quinta-feira, 25 de junho de 2015

Quando a história é mal contada!











Fotografias de Clóvis Campêlo/2015

QUANDO A HISTÓRIA É MAL CONTADA!

Clóvis Campêlo

Como diz o escritor Urariano Mota, muito pouca gente sabe que o que está ruim ainda pode ficar pior. É o caso, por exemplo, do Forte de Nossa Senhora do Pau Amarelo, na praia do Pau Amarelo, na cidade do Paulista, no litoral norte de Pernambuco.
Segundo a Wikipédia, o monumento, de propriedade da prefeitura do município, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 24 de maio de 1938, sob o número 84 no Livro das Belas Artes. Mesmo assim, encontra-se atualmente em condição inadequada de conservação, com as paredes da parte superior da edificação pichadas, e o que é pior, repleto de lixo e excrementos humanos e animais. Visto de fora, conforme as fotografias acima, ainda apresenta um aspecto imponente e belo, mas, não se pode dizer o mesmo da parte superior.
Ainda segundo a Wikipédia, na sua parte inferior, que estava fechada quando da nossa visita, de acordo com o convênio assinado em 2001, entre a Prefeitura do Paulista e o Instituto de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico e Científico (IPAD) para restauração do forte, estava incluído o disciplinamento do comércio local, a instalação de um posto do Banco do Brasil e um outro da Polícia Militar, além da transformação de uma quadra já existente na frente do Forte em uma praça para grandes eventos. Além disso, nas salas existentes no andar térreo, que já chegaram a ser invadidas por famílias de baixa renda, iriam ser instaladas lojas de artesanato, um centro de informações turísticas e um museu histórico da cidade. Pelo estado de conservação do monumento hoje, porém, não acreditamos que isso tenha acontecido. A quadra em frente ao Forte continua ociosa e ocupada por vendedores de comidas típicas.
De positivo, porém, observamos que as construções irregulares que haviam no entorno do Forte (bares e barracas) foram demolidas. Ao mesmo tempo as ruas que cercam o patrimônio histórico foram calçadas, facilitando o acesso ao prédio. O avanço do mar na área, obrigou as autoridades competentes a construírem um pequeno muro para a contenção das águas marinhas. Desse modo, a praia que existia no local ficou prejudicada, principalmente quando a maré está alta. A grande quantidade de coqueiros que havia na praia, a alguns anos atrás, também foi derrubada pelo avanço da maré.
Segundo o site da Fundação Joaquim Nabuco, existe ainda no local uma capela, cuja padroeira é Nossa Senhora dos Prazeres, salientando que o início da povoação de Pau Amarelo data da construção do Forte, no século XVIII.
Lamentamos, portanto, que o monumento hoje ainda não esteja numa condição que faça jus ao seu valor de patrimônio histórico de Pernambuco. O Forte do Pau Amarelo, ao lado dos outros fortes que ocupam espaços na cidade do Recife e em outras cidades do nosso litoral, integra um sistema de defesa concebido pelos nossos colonizadores portugueses para a sua proteção. Interessante seria que esse circuito histórico fosse valorizado e sistematicamente utilizado como forma de incremento turístico em nosso Estado.
A nossa história precisa ser melhor contada!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Frank Sinatra e a Grande Nação Pesqueirense


FRANK SINATRA E A GRANDE NAÇÃO PESQUEIRENSE

Clóvis Campêlo

O que teria o cantor americano Frank Sinatra a ver com a cidade de Pesqueira? Aparentemente nada!
Situada no sertão de Pernambuco, no Planalto da Borborema, a uma altitude de 615 metros e a 215 quilômetros do Recife, segundo o Censo 2014, possui pouco mais de 65 mil habitantes. Para muito mais gente, cantou Frank Sinatra no Brasil, em janeiro de 1980, quando colocou para assisti-lo e escutá-lo, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, cerca de 170 mil pessoas. Ou seja, quase o triplo da população atual de Pesqueira.
Não sei se Sinatra chegou a vir outras vezes ao Brasil. Afinal, naquela época, ainda não estávamos inseridos no roteiro dos grandes shows internacionais, como hoje. Mas, a voz e o carisma de Sinatra, com certeza, no bojo dos grandes meios da comunicação moderna, o levaram até a cidade interiorana, onde fomentou um fã-clube respeitável nos cidadãos nascidos no pós-guerra, senhoras e senhores hoje ostentando 70 ou mais anos.
Uma outra verdade inquestionável: hoje, no Recife, existe um grande número de pesqueirenses que para aqui vieram em busca de melhores condições de estudo e de trabalho. Afinal, a vinte ou trinta anos atrás, Pesqueira ainda não apresentava a estrutura de cidade que hoje apresenta. Esse pessoal forma um grupo chamado de Grande Nação Pesqueirense que se reúne todo segundo sábado de cada mês, na sede do Círculo Militar do Recife. O encontro começa por volta do meio dia e se estende até as quatro horas da tarde. É tão animado e bem frequentado, que até pessoas nascidas em outras cidades pernambucanas, como Tabira, começaram a prestigiá-lo, formando um outro grupo especial dentro do grande grupo.
Foi lá que reencontrei, por exemplo, Carlos Celso Cordeiro, grande pesquisador do futebol pernambucano, com vários livros lançados, tabirense de nascimento, que conheci no Arquivo Público Jordão Emerenciano, nos anos 90, ao lado do jornalista Givanildo Alves, já falecido, um pioneiro nesse resgate.
No Círculo Militar, os encontros da Grande Nação Pesqueirense são animados por Nem dos Teclados, músico competente, também pesqueirense, e com um vasto e eclético repertório, que vai da música popular brasileira de todos os tempos aos grandes nomes da música internacional, entre eles Frank Sinatra.
Curiosamente, Sinatra e Pesqueira são contemporâneos, haja visto que o primeiro nasceu em 1915 e a segunda, com a configuração geo-política que tem hoje, surgiu em 1913.
Mas, os encontros mensais do Círculo Militar são sempre encerrados por Valdo, outro um autêntico filho de Pesqueira, cantando a música New York, New York, segundo a crônica musical especializada uma das três principais músicas da carreira de Sinatra, ao lado de My Way e Fly Me To The Monn. Com sua voz rasgada que mais se aproxima de Louis Amstrong, Valdo sempre encerra a festa em grande estilo para delírio de todos os pesqueirenses presentes. E de bônus ainda canta o Zé da Conceição, com o suínge sincopado de um Miltinho.
A festa sempre termina assim. E todos se despedem com o copo na mão.

sábado, 20 de junho de 2015

Um machado afiado?


UM MACHADO AFIADO?

Clóvis Campêlo

Um dos ícone da literatura de língua portuguesa em todo o mundo, Machado de Assis, amanhã, estaria completando 176 anos de vida.
Nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e falecido nesta mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Segundo a Wikipédia, nasceu no Morro do Livramento, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou uma universidade. Seu pai era um mulato que pintava paredes, filho de escravos alforriados, e sua mãe era uma lavadeira portuguesa da Ilha dos Açores. Os biógrafos notam que, interessado pela boemia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual. Para isso, assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras.
Ou seja, podemos definir Machado de Assis como o "branco mulato" ou o "preto doutor" de que nos fala Dorival Caymmi nas suas músicas. Sem dúvida alguma, o que alguns outros classificariam de um "alpinista social".
 Através do Facebook, entre os nossos amigos virtuais, lançamos uma pequena pesquisa com o intuito de captar como o escritor é visto hoje por seus leitores e admiradores. De imediato, percebemos que voluntariamente ou não, Machado de Assis foi lido pela grande maioria dos que nos responderam. Alguns, por questões disciplinares. Outros, por curiosidade juvenil, e que nem sempre ficou uma boa impressão da leitura.
Alguém chegou a considerá-lo um crítico da burguesia daquela época, enquanto Lima Barreto, um seu contemporâneo, hoje pouco falado, encarregou-se de traçar o retrato do "resto" social que pouco interessou a Machado.
Outro alguém, o classificou como "o pai da língua brasileira, no atacado e no varejo, do romance (Dom Casmurro, Memórias Póstumas...) ao conto (Missa do Galo, O Alienista...), sem falar na poesia... Na dimensão psicológica, eu o acho equivalente a Dostoievski, sem a visão trágica dos eslavos...".
Ou seja, Machado de Assis, na ironia e na ludicidade dos seus textos, permite-nos a dúvida, enquanto em Dostoievski, a dívida é paga com a tragédia. Será que Machado no alto da sua brasilidade mestiça já exercitava literariamente o chamado jeitinho brasileiro?
Mas, se a dúvida foi um dos ingredientes dos textos machadianos, como em Dom Casmurro, onde chegamos ao final do texto sem saber se realmente Bentinho foi traído por Capitú ou por sua imaginação, não se pode dizer o mesmo do mistério, quase ausente. Um outro amigo, porém, conta que estavam ele a esposa lendo na cama As Memória Póstumas de Brás Cubas, quando adormeceram. Ao acordarem, perceberam, que o livro havia sumido. Apesar das buscas intensas, nunca mais foi encontrado. Um verdadeiro mistério machadiano!
Mas afinal, quem seria o menino Joaquim Maria, que caminhos trilhara antes de chegar a ser o maior escritor brasileiro de todos os tempos (pompa contestada por algumas das respostas que recebemos...). Segundo o site Releituras, "de saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando".
No final da vida, ainda segundo o site Releituras, "era urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. ... A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica. ... Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos."
Afinal, cabe a um grande escritor a obrigação de reescrever o mundo com uma proposição mais justa e mais humana, ou o seu papel literário não passa obrigatoriamente por essa função? O que acha disso?

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Grávidos


GRÁVIDOS

Clóvis Campêlo

Fotografia feita no ano de 1978, no prédio em que morávamos, no bairro da Boa Vista, no Recife. Pode ser que não pareça, mas Cida estava grávida de Tatiana. Não lembro quem fez a fotografia. Na dúvida, divido-me entre Zenóbio, um amigo que também morava no bairro e que, na época, frequentava a nossa casa, e meu irmão Carlinhos. Contra Carlinhos, porém, pesa o fato de que, na época, dividia-se entre o Recife e a cidade de Riachão, no Maranhão, onde trabalhou um certo tempo.
Mas, o fato mais importante é que Cida estava grávida do nosso primeiro filho. Não tínhamos como saber, então, qual o sexo da criança. Por isso, a chamávamos de Roberval, numa alusão ao personagem Roberval Taylor, de Chico Anysio, que fazia muito sucesso na televisão, no programa Chico City.
O sucesso desse programa humorístico, inclusive, era tão grande que terminou por batizar até hoje o Conjunto Residencial Brigadeiro Francisco Correia de Melo, no bairro da Vila do Ipsep, na zona sul do Recife. Assim, íamos na onda e no bom humor de brincar afetuosamente com a criança que nasceria alguns meses depois, em janeiro de 1979. Combinamos, então, que se a criança fosse menino teria o nome escolhido por mim. Caso contrário, Cida escolheria seu nome.
Fico pensando aqui comigo, como até poucos anos atrás a tecnologia disponível era precária. No máximo, ouvia-se o coração do bebê batendo, numa zoada que parecia uma lâmina de flandre sendo balançada. Era um sucesso, isso. A audição do batimento cardíaco de Tatiana (na época, Roberval) se deu em uma das visitas feitas no consultório da dra. Aspásia Pires, a obstetra que acompanhou Cida nos seus dois partos (Tatiana e Gabriel). Hoje, já se sabe com quase absoluta certeza do sexo do bebê, da sua posição na bolsa e até do seu sofrimento, nos casos em que a gravidez caminha para um lado indesejado.
Tatiana (na época, Roberval), porém, parecia não ter pressa de vir ao mundo, e no dia 20 de janeiro de 1979, Ano Internacional da Criança, foi marcada a data da cesariana.
Chegamos cedo na maternidade do Hospital Português, mas a dra. Aspásia preferiu o uso dos fórceps, já que a criança estava atravessada e laçada. Até hoje, Tatiana tem na testa as marcas desse procedimento. Mas, apesar do nervosismo do momento, tudo correu bem e veio ao mundo uma menina linda e perfeita.
Vivi esse momento especial da minha vida ao lado dos meus pais, seu Clóvis e dona Tereza, e da minha avó materna, dona Carmelita. Na porta da sala de parto haviam dois bonecos, um masculino, de azul, e outro feminino, de vermelho. Quando o boneco feminino acendeu é que ficamos sabendo do sexo da criança nascida naquele momento. Roberval passava, assim, a ser definitivamente Tatiana, nome escolhido pela mãe, conforme combinado anteriormente.
Começava a ser formada, naquele momento, a família Machado Campêlo, com origens que iam desde a cidade de Carolina, no Maranhão, a Jaboatão dos Guararapes e Ipojuca, cidades na zona da mata pernambucana.
Um ano e dois meses depois, no dia 12 de março de 1980, dia dos aniversários das cidades de Olinda e Recife, nascia Gabriel, o nosso segundo descendente em linha direta. Mas essa já é outra história e outra fotografia.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Cavalo velho, capim novo?


CAVALO VELHO, CAPIM NOVO?

Clóvis Campêlo

Não sei o que é que tem mulher jovem pra mexer com o imaginário de homens maduros (ou nem tanto) quanto eu.
Lembro que alguns anos atrás, nos tempos do Pasquim, Erasmo Carlos dizia que era preciso se policiar para não dar em cima das amigas dos filhos ainda adolescentes. De vez em quando, era preciso se tocar que, ali, ele já era o pai, o mantenedor, e que existiam regras e convenções sociais explícitas a serem obedecidas. O instinto masculino animal e de preservação da espécie leva-nos a escolher fêmeas novas e ainda com capacidade reprodutora. As convenções sociais, porém, regulam isso. No âmbito das outras espécies animais, porém, é a força do macho jovem que repele os mais velhos e os colocam no seu devido lugar. Assim, garante-se uma boa linhagem genética e filhotes de boa qualidade. Aliás, entre diversas espécies animais os machos mais velhos são colocados na periferia ou nas extremidades dos grupos para serem os primeiros caçados pelos predadores da espécie. Entre os babuínos, por exemplo, é assim. Quem for velho que se segure!
Entre os humanos, porém, existem as regulações sociais para preservar-nos os direitos. E quando isso não funciona, tem a força do poder econômico para contornar a situação. Hoje, os velhos ricos não sofrem. São um bom mercado, e quando se trata de aferir lucros o capitalismo não costuma alimentar puritanismos bobos. Assim, se o camarada for velho mas tiver dinheiro, estará garantido. Que o diga Hugh Hefner, o dono da Playboy, cuja fortuna em 2011 foi avaliada em 43 milhões de dólares.
Uma das mais famosas é Kendra Wilkinson, que já não namora mais com o ricaço. A modelo participa de um reality show e fez revelações sobre sua relação com Hefner durante uma conversa. Kendra Wilkinson, uma das suas namoradas mais jovens e recentes, relatou em um site de entretenimentos, como se deu a sua relação com o velhinho todo poderoso:
“- Hef me perguntou se eu queria ser uma de suas namoradas e morar na mansão e eu fiquei tipo "Não sei o que isso significa, mas caramba! Quero ir!". Eu morava em um apartamento feio e pequeno e só rezava para alguma coisa acontecer e me tirar de lá.
— Então, eu me mudei para a mansão e passaram várias semanas, mas eu não sabia que tinha sexo envolvido. Ele perguntava se você queria ir até o segundo andar com ele e era isso. Você não era obrigada, era sua escolha [fazer sexo com Hefner]. Ele realmente vê suas coelhinhas como relacionamentos, Hef realmente ama suas mulheres. Eu tinha 18 anos e ele 78”.
Como se pode ver, uma diferença de 60 anos de idade nunca é escandalosa quando praticada por celebridades endinheiradas. Essa, por sinal, é uma das hipocrisias do sistema em que vivemos. Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do povo, que não tem papas na língua, prefere chamar de prostituição de luxo, E eu, no alto da minha pobreza visceral, não tenho por que não concordar com ele...

Recife, junho 2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Bichos mortos




BICHOS MORTOS
Recife, 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo

domingo, 17 de maio de 2015

Poeta Waldemar Lopes


Fotografia de Clóvis Campêlo

POETA WALDEMAR LOPES

Um dos maiores sonetistas da poesia brasileira contemporânea, nasceu na cidade de Quipapá, no agreste pernambucano, em 01/02/1911, e faleceu no Recife, em 21/10/2006.
Sua formação intelectual foi firmada em vários campos de atividades em Pernambuco, Rio de Janeiro e Brasília, onde atuou em jornalismo (ótimo cronista e revisor primoroso), literatura (criou e participou de vários grêmios e academias literárias), administração pública, economia, direito público internacional (esses últimos vividos na sua atuação profissional no IBGE e na OEA).
Como jornalista, teve atuação destacada no Jornal do Commercio (Recife), Associação de Imprensa de Pernambuco, A Noite (Rio de Janeiro), Revista Brasileira de Estatística, Revista Brasileira de Municípios e outros órgãos da imprensa brasileira.
No Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi Diretor da Secretaria-Geral, Secretário Geral do Conselho Nacional de Estatística, membro da Comissão Censitária e da Comissão Nacional de Política Agrária.
Na Organização dos Estados Americanos (OEA), onde atuou de 1954 a 1976, foi diretor de seu escritório no Brasil e representante de sua Secretaria-Geral junto ao Governo Brasileiro.
Desde sua residência no Rio de Janeiro, já recebia amigos (juntamente com sua esposa Iracy) nos sábados, para reuniões literárias informais, que foram denominadas Sabalopes. Essas reuniões persistiram até o dia em que foi hospitalizado, antes de sua morte, no Recife.Em vida, publicou mais de vinte livros abordando assuntos diversos, entre poemas, crônicas e outros.
A fotografia acima foi feita por nós, em 1991, no Recife, para o projeto "Escritores Pernambucanos Contemporâneos - um levantamento foto-biográfico", do extinto Grupo 3.

Fontes: Wikipédia e Acervo Clóvis Campêlo

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Nilo Pereira


NILO PEREIRA
Recife, 1991
Fotografia de Clóvis Campêlo


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Ambiente de Festival












AMBIENTE DE FESTIVAL
Com Kenny Brown e Derico
Rio Mar Jazz Fest II
Recife, abril 2015
Fotografias de Clóvis Campêlo

segunda-feira, 27 de abril de 2015

George Israel












GEORGE ISRAEL
Presença no II Rio Mar Jazz Fest, com a participação do maestro Edson Rodrigues e do guitarrista Luciano Magno, entre outros.
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, abril 2015

sábado, 25 de abril de 2015

Chega de Saudade





CHEGA DE SAUDADE

Clóvis Campêlo

Começo este texto pensando em homenagear aos mestres Vinícius de Moraes e Tom Jobim, que em meados dos anos 50 compuseram essa joia rara da MPB, a música “Chega de Saudade”.
A música foi gravada pela primeira vez em 1958, por Elizeth Cardoso, com arranjos do próprio Jobim e acompanhamento de João Gilberto ao violão. Elizeth não era exatamente uma cantora revolucionária da MPB. Não cantava em tom de bossa-nova. Mas teve o mérito de se fazer acompanhar pelo violão de João Gilberto, numa batida diferente e que depois seria a marca registrada do novo movimento musical.
Do ponto de vista melódico, a música também não apresenta muitas novidade, repetindo sequências muito utilizadas na MPB de então. Jobim talvez ainda não tivesse assimilado definitivamente a influência do jazz e da dissonância debussiana.
Poeticamente, a letra mostra o coloquialismo de Vinicius de Moraes, com os diminutivos que lhe são peculiares (peixinhos, beijinhos, etc.) e a tentativa de reconstruir uma situação emotiva que anteriormente fora compensatória ao poeta. “Chega de Saudade” não prega uma rutura reconstrutiva na sua letra, mas sim a recomposição de uma situação anterior positiva. A tristeza do poeta lhe serve como moleque de recado. Não nos fica claro, porém, se o poeta foi atendido por sua musa. Percebemos apenas a admissão, no condicional, da beleza da volta.
Assim, de revolucionário mesmo só a batida do violão de João Gilberto, antecipando a síncope bossa novista e nos alertando que naquele momento cultural brasileiro, reflexo de todo um contexto sócio-econômico reinante, haveria espaço para uma nova concepção musical. Nesse sentido, genial.
Há quem diga, porém, como o crítico José Ramos Tinhorão, por exemplo, que a Bossa Nova foi uma excrescência inadequado para o momento em que se deu. O falecido escritor Ariano Suassuna, respaldado pelo Movimento Armorial, também pensava assim. Pode até ter sido mesmo. Mas, acreditamos, que hoje não há mais espaço para esse tipo de contestação. A bossa nova se consolidou e desdobrou-se em influências definitivas para a música popular brasileira. Quem imaginaria a MPB atual se ela? A assimilação desses “estrangeirismos”, além de servir para modernizar a música brasileira, abriria espaços para outros movimentos musicais modernos como a Jovem Guarda e o Tropicalismo.
Do mesmo modo, a poesia coloquial de Vinícius de Moraes quebrava com o tom acadêmico e rebuscado que reinava nas letras das músicas dos anos 40 e 50, talvez influência da poesia arcádica e parnasiana de então. Simplificavam-se as letras e se enriqueciam as harmonias e as sequências melódicas. Na Bossa Nova era só isso o nosso baião. E não era pouco não.
Mas, do mesmo modo que abri essa crônica querendo homenagear os pais da Bossa Nova, pensava em escrevê-la também para falar de um amigo que tem o passado com referência. Aos 85 anos, diz que suas atenções estão todas no tempo que se foi, não ousando fazer planos futuristas que não poderá viver. Costuma dizer que se sente como se estivesse viajando olhando para trás, para o que se vai (ou se fica) e nunca para a frente, para o futuro. Talvez ele tenha razão. Mas esta será uma outra crônica que deixo adiada para o futuro.

Recife, abril 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Escultura do Galo da Madrugada





ESCULTURA DO GALO DA MADRUGADA
Fotografias de Clóvis Campêlo
Recife, 2005


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Depoimento de Urariano Mota


Depoimento prestado a Clóvis Campêlo,
na Rua do Bom Jesus, no Recife, em 11/4/2015

domingo, 12 de abril de 2015

Depoimento de Urariano Mota


Depoimento prestado a Clóvis Campêlo,
na Rua do Bom Jesus, no Recife, em 11/4/2015.

Depoimento de Urariano Mota


Depoimento prestado a Clóvis Campêlo,
no Recife, na Rua do Bom Jesus, em 11/4/2015

Depoimento de Urariano Mota



Depoimento prestado a Clóvis Campêlo,
na Rua do Bom Jesus, no Recife, em 11/4/2015

sábado, 11 de abril de 2015

Entrevista com Urariano Mota


ENTREVISTA COM URARIANO MOTA

Não tenho dúvidas, era a mesma pessoa. Já vira aquele menino antes, na zona norte, em outra transversal do tempo. Não era muito bom jogando bola, mas contava histórias como ninguém. E gostava de pular o muro do terreno de seu Lula, para pegar azeitonas pretas. Não seria difícil conversar com ele. Afinal já nos conhecíamos, mesmo que de vista. Andáramos pelas mesmas ruas, comemos os abacaxis do Mercado de Água Fria, cortamos os cabelos com o mesmo barbeiro da Rua Japaranduba. Era um velho conhecido. Foi só lhe dirigir a palavra e a conversa aconteceu. Não na praia do Pina ou em alguma esquina de Água Fria, mas nas terras férteis da internet. O resultado dessa conversa está colocada abaixo. Com muita sinceridade (Clóvis Campêlo).

CLÓVIS  CAMPÊLO - Quando foi que um anjo torto te disse para ser “gauche” na vida?

URARIANO MOTA - Em lugar dos versos "Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida", na minha vida, em mais de uma oportunidade, não houve qualquer anjo. Pelo contrário, muitas vezes, na infância e já adolescente, eu senti que um "urubu pousou na minha sorte", para lembrar o verso definitivo de Augusto dos Anjos. Pouso e sem pose, nada retórico. Nem mesmo Deus. Caso semelhante ao do narrador em O Filho Renegado de Deus: "'Eu tenho um acerto pessoal com Deus', a consciência de Jimeralto gritava". Mas se entendo a sua pergunta de outra maneira, digo que filho de mãe descendente de índio com branco e de pai mulato, trabalhador do cais do Recife, nascido em Água Fria, eu tinha mesmo que ser gauche, ou seria idiota. Ser gauche foi a minha salvação. Taí, um crente diria que Deus escreve certo por linhas tortas. Mas observo que o "gauche" na minha resposta vem da tradução do francês, "esquerda", "ser de esquerda". Creio ser esse um dos significados dos versos de Drummond, e não o que lhe dá o dicionário, "tímido, canhestro, torto". Foi no sentido de "esquerda" que respondi.

CLÓVIS CAMPÊLO - Penso que ninguém nasce de "esquerda", entendeu? Nascemos "cristãos" e "capitalistas". Somos impregnados por essas ideologias desde o berçário da maternidade. Tornar-se de esquerda, significa tomar conhecimento de outras informações e leituras do mundo e optar por elas. A pergunta foi nesse sentido. Quando se deu esse "start"? Em que fase da tua vida isso aconteceu?

URARIANO MOTA - De fato, ninguém nasce de “esquerda”, na medida em que todos nascemos nus, despidos, com um patrimônio animal, antes de nos tornarmos humanos.  Mesmo quanto à tradição capitalista e cristã que se incorpora adiante em nós como uma segunda pele, com todos os preconceitos de que somos feitos, essa segunda pele vem com mistura de tudo, vale dizer,  também de cultura que nem é cristã nem capitalista. O que dizer, por exemplo,  da vizinha que divide a comida com o outro em dificuldade, isso é capitalista ou cristão?
Mas você quer o começo biográfico. O “start” para a esquerda, Clóvis, veio se construindo, em momentos cruéis e cruciais da minha vida, porque a minha tradição era de americanófilos, como de resto eram os suburbanos naquela fase imperiosa de Hollywood e propaganda pós-guerra dos Estados Unidos. Então eu lembro que, menor de idade, fui contínuo em A F Motta & Cia. Ltda, que ficava na Rua da Concórdia. Ali, todas as manhãs, eu tinha que limpar a lixeira com escarro do dono português. Quanto catarro possuía na garganta o patrão. Cuspia e tossia o dia inteiro, antes que o anjo do câncer o levasse para o céu. O meu cinto era um cordão barbante. Os jovens hoje, os filhos, nem imaginam o quanto era inacessível um simples cinto para as calças. Então na festa do fim do ano ganhei um de presente, da caixa da loja, e o peguei morto de vergonha, porque haviam descoberto o que a minha camisa cobria. Dias depois, a caixa da loja, a doce e amável caixa, me emprestou A Mãe, de Górki. Esse é um dos começos que vieram se somando.

CLÓVIS CAMPÊLO - E como chegou aos seus grandes ideólogos? De onde tirou a base de sustentação para essa opção ideológica?

- URARIANO MOTA - Em primeiro lugar, da necessidade urgente de procurar uma resposta para a desordem do mundo. Como Deus poderia admitir que a injustiça triunfasse de todas as maneiras? Que o mundo fosse uma ordem que não respeitava o talento, o amor, o afeto, o brilho e a sensibilidade de rapazinhos suburbanos, como podia? Aliás, não podia, só fodia, a alma da gente. E a partir dessa necessidade, os amigos, as pessoas de esquerda que conheci, as melhores pessoas que podíamos conhecer nos anos 70.
Sobre esse momento, o meu primeiro romance “Os corações futuristas” narra:
“- Deus não está do nosso lado – João fala.
–Ainda acredita em Deus? – Vevê pergunta.
– Que pergunta! – João responde. – Se existe ou não, Ele não está do nosso lado. Isso é o que importa.
– Fecho – Miro diz. – Há muito que Deus não está por nós. Às vezes está conosco, mas é contra nós.....
Naquela manhã , ao atingir a Suassuna, João estragou o sapato chutando muros dos jardins de casas na avenida. Miro, mais sereno, acompanhou aquela angústia como um personagem que tudo vê, num pesadelo. Aquela angústia também era sua, mas amenizada, por temperamento e crença. Vevê ficou em casa, para dormir. Terminou por ‘furar um ponto’, às onze horas do dia. Samuel, nem feliz nem contente, apenas dizia, ‘João, João’ e não sentia em si forças para conter aquele assalto de desespero. O certo é que todos tinham os olhos vermelhos, marejados, e os corpos dissolutos. Cada um guardava no íntimo, e sabiam que este era um segredo comum, que não se diziam: vida, tu és amarga.”

CLÓVIS CAMPÊLO - Dando sequência, eu perguntaria se a sua opção realmente lhe serviu para modificar positivamente o mundo, ou se mostrou como um instrumento sem a força necessária para isso. O escritor é um demiurgo que tenta reconstruir e reorganizar o dito cujo. Mas, entre a literatura e a realidade existe uma certa distância. Como você administra isso?

URARIANO MOTA - Há uma corrente de céticos, que eu chamaria de cínicos, para não dizê-los coisa pior, há uns desonestos cuja reflexão para a literatura é dizer que ela serve para nada. Aqui ainda não é o lugar de responder à altura a essa falsidade. Mas para falar o mínimo, eu digo que a opção de escrever me salvou, ou me tem salvo até aqui. Mais: que a minha pouca obra já serviu para melhorar a sorte de Canhoto da Paraíba, por exemplo, quando uma Oração que lhe fiz (ah esses ateus...) lhe gerou uma pensão do governo da Paraíba. Mas a minha ambição, é claro, é maior.
Eu, como todos que amam a literatura, gostaria que ela transformasse o mundo. Menos, ó quixotesco, menos. Então eu já me conformo com a mudança e salvação  humana que ela tem operado em mais de uma pessoa. Por exemplo, na recuperação, no grito contra  injustiças malditas, seculares, como fiz com “O filho renegado de Deus’. Na recriação dos assassinatos no Recife em 1973, como escrevi em “Soledad no Recife”. Ou como a resposta que venho dando ao desafio de uma quiromante, quando ela me disse: "É preciso salvas as almas socialistas que clamam justiça". É coisa de doido? É coisa da poesia!
Então, nesse particular sentido, acho que tenho contribuído com o meu grãozinho de areia  para a mistura do cimentinho que vai levantar um tijolinho de nada para a casa dos homens, que vai dar uma salvação da pessoa, que corre agora dos tiros e bombas que querem matá-la. Se uma só página, se uma só linha, quem sabe se uma só palavra, acender a luz nos olhos de uma maldiçoado que morria sem saída, então estou muito feliz e melhor ainda pago.
Recupero de um texto que publiquei sob o título de A literatura salva:
“ – O que eu ganho com isso, professor?
'Isso' era a literatura. Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas aos periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Mas tudo bem, eu me dizia, que se dane o nome, vence a literatura.”
Em um dia de 7 de setembro, "Oração para Canhoto da Paraíba" foi lida como um poema no Mais Você, de Ana Maria Braga. Quando terminou o programa,  Vitória, a filha do violonista, ligou para mim e anunciou: “O governador da Paraíba acaba de ligar, papai vai ter uma pensão”. Então eu lhe disse como resposta: “Este é o melhor 7 de setembro da minha vida”.  Assim falei porque não poderia na voz falar: obrigado, amiga, acabas de me anunciar para que serve a literatura. Para diminuir um pouquinho que seja o sofrimento e a dor da gente.


CLÓVIS CAMPÊLO - Um famoso escritor pernambucano afirmava que seus personagens se sobrepunham ao sistema usando a esperteza, nunca o confronto. No meu entendimento, ao usar essa estratégia ele justificava o status quo e referendava o dito popular que diz que "o mundo é dos mais espertos". Os seus personagens também se utilizam dessa estratégia da esperteza ou usam a indignação como força motriz transformadora?

URARIANO MOTA - Ótima pergunta, Clóvis. O que move os personagens sobre os quais escrevo é a afirmação de humanidade em um mundo profundamente inumano. Eles lutam e enlutam com a boa e má luta. De todas as maneiras. São quixotescos? Não, gostaria que fossem pessoas. Gente de cara e dente. São indivíduos que me impressionam e me falam (assim como espero que falem aos leitores): “a nossa vida é curta. Por que diminuí-la ainda mais?”. Isto é, por que torná-la menor que as nossas necessidades animais?  É claro que não são santos nem heróis. Não estou escrevendo uma hagiografia. Eles têm pecados, alguns mortais, cabeludos, porque assim somos feitos, de pecado, carne, egoísmo, generosidade e  sexo. Mas no limite eles querem apenas afirmar a necessidade irrefreável do amor.  Como aqui, em O filho renegado de Deus:
“Seria específico de ti o teu amor pelo irmão homossexual? Que dupla desconforme desconformidade a tua, ao desejar o incesto com um homem que não te queria para o sexo. No entanto, Maria, os censores nem veem que o desnatural vinha antes: a mulher em plenitude que não era amada. Percebes agora a extensão do teu infortúnio? É claro, os teus olhos fechados nesta hora me falam que já percebias, mas a teu modo continuavas a viver, na tua bravura sem queixa. Pois contigo me veio a lição, aquela que não se encontra escrita nos livros, mas se acha codificada na vida dos dignos: os que lutam não se queixam. Vão em frente, como se felizes estivessem, vão em frente, apesar de, apesar de, apesar da infâmia sofrida. Se não têm mãos, lutam com os pés. Se não têm pernas, braços, lutam com o cuspe. E não se dizem nunca ‘coitado que sou, pobre de mim’, porque à queixa pertencem os vigaristas. Então, o que seria mais o teu específico? A tua obesidade, a tua pouca estatura, a tua miséria, a tua dor de mulher não amada pelo companheiro, ou a tua agonia de morrer com o filho no ventre?”

CLÓVIS CAMPÊLO - Urariano, quando você afirma que os seus personagens não são santos nem heróis, fico com a impressão de que o autor tenta lhes imputar uma aura de realidade, a questão da verossimilhança. Em quase todas as literaturas essa opção narrativa marca as obras que se caracterizam pela marca do realismo, em contraponto ao fantástico que marcou uma geração de autores latinos. Como autor, como você se situa diante dessas duas formas de escrever e narrar?

URARIANO MOTA - Clóvis, penso que o realismo vai além do que se convencionou chamar de realismo. Quero dizer, toda obra de arte se faz no domínio da realidade humana. Melhor dizendo, ela se prende na – e se liberta da – realidade factual. Escrevo isso, e nos meus olhos passam agora Guernica, de Picasso, e Chagall. Estou vendo Cícero Dias, mais Lula Cardoso Ayres e suas almas penadas, que só arrepiam pela beleza. Mas de um ponto de vista estrito, literário, leio e releio Gabriel García Márquez, e encontro a realidade latino-americana, mesmo quando o sangue de um filho assassinado atravessa a rua, sobe a calçada e volta para o útero da mãe na rede. É tudo dentro do domínio da realidade, até mesmo o que desobedece à lei física, até mesmo quando um homem acorda transformado em um inseto.
Esclareço melhor, creio: eu só vim a compreender o Kafka de A Metomorfose quando revi o homem de uma família amiga. Ele era excepcional, e na sua casa o escondiam das visitas. Aquilo era puro Kafka, quando a família do rapaz-monstro o esconde das visitas. Tudo tão realidade,  não é? (por sinal, Kafka é muito realista, ainda que fale de uma colônia de ratos ou da Colônia Penal). Lembro também que a família da García Márquez reconhecia todos os personagens, mesmo os mais sem nexo, entre as pessoas da cidadezinha de Aracataca, aliás, Macondo. Quero dizer, o naturalismo foi que viciou, mal acostumou as pessoas na percepção de que o imediato, visível, é que era o real. Mas não. A realidade vem de antes de Cervantes, passa pelo  Dom Quixote e nos encontra até  hoje.
Assim, creio estar no reino do real mesmo quando narro, em O Filho Renegado de Deus, um diálogo entre Maria, morta em um caixão, e Filadelfo, que se exibe marido apaixonado no enterro:
“- Tudo, menos essa falsidade. Respeita-me!
Pois o corpo de Maria com vida anímica lhe falava, estabelecia com ele um diálogo que não era mudo, apesar de inaudível ao publico do espetáculo. Nesse diálogo vinham os dias em que ele não estava em casa porque estaria trabalhando. E Filadelfo bem sabia ser mentira, pois a morta insinuava o que não queria lembrar. No breve e torturante discurso de Maria ao remorso de Filadelfo, aquele rosto suave para o filho se contraía duro:
- O teu choro engana os bestas. As tuas lágrimas, por mais que chores, não lavam o teu sujo.
- Eu não tive culpa, Maria. Eu não sou culpado, você não quis ir para a maternidade, Filadelfo gritava.
- Por que mentes? Eu já estava sacrificada. O que eu fizesse era inútil. Morria na maternidade ou em casa.
- Maria, eu sempre quis o seu bem.
- Mentira! Tu querias o teu bem. Por que me arrancaste de casa? Eu queria ter a minha última hora com o meu filho, Por quê? Porque a tua vontade era a única e exclusiva. Eu não tive direito nem à minha última.
- Tanto que eu lhe disse, cuide-se, Maria, cuide-se...
- Não, a tua fala era de que gostavas de mulher carnuda. Depois viravas a cara para o outro lado.
- ... Deus é testemunha.
E ao ouvir esse ‘Deus é testemunha’, no rosto de Maria se desenhava o sinal de um sorriso. Vendo esse traço nos lábios, Filadelfo espalmava as mãos em vertical sobre os olhos, apertando as pálpebras. Bom seria que a sua consciência não pensasse. Havia, claro, dois gêneros de Deus. Um para Filadelfo, outro para Maria”.
A realidade não nos prende, enfim. Ela nos liberta pela possibilidade que teremos em aprofundá-la, ao nível da nossa observação e experiência. Chamam a isso de verossimilhança. Sim, mas prefiro dizer, uma prospecção do real.

CLÓVIS CAMPÊLO - O escritor japonês George Oshawa acreditava que morreria cedo em função de muito ter escrito quando era vivo. Dizia que escrever nos consome muita energia vital. Morreu aos 78 anos com a impressão de que muito do que escrevera não seria utilizado pelas pessoas como forma de evolução pessoal e intelectual. Você também sente isso? Quais as estratégias que utiliza para atingir um grande público e com ele se identificar? Você acha que o escritor sempre estará condenado à solidão?

URARIANO MOTA - Olhe, morrendo aos 78 anos, o escritor japonês chorou de barriga cheia. Quem morreu de trabalho (e dívidas) foi Balzac, aos 51 anos, depois de uma obra colossal em quantidade e qualidade. Mas é verdade que escrever consome muita energia, tanto mental quanto física, ainda que o escritor não saia do canto. Às vezes, é muita tensão. Na maioria das vezes, mexe com o peito da gente, sangra. E nem pense que isso é drama. Arrancar de si o que um homem nem às paredes confessa, como traumas, remorsos, amores ocultos e vilezas, isso não é atividade de gente normal. Tem um preço alto para a saúde. Mas e aí, seria melhor viver sob a falsidade?
Que venha a expressão da dor. Mas considere que assim como jesus-morreu-na-cruz-para-nos salvar, o homem morre todos os dias. A nossa vida só é vida se estivermos em atividade. O homem É na ação. No escritor, na ação de escrever. Confesso que às vezes frustra muito, porque melhor seria um soco, um tiro, uma bomba. Mas a covardia da gente faz o que pode. Quanto à solidão do escritor, acho um mito. É claro, no momento da escrita ele está sozinho para a rua, para a casa, para a mulher, para os familiares, para os amigos. Mas está acompanhado dos que o acompanham na memória e sentimento.    
É possível que o meu texto não seja aproveitado. Quero ter no entanto a consciência de que fiz o que meu coração pedia.

CLÓVIS CAMPÊLO - Como você vê a literatura brasileira hoje? Existe nela um lugar de destaque para os nordestinados? Renato Boca-de-caçapa, o filósofo do povo, afirma que nós, nordestinos, sofremos dois tipos de colonização cultural: a que nos é imposta por Tio Sam, nosso eterno colonizador, e a colonização cultural interna, onde temos que conquistar o sudeste para poder ser aceito no nosso rincão? Você concorda com essa visão?

URARIANO MOTA - Esse Renato Boca-de-Caçapa é dos bons. Ele está certo. Falo agora de um episódio esclarecedor. Não faz muito, em Garanhuns, tive uma discussão braba com agentes culturais e um escritor que acreditavam ser os escritores do Sudeste melhores que os regionais. Razão alegada e prova: os do sudeste publicavam pelas grandes editoras. Daí a razão de merecerem melhores cachês que os fodidos escritores pernambucanos. Aí o bicho pegou. Dois momentos cômicos aconteceram então na mesa do restaurante:
1.      Durante a discussão, eu me exaltei e disse que para escrever como Mario Vargas Llosa em Tia Júlia e o Escrevinhador, eu escreveria “cagando”. Claro, era um exagero retórico. Mas um escritor recifense assim me respondeu: “então, comece a cagar”.    
2.      Na saída,  entre abraços de despedida,  eu disse à produtora que só voltaria a Garanhuns quando recebesse o mesmo cachê que um “escritor do Sul”. Ao que o escritor garanhuense  interveio: - Você quer dizer que volta mais nunca.
Vida que segue. Eu espero voltar. Ou nunca.   

CLÓVIS CAMPÊLO - Acabamos de eleger pela quarta vez consecutiva uma candidata petista para a presidência da República do Brasil, para desespero das velhas oligarquias políticas brasileiras. Como você vê a situação sócio-econômica do Brasil depois desses três mandatos petistas cumpridos? Melhoramos ou a vaca começa a ir para o brejo? Somos o país do presente, a bola da vez, ou as forças conservadoras conseguirão retomar o comando e reimplantar o atraso? Qual a sua opinião sobre isso? 

URARIANO MOTA - Clóvis, eu e a maioria do povo brasileiro votamos e votarei de novo em governos que sigam o caminho aberto por Lula. Não me arrependo e estou na linha de frente e defesa do governo Dilma, que é execrado pelos acertos, não pelos erros. Vi e testemunhei o crescimento extraordinário de Pernambuco, do Nordeste, que a propaganda de Eduardo Campos e assemelhados quis creditar ao próprio governo. Vi parentes meus no Alto de Santa Terezinha entrarem na universidade, terem escola pública de qualidade, melhorarem de vida com bolsa família, e mais adiante se empregarem em atividades dignas, especializadas, e assim não precisarem mais da ajuda do governo.
Vi o pernambucano Lula se erguer como um dos líderes do mundo. Vi uma ex-guerrilheira, chamada de terrorista, assumir os destinos do Brasil. Como podemos renunciar à continuação de um sonho?

Recife, abril de 2015