Fundação Joaquim Nabuco. Em 1980, foi nomeado diretor do Centro de Estudos Folclóricos da Fundaj, cargo que exerceu até 1990. De 1991 a 2001, chefiou a Coordenadoria de Assuntos Folclóricos da entidade.
Pesquisador Emérito da Fundação Joaquim Nabuco foi poeta, contista, pesquisador e colaborador em diversos jornais e revistas especializadas do Brasil e do exterior, além de ter publicado dezenas de livros.
Em 1979, com o livro Folclore e Alimentação, ganhou o prêmio Sílvio Romero, do Ministério da Educação e Cultura.
Em 1989, com o mesmo livro, ganhou o Gran-Prêmio Iberoamericano Augusto Cortazar, instituído pelo Fondo Nacional de las Artes, do Ministério de la Educación y Justicia, da Argentina.
Faleceu no Recife, no dia 25 de novembro de 2001.


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Melancolia


Fotografia de Clóvis Campêlo/2008

MELANCOLIA

Clóvis Campêlo

Já não existem mansardas,
apenas o vulto de um alto
edifício
a olhar a cidade que cresce
vertical.
Vertiginoso, aos seus pés,
um rio persegue caudaloso
o tempo incessante.
Uma tristeza feita de pedras
me invade.
Solidifico-me e concebo
mais um poema
ausente de equilíbrio,
repleto de sangue
e signos.

Recife, 1991

sábado, 25 de agosto de 2012

O último sonho


Clóvis Campêlo/1991

O ÚLTIMO SONHO

Clóvis Campêlo

Uma casa à beira-mar tem sido o meu último sonho. Uma casa simples e rústica onde poderíamos escutar a música dos ventos e os murmúrios do mar.
Nas noites de verão, conversaríamos com as estrelas enquanto a brisa marinha nos acariciaria as faces. Deslumbraríamo-nos com o balé dos coqueiros, projetados no chão pela luz de prata do luar, e deixaríamos o olhar se perder horizonte à dentro, a procura de um sinal, um vulto, navios fantasmas ou algum pescador solitário em busca do caminho de casa.
Nos levantaríamos, pela manhã, e saudaríamos o sol, que nos aquece e alimenta de energia, todos os dias, na sua incansável rotina da criação. Observaríamos a alegria se espalhando pelo verde do mar e pelo azul celeste e distinguiríamos todos os raios, um a um, assim como todas as nuvens. Caminharíamos pela praia e deixaríamos que o mar nos lavasse os pés, enquanto o sol se derramaria sobre as nossas costas e cabeças. Seríamos capazes de percebermos os mínimos movimentos, as mais sútis reações se processando no nosso corpo, na nossa pele, cabeça, no movimento das águas, dos ventos e entenderíamos que tudo isso é a vida fluindo, oferecendo-se e, ao mesmo tempo, escorregando entre os dedos. Entraríamos na água, qual viagem de retorno ao ventre da Mãe Natureza e nos deixaríamos purificar pelo sal do Senhor, todas as moléculas, todos os cristais em sintonia com o fluxo sanguíneo, dois oceanos vibrando na mesma frequência, na mais completa harmonia.
À tarde, colheríamos conchas nas areias mornas e escutaríamos histórias contadas por velhos pescadores.
E quando o inverno chegasse desbotando todas as cores e tornando tudo cinzento, escutaríamos o barulho da chuva no telhado e observaríamos a dança dos pingos sobre a areia, saciando a sede da terra e completando o ciclo das águas.
Os nossos olhares seriam mais brandos, a nossa mesa seria a mais simples e natural, dos nossos corpos magros emanaria um sentimento de paz e compreensão, e as nossas tireóides, com certeza, funcionariam um pouco mais devagar.

Recife, 1986

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Chuvas de agosto


CHUVAS DE AGOSTO

Clóvis Campêlo

Para nós, recifenses, inverno é sempre sinônimo de chuva. E o Recife, cidade já tão privilegiada no seu convívio com as águas, torna-se ainda mais úmida. Particularmente, nunca gostei desse tempo de chuva, embora o saiba necessário. É tudo frio e úmido ao deitar e tudo frio e úmido ao levantar.
Há quem diga que nós, recifenses, na realidade, não sabemos o que seja o frio. Podem ter razão. Mas, para nós, acostumados a uma temperatura média de 26º graus, tudo o que não seja calor será frio. E o frio é a negação do azul intenso da qual a cidade se reveste no verão. É a negação dos nossos verdes mares e da nossa morenidade curtida sob o sol da alta estação. Sob a chuva, no inverno, o Recife perde as suas cores e a sua alegria. Torna-se cinzenta, plúmbea, depressiva.
E eu, que nunca me deixei seduzir pelo sentimento do mundo e me sinto como um coqueiro encravado nas areias mornas da cidade, necessito do sol, do sal, do azul do céu para oxigenar as células e elaborar a fotossíntese da vida. O inverno chuvoso do Recife me deprime.
No calendário da minha infância, vivida na praia do Pina, agosto sempre foi o mês do ventos. Era em agosto que a chuvas começavam a declinar, levadas pelos ventos intensos do mês. Era o período de empinar papagaios e pipas nas areias ainda úmidas da praia, aguardando a chegada do verão em setembro. Naquele tempo, agosto era o mês da transição, que ainda sofria com o desbotamento invernoso. Agosto ia se colorindo aos poucos.
E quando setembro chegava, retornavam a alegria, todas as cores, todas as vozes, todos os movimentos. Restaurava-se definitivamente o verão, o calor. Setembro nos trazia a praia e a vida de volta.
Hoje, agosto ainda é chuva e falta de cores. Dizem que isso se deve ao aquecimento das águas do Oceano Atlântico, ao fenômeno do El Niño. Podem ter razão. Afinal, tudo muda ao longo do tempo e que sou eu para duvidar da sabedoria dos homens da ciência.
Dou-me ao direito, porém, como criança que fui, de discordar desse menino levado que teima em jogar para os céus as águas salgadas do oceano e fazer com que as chuvas se prolonguem além do necessário.
Não sabe ele que setembro se aproxima e que nós, recifenses, ansiamos pelo retorno do verão com a sua alegria, suas cores, vozes, movimentos?
Não sabe que ele que precisamos do sol, do sal e do azul do céu para elaborarmos a fotossíntese da vida?
Que venha setembro, restaurando a rotina do verão e trazendo o sol de volta!
O povo tropical do Recife agradece!

sábado, 18 de agosto de 2012

Artesanato de Olinda


ARTESANATO DE OLINDA
Olinda, 2011
Fotografia de Clóvis Campêlo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Francisco Julião



Fotos: Clóvis Campêlo/1992

FRANCISCO JULIÃO

Clóvis Campêlo

"Operário sem pão / camponês sem terra / panela vazia / tambor de revolução. / Viva a reforma agrária radical / com Francisco Julião."

Estes são versos de uma antiga canção lembrada pelo povo do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, cidade pernambucana que se tornou símbolo da luta pela terra no Brasil.
Mas, afinal, em poucas palavras, quem foi esse homem que nasceu em 1915, na cidade de Bom Jardim, no Agreste pernambucano, transitou com desenvoltura pelos engenhos e usinas úmidos da Zona da Mata do Estado e foi morrer, em 1999, na pequena cidade de Cuernavaca, no México?
Julião nasceu numa tradicional família de proprietários de terra. Estudou na Faculdade de Direito do Recife, graduando-se em 1939. Foi professor, diretor de colégio e escreveu um livro, Cachaça, antes de se eleger deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, em 1954. Neste mesmo ano, atendendo a um convite dos camponeses do Engenho Galiléia, tornou-se advogado das Ligas Camponesas, ajudando o movimento a se ampliar e se consolidar, segundo ele, sempre dentro da lei e da ordem.
Em 1962, após dois mandatos como deputado estadual pelo PSB, foi eleito deputado federal pelo mesmo partido. Em 1964, com o golpe militar e a instalação da ditadura no país, foi cassado, indo se asilar no México, onde ficou até 1979.
Com a anistia política, voltou ao Brasil e se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) do amigo Leonel Bizola. Em 1988, ainda tentou ser eleito deputado federal pelo PDT, sendo derrotado. Em 1997, retornou mais uma vez ao México com a intenção de escrever suas memórias. Morreu de enfarte, em Cuernavaca, no dia 10 de julho de 1999.
Segundo Julião, a primeira Liga foi a do Engenho Galiléia, fundada em 1º de janeiro de 1955 e que se chamava Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco.
Ainda segundo ele, o nascimento da Liga coincidiu com a chegada de Juscelino Kubitschec ao poder, com suas propostas desenvolvimentista criando uma euforia na burguesia nacional para quebrar os latifúndios e criar indústrias de transformação, o que favoreceu ao movimento pela reforma agrária.
Ironicamente, as Ligas começaram a perder força a partir de 1962, depois que presidente João Goulart decretou a sindicalização rural, até então inexistente no Brasil, no I Congresso Camponês de Minas Gerais.
Foi esse homem fantástico, que conviveu lado a lado com os grandes protagonistas da história mundial no século XX, como Fidel Castro e Che Guevara, e que chegou a causar preocupações ao homem mais poderoso do planeta na época, o presidente americano John Kenedy, que tive a honra de fotografar em 1992, no apartamento de um dos seus filhos, no bairro de Santo Amaro, no Recife, para o projeto "Escritores Pernambucanos Contemporâneos", do Grupo 3.
Ao meu lado, estava o escritor José Rodrigues Correia Filho, que fez a entrevista enquanto eu fotografava Julião.
Um homem simples, cordial, discreto e atencioso, com uma certa expressão de cansaço nos olhos, mas sempre com um sorriso franco nos lábios.
Como escritor, além de "Cachaça", seu primeiro livro editado em 1951, Francisco Julião escreveu "Irmão Juazeiro", em 1961; "O Que São As Ligas Camponesas", em 1962; "Até Quarta, Isabela", em 1965; "Cambão, a Cara Oculta do Brasil", em 1968, e "Escuta, Camponês".
Durante o tempo em que esteve preso, foi companheiro de cela de Miguel Arraes, na Fortaleza de Laje, no Rio de Janeiro, e juntos traduziram o livro "A Politização das Massas Através da Propaganda Política", do russo Sergei Tchakotine.

Recife, 2008


sábado, 11 de agosto de 2012

Choro eu e a guitarra


CHORO EU E A GUITARRA

Clóvis Campêlo

Choro eu e a guitarra,
neste solene momento,
onde a lembrança esbarra
em suaves movimentos

de um tempo que não para
e que não tem lenimento;
de uma dor que se escancara
e não esconde o tormento

do que ficou para trás,
perdido no pensamento;
do que não volta jamais,

perdido no encantamento
do que antes era paz
e se tornou sofrimento.


Recife, 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

Gildo Branco


"Frevo", de Lula Cardoso Ayres

GILDO BRANCO

Clóvis Campêlo

Pernambucano, compositor de frevos, nascido em uma família de flautistas amadores, seu nome de batismo era Astrogildo Américo Branco Filho.
Era irmão de Aline Branco, cantora que fez nome na Rádio Clube de Pernambuco na década de 1930.
Até 1939, trabalhou como comerciário na Livraria Universal.
Em 1946, ingressou no Clube Português do Recife como escriturário, passando mais tarde a supervisor. Foi no Clube Português onde conheceu o maestro Nélson Ferreira, que o lançaria como compositor.
Em 1960, teve uma música gravada pela primeira vez. A cantora Voleide Dantas gravou o frevo-canção Periquito bateu asas, feito em parceria com Sebastião Rosendo. Em 1961, Raimundo Santos gravou frevo-canção Gulosa. A partir daí, os seus frevos passaram a ser sucesso em todos os carnavais recifenses.
Em 1962, Evaldo França gravou A lua disse, cuja letra transcrevemos abaixo e que foi o ganhador do concurso de músicas de carnaval instituído pela Prefeitura do Recife.
Em 1964, voltou a ganhar a primeira colocação no concurso da Prefeitura coma música Amor de marinheiro, cantada por Penha Maria.
Em 1966, emplacou mais um sucesso com a música Cochilou, o cachimbo cai, gravada por Germano Batista.
Inúmeros sucessos seus fizeram partes dos carnavais posteriores, como Você está sozinha (1969), feita em parceria com Valdemar de Oliveira e gravada por Expedito Baracho; Levante o dedo (1970), em parceria com Aldemar Paiva e gravada pelo Coral RCA; Pertinho dela (1971), também gravada por Expedito Baracho e mais uma vez vencedora do concurso instituído pela Prefeitura do Recife; O frevo é de Pernambuco (1974), gravada por Claudionor Germano e também vencedora do concurso de músicas carnavalescas daquele ano. Inúmeros outros frevos-canções seus fizeram sucesso, como Os direitos são iguais, Como vai de amor, Olinda do meu coração e Passei no vestibular.
Como compositor de frevos-canções, foi um cronista que registrou os fatos, costumes, e acontecimentos da sua época.

A LUA DISSE

(Gildo Branco)

Gagarin subiu, subiu, subiu,
foi até ao espaço sideral,
chegou perto da lua e sorriu:
"Vou embora pro Brasil
que o negócio é carnaval".

A lua disse:
"Não vá demore mais,
pois ouvi que lá na Terra
querem me passar
pra trás".

Mas o Gagarin não ligou
e deu no pé:
"Vou mesmo pro Brasil,
eu quero é conhecer Pelé".

Recife, 2009

terça-feira, 31 de julho de 2012

O maior livreiro do Brasil


Melquisedec e João Câmara na Praça do Sebo
Fotografia de Clóvis Campêlo/1991 

O MAIOR LIVREIRO DO BRASIL

Clóvis Campêlo

Quem com ele troca idéias e palavras, fica com a certeza de que se trata de uma pessoa racional e atenta aos conceitos do mundo moderno. Para consolidar essa impressão, define-se como "um homem de esquerda", que cita Marx e Lennin nas suas falações.
No seu box, na Praça do Sebo, porém, mantém um eclético santuário onde convivem, em perfeita harmonia, as imagens de Padre Cícero, N. Sª. Aparecida, Exu Tranca-Rua, Pomba-Gira e do Cabloco Pena Branca, entre outros. Um pouco de fé mística, afinal, não faz mal a ninguém.
Grande conhecer da música brasileira das décadas de 40 e 50, também navega com certa desenvoltura pelas águas da Bossa Nova e do Tropicalismo. Em relação à música pernambucana, prefere Nélson Ferreira à Capiba e faz críticas moderadas ao Movimento Mangue, sem nenhum xenofobismo, "pelo excesso de anglicismos".
Crítico pertinaz da falta de sensibilidade dos orgãos oficiais de cultura, está sempre cercado de bonitas secretárias e ultimamente adotou a fotografia como passatempo.
Foi com essa figura ímpar, chamada Melquisedec Pastor do Nascimento, o maior livreiro do Brasil, que iniciamos uma série de depoimentos para o fanzine Pipoca Moderna.

A ORIGEM

"Sou recifense, nascido dentro dos mangues do bairro dos Afogados, no dia 3 de janeiro de 1921. Minha instrução começou numa Escola Particular Mixta, onde me desasnei aprendendo a ler na Carta de ABC de Landelino Rocha. Eis aí todo o meu currículo escolar. Extremamente pobre, minha mãe, que me criou sozinha, dizia: "Entre estudar e trabalhar, não podendo fazer os dois, trabalhe-se!". Passei a trabalhar e a estudar na escola da vida".

A PROFISSÃO

"Habituei-me a ler lendo folhetos de feira, almanaques de farmácia e jornais, estes motivado pelo retrato da vítima. Depois revistas, depois livros. A cutiosidade por esses, levou-me ao sebo do negro Manoel Berlamino da Silva, o qual me iniciou na profissão, levando-me a vir a ser o maior livreiro do Brasil. O meu reconhecimento da importância do comércio de livros usados e a minha dedicação a ele, deram-me esse laurel. Considero minha profissão a mais digna de todas as profissões".

OS PROBLEMAS

"Os poderes públicos têm coisas mais nobres com que se preocuparem... Os sebistas do Recife transbordaram da Praça do Sebo e espalharam-se pelo centro da cidade, vivendo como Deus é servido... Como sebistas, alfarrabistas, antiquários ou libervelheiros o que é positivo é dignamente semear livros. Efetivamente, apenas o Dr. Gustavo Krause foi sensível ao comércio de livros usados aqui no Recife, agrupando os sebistas no Mercado de Livros Usados. Os poderes públicos não são sensíveis à problemática da educação, sequer..."

IDEOLOGIA

Sensível à questão social desumana, tornei-me um homem de esquerda, a única pauta para julgar a conduta humana, verificar se contribue ou se opõe à causa do socialismo".

A SITUAÇÃO DO PAÍS

"A situação política e cultural do país despenca e não vejo nada que esteja se fazendo para ampará-la. A solução seria criar escolas primárias para oferecer instruções sobre patriotismo. E que os dirigentes criassem vergonha na cara."

A PRAÇA DO SEBO

"A Praça do Sebo ou corretamente o Mercado de Livros Usados do Recife, foi o movimento mais promissor para a cultura que se fez nesta cidade. Reuniu-se em local digno sebistas precariamente instalados aqui e ali. Eram pequenos comerciantes que, mais ou menos, contribuíam para a continuação desse comércio, então um tanto estagnado. Contamos com a iniciativa e o apoio de Liêdo Maranhão, Francisco Balthar Peixoto, Paulo Roberto de Barros e Silva e Edson Wanderley, entre outros, simpáticos a esse comércio cultural. O então prefeito Gustavo Krause determinou a construção. Foi feito um convênio entre os sebistas e a Prefeitura. Infelizmente as administrações Jarbas Vasconcelos encarregaram-se de não cumpri-lo. Hoje, a situação da Praça do Sebo é deprimente para a educação e a cultura recifenses. A solução seria a Prefeitura cumprir as exigências que lhe impõe o convênio estabelecido por ela mesmo para o funcionamento do Mercado de Livros Usados do Recife".

MENSAGEM FINAL

"Para finalizar, uma mensagem aos leitores pipoqueiros: é preciso ler, é preciso ir aos sebos, santuários de raridades bibliográficas a preço de sebo. Além do mais, é preciso entender que o conceito ideal de cultura é personalizar o indivíduo, desenvolver o raciocínio e a imaginação. Integrá-lo na educação e na cultura, refinar-lhe o espírito. Prepará-lo para a vida".

Recife, 1997

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Nostalgias da casa grande e da senzala



NOSTALGIAS DA CASA GRANDE E DA SENZALA

Clóvis Campêlo

Não é só o petróleo que é nosso. A dívida e a dúvida também. Até hoje eu me pergunto se sou credor ou devedor à história. Não só pelo que fiz, mas também pelo que deixei de fazer. Um dia, ainda tiro esse peso dos ombros, deixo de racionalizar o pensamento e trato de ser feliz. Somente isso.
Não gosto de pensar em bloco, embora toda a (des)educação que tive, ao longo da vida, leve-me a isso. Nadar contra a corrente, sempre, não é fácil. E não é só para se exercitar. É mesmo uma questão de sobrevivência, de exercício da liberdade (se é que ela existe).
Meu avô paterno era um preto metido a besta. Casou com uma mulher branca descendente de portugueses, ficou rico, foi vereador em Jaboatão dos Guararapes e contrariou todas as regras sociais do seu tempo. Um atrevido que me deixou imerso em dúvida imensa.
Pelo lado materno, sou descendentes de portugueses e espanhóis que, por seu lado, tiveram origens sarracenas. Fizeram parte das classes produtoras rurais pernambucanas, decaíram e hoje vivem, a grande maioria, numa pobreza franciscana.
Eu, para complicar ainda mais a história, completamete desorientado, casei-me com uma índia maranhense de hábitos e costumes diferenciados.
Como podem ver, um tremendo angú de caroço. Não sei se sou branco, negro ou mestiço. E meus filhos? E meu neto, um galego transgressor?
Onde diabo vamos parar?

Recife, 2010


sexta-feira, 20 de julho de 2012

No dia em que eu vim ao mundo


NO DIA EM QUE EU VIM AO MUNDO

Clóvis Campêlo

No dia em que eu vim ao mundo,
não houve nada de novo.
Fez-se a luz em um segundo
e logo juntei-me ao povo

que por aqui habitava.
Livre do colo materno,
nem mesmo eu mais lembrava
que tudo ali era eterno.

Talvez tenha visto o brilho
de uma estrela distante,
mas eu queria era o trilho
do meu caminhar errante.

Um estribilho inventei,
que a vida é sopro e leveza,
e repetir-se é a lei
que comanda a Natureza.

No dia em que eu vim a Terra,
não teve nada de mais;
não se acabaram as guerras,
nem inventaram a paz.

Recife, 2011

terça-feira, 10 de julho de 2012

Entre anjos e demônios


ENTRE ANJOS E DEMÔNIOS

Clóvis Campêlo

Que cada um cuide bem dos seus demônios.
Eu também tenho os meus e os trato a pão-de-ló.
São eles que me ressuscitam para vida quando me sinto sufocado e anestesiado pelos sons celestiais dos anjos que se vendem a prestação em cada esquina da cidade.
Que cada um cuide bem dos seus demônios.
Aproveitem enquanto ainda estão marginalizados e não se tornaram produtos rentáveis explorados pela sociedade de consumo.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, pois sem eles seríamos metade, incompletos e não beberíamos na fonte rejuvenescedora da maldade.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, explorem a sua permissividade, a sua falta de pudor, de ética, de moral, pois sem eles jamais saberíamos os limites entre o certo e o errado.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, pois sem eles morreríamos de tédio, esqueceríamos os prazeres mundanos, desconheceríamos o lado impuro e podre de cada um de nós.

Recife, 2009

- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 45.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pra não dizer que não falei do amor



PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR

Clóvis Campêlo

Pra não dizer que não falei do amor
despojei-me de qualquer medida,
encarei sem receio a própria vida,
sanei no verso torto toda dor;

busquei lembrar do brilho dos teus olhos,
do toque morno da língua em tua boca,
do teu corpo úmido, nú, sem roupa,
do teu regaço onde me recolho;

joguei por terra a vã filosofia,
transformei profundo abismo em ponte,
fiz do firmamento novo horizonte,
transpus em noite quente a tarde fria.

Pra não dizer que não falei do amor.

Recife, 2007

sábado, 30 de junho de 2012

Angústia: aspectos conteudísticos e formais



ANGÚSTIA: ASPECTOS CONTEUDÍSTICOS E FORMAIS

Clóvis Campêlo

Embora tenha sido um homem de posições políticas bem definidas, Graciliano Ramos em nenhum momento da sua vida literária transformou as obras de ficção por ele escritas em manifestos panfletários.
Tal atitude, no entanto, não impede aos leitores de visualizar, por trás desse aparente despojamento, o contexto social e político não explicitado onde as histórias se dão.
Se, no aspecto conteudístico, os romances do escritor alagoano aproximam-se das características regionalistas que alimentaram uma boa parte dos autores da sua geração, no aspecto estrutural, ao se submeterem a certos procedimentos técnicos, aproximam-se também da corrente subjetivista que marcou a nossa ficção a partir do Modernismo.
Nesse sentido, Angústia é, em suas obras, a que melhor reflete essa feliz síntese entre as duas tendências que caracterizaram a nossa moderna ficção, o que faz do texto de Graciliano algo ao mesmo tempo local e cosmopolita.
Partamos, porém, para o texto em busca dos elementos que justifiquem estas afirmações iniciais e que sirvam para pautar a nossa análise.
Narrador protagonista, é através de Luís da Silva que o universo do romance para nós se desvenda. Do mesmo modo, todos os outros personagens nos são mostrados sob a ótica parcial e distorcida do narrador, o que levou o crítico Álvaro Lins a afirmar que Marina e Julião Tavares existem apenas para que o protagonista se atormente e cometa o seu crime.
Homem solitário, Luís da Silva tem na infância as raízes da sua solidão. Descendente de uma família aristocrática rural em decadência, cujos dias de glória não alcançou, sofre na pele as conseqüências dessa derrocada. Perdida a fazenda, após a morte do avô, parte com o pai para a vila onde este se estabelece como comerciante. Após a morte do pai, ainda adolescente, vê os credores se apossarem do pequeno patrimônio de que a família ainda era possuidora. A essa altura do relato já algumas particularidades nos chamam a atenção: a ausência total de referências à figura materna do protagonista e a visão crítica do protagonista em relação às figuras do avô e do pai. Ora, sabemos, de acordo com os pressupostos freudianos, onde bebeu a corrente subjetivista e introspectiva da nossa ficção moderna, que na construção do arcabouço psicológico do indivíduo, a infância, notadamente a primeira infância, constitui-se em período de grande importância, onde as figuras dos pais compõem os primeiros referenciais. Por outro lado, esse é um mundo em suposto equilíbrio e segurança. Não é isso, no entanto, o que se passa com Luís da Silva e que irá marcá-lo de maneira definitiva.
A busca da cidade grande é a solução encontrada pelo protagonista para empreender a luta pela sobrevivência. Sociologicamente, tal movimento – da zona rural para o perímetro urbano de um grande centro, da aristocracia agrária decadente para a classe média metropolitana – mostra um deslocamento do centro do poder econômico de uma classe para outra, de um espaço social para outro e reflete o momento de transformação por que passava o nosso país no primeiro quarto do século XX. A derrocada da aristocracia rural açucareira corresponde à ascensão da burguesia urbana mercantil da qual Julião Tavares é o lídimo representante. Podemos considerar que aí se encontra um dos aspectos da aversão sentida pelo protagonista em relação a este último, muito embora esse processo de transferência se dê de maneira inconsciente.
Se, do ponto de vista sociológico, Julião Tavares representa a burguesia dominante e bem sucedida, existe um outro personagem, “seu” Ivo, que representa o lupem-proletariado, a escória humana produzida por uma sociedade dividida em classes. Situando-se em um pólo oposto ao de Julião Tavares, “seu” Ivo também difere de Luís da Silva por não pertencer ao mesmo segmento social - a classe média. Daí não causar nenhum estorvo ao protagonista que sabe ter sobre ele uma certa ascendência (“Um sujeito inútil, sujo, descontente, remendado, faminto”). Apático, vivendo de favores e de pequenos furtos, é através dele que o instrumento do crime – um pedaço de corda – chega às mãos do narrador. Fica latente, desse modo, no assassinato de Julião Tavares, a existência de todo um simbolismo de justiça social que transcende a visão esquizofrênica e restritiva do narrador para mostra-se ao leitor mais atento.
Por outro lado, nas lembranças de Luís da Silva estão “seu” Evaristo e Cirilo de Engrácia, personagens da sua infância, ambos enforcados e vítimas de uma estrutura social implacável. Do mesmo modo, os homens que o menino Luís via indo para a prisão também estavam amarrados com cordas. Assim, tanto no passado quanto no presente, a justiça se faz com cordas. A idéia de estrangular Julião Tavares passa-lhe pela cabeça ao perceber o seu envolvimento com Marina (“Empurrei a porta brutalmente, o coração estalando de raiva, e fiquei em pé diante de Julião Tavares, sentindo um desejo enorme de apertar-lhe as goelas”). Consideremos também que o narrador, no estado esquizóide em que vive, apresenta impulsos compulsivos (“Lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Preciso de muita água e sabão”).
Ora, o presente de “seu” Ivo, que o narrador passa a levar consigo no bolso das calças, somado à revolta crescente contra Julião Tavares, principalmente após a descoberta da gravidez de Marina, vão fazendo com que a idéia do assassinato se consolide em seu pensamento. A morte de Julião Tavares, no entanto, não será apenas um ato impensado. Será também, como vimos anteriormente, uma atitude de justiça social na concepção equivocada do narrador. A ausência de sentimentos de culpa, após a realização do crime, dá-nos essa confirmação.
Voltemos, porém, para Julião Tavares. É interessante observarmos pela descrição que dele faz Luís da Silva (“Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor”) que Julião Tavares lhe é justamente o oposto, tanto do ponto de vista físico quanto psicológico. Em relação aos personagens, aliás, cabe observamos que, sob a ótica de Luís da Silva, demonstram sempre aspectos negativos. Emocionalmente são todos desajustados, vivendo uma vida que não é celebrada. Embora Julião Tavares fisicamente não fuja a essa caracterização, psicologicamente diverge dos demais. É o único que se lança à vida com a disposição de vivê-la e de a usufruir, talvez respaldado pela sua condição de burguês bem sucedido. Filho de família rica, reacionário e católico, Julião de imediato ganha a antipatia do protagonista que, admirador de idéias revolucionárias, autodefine-se como “um molambo que a cidade puiu demais e sujou”. Nessa tensão entre o real e o imaginário, alimenta-se o processo neurótico do narrador e seria absolutamente simplório atribuirmos aos ciúmes de Luís da Silva o assassinato de Julião Tavares. Nesse ato compulsivo (Lembremo-nos que no capítulo inicial o protagonista diz que dinheiro e propriedade são coisas que lhe despertam sentimentos de mortandade e destruição), ao matar Julião Tavares estrangulado o narrador simbolicamente tenta destruir um mundo que lhe é hostil e insatisfatório, responsável pelo seu sofrimento e pelo sofrimento de diversas outras pessoas (Marina, dona Adélia, “seu” Ivo, as prostitutas da Rua da Lama, etc.) e que é representado por Julião Tavares. Procura um equilíbrio que supõe haver existido anteriormente, embora não possamos localizá-lo em suas recordações. O que o leva ao desespero, entretanto, é perceber que após o ato criminoso o mundo continua o mesmo, havendo sido inútil o seu gesto. Restar-lhe-ia, então, o suicídio como última forma de contestação, o que não ocorre, ao menos no tempo da narrativa, embora chegue a ser considerado pelo personagem (“Uma viagem, embriaguez, suicídio...”). Nesse complexo jogo de forças, portanto, a sedução de Marina por Julião Tavares teria sido apenas o último ingrediente a catalisar o desfecho fatal.
Voltado para dentro de si mesmo, recriando o mundo externo a partir das suas sensações, Luís da Silva faz da sua narrativa um texto introspectivo. Não é o mundo visto o que o leva a ter tal concepção cósmica, mas sim o que imagina ter visto. São sentimentos complexos e fora do comum que o levam a afastar-se da realidade até desaguar no mais completo delírio. Como bem observou o crítico Álvaro Lins, Luís da Silva vive da sua memória e da sua imaginação. A memória, aliás, chega a ser retocada pela imaginação como o próprio personagem admite (“Saíram do entorpecimento recordações que a imaginação completou”). A necessidade de reorganizar esse mundo interior, da qual o narrador em vários momentos tem consciência, leva-o a se distanciar cada vez mais da realidade que, contraditoriamente, deveria ser tomada como referência. Mas como aceitá-la se a ela o narrador atribui os seus sofrimentos? É desse emaranhado de sentimentos introspectivos (negação do presente, retorno ao passado, uso da imaginação) que nasce a força da narrativa.
No que se refere aos aspectos formais, ao utilizar-se da narração na primeira pessoa, com um narrador protagonista (autodiegético), o autor repete um artifício já utilizado em Caetés e São Bernardo, os dois romances que antecedem Angústia. Difere este do primeiro, no entanto, pela abstração temporal e pela utilização constante do espaço não-dimensional, onde se dão as recordações e os delírios de Luís da Silva. Se em Caetés temos uma utilização mais convencional dos elementos tempo e espaço, o que o leva a ser considerado por vários críticos como um romance fraco e sem grandes pretensões, em Angústia tais elementos são diluídos levando o leitor a se perder, em vários momentos, entregue aos pensamentos desconexos do protagonista. Conseqüentemente, diferindo da maioria dos autores da Geração de 30 que buscaram nos elementos externos aos personagens os fatores antagônicos fortalecedores da narrativa, Graciliano Ramos, tanto em São Bernardo quanto em Angústia, situa a tensão do texto no conflito interior vivido pelo narrador. Nesse sentido, Luís da Silva é um personagem dinâmico que evolui vertiginosamente em direção ao seu destino, forçando o autor a ter um tratamento mais estático em relação aos demais personagens.
No que tange ao foco narrativo (a posição tomada pelo narrador para contar a história), se na tríade inicial – Caetés, São Bernardo e Angústia – temos narradores protagonistas, mas de focalização externa (em relação aos demais personagens, já que a narração é na primeira pessoa), restritiva e fixa, em Vidas Secas temos um narrador que não participa como agente da história narrada, mas que apresenta uma focalização interna, onisciente e variável, o que nos leva a supor que, esgotados nos primeiros romances os processos de narração autodiegética, voltava-se o escritor para a narrativa ficcional na terceira pessoa e para as obras memorialistas em busca de novas formas de expressão.
Nesse sentido, se Angústia, conforme o parecer de Alfredo Bosi, “foi a experiência mais moderna, e até certo ponto marginal, de Graciliano”, não é de se estranhar que, após atingir tal limiar, estabelecesse o autor a necessidade de explorar novas estruturas.


Recife, 1993