quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Melancolia


Fotografia de Clóvis Campêlo/2008

MELANCOLIA

Clóvis Campêlo

Já não existem mansardas,
apenas o vulto de um alto
edifício
a olhar a cidade que cresce
vertical.
Vertiginoso, aos seus pés,
um rio persegue caudaloso
o tempo incessante.
Uma tristeza feita de pedras
me invade.
Solidifico-me e concebo
mais um poema
ausente de equilíbrio,
repleto de sangue
e signos.

Recife, 1991

sábado, 25 de agosto de 2012

O último sonho


Clóvis Campêlo/1991

O ÚLTIMO SONHO

Clóvis Campêlo

Uma casa à beira-mar tem sido o meu último sonho. Uma casa simples e rústica onde poderíamos escutar a música dos ventos e os murmúrios do mar.
Nas noites de verão, conversaríamos com as estrelas enquanto a brisa marinha nos acariciaria as faces. Deslumbraríamo-nos com o balé dos coqueiros, projetados no chão pela luz de prata do luar, e deixaríamos o olhar se perder horizonte à dentro, a procura de um sinal, um vulto, navios fantasmas ou algum pescador solitário em busca do caminho de casa.
Nos levantaríamos, pela manhã, e saudaríamos o sol, que nos aquece e alimenta de energia, todos os dias, na sua incansável rotina da criação. Observaríamos a alegria se espalhando pelo verde do mar e pelo azul celeste e distinguiríamos todos os raios, um a um, assim como todas as nuvens. Caminharíamos pela praia e deixaríamos que o mar nos lavasse os pés, enquanto o sol se derramaria sobre as nossas costas e cabeças. Seríamos capazes de percebermos os mínimos movimentos, as mais sútis reações se processando no nosso corpo, na nossa pele, cabeça, no movimento das águas, dos ventos e entenderíamos que tudo isso é a vida fluindo, oferecendo-se e, ao mesmo tempo, escorregando entre os dedos. Entraríamos na água, qual viagem de retorno ao ventre da Mãe Natureza e nos deixaríamos purificar pelo sal do Senhor, todas as moléculas, todos os cristais em sintonia com o fluxo sanguíneo, dois oceanos vibrando na mesma frequência, na mais completa harmonia.
À tarde, colheríamos conchas nas areias mornas e escutaríamos histórias contadas por velhos pescadores.
E quando o inverno chegasse desbotando todas as cores e tornando tudo cinzento, escutaríamos o barulho da chuva no telhado e observaríamos a dança dos pingos sobre a areia, saciando a sede da terra e completando o ciclo das águas.
Os nossos olhares seriam mais brandos, a nossa mesa seria a mais simples e natural, dos nossos corpos magros emanaria um sentimento de paz e compreensão, e as nossas tireóides, com certeza, funcionariam um pouco mais devagar.

Recife, 1986

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Chuvas de agosto


CHUVAS DE AGOSTO

Clóvis Campêlo

Para nós, recifenses, inverno é sempre sinônimo de chuva. E o Recife, cidade já tão privilegiada no seu convívio com as águas, torna-se ainda mais úmida. Particularmente, nunca gostei desse tempo de chuva, embora o saiba necessário. É tudo frio e úmido ao deitar e tudo frio e úmido ao levantar.
Há quem diga que nós, recifenses, na realidade, não sabemos o que seja o frio. Podem ter razão. Mas, para nós, acostumados a uma temperatura média de 26º graus, tudo o que não seja calor será frio. E o frio é a negação do azul intenso da qual a cidade se reveste no verão. É a negação dos nossos verdes mares e da nossa morenidade curtida sob o sol da alta estação. Sob a chuva, no inverno, o Recife perde as suas cores e a sua alegria. Torna-se cinzenta, plúmbea, depressiva.
E eu, que nunca me deixei seduzir pelo sentimento do mundo e me sinto como um coqueiro encravado nas areias mornas da cidade, necessito do sol, do sal, do azul do céu para oxigenar as células e elaborar a fotossíntese da vida. O inverno chuvoso do Recife me deprime.
No calendário da minha infância, vivida na praia do Pina, agosto sempre foi o mês do ventos. Era em agosto que a chuvas começavam a declinar, levadas pelos ventos intensos do mês. Era o período de empinar papagaios e pipas nas areias ainda úmidas da praia, aguardando a chegada do verão em setembro. Naquele tempo, agosto era o mês da transição, que ainda sofria com o desbotamento invernoso. Agosto ia se colorindo aos poucos.
E quando setembro chegava, retornavam a alegria, todas as cores, todas as vozes, todos os movimentos. Restaurava-se definitivamente o verão, o calor. Setembro nos trazia a praia e a vida de volta.
Hoje, agosto ainda é chuva e falta de cores. Dizem que isso se deve ao aquecimento das águas do Oceano Atlântico, ao fenômeno do El Niño. Podem ter razão. Afinal, tudo muda ao longo do tempo e que sou eu para duvidar da sabedoria dos homens da ciência.
Dou-me ao direito, porém, como criança que fui, de discordar desse menino levado que teima em jogar para os céus as águas salgadas do oceano e fazer com que as chuvas se prolonguem além do necessário.
Não sabe ele que setembro se aproxima e que nós, recifenses, ansiamos pelo retorno do verão com a sua alegria, suas cores, vozes, movimentos?
Não sabe que ele que precisamos do sol, do sal e do azul do céu para elaborarmos a fotossíntese da vida?
Que venha setembro, restaurando a rotina do verão e trazendo o sol de volta!
O povo tropical do Recife agradece!

sábado, 18 de agosto de 2012

Artesanato de Olinda


ARTESANATO DE OLINDA
Olinda, 2011
Fotografia de Clóvis Campêlo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Francisco Julião



Fotos: Clóvis Campêlo/1992

FRANCISCO JULIÃO

Clóvis Campêlo

"Operário sem pão / camponês sem terra / panela vazia / tambor de revolução. / Viva a reforma agrária radical / com Francisco Julião."

Estes são versos de uma antiga canção lembrada pelo povo do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, cidade pernambucana que se tornou símbolo da luta pela terra no Brasil.
Mas, afinal, em poucas palavras, quem foi esse homem que nasceu em 1915, na cidade de Bom Jardim, no Agreste pernambucano, transitou com desenvoltura pelos engenhos e usinas úmidos da Zona da Mata do Estado e foi morrer, em 1999, na pequena cidade de Cuernavaca, no México?
Julião nasceu numa tradicional família de proprietários de terra. Estudou na Faculdade de Direito do Recife, graduando-se em 1939. Foi professor, diretor de colégio e escreveu um livro, Cachaça, antes de se eleger deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, em 1954. Neste mesmo ano, atendendo a um convite dos camponeses do Engenho Galiléia, tornou-se advogado das Ligas Camponesas, ajudando o movimento a se ampliar e se consolidar, segundo ele, sempre dentro da lei e da ordem.
Em 1962, após dois mandatos como deputado estadual pelo PSB, foi eleito deputado federal pelo mesmo partido. Em 1964, com o golpe militar e a instalação da ditadura no país, foi cassado, indo se asilar no México, onde ficou até 1979.
Com a anistia política, voltou ao Brasil e se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) do amigo Leonel Bizola. Em 1988, ainda tentou ser eleito deputado federal pelo PDT, sendo derrotado. Em 1997, retornou mais uma vez ao México com a intenção de escrever suas memórias. Morreu de enfarte, em Cuernavaca, no dia 10 de julho de 1999.
Segundo Julião, a primeira Liga foi a do Engenho Galiléia, fundada em 1º de janeiro de 1955 e que se chamava Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco.
Ainda segundo ele, o nascimento da Liga coincidiu com a chegada de Juscelino Kubitschec ao poder, com suas propostas desenvolvimentista criando uma euforia na burguesia nacional para quebrar os latifúndios e criar indústrias de transformação, o que favoreceu ao movimento pela reforma agrária.
Ironicamente, as Ligas começaram a perder força a partir de 1962, depois que presidente João Goulart decretou a sindicalização rural, até então inexistente no Brasil, no I Congresso Camponês de Minas Gerais.
Foi esse homem fantástico, que conviveu lado a lado com os grandes protagonistas da história mundial no século XX, como Fidel Castro e Che Guevara, e que chegou a causar preocupações ao homem mais poderoso do planeta na época, o presidente americano John Kenedy, que tive a honra de fotografar em 1992, no apartamento de um dos seus filhos, no bairro de Santo Amaro, no Recife, para o projeto "Escritores Pernambucanos Contemporâneos", do Grupo 3.
Ao meu lado, estava o escritor José Rodrigues Correia Filho, que fez a entrevista enquanto eu fotografava Julião.
Um homem simples, cordial, discreto e atencioso, com uma certa expressão de cansaço nos olhos, mas sempre com um sorriso franco nos lábios.
Como escritor, além de "Cachaça", seu primeiro livro editado em 1951, Francisco Julião escreveu "Irmão Juazeiro", em 1961; "O Que São As Ligas Camponesas", em 1962; "Até Quarta, Isabela", em 1965; "Cambão, a Cara Oculta do Brasil", em 1968, e "Escuta, Camponês".
Durante o tempo em que esteve preso, foi companheiro de cela de Miguel Arraes, na Fortaleza de Laje, no Rio de Janeiro, e juntos traduziram o livro "A Politização das Massas Através da Propaganda Política", do russo Sergei Tchakotine.

Recife, 2008


sábado, 11 de agosto de 2012

Choro eu e a guitarra


CHORO EU E A GUITARRA

Clóvis Campêlo

Choro eu e a guitarra,
neste solene momento,
onde a lembrança esbarra
em suaves movimentos

de um tempo que não para
e que não tem lenimento;
de uma dor que se escancara
e não esconde o tormento

do que ficou para trás,
perdido no pensamento;
do que não volta jamais,

perdido no encantamento
do que antes era paz
e se tornou sofrimento.


Recife, 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

Gildo Branco


"Frevo", de Lula Cardoso Ayres

GILDO BRANCO

Clóvis Campêlo

Pernambucano, compositor de frevos, nascido em uma família de flautistas amadores, seu nome de batismo era Astrogildo Américo Branco Filho.
Era irmão de Aline Branco, cantora que fez nome na Rádio Clube de Pernambuco na década de 1930.
Até 1939, trabalhou como comerciário na Livraria Universal.
Em 1946, ingressou no Clube Português do Recife como escriturário, passando mais tarde a supervisor. Foi no Clube Português onde conheceu o maestro Nélson Ferreira, que o lançaria como compositor.
Em 1960, teve uma música gravada pela primeira vez. A cantora Voleide Dantas gravou o frevo-canção Periquito bateu asas, feito em parceria com Sebastião Rosendo. Em 1961, Raimundo Santos gravou frevo-canção Gulosa. A partir daí, os seus frevos passaram a ser sucesso em todos os carnavais recifenses.
Em 1962, Evaldo França gravou A lua disse, cuja letra transcrevemos abaixo e que foi o ganhador do concurso de músicas de carnaval instituído pela Prefeitura do Recife.
Em 1964, voltou a ganhar a primeira colocação no concurso da Prefeitura coma música Amor de marinheiro, cantada por Penha Maria.
Em 1966, emplacou mais um sucesso com a música Cochilou, o cachimbo cai, gravada por Germano Batista.
Inúmeros sucessos seus fizeram partes dos carnavais posteriores, como Você está sozinha (1969), feita em parceria com Valdemar de Oliveira e gravada por Expedito Baracho; Levante o dedo (1970), em parceria com Aldemar Paiva e gravada pelo Coral RCA; Pertinho dela (1971), também gravada por Expedito Baracho e mais uma vez vencedora do concurso instituído pela Prefeitura do Recife; O frevo é de Pernambuco (1974), gravada por Claudionor Germano e também vencedora do concurso de músicas carnavalescas daquele ano. Inúmeros outros frevos-canções seus fizeram sucesso, como Os direitos são iguais, Como vai de amor, Olinda do meu coração e Passei no vestibular.
Como compositor de frevos-canções, foi um cronista que registrou os fatos, costumes, e acontecimentos da sua época.

A LUA DISSE

(Gildo Branco)

Gagarin subiu, subiu, subiu,
foi até ao espaço sideral,
chegou perto da lua e sorriu:
"Vou embora pro Brasil
que o negócio é carnaval".

A lua disse:
"Não vá demore mais,
pois ouvi que lá na Terra
querem me passar
pra trás".

Mas o Gagarin não ligou
e deu no pé:
"Vou mesmo pro Brasil,
eu quero é conhecer Pelé".

Recife, 2009

terça-feira, 31 de julho de 2012

O maior livreiro do Brasil


Melquisedec e João Câmara na Praça do Sebo
Fotografia de Clóvis Campêlo/1991 

O MAIOR LIVREIRO DO BRASIL

Clóvis Campêlo

Quem com ele troca idéias e palavras, fica com a certeza de que se trata de uma pessoa racional e atenta aos conceitos do mundo moderno. Para consolidar essa impressão, define-se como "um homem de esquerda", que cita Marx e Lennin nas suas falações.
No seu box, na Praça do Sebo, porém, mantém um eclético santuário onde convivem, em perfeita harmonia, as imagens de Padre Cícero, N. Sª. Aparecida, Exu Tranca-Rua, Pomba-Gira e do Cabloco Pena Branca, entre outros. Um pouco de fé mística, afinal, não faz mal a ninguém.
Grande conhecer da música brasileira das décadas de 40 e 50, também navega com certa desenvoltura pelas águas da Bossa Nova e do Tropicalismo. Em relação à música pernambucana, prefere Nélson Ferreira à Capiba e faz críticas moderadas ao Movimento Mangue, sem nenhum xenofobismo, "pelo excesso de anglicismos".
Crítico pertinaz da falta de sensibilidade dos orgãos oficiais de cultura, está sempre cercado de bonitas secretárias e ultimamente adotou a fotografia como passatempo.
Foi com essa figura ímpar, chamada Melquisedec Pastor do Nascimento, o maior livreiro do Brasil, que iniciamos uma série de depoimentos para o fanzine Pipoca Moderna.

A ORIGEM

"Sou recifense, nascido dentro dos mangues do bairro dos Afogados, no dia 3 de janeiro de 1921. Minha instrução começou numa Escola Particular Mixta, onde me desasnei aprendendo a ler na Carta de ABC de Landelino Rocha. Eis aí todo o meu currículo escolar. Extremamente pobre, minha mãe, que me criou sozinha, dizia: "Entre estudar e trabalhar, não podendo fazer os dois, trabalhe-se!". Passei a trabalhar e a estudar na escola da vida".

A PROFISSÃO

"Habituei-me a ler lendo folhetos de feira, almanaques de farmácia e jornais, estes motivado pelo retrato da vítima. Depois revistas, depois livros. A cutiosidade por esses, levou-me ao sebo do negro Manoel Berlamino da Silva, o qual me iniciou na profissão, levando-me a vir a ser o maior livreiro do Brasil. O meu reconhecimento da importância do comércio de livros usados e a minha dedicação a ele, deram-me esse laurel. Considero minha profissão a mais digna de todas as profissões".

OS PROBLEMAS

"Os poderes públicos têm coisas mais nobres com que se preocuparem... Os sebistas do Recife transbordaram da Praça do Sebo e espalharam-se pelo centro da cidade, vivendo como Deus é servido... Como sebistas, alfarrabistas, antiquários ou libervelheiros o que é positivo é dignamente semear livros. Efetivamente, apenas o Dr. Gustavo Krause foi sensível ao comércio de livros usados aqui no Recife, agrupando os sebistas no Mercado de Livros Usados. Os poderes públicos não são sensíveis à problemática da educação, sequer..."

IDEOLOGIA

Sensível à questão social desumana, tornei-me um homem de esquerda, a única pauta para julgar a conduta humana, verificar se contribue ou se opõe à causa do socialismo".

A SITUAÇÃO DO PAÍS

"A situação política e cultural do país despenca e não vejo nada que esteja se fazendo para ampará-la. A solução seria criar escolas primárias para oferecer instruções sobre patriotismo. E que os dirigentes criassem vergonha na cara."

A PRAÇA DO SEBO

"A Praça do Sebo ou corretamente o Mercado de Livros Usados do Recife, foi o movimento mais promissor para a cultura que se fez nesta cidade. Reuniu-se em local digno sebistas precariamente instalados aqui e ali. Eram pequenos comerciantes que, mais ou menos, contribuíam para a continuação desse comércio, então um tanto estagnado. Contamos com a iniciativa e o apoio de Liêdo Maranhão, Francisco Balthar Peixoto, Paulo Roberto de Barros e Silva e Edson Wanderley, entre outros, simpáticos a esse comércio cultural. O então prefeito Gustavo Krause determinou a construção. Foi feito um convênio entre os sebistas e a Prefeitura. Infelizmente as administrações Jarbas Vasconcelos encarregaram-se de não cumpri-lo. Hoje, a situação da Praça do Sebo é deprimente para a educação e a cultura recifenses. A solução seria a Prefeitura cumprir as exigências que lhe impõe o convênio estabelecido por ela mesmo para o funcionamento do Mercado de Livros Usados do Recife".

MENSAGEM FINAL

"Para finalizar, uma mensagem aos leitores pipoqueiros: é preciso ler, é preciso ir aos sebos, santuários de raridades bibliográficas a preço de sebo. Além do mais, é preciso entender que o conceito ideal de cultura é personalizar o indivíduo, desenvolver o raciocínio e a imaginação. Integrá-lo na educação e na cultura, refinar-lhe o espírito. Prepará-lo para a vida".

Recife, 1997

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Nostalgias da casa grande e da senzala



NOSTALGIAS DA CASA GRANDE E DA SENZALA

Clóvis Campêlo

Não é só o petróleo que é nosso. A dívida e a dúvida também. Até hoje eu me pergunto se sou credor ou devedor à história. Não só pelo que fiz, mas também pelo que deixei de fazer. Um dia, ainda tiro esse peso dos ombros, deixo de racionalizar o pensamento e trato de ser feliz. Somente isso.
Não gosto de pensar em bloco, embora toda a (des)educação que tive, ao longo da vida, leve-me a isso. Nadar contra a corrente, sempre, não é fácil. E não é só para se exercitar. É mesmo uma questão de sobrevivência, de exercício da liberdade (se é que ela existe).
Meu avô paterno era um preto metido a besta. Casou com uma mulher branca descendente de portugueses, ficou rico, foi vereador em Jaboatão dos Guararapes e contrariou todas as regras sociais do seu tempo. Um atrevido que me deixou imerso em dúvida imensa.
Pelo lado materno, sou descendentes de portugueses e espanhóis que, por seu lado, tiveram origens sarracenas. Fizeram parte das classes produtoras rurais pernambucanas, decaíram e hoje vivem, a grande maioria, numa pobreza franciscana.
Eu, para complicar ainda mais a história, completamete desorientado, casei-me com uma índia maranhense de hábitos e costumes diferenciados.
Como podem ver, um tremendo angú de caroço. Não sei se sou branco, negro ou mestiço. E meus filhos? E meu neto, um galego transgressor?
Onde diabo vamos parar?

Recife, 2010


sexta-feira, 20 de julho de 2012

No dia em que eu vim ao mundo


NO DIA EM QUE EU VIM AO MUNDO

Clóvis Campêlo

No dia em que eu vim ao mundo,
não houve nada de novo.
Fez-se a luz em um segundo
e logo juntei-me ao povo

que por aqui habitava.
Livre do colo materno,
nem mesmo eu mais lembrava
que tudo ali era eterno.

Talvez tenha visto o brilho
de uma estrela distante,
mas eu queria era o trilho
do meu caminhar errante.

Um estribilho inventei,
que a vida é sopro e leveza,
e repetir-se é a lei
que comanda a Natureza.

No dia em que eu vim a Terra,
não teve nada de mais;
não se acabaram as guerras,
nem inventaram a paz.

Recife, 2011

terça-feira, 10 de julho de 2012

Entre anjos e demônios


ENTRE ANJOS E DEMÔNIOS

Clóvis Campêlo

Que cada um cuide bem dos seus demônios.
Eu também tenho os meus e os trato a pão-de-ló.
São eles que me ressuscitam para vida quando me sinto sufocado e anestesiado pelos sons celestiais dos anjos que se vendem a prestação em cada esquina da cidade.
Que cada um cuide bem dos seus demônios.
Aproveitem enquanto ainda estão marginalizados e não se tornaram produtos rentáveis explorados pela sociedade de consumo.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, pois sem eles seríamos metade, incompletos e não beberíamos na fonte rejuvenescedora da maldade.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, explorem a sua permissividade, a sua falta de pudor, de ética, de moral, pois sem eles jamais saberíamos os limites entre o certo e o errado.
Que cada um cuide bem dos seus demônios, pois sem eles morreríamos de tédio, esqueceríamos os prazeres mundanos, desconheceríamos o lado impuro e podre de cada um de nós.

Recife, 2009

- Publicado no livro Antologia 2010 dos Poetas Independentes. Recife, Edição dos Autores, 2010, páginas 45.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pra não dizer que não falei do amor



PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR

Clóvis Campêlo

Pra não dizer que não falei do amor
despojei-me de qualquer medida,
encarei sem receio a própria vida,
sanei no verso torto toda dor;

busquei lembrar do brilho dos teus olhos,
do toque morno da língua em tua boca,
do teu corpo úmido, nú, sem roupa,
do teu regaço onde me recolho;

joguei por terra a vã filosofia,
transformei profundo abismo em ponte,
fiz do firmamento novo horizonte,
transpus em noite quente a tarde fria.

Pra não dizer que não falei do amor.

Recife, 2007

sábado, 30 de junho de 2012

Angústia: aspectos conteudísticos e formais



ANGÚSTIA: ASPECTOS CONTEUDÍSTICOS E FORMAIS

Clóvis Campêlo

Embora tenha sido um homem de posições políticas bem definidas, Graciliano Ramos em nenhum momento da sua vida literária transformou as obras de ficção por ele escritas em manifestos panfletários.
Tal atitude, no entanto, não impede aos leitores de visualizar, por trás desse aparente despojamento, o contexto social e político não explicitado onde as histórias se dão.
Se, no aspecto conteudístico, os romances do escritor alagoano aproximam-se das características regionalistas que alimentaram uma boa parte dos autores da sua geração, no aspecto estrutural, ao se submeterem a certos procedimentos técnicos, aproximam-se também da corrente subjetivista que marcou a nossa ficção a partir do Modernismo.
Nesse sentido, Angústia é, em suas obras, a que melhor reflete essa feliz síntese entre as duas tendências que caracterizaram a nossa moderna ficção, o que faz do texto de Graciliano algo ao mesmo tempo local e cosmopolita.
Partamos, porém, para o texto em busca dos elementos que justifiquem estas afirmações iniciais e que sirvam para pautar a nossa análise.
Narrador protagonista, é através de Luís da Silva que o universo do romance para nós se desvenda. Do mesmo modo, todos os outros personagens nos são mostrados sob a ótica parcial e distorcida do narrador, o que levou o crítico Álvaro Lins a afirmar que Marina e Julião Tavares existem apenas para que o protagonista se atormente e cometa o seu crime.
Homem solitário, Luís da Silva tem na infância as raízes da sua solidão. Descendente de uma família aristocrática rural em decadência, cujos dias de glória não alcançou, sofre na pele as conseqüências dessa derrocada. Perdida a fazenda, após a morte do avô, parte com o pai para a vila onde este se estabelece como comerciante. Após a morte do pai, ainda adolescente, vê os credores se apossarem do pequeno patrimônio de que a família ainda era possuidora. A essa altura do relato já algumas particularidades nos chamam a atenção: a ausência total de referências à figura materna do protagonista e a visão crítica do protagonista em relação às figuras do avô e do pai. Ora, sabemos, de acordo com os pressupostos freudianos, onde bebeu a corrente subjetivista e introspectiva da nossa ficção moderna, que na construção do arcabouço psicológico do indivíduo, a infância, notadamente a primeira infância, constitui-se em período de grande importância, onde as figuras dos pais compõem os primeiros referenciais. Por outro lado, esse é um mundo em suposto equilíbrio e segurança. Não é isso, no entanto, o que se passa com Luís da Silva e que irá marcá-lo de maneira definitiva.
A busca da cidade grande é a solução encontrada pelo protagonista para empreender a luta pela sobrevivência. Sociologicamente, tal movimento – da zona rural para o perímetro urbano de um grande centro, da aristocracia agrária decadente para a classe média metropolitana – mostra um deslocamento do centro do poder econômico de uma classe para outra, de um espaço social para outro e reflete o momento de transformação por que passava o nosso país no primeiro quarto do século XX. A derrocada da aristocracia rural açucareira corresponde à ascensão da burguesia urbana mercantil da qual Julião Tavares é o lídimo representante. Podemos considerar que aí se encontra um dos aspectos da aversão sentida pelo protagonista em relação a este último, muito embora esse processo de transferência se dê de maneira inconsciente.
Se, do ponto de vista sociológico, Julião Tavares representa a burguesia dominante e bem sucedida, existe um outro personagem, “seu” Ivo, que representa o lupem-proletariado, a escória humana produzida por uma sociedade dividida em classes. Situando-se em um pólo oposto ao de Julião Tavares, “seu” Ivo também difere de Luís da Silva por não pertencer ao mesmo segmento social - a classe média. Daí não causar nenhum estorvo ao protagonista que sabe ter sobre ele uma certa ascendência (“Um sujeito inútil, sujo, descontente, remendado, faminto”). Apático, vivendo de favores e de pequenos furtos, é através dele que o instrumento do crime – um pedaço de corda – chega às mãos do narrador. Fica latente, desse modo, no assassinato de Julião Tavares, a existência de todo um simbolismo de justiça social que transcende a visão esquizofrênica e restritiva do narrador para mostra-se ao leitor mais atento.
Por outro lado, nas lembranças de Luís da Silva estão “seu” Evaristo e Cirilo de Engrácia, personagens da sua infância, ambos enforcados e vítimas de uma estrutura social implacável. Do mesmo modo, os homens que o menino Luís via indo para a prisão também estavam amarrados com cordas. Assim, tanto no passado quanto no presente, a justiça se faz com cordas. A idéia de estrangular Julião Tavares passa-lhe pela cabeça ao perceber o seu envolvimento com Marina (“Empurrei a porta brutalmente, o coração estalando de raiva, e fiquei em pé diante de Julião Tavares, sentindo um desejo enorme de apertar-lhe as goelas”). Consideremos também que o narrador, no estado esquizóide em que vive, apresenta impulsos compulsivos (“Lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Preciso de muita água e sabão”).
Ora, o presente de “seu” Ivo, que o narrador passa a levar consigo no bolso das calças, somado à revolta crescente contra Julião Tavares, principalmente após a descoberta da gravidez de Marina, vão fazendo com que a idéia do assassinato se consolide em seu pensamento. A morte de Julião Tavares, no entanto, não será apenas um ato impensado. Será também, como vimos anteriormente, uma atitude de justiça social na concepção equivocada do narrador. A ausência de sentimentos de culpa, após a realização do crime, dá-nos essa confirmação.
Voltemos, porém, para Julião Tavares. É interessante observarmos pela descrição que dele faz Luís da Silva (“Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor”) que Julião Tavares lhe é justamente o oposto, tanto do ponto de vista físico quanto psicológico. Em relação aos personagens, aliás, cabe observamos que, sob a ótica de Luís da Silva, demonstram sempre aspectos negativos. Emocionalmente são todos desajustados, vivendo uma vida que não é celebrada. Embora Julião Tavares fisicamente não fuja a essa caracterização, psicologicamente diverge dos demais. É o único que se lança à vida com a disposição de vivê-la e de a usufruir, talvez respaldado pela sua condição de burguês bem sucedido. Filho de família rica, reacionário e católico, Julião de imediato ganha a antipatia do protagonista que, admirador de idéias revolucionárias, autodefine-se como “um molambo que a cidade puiu demais e sujou”. Nessa tensão entre o real e o imaginário, alimenta-se o processo neurótico do narrador e seria absolutamente simplório atribuirmos aos ciúmes de Luís da Silva o assassinato de Julião Tavares. Nesse ato compulsivo (Lembremo-nos que no capítulo inicial o protagonista diz que dinheiro e propriedade são coisas que lhe despertam sentimentos de mortandade e destruição), ao matar Julião Tavares estrangulado o narrador simbolicamente tenta destruir um mundo que lhe é hostil e insatisfatório, responsável pelo seu sofrimento e pelo sofrimento de diversas outras pessoas (Marina, dona Adélia, “seu” Ivo, as prostitutas da Rua da Lama, etc.) e que é representado por Julião Tavares. Procura um equilíbrio que supõe haver existido anteriormente, embora não possamos localizá-lo em suas recordações. O que o leva ao desespero, entretanto, é perceber que após o ato criminoso o mundo continua o mesmo, havendo sido inútil o seu gesto. Restar-lhe-ia, então, o suicídio como última forma de contestação, o que não ocorre, ao menos no tempo da narrativa, embora chegue a ser considerado pelo personagem (“Uma viagem, embriaguez, suicídio...”). Nesse complexo jogo de forças, portanto, a sedução de Marina por Julião Tavares teria sido apenas o último ingrediente a catalisar o desfecho fatal.
Voltado para dentro de si mesmo, recriando o mundo externo a partir das suas sensações, Luís da Silva faz da sua narrativa um texto introspectivo. Não é o mundo visto o que o leva a ter tal concepção cósmica, mas sim o que imagina ter visto. São sentimentos complexos e fora do comum que o levam a afastar-se da realidade até desaguar no mais completo delírio. Como bem observou o crítico Álvaro Lins, Luís da Silva vive da sua memória e da sua imaginação. A memória, aliás, chega a ser retocada pela imaginação como o próprio personagem admite (“Saíram do entorpecimento recordações que a imaginação completou”). A necessidade de reorganizar esse mundo interior, da qual o narrador em vários momentos tem consciência, leva-o a se distanciar cada vez mais da realidade que, contraditoriamente, deveria ser tomada como referência. Mas como aceitá-la se a ela o narrador atribui os seus sofrimentos? É desse emaranhado de sentimentos introspectivos (negação do presente, retorno ao passado, uso da imaginação) que nasce a força da narrativa.
No que se refere aos aspectos formais, ao utilizar-se da narração na primeira pessoa, com um narrador protagonista (autodiegético), o autor repete um artifício já utilizado em Caetés e São Bernardo, os dois romances que antecedem Angústia. Difere este do primeiro, no entanto, pela abstração temporal e pela utilização constante do espaço não-dimensional, onde se dão as recordações e os delírios de Luís da Silva. Se em Caetés temos uma utilização mais convencional dos elementos tempo e espaço, o que o leva a ser considerado por vários críticos como um romance fraco e sem grandes pretensões, em Angústia tais elementos são diluídos levando o leitor a se perder, em vários momentos, entregue aos pensamentos desconexos do protagonista. Conseqüentemente, diferindo da maioria dos autores da Geração de 30 que buscaram nos elementos externos aos personagens os fatores antagônicos fortalecedores da narrativa, Graciliano Ramos, tanto em São Bernardo quanto em Angústia, situa a tensão do texto no conflito interior vivido pelo narrador. Nesse sentido, Luís da Silva é um personagem dinâmico que evolui vertiginosamente em direção ao seu destino, forçando o autor a ter um tratamento mais estático em relação aos demais personagens.
No que tange ao foco narrativo (a posição tomada pelo narrador para contar a história), se na tríade inicial – Caetés, São Bernardo e Angústia – temos narradores protagonistas, mas de focalização externa (em relação aos demais personagens, já que a narração é na primeira pessoa), restritiva e fixa, em Vidas Secas temos um narrador que não participa como agente da história narrada, mas que apresenta uma focalização interna, onisciente e variável, o que nos leva a supor que, esgotados nos primeiros romances os processos de narração autodiegética, voltava-se o escritor para a narrativa ficcional na terceira pessoa e para as obras memorialistas em busca de novas formas de expressão.
Nesse sentido, se Angústia, conforme o parecer de Alfredo Bosi, “foi a experiência mais moderna, e até certo ponto marginal, de Graciliano”, não é de se estranhar que, após atingir tal limiar, estabelecesse o autor a necessidade de explorar novas estruturas.


Recife, 1993

terça-feira, 26 de junho de 2012

Efemérides


EFEMÉRIDES

Clóvis Campêlo

Ninguém completa sessenta anos impunemente. Justo ou não, sempre se paga um preço pela vida longa, pela superação de determinadas marcas temporais.
Bernard Shaw, o escritor inglês que morreu aos 94 anos, dizia que na velhice sentia-se assediado pela solidão e pela saudade dos contemporâneos que já se tinham ido. Essa é uma verdade verdadeira e um dos preços a serem pagos por quem alcança a longevidade.
Por outro lado, dona Dita, a minha sogra, no alto dos seus 80 anos bem vividos, aceita com tranquilidade o passar dos anos e diz que só tem uma saída para quem não quer envelhecer: é morrer jovem.
Portanto, camaradas, pelo bem ou pelo mal só nos resta viver e tentar fazer dessa vivência um caminho de satisfação e felicidade.
Vou ao Google, o novo pai dos burros, e descubro que, para nós, brasileiros, o dia 2 de dezembro é o Dia do Samba. Maravilha. Sei que estou bem acompanhado. Descubro também, dentro da minha ignorância histórica, que no dia 2 de dezembro de 1825, na cidade do Rio de Janeiro, nasceu Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádia Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, sétimo filho de Dom Pedro I e da arquiduqesa Dona Leopoldina de Áustria, e que depois viria a ser coroado como Dom Pedro II, o último Imperador do Brasil. Descubro ainda que, um pouco mais tarde, em 1889, nesse mesmo dia dia 2 de dezembro, nasceram a pintora brasileira Anita Mafaldi, a cantora lírica americana Maria Callas (1923), o ex-nadador brasileiro Gustavo Borges (1972) e a estrela pop americana Britney Spears (1981). Tudo gente boa, da melhor qualidade e sagitarianos, como eu.
Mas, também descubro o dia 2 de dezembro trouxe para alguns a marca da partida, da despedida desse mundo de Deus. Em 1552, faleceu São Francisco Xavier, missionário espanhol co-fundador da Companhia de Jesus, além de Pablo Escobar, narcotraficante colombiano, em 1993, e Luiz Lombardi Netto, em 2009, locutor nunca visto e que durante anos emprestou a sua voz ao programa Sílvio Santos.
Descubro ainda, nessa minha incursão dezembrina, que no dia 2 comemora-se o aniversário da cidade de Araçatuba, em São Paulo, onde hoje vive o meu amigo Everi Rudinei Carrara, poeta, músico e produtor cultural.
Descubro também que o dia 2 de dezembro é dedicado a Santa Bibiana, que viveu em Roma, no século IV, e foi morta à chibatadas por recusar-se a se prostituir.
Finalmente, descubro que na mitologia hindu, o dia 2 de dezembro é dedicado à Festa de Shiva, deus da dança, do movimento e da transformação.
Encerro afirmando que Sagitário é o nono signo astrológico do zodíaco, situado entre Escorpião e Capricórnio. É representado pela figura do arqueiro Quíron, que era um centauro. Sua flecha está constantemente apontada para o corpo do Escorpião, como uma vingança pela morte de Órion, o gigante caçador.

Recife, 02/12/2011

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mistério



MISTÉRIO

Clóvis Campêlo

Meus males os atribui à chuva
quando interessava-me ter respostas,
e minha nudez sobre a mesa posta
era mão aflita a procurar a luva.

Meus medos os atribui ao vento
quando em busca de um porto mais seguro
mantinha a vida como o meu futuro,
singrando mares de puro tormento.

Porém, se foi a chuva com o medo,
o vento dissipou o mal bem cedo,
hoje navego em outro hemisfério,

levado pela força da paixão,
movido pelo instinto da razão
e perseguindo também o mistério.

Recife, 1991

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Forte do Pau Amarelo



Fotografias de Clóvis Campêlo/1990

O FORTE DO PAU AMARELO

Clóvis Campêlo

Nos anos 80, quando morava em Olinda e meus filhos eram pequenos, costumava ir com a família fazer pic-nic na praia de Pau Amarelo, ao lado do Forte. Na época, era um lugar aprazível, sem construções clandestinas. Escolhíamos uma árvore qualquer, na beira da praia, estendíamos a toalha e fazíamos a festa. As crianças adoravam aqueles momentos de lazer puro e barato. Uma verdadeira curtição.
Muitos antes de nós, porém, no dia 14 de fevereiro de 1630, segundo os historiadores, ali chegaram os holandeses da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck, ancoraram naquele local, no litoral norte de Pernambuco, com um contigente de 7.280 homens e 65 embarcações. Não vieram em busca de lazer barato, mas sim atrás dos lucros do açúcar aqui produzido. Com essa intenção, marcharam por terra e conquistaram Olinda e o Recife. Mas, essa história, todos nós já sabemos.
Embora os holandeses invasores tivessem entrado em Pernambuco pelo local, só 73 anos depois, em 15 de setembro de 1703, é que foi emitida uma Carta Régia ordenando a construção de um forte que servisse de defesa e oferecesse resistência a outras invasões.
O projeto ficou a cargo do engenheiro Luís Francisco Pimentel. A planta do prédio a ser construído foi por ele desenhada em aquarela e hoje se encontra arquivada no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, Portugal. Em 1707, porém, o infeliz engenheiro morria afogado nas águas do Rio Doce. A fatalidade retardou o início da construção que só se iniciaria em 1719. A conclusão do Forte de Nossa senhora dos Prazeres de Pau Amarelo, seu nome oficial, só aconteceria em 1738.
Segundo a historiadora Semira Adler Vainscher, em texto publicado no sítio da Fundação Joaquim Nabuco, em 1801 a fortaleza já possuia 12 canhões de calibre10 e 40. Em 1817, esse arsenal já havia evoluído para 3 peças de bronze, 24 peças de ferro, com uma guarnição de 14 praças e um tenente no comando. Antes, porém, em 1808, quando a sua planta chegou de Lisboa devidamente projetada e calculada, o monumento passou por uma grande reconstrução.
Hoje, apesar de estar situado na cidade do Paulista, o monumento pertence a Prefeitura da Cidade de Olinda, tendo sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 24 de maio de 1938, sob o número 84, no Livro das Belas-Artes.
As fotografias acima, retratando detalhes dos Forte em um dos seus vértices, foram feitas por mim, em 1990.
Hoje, passados mais de vinte anos da execução das fotos, sinto a necessidade de voltar ao local para novos registros e outros pic-nics. Dessa feita, levando os meus netos.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A vida intensa de um compositor compulsivo



Inaldo Moreira no programa "Trem das Onze", na Rádio Universitária AM do Recife
Fotografia de Cida Machado/2011

A VIDA INTENSA DE UM COMPOSITOR COMPULSIVO

Clóvis Campêlo

Sagitariano do primeiro decanato, Inaldo Moreira nasceu no bairro do Cordeiro, no Recife, no dia 23 de novembro de 1937.
Na época, a família morava na rua Melu e não pode contar com a ajuda da comadre Corina, parteira responsável pelos partos da família, que se encontrava em outra nobre missão. O jeito foi seu Austricliano, pai de Inaldo, selar o cavalo e ir ao Sítio Boa Ideia, onde hoje se encontra o bairro de San Martin, em busca de outra parteira. Inaldo nascia, assim, quebrando uma tradição familiar.
No Cordeiro, Inaldo nasceu e mora até hoje. Saiu do bairro em pouquíssimas ocasiões. Uma delas, para fazer o doutorado em Economia, na França, onde morou dois anos com toda a família. Em outra, para estudar inglês na Inglaterra, onde ficou seis meses. Morou ainda algum tempo na Bahia e no Rio de Janeiro, respectivamente como funcionário da Petrobrás e do Serpro.
No início de 1943, quando Inaldo tinha cinco anos de idade, dona Carminha, sua mãe, resolveu que estava na hora de colocá-lo na escola. Por essa época, morava na rua Bom Jesus, onde funcionava a escola de dona Zila. Acontece que dona Zila era casada com seu Misael, presidente do Bloco Carnavalesco Mixto Camelo de Ouro, cuja sede era no mesmo prédio da escola. Na rua, também ficava a sede do clube Bebé. Assim, ao mesmo tempo em que se iniciava nas letras, Inaldo tinha contato com a cultura pernambucana dos frevos de bloco. Não é a toa que, posteriormente, tenha iniciado a sua vida de compositor com esse gênero musical. Ambos os clubes são citados pelo compositor Edgard Moraes na música “Valores do Passado”, hino do Bloco da Saudade.
Em 1949, aos doze anos de idade, por imposição do pai, que gostava de tocar violão e cantar as músicas de Augusto Calheiros, foi estudar música com seu Calazans. O mestre também era compositor de frevos-de-bloco e morava no bairro da Torre. Durante dois anos estudou clarinete, embora possuísse em casa um bandolim de cuia (napolitano). Depois desse período, considerado apto para o instrumento pelo mestre, ganhou do pai um clarinete.
No Ginásio Pernambucano, na época chamado Colégio Estadual de Pernambuco, Inaldo fez o curso ginasial. Em um final de tarde, passando pelo prédio do Liceu de Artes e Ofícios, ao voltar para casa, movido pela curiosidade, ali entrou. Foi recebido por um homem de cor, chamado Francelino, que lhe indagou se tocava algum instrumento. Ao saber que Inaldo tocava clarinete, deu-lhe algumas partituras que foram bem interpretadas pelo jovem. Posteriormente, pediu-lhe para tocar algo de ouvido. Satisfeito, então, convidou-o para ensaiar com a Banda do Liceu, nas noites das quinta-feiras. O mestre da banda se chamava Manoel Ferreira e lá, entre outros, Inaldo conviveu com Lídio, pai do maestro Duda, que tocava percussão na banda. Ficou no Liceu até 1956, quando completou 18 anos e foi servir ao Exército brasileiro.
No Exército, passou 3 anos e era conhecido como o cabo maestro. Apesar da alcunha, praticamente desligou-se da vida de músico e instrumentista. No entanto, lá conheceu um soldado que tinha o apelido de Pinóquio e que cantava no Coral da Igreja do Carmo. Levado por ele, Inaldo integrou-se ao Coral que era comandado pelo maestro Mabel Bezerra. No Exército, no dia da sua baixa, como era um bom datilógrafo, foi requisitado para trabalhar com o major Ibiapina e o major Newton Cruz, figuras que depois ficariam conhecidas como homens duros do regime militar instaurado no Brasil em 1964.
Cumprido o período militar e voltando à vida de paisano, Inaldo fez vestibular para engenharia civil. Um detalhe triste é o falecimento de seu Austricliano, pai de Inaldo, no dia do vestibular. Mesmo assim, passou em terceiro lugar.
Já cursando a faculdade, Inaldo fez concurso para o Banco do Brasil, sendo aprovado. Designado para trabalhar na cidade de Limoeiro, não desistiu da faculdade. Todos os dias, saía de casa às 5 horas da manhã, cumpria o expediente em Limoeiro até uma hora da tarde e voltava ao Recife para cursar a faculdade.
Em 1966, passou em concurso da Petrobrás como engenheiro, indo trabalhar na Bahia. Entusiasmado com a campanha “O petróleo é nosso”, acreditava que estava prestando um grande serviço à Pátria. No começo de 1968, porém, pediu demissão e voltou para o Recife. Na Bahia, conheceu Maria, que viria a ser a sua esposa.
Em 1968, foi trabalhar no Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), onde ficou 9 anos, alguns dos quais morando na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Pediu demissão do Serpro para fazer mestrado em Economia, na Universidade Federal de Pernambuco. Antes mesmo de terminar o curso, já era professor colaborador da instituição.
Por conta disso, em 1979 ganhou uma bolsa para fazer o doutorado em Economia, na França, para onde levou a família. Voltou da França em 1982, já como professor assitente da UFPE (fez o concurso antes mesmo de terminar o doutorado).
Só quando se aposentou da UFPE, em 1992, é que Inaldo resolveu retomar de forma mais intensa a sua relação com a música. Voltou a estudar e começou a compor. Sua primeira música nessa nova fase, por sinal, foi um frevo-de-bloco em homenagem ao Coral Edgard Moraes, gravada pelo grupo, em 1999, no seu primeiro disco.
Apesar do curto período como compositor ativo, hoje, Inaldo tem em torno de 400 composições, entre frevos-de-bloco, frevos-de-rua, choros, maxixes, tangos brasileiros, valsas, polcas e suítes. São quatorze CD's gravados por conta própria e distribuídos entre os amigos comprovadamente apaixonados pela música popular brasileira. Os únicos discos à venda e que podem ser encontrados na Livraria Cultura, no Recife Antigo, são os cds “Valsas Pernambucanas”, gravados pelo pianista Fernando Muller. No CD nº 1, inclusive, consta a valsa “Dona Carminha”, feita em homenagem à sua mãe, Maria do Carmo Lima Moreira.
Do casamento com Maria, nasceram três filhos: Iúri, jornalista e músico amador, e Maíra e Moema, gêmeas, formadas pela UFPE e professoras por concurso do Conservatório Pernambucano de Música e da Prefeitura de Olinda. Maria, por seu lado, é professora de História do Estado e canta no Coral do Bloco da Saudade e no Coral Stallo.
No jardim da sua casa, no bairro do Cordeiro, Inaldo construiu e Praça do Choro e se auto denominou o seu prefeito. É lá que recebe os amigos chorões e compositores conhecidos daqui e de todo o Brasil.
Uma vida intensa de um compositor retardatário e compulsivo.

Recife, 2012

domingo, 10 de junho de 2012

Morrer de amor eu quero, minha amada



MORRER DE AMOR EU QUERO, MINHA AMADA

Clóvis Campêlo

Morrer de amor eu quero, minha amada,
buscando em ti o gozo derradeiro,
fazendo disso a última empreitada
e do teu colo um nobre travesseiro;
romper febril o alvor da madrugada
e encontrar um porto alvissareiro,
onde em silêncio encontre a calmaria
e veja a noite escurecer o dia.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Do picaresco ao fantástico



DO PICARESCO AO FANTÁSTICO


Clóvis Campêlo

Um dos aspectos que caracterizam as obras de Gilvan Lemos é a presença do elemento picaresco. Surgido na Espanha medieval, o romance picaresco, cuja obra mais representativa entre nós é o "Dom Quixote", de Cervantes, representou uma significativa transformação na literatura ocidental por deixar de lado a narração dos sentimentos "nobres" e os atos heróicos da aristocracia dominante, para mostrar as camadas mais marginalizadas da população atuando como protagonistas em suas lutas pela sobrevivência.
A grosso modo, do ponto de vista político e social, tal transformação indica uma fissura na estrutura do poder da época que culminaria com a queda da aristocracia e a ascensão burguesa.
Segundo os estudiosos do assunto, a participação dos pícaros na literatura espanhola medieval segue uma linha evolutiva que se inicia mostrando-os como vítimas e marginalizados, passando pela sua integração social, sempre através mentiras e artimanhas, até a sua completa ascensão ou a deliquência irrecuperável.
No romance "O Anjo do Quarto Dia", de Gilvan Lemos, vamos encontrar estes três estágios caminhando paralelarmente: o primeiro, representado pela prostituta Piranha; o segundo, pelo contemplativo Codó; o terceiro, pelo poderoso Oricão.
No entanto, como a ascensão do pícaro à condição de dominador, na figura de Oricão, não significa a subversão da ordem estabelecida, encampando Oricão a estrutura do poder constituído, o autor apela para o fantástico enquanto força restauradora da justiça entre os homens.
É aí que surge o anjo do quarto dia para restabelecer uma condição de equilíbrio e igualdade.

Recife, 1993

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Uma noite na Rua Jeremias


UMA NOITE NA RUA JEREMIAS
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Clóvis Campêlo

Na realidade, tudo começara no terraço daquela casa desocupada na Rua Jeremias.
O dinheiro era pouco, muita era a disposição. Algumas latas de sardinha Coqueiro (não sei por que a insistência dele com aquela marca de sardinha), uma garrafa de cachaça adoçada e colorida com Q-Suco de morango. E haja "sangue-de-onça".
Não sei como bebiam aquela geringonça. No entanto, era do que dispunham. Depois, lá para as tantas, sempre aparecia o Aires com um cigarrinho de maconha para rebater os efeitos colaterais.Foi assim que eu descobri Marx e Engels. Foi assim, depois da terceira dose, que ele retirou os livros de baixo do sovaco e fez as apresentações: "Isso aqui vai mudar a sua vida!".É claro que não levei a sério. Nunca o levara a sério, diga-se de passagem. Talvez eu ainda não soubesse que a revolução se daria através de lupem-proletariado.
Mas quem se importava com isso, naqueles dias de sol. Havia todo um universo a ser descoberto e explorado além da Rua Jeremias. Isso sem falar nas xerecas das meninas que começavam a encabelar e emitir um cheiro diferente (quem sabe não era essa tal de progesterona).
Assim, quem poderia garantir que aqueles livros velhos e remendados seriam lidos. A vida era muito mais animada e interessante.Guardei-os com cuidado, porém. Não iria fazer a desfeita de extraviar ou avariar os livros. O cara demonstrara a maior consideração. É bem verdade que comera as sardinhas com denodo e tomara o sangue-de-onça como quem bebe o néctar dos deuses. Àquela hora da madrugada, a fome se fazia sentir. Logo logo o dia amanheceria e a rotina da rua seria refeita.
Marx e Engels que me aguardassem. Ainda teríamos a vida inteira pela frente para nos conhecermos.

Recife, 2006


terça-feira, 29 de maio de 2012

Microfone do Mercado de São José

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Os poetas Clóvis Campêlo e José Rodrigues Correia Filho conversam com Microfone
Foto de Cida Machado/2008
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MICROFONE DO MERCADO DE SÃO JOSÉ

Clóvis Campêlo
(com a colaboração de José Rodrigues Correia Filho)

MULHER PUDICA

Você é uma linda criatura,
cheia de compostura
e ainda não se casou.
Se você arranjar um namorado,
ele comerá trancado
o pão que o diabo amassou.

Você precisa dar um jeito em sua vida
isso de mulher sofrida
não é papo pra ninguém.
O miserável que mendigar seu amor
pagará alto valor,
ficará sem um vintém
de amor...

No Mercado de São José, no Recife, todo mundo conhece Microfone. A sua fama cresceu ainda mais quando, em 1995, participou do programa Brasil Legal, da Rede Globo, ao lado de Regina Casé. O que pouca gente sabe é que Microfone também é compositor. Entre as suas criações, estão samba-canções e marchinhas de carnaval. A sua inspiração vem sempre dos casos amorosos que teve ao longo dos seus 83 anos de vida, como a da letra acima, feita para uma mulher difícil que ele conheceu e pela qual se apaixonou sem ser correspondido, ou de fatos comuns acontecidos no cotidiano das pessoas e narrados pelas páginas policiais dos jornais, como o caso da mulher que matou o marido bêbado com a tampa do pinico de ágata.
Essa figura pequenina e impressionante por sua alegria e disposição para um bom papo, nasceu na praia de Ponta de Pedras, situada na cidade de Goiana, no litoral norte de Pernambuco, em 1925. Diz que até hoje não conhece a sede do município onde nasceu. Ainda menino, em 1936, veio com a família morar no bairro de São José, no Recife, ao lado Mercado, de onde nunca mais saiu.
Seu nome de batismo é Abdenágo de Souza Leite. Conta que nasceu em casa, em um parto normal assistido por parteira, como era comum naquela época. Diz que a sua mãe já se preparava para levantar da cama, quando a parteira avisou: "Fique deitada que ainda vem mais gente por aí". Dez minutos depois, nasceria Abdon de SouzaLeite, seu irmão gêmeo e companheiro até os dias de hoje. Depois que ficaram viúvos, Microfone e seu irmão voltaram a morar juntos, sempre no bairro de São José.
Do bairro, guarda as lembranças do tempo em que era eminentemente residencial. Do Mercado, lembra do movimento comercial intenso que havia quando as Docas do Recife ainda funcionavam e todas as compras dos navios que lá atracavam eram feitas ali. Hoje, reclama das mudanças ocorridas e principalmente do esvaziamento do bairro com as saídas das residências e a fixação do comércio no entorno do Mercado.
Conta ainda Microfone que serviu ao Exército brasileiro de 1945 a 1953. Ao lado do amigo Enéas Freire, que mais tarde criaria o Galo da Madrugada, serviu no 14º Regimento de Infantaria, em Jaboatão dos Guararapes. Lá, numa manobra de treinamento, perdeu a visão de um dos olhos e até hoje luta na justiça para ter reconhecido o direito de ir para a reserva como oficial.
Por ser muito falastrão e eloquente, ganhou o apelido de Microfone de um primo chamado Zé de Góis, na década de 50.
Pai de três filhos e uma filha, Microfone tem cinco netos. A sua filha trabalha no Palácio do Planalto, em Brasília, desde o governo FHC. Diz que o presidente Lula tem por ela um grande carinho desde quando soube que era pernambucana.
Hoje, por conta da idade, Microfone entregou a administração do seu box no Mercado de São José ao sobrinho Marcos. Mas, todos os dias, lá pode ser encontrado. Diz que depois de 70 anos de vivência no Mercado, dali só sairá quando morrer: "Transpiro o Mercado de São José 24 horas por dia!".
Figura emblemática e sempre disposto a uma boa conversa, Microfone se autodefine com precisão: "Sou um arauto da alegria!".
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Recife, 2008

domingo, 27 de maio de 2012

O frevo e o passo me enganaram

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Fotografia de Mário Carvalho
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O FREVO E O PASSO ME ENGANARAM
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Clóvis Campêlo

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Para Elane Tomich
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Tenho um amigo que mora em São Luís do Maranhão e diz que só descobriu a importância histórica e cultural da sua cidade natal quando conheceu outras capitais brasileiras mais modernas.
A mesma coisa aconteceu comigo em relação ao frevo e ao passo. Embora tenha nascido, crescido e sobrevivido ouvindo o frevo e vendo o povo executar a sua dança, o passo, como autênticas manifestações musicais e culturais do povo pernambucano, apenas na década de 70, após ouvir Caetano Veloso reinventar o gênero, com a música “Atrás do trio elétrico”, é que passei a considerá-los com a devida importância. Ali, o frevo que nascera pernambucano, ganhava um sotaque pop e baiano.
Antes dessa catarse, eu queria era a modernidade do rock, a eletricidade das guitarras, a novidade do iê-iê-iê, e que tudo mais fosse para o inferno. Como todo bom subdesenvolvido, queria ser estrangeiro de mim mesmo e da minha terra. Queria ser o outro, why not?
Mas, sobreviver é reconsiderar, reverter conceitos, redescobrir verdades absolutas e relativas e redirecionar as nossas vidas em função disso. Sempre!
E o frevo e o passo haviam me enganado. Nascidos no meio do povo, misturando ritmos musicais alienígenas e os gingados da capoeira africana, o frevo e o passo surgiram como sínteses inéditas e ousadas. Na minha sede de fugir de mim mesmo, de negar as minhas origens terceiro-mundistas, não havia percebido isso, não havia captado a alegria sincera do povo dançando a sua música e executando a coreografia do passo.
O frevo nasceu lumpen, com os pés no chão e logo se transformaria em legítimo representante de vários segmentos sociais e de classe, com o surgimento dos clubes ligados a grupos de trabalhadores (lixeiros, lenhadores, varredoures de rua, carvoeiros, etc.). O passo, mais democrático, serviria a todos indiscriminadamente, sem perder as origens da sua “marginalidade”.
As ruas centenárias do Recife foram testemunhas do meu erro e do meu equívoco histórico. O futuro, no entanto, libertou-me e absolveu-me.
Antes tarde do que nunca.

Recife, 2011