domingo, 5 de fevereiro de 2012

E-mail não é lixeira!


Fotografia de Clóvis Campêlo/1995

E-MAIL NÃO É LIXEIRA!

Clóvis Campêlo

Comecemos por Marshall MacLuhan! Foi ele que, na década de 60, criou o termo. Iniciavam-se os tempos da comunicação via satélite. Cada vez mais, as visões e imagens do mundo chegavam até nós. Eram os primórdios da cultura do simulacro. Estávamos na aldeia global.
Para alguns, a partir dali, a humanidade se transformaria. As características culturais de cada povo se enriqueceriam. A comunicação intensa provocaria um nivelamento por cima. Para outros, no entanto, o mundo se tornaria mais chato e prevísivel, perdendo cada povo as suas características individuais.
Como consequência da nova forma de comunicação mundial, nós, brasileiros, aqui no Terceiro Mundo, pudemos assistir à chegada do Homem na Lua, em 1969. No ano seguinte, em plena época da ditadura militar e ainda em preto em branco, assistimos à Seleção Brasileira ser tricampeã mundial de futebol no México. O mundo parecia encolher. Encolhidos também parecíamos nós, aqui em Pindorama, sob a tutela do governo Garrastazu Médici. O futuro, porém, nos parecia promissor. Este era um país que ia para a frente!
A nossa modernidade chegou assim: Caetano Veloso, exilado na Inglaterra pelo regime militar, mandava, via Intelsat, notícias para o Pasquim. A ditadura militar que matou, esfolou, sequestrou e exilou centenas (ou milhares) de brasileiros, concomitantemente, mandava para o espaço sideral os satélites que abririam os caminhos para nos comunicarmos com o resto do mundo. Era o progresso chegando no bojo da repressão. Quem viveu aquela época sabe disso. Quem não viveu, precisa saber.
Com a ditadura militar, criou-se também a Rede Globo de Televisão, hoje uma das três maiores do planeta, com transmissões simultâneas para quase todo o mundo. Partíamos para atingir a maturidade na área da comunicação. Se não tínhamos um regime político adequado, tínhamos a possibilidade de ver e escutar as cores e os sons do mundo. E o mundo que também nos aguardasse.
Passou o tempo, veio a normalização democrática do nosso país e a evolução da rede mundial de comunicação. Surge a Internet. Com a popularização dos microcomputadores, aumenta cada vez mais o número de brasileiros com acesso à rede internacional. E a grande novidade com o surgimento da Internet passa a ser o controle individual da mensagem comunicativa. No entanto, com a democratização cada vez maior da Internet e com o surgimento do controle individual da mensagem comunicativa, aparece um novo problema: o lixo internáutico. Dominamos a forma, mas ainda não dimensionamos de maneira correta o valor conteudístico das mensagens.
Portanto, companheiros internautas, ao enviarem suas mensagens lembrem-se de que e-mail não é lixeira!

Recife, 2001


- Publicado no livro Crônicas Recifenses, Recife, Clube de Autores, 2018.
 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Do povo, com o povo, para o povo



DO POVO, COM O POVO, PARA O POVO

Clóvis Campêlo

É notório nas entrelinhas dos textos dos nossos historiadores que o futebol chegou no Recife no bojo da República e do positivismo. Coisa de Primeiro Mundo.
O Náutico, que sempre foi Capibaribe, surgiu em 1901 como um desdobramento do Recreio Fluvial, clube criado para comemorar o massacre de Canudos. Isso não foi dito por mim. Está inserido nos grande textos sobre as origens do nosso futebol.
O Sport nasceu no seio da burguesia mercantil recifense, cujos rapazes saudáveis e felizes tiveram a sorte de ir estudar na Inglaterra e se interessar pelo esporte bretão. Nada mais simbólico de que tenha sido criado nos fundos de uma loja de modas, na Rua da Imperatriz.
Quando o Santa Cruz veio à luz, em 1914, o novo brinquedo da elite recifense já havia se popularizado e seduzido a classe média. Os meninos que o fundaram eram alunos do Colégio Salesiano do Sagrado Coração e que moravam nas imediações da Igreja da Santa Cruz, no bairro da Boa Vista. Ou seja, já nascemos no seio do povo, criados pelo e para o povo. O Santa Cruz já nasceu mais querido. Nada mais democrático.
Mas, além dessa contravenção social, o Santinha também foi o primeiro clube a aceitar nas suas fileiras o negro Teófilo de Carvalho, o Lacraia. O futebol se amorenava, criava manhas, esquecia os ingleses e a nossa vergonha de sermos o que de fato éramos.
Mas Lacraia também não foi apenas o primeiro jogador negro a iluminar os campos do Recife com a sua arte de jogar o futebol bem jogado. O negro Lacraia, inserido no seu lugar de direito, foi quem concebeu o escudo do Santinha: uma âncora devidamente cravada no coração do povo. A paixão tornava-se irreversível.
Hoje, quando completamos 98 anos de uma vida feita de lutas e superações constantes tudo isso nos parece muito simbólico. E o povo tricolor do Recife, uma cidade que sempre foi agente das suas próprias (r)evoluções, mostrou que o futuro se constrói na perseverança do presente e na base sólida do passado.
O projeto coral para o ano do nosso centenário, em 1914, é mais um desafio a ser conquistado com o ferro e o fogo das certezas que se eternizam em realizações concretas e definitivas.
Parabéns, Santa Cruz!
Parabéns , torcida coral!
Salve as Repúblicas Independentes do Arruda!


Recife, 03/02/2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Considerações sobre a homeopatia



CONSIDERAÇÕES SOBRE A HOMEOPATIA

Clóvis Campêlo

Um dos principais equívocos alimentados em relação à homeopatia, é confundi-la com a medicina de ervas (fitoterapia).
Essa confusão, no entanto, é facilmente explicável: enquanto a fitoterapia utiliza-se apenas do reino vegetal, a homeopatia é muito mais ampla, utilizando-se dos reinos animal, vegetal e mineral.
Além do mais, a homeopatia também faz uso dos nosódios, que são remédios elaborados a partir de partes e secreções dos próprios organismos doentes (humanos ou animais).
Assim, por exemplo, temos a tuberculina, um medicamento que é feito a partir do próprio escarro do doente e que tem uma atuação muito eficaz no combate da tuberculose e de algumas espécies de alergias.
Um outro exemplo: a homeopatia pode valer-se dos próprios remédios alopáticos para elaborar as suas substâncias, como, por exemplo, o gardenal. Nem sempre, porém, a atuação do novo medicamento obtido será na mesma esfera do remédio alopático original (segundo o Dr. José Laércio do Egito, o medicamento obtido a partir do gardenal, por exemplo, presta-se muito bem a combater alguns tipos de alergias).
Uma outra questão que povoa o imaginário das pessoas que questionam a homeopatia, diz respeito a ação lenta do remédio homeopático sobre os organismos doentes. Nada mais falso. O remédio homeopático age com rapidez desde que tenha sido escolhido acertadamente.
A grande diferença é que, na homeopatia, não existem procedimentos padrões. O remédio é individualizado e busca-se atuar de forma ampla sobre o desequilíbrio orgânico da pessoa. Ou seja, a homeopatia visa curar o doente e não apenas a doença.
Assim sendo, cabe à sensibilidade do médico homeopata a percepção do remédio correto, que corresponderá à soma dos sintomas experimentados pelo doente e que atuará, de forma adequada, sobre o organismo desequilibrado.
Uma outra questão interessante, ainda, diz respeito às dinamizações dos medicamentos. Assim, o mesmo remédio homeopático pode ser utilizado em diversas diluições, cada uma com uma forma de atuar diferenciada. Nas dinamizações mais alta, desaparecem as características químicas das substâncias restando apenas a influência energética (que Hanneman, o pai da Homeopatia, chamou de força vital). É essa força energética que atua no processo de cura.
Dentro da medicina homeopática, existem diversas correntes e concepções, cada qual com a sua maneira característica de atuar.
Os unicistas, por exemplo, acreditam que deva ser ministrado um único remédio, o qual deverá atuar de forma decisiva sobre toda a sintomatologia do doente e sobre todas as formas de manifestação da doença.
O Dr. Roberto Costa, médico homeopata carioca já falecido, no entanto, mencionava nos seus livros a prática do que ele chamava de homeopatia tridimensional, com um remédio de baixa dinamização atuando sobre os sintomas agudos; um remédio de média dinamização atuando sobre os sintomas que já se encaminham para a cronicidade, e um remédio de alta dinamização, o qual corresponderia aos sintomas crônicos e seria, também, o remédio que atuaria sobre a constitucionalidade do doente. Essa também era a forma de atuar de Ambrozino Cruz, que durante muitos anos foi o decano da homeopatia em Pernambuco. Mesmo sem ser médico, era um profundo conhecedor da matéria e atendia a todos que o procuravam, sem distinção, na sua residência no bairro de San Martin. Autodidata, interessou-se pela homeopatia ao contrair impaludismo, na juventude. Falando fluentemente inglês, francês, alemão e indiano, mantinha-se constantemente atualizado. Falecido em 1997, deixou uma grande lacuna na homeopatia pernambucana.
Para finalizar, seria interessante frisar que a homeopatia combina com uma forma de vida despojada. Nesse mundo complexo, em que vivemos, onde os aditivos alimentares, as ondas eletromagnéticas, as radiações nem sempre benéficas dos equipamentos domésticos exercem uma influência deletéria sobre os nossos organismos, exercitar a simplicidade pode ser muito mais saudável do que imaginamos.

Recife, 2008



domingo, 29 de janeiro de 2012

O Recife em movimento



O RECIFE EM MOVIMENTO

Clóvis Campêlo

Esquina da Rua Siqueira Campos com a Avenida Dantas Barreto, no bairro de Santo Antônio, no centro do Recife.
Antigo centro nevrálgico da cidade, hoje a área está abandonada pelo poder público e pela iniciativa privada.
Calçadas quebradas, ruas esvaziadas, prédios desocupados, com a predominância do sub-comércio e do comércio ambulante.
Nem longe nos lembra a pujança daquela área nos anos 60 e 70 do século passado.
O centro histórico do Recife vem se transformando ao logo dos últimos anos numa área decadente, completamente abandonada pelos poderes públicos.

Recife, 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Os caminhos do baião



OS CAMINHOS DO BAIÃO

Clóvis Campêlo

"Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança um baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção
"

Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, o baião, cujo nome derivaria de "baiano", uma dança popular nordestina, em fins do século XIX já era conhecido no interior nordestino, sendo executado em sanfonas pelo sertão. Restrito e esquecido no interior nordestino, o baião se consolidaria como gênero da MPB através da dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Em 1946 foi gravada a música "Baião", de autoria da dupla, pelo grupo 4 Ases e Um Curinga, pelo selo Odeon, fazendo enorme sucesso.
O gênero logo tornou-se um sucesso nacional levando o jornal Diário Carioca a afirmar: "o baião vem fazendo estremecer todo o vasto império do samba, e já agora não se poderá mais negar a influência decisiva desse gênero musical na predileção do povo".
A partir de 1950, o baião tornou-se um ritmo internacional com a música "Delicado", de Valdir Azevedo, que recebeu ao longo dos anos 50 orquestrações dos maestros americanos Stan Kenton e Percy Faith.
Em 1953, a música do filme "O cangaceiro", baseado no baião "Muié rendeira", de Zé do Norte, recebeu a menção honrosa no Festival de Cannes, na França.
Assim, até o início dos anos 60, o baião foi o gênero musical brasileiro de maior influência no exterior, perdendo essa posição apenas com a chegada da Bossa Nova.
No entanto, na década 70, em plena euforia do Tropicalismo, Gilberto Gil lançou músicas com nítida inspiração no ritmo do baião, a começar com "Domingo no Parque", com a qual participou do Festival de Música da Record de 1967.
Posteriormente, o ritmo voltou a influenciar artistas das novas gerações, como Raul Seixas, que realizou a fusão do baião com o rock, criando o baioque.

"Morena chegue pra cá
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião
"

Segundo Tárik de Souza, no site CliqueMusic, repetindo a opinião de Tinhorão, foi Luiz Gonzaga quem imprimiu o formato urbano (e portanto pop) ao baião.
Imigrante pobre no começo da década de 40, Gonzaga passava o pires nos bordéis do Mangue carioca enquanto tocava na sanfona valsas, sambas e serestas de sucesso na época. O advogado e compositor cearense Humberto Teixeira, foi o parceiro que lhe forneceu o respaldo poético que faltava às suas composições musicais.
Ainda segundo Tárik, o sucesso de Gonzaga na empreitada foi tão grande que ele desequilibrou o eixo da MPB do meio para o fim dos anos 40 até meados dos anos 50. Antes o mercado musical brasileiro era lastreado no samba, na marcnhinha, no choro e em outros produtos musicais do centro cultural do país, o Rio de Janeiro. Assim, Gonzagão colocou, com destaque, o Nordeste no mapa da MPB. Além de Teixeira, o Rei do Baião teve outro parceiro fixo, o médico pernambucano José de Souza Dantas Filho, o Zé Dantas, falecido em 1962.

"Eu já dancei balanceio
Chamego, samba e xerém
Mas o baião tem um que
Que as outras danças não tem
Quem quiser é só dizer
Pois eu com satisfação
Vou dançar cantando o baião
"

Segundo o folclorista Câmara cascudo, citado por Tárik de Souza no site acima citado, a palavra "baião" se associava aos termos "baiano" e "rojão", este último, um pequeno trecho musical executado pelas violas nos intervalos dos desafios das cantorias.
Também reconhece no compositor cearense Lauro Maia, o antecessor de Gonzagão na utilização e formatação do ritmo, através do "balanceio". Maia foi autor de vários sucessos, entre eles "Trem de Ferro", gravado inclusive por João Gilberto.

"Eu já dancei no Pará
Toquei sanfona em Belém
Cantei lá no Ceará
E sei o que me convém
Por isso eu quero afirmar
Com toda convicção
Que sou louco pelo baião
"

Para finalizar, encontramos no site Terra Brasileira uma outra explicação para a origem do termo "baião". Segundo o site, "baião" viria de "baiano" por influência do verbo "baiar", forma simplificada de bailar, baiar, baio (baile).

Recife, 2007


-Publicado no livro Crônicas Recifenses, Recife, Clube de Autores, 2018.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A barbárie



A BARBÁRIE

Clóvis Campêlo

Quando fugiu a barbárie
das ruas estreitas do gueto,
expondo da vida a cárie,
cantando a morte em dueto,

com a fúria de cão sem dono
quando descobre o abandono,

qual sinistra procissão
sem benção ou extrema-unção,
sem chance de algum perdão,

devolveu ao mundo fausto
as dores do holocausto!

Recife, 1991

- Publicado no livro Antologia 2007 dos Poetas Independentes, Recife, Editora do Livro Rápido, 2007, página 44.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Preferência nacional



PREFERÊNCIA NACIONAL

Clóvis Campêlo


Segundo Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do lumpen-proletariado, se existem duas coisas que mexem com o imaginário do brasileiro são a bunda e o futebol.
Diferentemente dos americanos, que preferem um peito suculento e exagerado, a bunda é tão querida por nós que até o circunspecto poeta Carlos Drummond de Andrade dedicou-lhe o poema rotundo abaixo.

Na Bahia, o filósofo e escritor Antônio Risério dedicou-lhe uma monografia repleta de citações científicas e levando em conta todas as regras da ABNT. Ou seja, coisa séria! E não poderia ser diferente, diante dessa magnífica região corpórea onde a nossa imaginação pagã vagueia sem lenço e sem documento. A bunda hipnotiza o brasileiro.

A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.

 
Quanto ao futebol, ele representou o início da nossa redenção, enquanto povo moreno e terceiro-mundista. Segundo o escritor Nelson Rodrigues, foi o futebol que, nos distantes anos 50 e 60 do século passado, nas conquistas do bicampeonato mundial, na Suécia e no Chile, nos livrou da pecha de vira-latas .
O futebol, também, em que pese toda a conotação de mercadoria valiosa por ele adquirida hoje em dia, devolve-nos o sentimento de coletividade que, de certo modo, perdemos diante do individualismo desenfreado da vida moderna. Coisa boa é irmos aos estádios e nos identificarmos com a torcida do nosso time querido, abraçar quem nunca vimos, gritarmos gritos de guerra e cantarmos em uníssono os nossos hinos. Para mim, o futebol é a demonstração viva de que o homem é um ser coletivo, de que a individualidade é uma coisa forjada em nós pelo sistema. Bom é estar ali, no meio do povo, a cantar, a dançar, a sorrir, a vibrar, independentemente de tudo. Bom, naquele momento, é sermos aquela família.

Sobre o futebol também manifestou-se o poeta Drummond, e seguindo a lógica rodrigueana de que a seleção brasileira era a pátria de chuteiras, dedicou ao nosso escrete que disputaria a Copa do Mundo no México, em 1970, o poema abaixo, pouco citado e pouco lembrado. Fica claro que a paixão de Drummond pelo futebol superava até o momento político delicado que se vivia naquela época, colocando-o ao lado dos 90 milhões que unidos torciam pelo sucesso da seleção de Zagallo.

MEU CORAÇÃO NO MÉXICO

Meu coração não joga nem conhece
as artes de jogar. Bate distante
da bola nos estádios, que alucina
o torcedor, escravo de seu clube.
Vive comigo, e em mim, os meus cuidados.
Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:
que é de meu coração? Está no México,
voou certeiro, sem me consultar,
instalou-se, discreto, num cantinho
qualquer, entre bandeiras tremulantes,
microfones, charangas, ovações,
e de repente, sem que eu mesmo saiba
como ficou assim, ele se exalta
e vira coração de torcedor,
torce, retorce e se distorce todo,
grita: Brasil! Com fúria e com amor.

 -
Recife, 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Retrato de uma moça nem sempre bem comportada



RETRATO DE UMA MOÇA NEM SEMPRE BEM COMPORTADA

Clóvis Campêlo

Para falar a verdade, de Simone de Beauvoir conheço apenas a fama de que era uma mulher à frente do seu tempo. E essas mulheres sempre me interessaram. Mas, nunca li nenhum dos seus livros, embora me causem curiosidade pelo menos dois deles: “Memórias de uma moça bem comportada”, de 1958, livro auto biogáfico e onde critica os valores burgueses, e “A cerimônia do adeus”, de 1981, onde evoca a figura de Jean Paul Sartre, o companheiro de tantos anos e ações.
Apesar desse vago conhecimento, interessei-me em saber mais sobre a escritora francesa a partir da fotografia acima, descoberta por mim na grande rede numa época em que andava pesquisando imagens fotográficas de celebridades femininas nuas. Pensava em homenagear as imagens, não necessariamente as celebridades, com poemas exaltando a nudez. Nessa empreitada, descobri vários nús, quase todos trabalhados na sua composição. A fotografia de Simone atraiu-me justamente por mostrar um certo despojamento e uma simplicidade que só desfrutamos quando a imagem da nossa nudez não corre o risco da divulgação pública.
Nua, diante do pequeno espelho, Beauvoir ajeita os cabelos com naturalidade. A generosidades das suas curvas contrapõem-se às linhas retas da pia branca na sua frente. O banheiro simples, aliás, também denota despojamento: a toalha de rosto branca e comum, a explícita utilidade do rolo de papel higiênico, uma pequena prateleira com escova de dentes e desodorantes ou perfumes.
A porta do banheiro entreaberta, sugere que o fotógrafo era alguém que desfrutava da sua intimidade e que a tenha pegado de surpresa, o que realça ainda mais a beleza do quadro. Na realidade, a fotografia foi feita pelo fotógrafo americano Art Shay, amigo do escritor Nelson Algren, um dos amantes de Beauvoir, e que havia cedido o seu apartamento para o casal. Na época, Simone tinha 44 anos.
A extrema sensualidade, porém, fica por conta do salto alto que ela usava, nua, realçando o seu belo porte feminino. Como já disse alguém, La Beauvoir não era de se jogar fora.
Simone nasceu em Paris, no dia 9 de janeiro de 1908. Conheceu Sartre em 1929, aos 21 anos de idade (ele tinha 24), no curso de Filosofia da Universidade de Sorbonne, em Paris. No final do curso, ele obteria o primeiro lugar, e ela ficaria em segundo. Logo se uniriam estreitamente, cultivando uma relação afetiva profunda e ao mesmo tempo libertária e permissiva, onde prevalecia a liberdade sexual e de relacionamento aberto em ambos os lados, bem ao estilo das teses existencialistas que defendiam, onde cada pessoa deveria ser o responsável por si própria.
Ela morreria em Paris, no dia 14 de abril de 1986, aos 78 anos, em Paris, vitimada por uma pneumonia. Os seus restos mortais estão enterrados ao lado de Sartre, no Cemitério de Montparnasse, na Cidade Luz.

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Recife, 2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

De onde vem o baião?



DE ONDE VEM O BAIÃO?

Clóvis Campêlo

Em tempos de bandas de baião eletrônico, caberia repetirmos a pergunta do poeta: de onde vem o baião? Vem de baixo, do barro, do chão?
Segundo o estudioso da música popular brasileira, José Ramos Tinhorão, tão ridicularizado pelos intelectuais cariocas do finado O Pasquim, nos anos 70, o baião teve a sua origem em um tipo de batida de viola chamado exatamente de "baião".
Assim sendo, ainda segundo Tinhorão, o baião nasceu provavelmente de uma forma especial dos violeiros da zona rural do Nordeste tocarem lundus, que por lá chegaram com o nome de "baiano". De "baiano" à "baião" foi um pulo de vários acordes e notas. O pesquisador reforça a sua opinião ao lembrar de um depoimento prestado pelo compositor e sanfoneiro Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, à revista Veja, em 15 de março de 1972: "Quando toquei o baião para ele (Humberto Teixeira), saiu a idéia de um novo gênero. Mas o baião já existia como coisa do folclore. Eu tirei do bojo da viola do cantador, quando faz o tempero para entrar na cantoria e dá aquela batida, aquela cadência no bojo da viola. A palavra também já existia. Uns dizem que vem do baiano, outros que vem de baía grande. Daí o baiano que saiu cantando pelo sertão deixou lá a batida e os cantadores do Nordeste ficaram com a cadência. O que não existia era uma música que caracterizasse o baião como ritmo. Era uma coisa que se falava: "Dá um baião aí..." Tinha só o tempero, que era o prelúdio da cantoria. É aquilo que o cantador faz, quando começa a pontilhar a viola, esperando a inspiração".
Para reforçar a sua opinião, o pesquisador cita ainda a folclorista Marisa Lira, em um artigo intitulado "Baião I", da série Brasil Sonoro, publicado no jornal Diário de Notícias do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1958, onde ela afirma: "O baião é de um modo geral o ritmo da viola sertaneja. Tanto que no Ceará, Pernambuco e Paraíba, tocar baião significa marar na viola o ritmo alegre e contagiante com que se acompanham os cantadores nos improvisos, desafios e pelejas". Ou seja, Tinhorão confronta opiniões de duas fontes distintas, ambas abalizadas, e confirma a coincidência de informações.
Seguindo essa linha de raciocínio e procurando chegar às condições que propiciaram a aceitação do baião no meio urbano brasileiro, Tinhorão destaca ainda a contribuição dada a esse processo evolutivo pelo maestro cearense Lauro Maia. Precocemente falecido em 1950, aos 37 anos de idade, ele percebeu a riqueza melódica desse manacial da música nordestina, criando um ritmo chamado de "balanceio", que já não era mais o ponteio das violas, embora dela aproveitasse o ritmo, e nem era ainda o baião estilizado da forma como o organizaram Gonzagão e Humberto Teixeira.
Portanto, o baião surgiu como um desdobramento da batida dos violeiros nordestinos tocadores de lundus, passando pelo balanceio do cearense Lauro Maia e desaguando em um cenário urbano repleto da mesmice dos boleros e dos sambas-canção abolerados. Nessa época, a MPB ainda incipiente estava estagnada.
Em 1946, Gonzagão e Humberto Teixeira lançaram a música intitulada "Baião", onde, segundo Tinhorão, "o novo gênero se apresentava, de maneira muito feliz, com uma letra em que, além de acentuar essa novidade, ainda revelava claramente o seu próposito de servir com ritmo de dança".
Assim, enquanto o samba se amolengava desde meados da década de 1940, segundo o musicólogo Cruz Cordeiro, também citado por Tinhorão, sendo mais bolero, blue, tango, qualquer outra coisa, menos samba brasileiro, o baião ganhava popularidade rapidamente, pela vitalidade do seu ritmo, e conquistava o Brasil e o exterior.

FONTE: TINHORÃO, José Ramos, Pequena História da Música Popular, Editora Vozes, Petrópolis, 1974, pag. 209/217.

Publicado no Jornal do Commercio, Recife, domingo, 06.06.2010, Opinião, pág. 11.

- Postagem revisada em 28/01/2018

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Visagem



VISAGEM

Clóvis Campêlo

Não sabia se fora um sonho ou uma alucinação.
São Jorge vinha na frente, montado em seu cavalo branco. A luz do sol refletia na sua viseira prateada e projetava no chão uma imagem imponente.
Logo atrás, vinham Dom Sebastião, Zumbi dos Palmares e Antônio Conselheiro, ressuscitados, em estranhas carruagens de fogo.
Em seguida, vinha um exército de caboclos de lança, com suas roupas coloridas e chocalhos estridentes. E eram tantos que nem todos os mouros de Alcácer-Quibir dariam conta.
Findando o cortejo, vinham os batuqueiros dos maracatus africanos, detonando os seus tambores. E a nuvem de poeira que levantavam era tão imensa que poderia ser vista a quilômetros de distância. E o som de trovão que emitiam era tão intenso que o céu se partia ao meio, no meio da tarde.
Por sobre o fabuloso exército, anjos vestidos de branco tocavam trombetas douradas, anunciando uma nova ordem.
O poderoso exército avançava e por onde passava era seguido por uma multidão de doentes e famintos. E todos se sentiam fortes e revigorados como se um milagre estivesse acontecendo. E todos sabiam que eram partes integrantes de uma gigantesca e profunda mudança prestes a acontecer.
A força da fé que animava a multidão era tão grande que rios poluídos se transformavam em leitos de águas cristalinas, repletas de peixes.
A aproximação da turba revolucionária fazia brotar espontaneamente dos campos a colheita semeada e tudo era irmamente dividido.
Não sabia se fora um sonho ou uma alucinação.

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Recife, 2002

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ambrozino Porfírio da Cruz


Fotografia de Clóvis Campêlo/1991

AMBROZINO PORFÍRIO DA CRUZ

Clóvis Campêlo

Homeopata pernambucano nascido no Recife, em 7 de dezembro de 1901.
Autodidata, mesmo sem ser médico, começou a estudar a homeopatia em 1931, na cidade do Cabo de Santo Agostinho, onde residia na época, após contrair impaludismo.
Na década de 60, foi um dos introdutores da alimentação naturalista no Estado de Pernambuco, chegando a exercer a vice-presidência da Associação Macrobiótica de Pernambuco.
Poliglota, escrevia e trocava correspondências com revistas homeopáticas de vários países.
Faleceu na cidade de Fortaleza, em 15 de fevereiro de 1997, aos 95 anos de idade.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A insustentável irreversibilidade do ser



A INSUSTENTÁVEL IRREVERSIBILIDADE DO SER

Clóvis Campêlo

Descartes que me desculpe, mas o mundo é muito mais múltiplo e paralelo do que pregava a sua vã filosofia. E não adianta querer bancar o São Tomé, pois tudo que é sólido sempre se desmancha no ar. Entre as fantasias do real e as realidades do imaginário, portanto, vagamos nós, seres mutantes e modernos. Entre a finitude do momento e a eternidade do virtual, dividimo-nos de forma esquizóide. E não adianta mais chorar sobre o leite derramado, pois o processo talvez seja irreversível.
Como já dizia o guru, não existe segurança nenhuma em nada. Viver é uma extrema e ignorante ousadia, e nem mesmo temos controle algum sobre a chegada e a partida. Simplesmente vagamos. Perdemo-nos constantemente entre montanhas e vales, para nos reencontrarmos nas planícies e nos planaltos. Só sabemos que nada sabemos.
Compartimentar o tempo e mecanizar o pensamento e o raciocínio foram artifícios utilizados inultimente por nós em busca de um patamar mais seguro. Para todos, talvez fosse prudente observar o brilho diferenciado daquela estranha estrela, cuidando, porém, para não alimentarmos uma nova ilusão ou utopia. É muito pequena a distância entre a consciência e o delírio.
Mesmo pensando e pulsando, somos carne de terceira e nos iludimos constantemente com a perspectiva do divino. As nossas pretensões, porém, esbarram nas nossas próprias limitações: não vemos o que queremos, não alçamos vôos panorâmicos, arrastamo-nos pelo chão como vermes quaisquer. Somos seres decapitados e vemos a cada dia cabeça e corpo mais e mais se distanciarem.
Enquanto matéria orgânica, temos a carne como o cerne. É através dela que nos desencontramos com o mundo que imaginamos concreto. E quando esse mundo se desmaterializa, tornamo-nos tornados, energia pura descontrolada e bela, embora periculosa.
Mas, para que tanta verborragia se viver não exige tantas palavras? Se os procedimentos vitais se locupletam e se complementam de forma autônoma e independente? Se os fatos, por si sós, geram fetos de outros fatos? Se a vida é uma ida sem volta e sem escolta, solitária e desacompanhada?
Como diria o poeta em tempos idos, talvez só nos reste a opção de dançarmos um tango argentino!


Recife, 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Auto-retrato



AUTO-RETRATO

Clóvis Campêlo


Sou a reta e sou a curva,
a mão esquerda e a direita,
o verão na praia do Pina
e a chuva que adoça o caju.

Sou a revolução que não houve,
as dúvidas da certeza
e a alegria das dúvidas.

Sou o pai e sou o filho,
o vento que anuncia tempestades,
o raio que corta o céu ao meio
no meio da tarde.

Sou martelo agalopado,
entidade de corpo fechado,
soneto na nova medida
e a bandeira de São João.

Sou Elefante e Pitombeiras,
sou o Galo da Madrugada,
sou o barulho da feira
e o som da procissão.

Sou o amarelo de Nossa Senhora
e o azul de Iemanjá,
sou calmaria sem vento,
sou selva de pedra e cimento,
relva plantada no chão.

Sou o tudo e sou o nada,
o silêncio e a batucada;
sou o sul e sou o norte,
faca cega e navalha de corte.

Eu sou o fogo da vida
e sou o sopro da morte!


Recife, 2006

- Publicado no livro Antologia 2007 dos Poetas Independentes. Recife, Edições do Livro Rápido, 2007, página 39/40.
 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Papai Noel nunca me enganou



PAPAI NOEL NUNCA ME ENGANOU

Clóvis Campêlo

A Viana Leal ficava na Rua da Palma, no centro do Recife. Uma das primeiras lojas de departamentos criadas na cidade, nos anos 50, diferenciava-se das outras por conta da bela escada rolante existente e por onde nós subíamos para falar com Papai Noel, no primeiro andar. Foi lá que o conheci pessoalmente e onde comecei a alimentar a minha bronca natalina.
Primeiro, por conta dos presentes que nunca correspondiam aos que eu solicitava. Seria doido ou surdo o bom velhinho? Pedia-lhe uma bicicleta e vinha um avião de plástico. Pedia-lhe uma charmosa bola de couro e recebia uma outra de plástico chinfrim. Coisa chata aquilo. Não desconfiava que os meus pedidos esbarravam no salário parco de funcionário público do meu pai. Naquela época, para mim, o mundo era mágico e Papai Noel existia de verdade. Só não compreendia a sua capacidade de não me atender aos pedidos.
Numa das últimas vezes que lá estive, notei que a bela roupa vermelha de Papai Noel cheirava a suor. Aquilo me intrigou. Será que o bom velhinho não gostava de tomar banhos? Ou será que, morando sozinho no Polo Norte, não tinha quem lhe lavasse as roupas com as quais trabalhava?
Para mim, naquela data, Papai Noel se humanizava e começava a perder a sua aura mágica e poderosa. Sempre o imaginara como um anjo, um ser divinal criado por Deus apenas para atender aos sonhos e desejos das crianças do mundo todo. Em função dessa crença, esforçava-me o ano inteiro para ser uma criança boa e estudiosa. Em muitos Natais cujos presentes recebidos não correspondiam aos solicitados, atribui a mim mesmo essa responsabilidade. Talvez, naquele ano, eu não tivesse correspondido às expectativas na escola e no meu comportamento em casa e por isso não merecesse ser atendido nas minhas pretensões infantis. Papai Noel era justo e atencioso, um ser divino, e não me faria uma falseta dessas. Mas, se assim era, como podia suar e cheirar a suor. Alí havia algo de errado e alguém teria que me explicar o que era. Sendo Papai Noel humano e suador, a culpa não poderia ser só minha.
Minhas dúvidas acabaram-se de vez, logo depois do Natal, quando passei com o meu pai em frente ao Bar Savoy e vi nada mais nada menos do que o nosso Papai Noel, à paisana, tomando uma cerveja geladíssima ao lado de uma loira suspeita.
Ali, o sonho acabou de vez: Papai Noel era uma fantasia.

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pelas ruas do Recife


Fotografia de Clóvis Campêlo / 2000
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PELAS RUAS DO RECIFE

Clóvis Campêlo

Pelas ruas do Recife
surge a novidade,
afirmam-se credos seculares,
renascem mitos modernos.

Pelas ruas do Recife
dorme-se o sono dos justos,
cessam as palavras,
falam por si sós os fatos.

Pelas ruas do Recife
caminha a humanidade,
correm as notícias,
dispara a revolução.

Pelas ruas do Recife
travam-se todas as lutas,
cruzam-se todos os olhares,
reverenciam-se todos os deuses.

Pelas ruas do Recife
transitam todos os anjos,
ocorrem todas as mortes,
condensam-se todas as imagens.


Recife, 1991

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Severino Vitalino





Fotografias de Clóvis Campêlo / 2005

SEVERINO VITALINO

Clóvis Campêlo

Nascido no Sítio Campos, em Caruaru, no dia 04/3/1940, é um dos seis filhos de Vitalino de Caruaru, o mestre do barro.
Em 1948, aos oito anos de idade, acompanhou a mudança do pai para o Alto do Moura, também em Caruaru, onde fixou residência e onde hoje funciona a Casa-Museu Mestre Vitalino, mantida pela Prefeitura de Caruaru.
A casa é mantida da mesma forma em que se encontrava quando Vitalino morreu e Severino é quem zela por ela, recebendo por isso um salário da prefeitura.
Mas ele também é artesão do barro desde os 8 anos de idade, quando fez o seu primeiro boneco. Hoje, tem peças até no acervo da Casa Branca americana.
A Casa-Museu fica na Rua Mestre Vitalino, 281, no Alto do Moura, em Caruaru.
Foi lá que eu fiz as fotografias, em 2005, ainda em negativas de celulóide.


Recife, 2005

domingo, 18 de dezembro de 2011

O primeiro dia do resto da sua vida



O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA SUA VIDA


Clóvis Campêlo

O sonho fora terrível: dois operários em construção, amarrados e com os braços abertos, eram espancados em praça pública, pelos companheiros de obra, até a morte. Do outro lado da rua, sobre o lixo de um terreno baldio, um bebê de cabelos louros e encaracolados chorava, abandonado.
Deitara cedo, é verdade, e não conseguia entender porque sonhara aquele sonho estranho, em plena madrugada, quando o dia já começava a raiar.
Levantou da cama e olhou para a companheira que, bela, ressonava, tranquila, o sono dos justos. Era sempre assim: lutava contra a insônia e os pesadelos, enquanto ela dormia com a maior facilidade.
Durante anos se perguntara o por que disso, da insônia, da angústia. De nada adiantaram os anos de terapia ou mesmo os soníferos usados durante um certo tempo. Sabe lá Deus, quantas noites passadas em claro, nos últimos anos, ou dormindo mal e sonhando besteiras como as que sonhara há pouco.
Foi até a cozinha e colocou a água do café no fogo. Quando ela acordasse, o café já estaria pronto. Ao menos para isso, a insônia serviria. Pôs o pó do café no coador (detestava as cafeteiras que ferviam o pó junto com a água) e a água quente sobre ele, deixando o delicioso aroma invadir todos os cômodos do apartamento.
Logo ela acordaria, e repetiria a invariável pergunta: “Dormiu bem hoje?”. Já se acostumara com isso. Perguntava-se por que a repetição inútil da indagação. Tanto quanto ele, ela sabia da sua incapacidade de dormir bem. Sabia dos seus pesadelos e dos seus surtos depressivos.
Quando a ela dizia isso, alegando a inutilidade da pergunta, sempre respondia: “Lembre-se que hoje é o primeiro dia do resto da sua vida e nele você tem a obrigação de ser feliz. Esqueça o ontem e o amanhã. Concentre-se no agora. Liberte e libere as endorfinas”.
Odiava esse discurso otimista, mas como gostaria que ela estivesse certa.

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Em busca de nós mesmos



EM BUSCA DE NÓS MESMOS

Clóvis Campêlo


O que buscam as pessoas ao se juntarem em grupos?
Talvez um lenitivo para a solidão. Talvez. Afinal, a solidão é fera, a solidão devora. E se ela faz nossos relógios caminharem lentos, causa descompassos em nossos corações. Aplacar a solidão, portanto, pode ser um dos requisitos que buscamos nos relacionamentos. Houve uma época em que a única coisa que nos interessava era a disposição para a alegria. A natureza nos era generosa. Havia espaço, água, areia, luz, tudo em abundância e nós tínhamos uma energia enorme para gastar. Os amigos eram parceiros lúdicos, ainda não havia revoluções a serem engendradas. Também não havia discriminações sociais. Ganhava respeito quem se destacasse nas habilidades intrínsecas. Lembro de verdadeiros comandantes que depois descambaram para a marginalidade, a exclusão. Não tiveram a sua maestria e exuberância reconhecidas pela sociedade. Os critérios eram outros.
Houve um outro tempo em que a constituição cósmica já não nos interessava da maneira como se apresentava. Tínhamos planos maiores e melhores para o mundo e nos juntávamos em grupos para subverter esse estado de coisas. Éramos conspiradores contra tudo e contra todos. Éramos santos guerreiros e o dragão da maldade não estava em nós, estava no mundo. O inferno eram os outros. Movidos por essas utopias, muitos foram impiedosamente massacrados, exterminados. Sangramos desnecessariamente sem entender que o mundo tem a sua própria lógica e que se autotransforma, torna-se mutante quando a si mesmo interessa isso.
Um belo dia, abandonamos todos os bandos, revolucionários ou não, e começamos a criar filhos, plantar árvores e escrever livros. Começamos, sem perceber, a percorrer um longo caminho para o futuro em busca da fartura e da simplicidade do passado, onde tão pouco nos bastava e satisfazia.
E nesse caminho de volta, de retorno à terra, ao equilíbrio edênico, reaprendemos a arte de conhecer e conviver com novas pessoas, outros bandos de retirantes em busca de si mesmo, da sua paz interior, do seu eu cósmico.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Mosaicos







MOSAICOS

Clóvis Campêlo

Se a fotografia nasceu a partir da câmera escura, artifício utilizado pelos pintores renascentistas para copiar a realidade com a máxima perfeição, nada mais natural que ela seja usada para mostrar as cores e luzes do mundo, criando simulacros mais que perfeitos.
Assim, ao fotógrafo caberia apenas a escolha do ângulo e enquadramento adequados e a captação do momento decisivo da composição, como entendia o mestre francês Cartier Bresson.
A fotografia estaria condenada, então, ao figurativismo, à repetição e fixação exaustivas das imagens fugidias da vida e do mundo.
O desenvolvimento tecnológico, no entanto, com a criação de máquinas mais modernas e com mais possibilidades técnicas, permitiu aos fotógrafos contemporâneos algumas transgressões e até mesmo alguns equívocos.
Sem querer me estender muito nessa teoria da imagem e partindo decidido para os finalmentes, lembro que, entre nós aqui da província, foi o designer Aloísio Magalhães quem primeiro buscou utilizar a fotografia, através de montagens, para crias novas composições e imagens. Utilizando-se de um mesmo negativo, revelado de forma normal e invertida, criou o que chamava de fotogramas, colagens que davam um novo dignificado ao figurativismo fotográfico. Esse seu belíssimo trabalho está hoje quase esquecido e pouco é citado.
Ao concebermos os “mosaicos” que ilustram esse artigo, partimos da concepção aloisiana e da lembrança dos mosaicos que formavam o chão da casa dos meus pais, no Pina, e que aos poucos foram sendo substituídos pela cerâmicas modernas e sem graça dos dias de hoje.
A única diferença significativa no nosso trabalho, é que montamos os “mosaicos” não a partir de imagens figurativas ou de paisagens do mundo real, mas sim a partir de recortes de imagens das pinturas dos ônibus e paredes da cidade do Recife.
Feitas no início dos anos 90, ainda em negativos de celulóide, as imagens foram reveladas de forma normal e invertidas, assim como fazia Aloísio Magalhães, e montadas sobre papel escuro.


- Postagem revisada em 24/01/2018
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domingo, 11 de dezembro de 2011

O Ginásio Pernambucano


Fotografia de Clóvis Campêlo/2008

O GINÁSIO PERNAMBUCANO

Clóvis Campêlo

Escola mais antiga ainda em funcionamento no Brasil, foi fundada no dia 1º de setembro de 1825 por José Carlos Mayrinck Ferrão, então presidente da Província.
De início, seu nome era Liceu Provincial e não teve sede fixa por um bom tempo.
Começou com 26 alunos num dos corredores do Convento do Carmo, com professores do Seminário de Olinda.
Em dezembro de 1866, foi transferido para o prédio atual, na Rua da Aurora, ao lado do prédio da Assembleia Legislativa do Estado. Antes, funcionou na Rua do Hospício, no Cais da Alfândega e na Rua da Praia.
O prédio, tombado em 1984 pelo Patrimônio Histórico Nacional, obedece ao estilo neoclássico e foi construído por José Mamede Alves Ferreira, engenheiro responsável pela construção dos prédios da Casa da Cultura, do Hospital Pedro II, da capela do Cemitério de Santo Amaro e da grande maioria dos casarões construídos na Rua da Aurora, naquela época.
Pela escola passaram alunos ilustres como o ex-presidente da República Epitácio Pessoa, os ex-governadores pernambucanos Agamenon Magalhães, Cid Sampaio e Joaquim Francisco, além de outras personalidades como os escritores Ariano Suassuna e Clarice Lispector, o historiador Amaro Quintas e o geógrafo e historiador Manoel Correia de Andrade.
Para se ter uma ideia da rigorosa disciplina da escola, no início, seu primeiro diretor, Miguel do Sacramento Lopes Gama, o Padre Carapuceiro, criou um severo estatuto. Entre outras coisas, para ser matriculado, o aluno tinha de prestar juramento à Constituição do Império e, anualmente, os professores prestavam contas ao governo do desempenho acadêmico e disciplinar dos alunos.
Em 1997, as atividades do Ginásio Pernambucano foram suspensas devido às más condições de conservação do prédio, passando a escola a funcionar provisoriamente, durante as reformas, no prédio da antiga Escola de Engenharia, na Rua do Hospício.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Para Lennon sem McCartney



PARA LENNON SEM McCARTNEY

Clóvis Campêlo


A revolução nós a fizemos
deitados no assoalho do estúdio
(um atrapalho no trabalho).
Disparamos sonhos a esmo
e nem mesmo vimos as
mudanças se consolidarem.
Oh, garota,
talvez você nem
saiba qual a razão!
Sempre fui solidão
e queria morrer.
Nuvens negras sobre
a minha cabeça,
prenúncios de sofreguidão
e nós apenas queríamos
a revolução.
Oh, meu bem,
esqueça Mao e Guevara,
eles nos custaram
os olhos da cara
e nem mesmo houve
céu ou terra,
inferno ou paraíso.


Recife, 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

Além do módulo lunar


"Mulheres na janela", de Di Cavalcanti

ALÉM DO MÓDULO LUNAR

Clóvis Campêlo

No dia em que o homem chegou à Lua, eu posei no seu coração.
Todos a chamavam de Lenita e durante longos meses flertei com ela em silêncio, tímido e apaixonado.
Nunca imaginei que a conquistaria um dia. Afinal, ela tinha namorado com os caras mais gabaritados do udigrudi recifense, intelectuais e cineastas, e eu era apenas um rapaz latino-americano que morava no subúrbio e gostava de jogar futebol e curtir a praia.
Vimos tudo pela televisão, em preto e branco (o homem na lua).
Depois a beijei na escada do prédio onde morava. Na parede do corredor, havia uma guelra de baleia. Ela foi a testemunha muda de tudo o que houve naquela noite.
Depois de beijos e abraços, ela, completamente cínica e excitada, pediu para ir ao banheiro. Era só um pretexto para tirar a calcinha.
Sentou-se no primeiro vão da escada e deixou que eu acariciasse os seus pelos pubianos.
Respirava sofregamente quando lhe alcancei o clitóris e introduzi os dedos na sua rubra vagina.
Gozou ali mesmo, nos pés da escada, enquanto Amostrong enfiava o mastro da bandeira americana no solo lunar.
Um grande passo para a humanidade e eu cheirando os dedos atrevidos que havia invadido aquele espaço precioso.
Naquela noite não lavei às mãos ao chegar em casa. Aquele cheiro delicioso me pertubou por várias horas. Só me acalmei depois do gozo solitário.
Aquela seção maravilhosa se repetiria por muitas noites, até que um dia acabamos o namoro.
Depois, sempre que passava por ali e a via na janela do apartamento, sorria de satisfação.
Ela também sorria, acho que curtindo as mesmas lembranças.


Recife, 2008

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Divino Cartola



DIVINO CARTOLA

Clóvis Campêlo


Cartola morreu no dia 30 de novembro de 1980, oito dias antes de John Lennon ser assassinado em Nova York. A morte do ex-beatle, para mim e para o mundo, foi marcante, assustadora, incomensurável.
Talvez por isso, nas minhas lembranças, na minha jovem cabeça, não tenha sido tão significativa a data da passagem do compositor carioca.
Naquela época, inclusive, eu ainda não havia descoberto a dimensão e a importância do sambista para a música popular brasileira. Para mim, Cartola era mais uma "invenção" da turma do Pasquim, muito embora nas jovens tardes de domingo que curtíamos no Pina, nos anos 70 e 80, Cartola fosse uma das ilustres figuras que desfilavam nas nossas vitrolas.
Mas, naquele tempo, interessava-me muito mais a revolução tropicalista de Caetano e Gil e as guitarras da Jovem Guarda, que ainda reverberavam. Essa junção modernista, esse prisma inusitado que se apresentava na MPB, impressionava-me muito mais do que a arte do sambista do Rio.
Cartola morreu aos 72 anos de idade. Foi velado na quadra da Estação Primeira de Mangueira, escola de samba da qual foi um dos fundadores, e sepultado no Cemitério do Caju, no dia 1º de dezembro. Na hora do seu funeral, Waldemiro, ritmista da Mangueira, marcou no seu bumbo o compasso para que a música As rosas não falam fosse cantada pela pequena multidão que acompanhava o enterro. Atendia-se, assim, ao seu último desejo, manifestado por ele à família uma semana antes de morrer.
Quando tempos depois refiz os meus conceitos sobre a música brasileira e passei a resgatar determinados valores do passado, as músicas de Cartola passaram a fazer parte das minhas preferências, impressionando-me sobretudo por suas qualidades musicais e poéticas, pela grande sensibilidade desse homem que, embora tivesse terminado apenas o curso primário, mostrava-se um compositor completo e um letrista inspirado.
Não foi à toa, portanto, que o crítico musical Lúcio Rangel, com Cartola ainda vivo, tenha lhe dado o apelido de Divino Cartola.
Para Cartola, sem dúvida, eu também tiro o meu chapéu.


Recife, 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Delírio azul


Fotografia de Clóvis Campêlo/2000
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DELÍRIO AZUL

Clóvis Campêlo


Entre os rios e o mar, Recife é um delírio azul. Dos sonhos dos homens, fez-se a cidade que sempre encantou poetas e imperadores. Dos sonhos dos homens e dos aluviões, matéria orgânica semeando o futuro sobre as águas.
Entre risos e bares, Recife é um transe etílico. Do porre dos poetas, fez-se a literatura nem sempre bem comportada que alicerçou a sua fama de reduto de bardos e bêbados. Em bandos ou solitários, a margear as águas nem sempre límpidas do mangue.
Sobre rios, pontes e overdrives, Recife é sinuosidade, é extravagância, superação de limites. Na sua concepção, em nada, porém, difere de todas as outras cidades do mundo. É equívoco, prisão, neuroses, contenção. Recria-se sempre sob a ótica do pragmatismo capitalista, a grana erguendo e destruindo coisas belas, sequelas.
Entre o passado e o futuro, Recife é o presente nem sempre bem compreendido. Onde estarão os botos do Capibaribe, espantados pelo vinhoto das suas usinas de açúcar e pelo murmúrio incessante das suas máquinas modernas? Recife perde-se na sua própria contemporaneidade. Que cidade é essa? Deitada para sempre no berço esplêndido da planície aluvional, a esperar com paciência o beijo libertador do cavaleiro do futuro.
Quantas vezes nos renderemos à luz do luar secular? Quantas paredes se ergueram entre ela e o seu solo úmido? Quantos séculos ainda esperaremos pelo que nunca existiu, pela essência para sempre perdida do passado, dos casarões malassombrados, do vento morno do verão que nunca nos açoitou as faces?
A gente precisa ver o luar!

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domingo, 27 de novembro de 2011

Constatação



CONSTATAÇÃO

Clóvis Campêlo


Pra sempre ser "gauche" na vida
não me foi por um anjo dito,
foi minha opção escolhida,
foi o meu destino bendito.

Desfolhar sempre a realidade
como quem procura na essência
a busca de toda a verdade,
verdade de toda existência.

No entanto, resistia o mundo
a este sincero e profundo
desejo de o ver transformado.

E embora guerreiro na luta
investisse com força bruta,
eu é que fui sendo mudado.


Recife, 1991


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O frevo de rua



O FREVO DE RUA

Clóvis Campêlo


O frevo é pernambucano e nasceu pelas ruas do Recife, misturando polca, dobrados, maxixes, tangos e quadrilhas.
O frevo é pernambucano e degenerou-se a partir das bandas marciais que existiam no Recife no século XIX.
O frevo é pernambucano e teve a sua paternidade concebida pela banda do 4º Batalhão de Artilharia, o Quarto, e pela banda da Guarda Nacional, a Espanha de Pedro Garrido.
O frevo é pernambucano e na sua concepção despretensiosa e natural ousou misturar a dança e a música.
O frevo é eminentemente urbano.
Quem diz isso não sou eu. São vários pesquisadores, pernambucanos ou não. Entre eles, José Ramos Tinhorão.
No frevo, os dobrados desdobraram-se e foram sendo acelerados. Primeiro, os passos dos capoeiristas que acompanhavam as bandas e disputavam os espaços das ruas. Depois, as notas musicais, mais rápidas, mais curtas e mais altas. O frevo tomava corpo e forma. O frevo mostrava a alma.
O frevo sempre foi do povo. Primeiro do lúmpen que acompanhava as orquestras. Depois, dos trabalhadores urbanos mais organizados.
Acompanhemos Tinhorão: "Até o início da século XX, as marchas que começavam a ser frevos, antes mesmo do aparecimento desse nome, ainda não possuíam o caráter explosivo que o frevo de rua adotaria posteriormente.
Quando, porém, a partir do início do século, são rompidas as relações urbanas algo feudais do Recife pela presença das indústrias têxtil e açucareira, e a cidade se enche de novas camadas de trabalhadores procedentes da zona rural, dissociados das tradições locais, esses moradores de mocambos da zona alagada permitem o advento do frevo de rua estritamente orquestral, destinado pura e simplesmente à cega libertação de energia dos pés-de-poeira.
Para a música produzida pelas fanfarras em suas passeatas carnavalescas isso queria dizer que não havia mais qualquer compromisso com o repertório ora marcial, ora folclórico herdado do século XIX, e os metais poderiam enfim explodir em colcheias e semicolcheias nas introduções que desenhavam uma melodia marcada por síncopas, enquanto o ritmo, desprezando as medidas de tempo, produzia a ginga visivelmente inspirada nas desarticulações do corpo dos dançarinos entregues à loucura do passo."
Ou seja, o povo criou o frevo e o povo o libertou das amarras iniciais. O frevo sempre foi do povo. E, passo a passo, a liberdade do passo foi sendo inventada, ordenada e consentida. O frevo sempre foi liberdade.
Falo do frevo de rua, é claro, e dentro das concepções do crítico e estudioso paulista. As opiniões de Tinhorão estão no livro Pequena história da música popular (Ed. Vozes, Petrópolis, 1974, pág. 137/146). São interessantes e polêmicas quando trata de analisar as outras modalidades do frevo (frevo-canção e frevo-de-bloco).
Portanto, agora, quando novamente se aproxima o carnaval, vale a pena lembrarmos do ritmo autenticamente pernambucano.
Por enquanto, porém, falemos da invenção e das evoluções do frevo de rua, o frevo que encantou Tinhorão.
O resto virá depois.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre passarinhos e ecologia


SOBRE PASSARINHOS E ECOLOGIA

Clóvis Campêlo

A paz é uma utopia inventada pelo homem. Mesmo na Natureza, entre os animais, ela não existe. Mata-se para sobreviver e isso é justo e natural. É a lei da vida, A cadeia alimentar mantendo o equilíbrio ambiental e ecológico. O bicho-homem é que mata em nome do lucro e das falsas ideologias. E isso é trágico.
Outro dia, viajando para a cidade de Canhotinho com o meu amigo Bartolomeu Lima, demos uma paradinha estratégica na Bica da Mijada da Velha, em São Benedito do Sul, para um refrigério necessário. O dono do local era passarinheiro e logo surgiu uma inevitável conversa sobre a criação de passarinhos. Contou-nos ele que já tivera problemas com o Ibama por conta das gaiolas mantidas no seu estabelecimento às margens da rodovia. No entanto, indagou por que as usinas de produção do açúcar também não eram multadas, já que os defensivos e agrotóxicos usados na monocultura da cana causavam uma mortandade e um extermínio de aves muito grandes, trazendo um prejuízo maior do que o hábito do matuto de criá-las em cativeiro, bem alimentadas e livres dos predadores naturais. Segundo ele, mesmo ali, naquela cidade situada na zona da mata sul do Estado e ainda cercada por áreas de preservação da Mata Atlântica já era notória a diminuição dos passarinhos e da fauna em geral. Para mim, a indagação é corretíssima e merece uma reflexão.
Outro dia, domingo de manhã cedinho, na feira do Cordeiro, onde são vendidos pássaros importados de outras regiões do planeta (Austrália, Nova Zelândia, Japão, China, etc.), presenciei a fuga de um gaiolão de várias espécies de aves chinesas. Assim como aconteceu com os pardais trazidos da Europa nos anos 60, logo elas estarão devidamente adaptadas e se reproduzindo no novo habitat. Esse é um outro problema a ser seriamente considerado, pois isso implica em rápidas modificações na nossa fauna. A Natureza leva anos ou séculos para proceder a essas mudanças, dependendo das necessidades de adaptação ou sobrevivência das espécies, e o bicho-homem, movido por interesses pecuniários e anti-naturais interfere de maneira brusca e negativa nesse processo.
Consideremos ainda a contradição que existe na nossa legislação de tentar preservar as nossas espécies animais e ser conivente com a caça e o extermínio das espécies animais de outros países. Isso também é justo e ecologicamente correto?
Enfim, todas essas considerações me vieram à cabeça após a morte trágica de Brasão nas garras de um carcará que cumpria apenas o papel que lhe fora estabelecido pela Mãe Natureza, nas suas leis sábias e independentes das considerações conceituais do bicho-homem.
A cultura, a civilização, a modernidade, nada mais são do que ilusões por nós criadas para justificar as nossas atitudes antinaturais e mortíferas.



domingo, 20 de novembro de 2011

A morte de Brasão


A MORTE DE BRASÃO

Clóvis Campêlo


Uma das coisa mais curiosas que me lembro no livro “Henfil na China”, escrito nos anos 70 pelo falecido cartunista do Pasquim, eram os chineses oriundos das áreas rurais criando galinhas nas cozinhas dos apartamentos construídos pelos governo para realocá-los.
Não sou chinês e nem crio galinhas, mas gosto de criar passarinhos. O hábito, eu herdei do meu pai. Na nossa casa, no Pina, sempre havia muitas gaiolas para serem cuidadas por mim e por meu irmão, Carlinhos.
Com o meu tio Luís Regueira, cansei de me embrenhar de madrugada pelas matas de Camaragibe para passarinhar. Saíamos de casa bem cedo, levando uma sacola com mantimento (pão, goiabada e queijo de coalho), para pegar o ônibus no Recife Antigo. Antes de voltarmos para casa, à tarde, ainda desfrutávamos de um bom banho nas águas limpas do Riacho do Flamengo, hoje completamente poluído e perigosíssimo, local de desova da bandidagem.
Hoje, embora ainda existam resquícios da Mata Atlântica circundando o Recife, os passarinhos escassearam. Uns dizem que por conta dos pardais, pássaros alienígenas importados da Europa, nos anos 60, para combater o lacerdinha, um inseto que naquela época invadira o Recife e causava transtornos à população. Os lacerdinhas sumiram, é verdade, mas os pardais ficaram e espantaram os pássaros nativos (curiós, galos-de-campina, canários, patativas, papa-capins, caboclinhos, bigodes, guriatãs, etc).
Em agosto do ano passado, recebo um papa-capim de presente, trazido por um amigo meu do seu sítio, em Abreu e Lima. Resolvo chamá-lo de Brasão, atacante que, na época, estava em destaque no Santa Cruz. E, apesar de morar em um apartamento de classe média, no bairro do Cordeiro, logo arranjei no terraço um lugar de destaque para ele. Começava ali uma grande relação de amizade. Nesses quinze meses de convivência, acostumei-me a acordar de manhã cedo com o canto de Brasão. Era como se fosse um bom dia amigo.
Ontem, abruptamente, essa relação foi interrompida. Pelo celular, recebo a incrédula notícia: burlando a vigilância da família Campêlo, um gavião que andava rondando o terraço pegara Brasão desprevenido. Para o gavião, nada mais justo do que querer alimentar-se com a carne gorda e bem cuidada de Brasão. Para mim, que raciocino diferente e passionalmente, aumentou um pouco mais o meu vazio existencial.


sábado, 19 de novembro de 2011

Lindo pendão




LINDO PENDÃO

Em homenagem ao Dia da Bandeira e ao poeta Torquato Neto

Clóvis Campêlo

Salve o teu lindo olhar de esperança,
símbolo augusto de um novo dia,
e a saúde que o mesmo irradia
faz-me crer apenas na bonança.

Dos teus olhos o belo pendão,
na grandeza do afeto que encerra,
mantém-me na alegria e descerra
a cortina de nova visão.

A tua nobre presença alimenta
em meu peito um amor varonil,
facho aceso a tua luz afugenta

meus fantasmas, temor juvenil;
verde olhar o teu que me acalenta
a quimera de um sonho infantil.


Recife, 1991