segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O dia seguinte


O DIA SEGUINTE

Clóvis Campêlo

Meus caros amigos, confesso que hoje acordei de peito e alma lavados e enxaguados. A vitória e reeleição de Dilma Rousseff foi significativa e mostrou que o povo brasileiro escolheu qual o caminho a seguir nos próximos quatro anos: queremos um Estado mediador nas relações sociais, a continuação de uma política externa diferenciada com a aproximação de outros mercados sem a influência norte-americana, e, principalmente, uma política de assistência e integração social voltada para as camadas menos favorecidas, no âmbito interno.
A mim, especialmente, comoveu a votação por Dilma obtida em Pernambuco, com 70,20% dos votos, haja vista que no primeiro turno o Partido Socialista Brasileiro, do finado Eduardo Campos, impôs-se, elegendo os seus candidatos a governador e senador, e não dando espaço aos candidatos do PT e da sua coligação. Mais especificamente no Recife, os 59,20% de Dilma deve servir de alerta aos que se achavam os novos “donos” do poder no Estado. Nossos eleitores são livres e cada eleição tem a sua história própria e sua própria lógica. Demos a volta por cima, enquanto cidade e estado autônomos e sem cabrestos eleitorais. Quem pensou que tinha o eleitorado pernambucano e recifense nas mãos quebrou a cara.
No âmbito nacional, a vitória petista no Norte-Nordeste e em Minas Gerais, repetindo o que acontecerá no primeiro turno, foi significativa e incontestável, já que Aécio Neves, na sua terra, nem mesmo conseguiu eleger o candidato a governador do PSDB.
De nada adiantou, para ele, o apoio de estrelas com Neymar e Ronaldo Fenômeno. A derrota aconteceu assim mesmo. No que se refere a Neymar, termino por concordar com um amigo que a ele se refere como um perdedor: mal acabou de perder a Copa do Mundo com a seleção brasileira, perdeu a eleição presidencial apoiando o candidato do PSDB. Está mais para Mick Jagger do que para Pelé. Aliás, com a sua idade, Pelé já era bicampeão mundial com a seleção brasileira e bicampeão mundial interclubes com o Santos de Coutinho e Mengálvio. Neymar não passa de uma eterna promessa, rico mas ainda sem títulos importantes e consagradores. Provavelmente nunca atingirá as marcas que Pelé atingiu enquanto jogador profissional de futebol.
De nada adiantou também o jogo sujo de grande parte da imprensa brasileira, com a divulgação de boatos e notícias falaciosas de fatos e informações não comprovadas. O eleitorado brasileiro mostrou-se lúcido e com maturidade suficiente para separar o joio do trigo e fazer a sua opção política e partidária.
Finda a disputa eleitoral acredito que ganhou a democracia brasileira, apesar das apelações cometidas por alguns. À vencedora, caberá a responsabilidade de retomar o processo evolutivo da nossa economia. Ao perdedor, a responsabilidade de assimilar a escolha feita pelo povo brasileiro, respeitando a decisão e a opção política e eleitoral da maioria.

Recife, outubro de 2014

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Manuel Bandeira tocando violão



MANUEL BANDEIRA TOCANDO VIOLÃO

Clóvis Campêlo

Um dos poetas mais fotografados da literatura brasileira talvez tenha sido o pernambucano Manuel Bandeira. Entre as dezenas de imagens suas, porém, duas sempre me chamaram a atenção: são fotografias onde o bardo da Rua da União aparece tocando um violão.
De início, imaginei que Bandeira apenas se aproveitara do violão para fazer pose e firula, encarnando o poeta tocador que eu imaginava que nunca tivesse sido.
No entanto, em um texto escrito por seu conterrâneo João Condé, constante na 20ª edição do livro “Estrela da vida inteira”, lançado em 1993 pela Editora Nova Fronteira, está explícito: “Já tocou violão e sabe executar ao piano dois prelúdios de Chopin, um número de carnaval de Schumann e uma peçazinha de Mac-Dowell”. Ou seja, o poeta não era tão inocente assim!
Aliás, nesse pequeno texto de exaltação, Condé nos revela outros dados interessantes do poeta Bandeira: “Não gosta de abiu nem de caqui, nem de melancia... Gosta de jiló, cinema falado, rádio e de poetas de segunda ordem... Guarda pelo Recife a sua ternura de infância... Gosta de: tirar retratos, ver figuras, ler suplementos literários, bestar, etc”. Para mim, assim, também está explicado: o poeta exercitava uma cumplicidade criativa com os seus fotógrafos!
Nas fotografias citadas, cujos autores, infelizmente, não consegui identificar, percebemos que o poeta tinha dedos longos de violonista. Os dedos da mão esquerda parecem privilegiar as cordas mais agudas do instrumento, enquanto os dedos da mão direita sugerem um dedilhado competente e adequado.
Em um texto chamado “Literatura de violão”, escrito pelo próprio Bandeira, o poeta nos revela o quanto entendia do assunto: “Desgraçadamente entre nós o violão foi até aqui cultivado de uma maneira desleixada. É verdade que a sua técnica é ingratíssima e o tempo perdido em adquirir nele um mecanismo sofrível será bem mais compensador aplicado a outro instrumento de repertório mais rico e mais nobre. O desleixo em todo caso era excessivo. Desconhecia-se por completo o dedilhado da mão direita. Basta dizer que se reservava o polegar para os bordões, o índice para o sol, o médio para o si e o anular para a prima. E esse dedilhado de arpejo era pau para toda obra. Havia dedilhados mais extraordinários. Lembro-me de ter ouvido no sertão do Ceará a um cego que só se serviu do índex. Quando tocava, dava a impressão de estar escrevendo nas cordas do violão. Só com esse dedo Zé Cego pintava o bode... O que não faria ele se conhecesse a verdadeira técnica do instrumento?”
O violão para Bandeira era uma coisa séria, tão séria quanto a sua produção poética. Talvez por isso, por se achar um violonista menor, é que tenha dele desistido. Para nosso gáudio, perdemos um violonista mediano mas ganhamos um poeta de primeira grandeza, estrela de uma vida inteira.

Recife, outubro 2014

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

As mãos de lá e as mãos de cá


AS MÃOS DE LÁ E AS MÃOS DE CÁ

Clóvis Campêlo

Enquanto no Brasil Anísio Silva cantava “Quero beijar-te as mãos”, em Londres, no dia 17 de outubro de 1963, nos estúdios Abbey Road, os Beatles gravavam “I want to hold your hand”. Entre o bolero e o rock, muito mais do que o Oceano Atlântico.
Anísio Silva nasceu em Calculé, no interior da Bahia, em 1920. Iniciou a sua carreira tardiamente, no Rio de Janeiro, aos 32 anos de idade. Gravou o seu primeiro disco, “Sonhando contigo”, pelo selo Odeon, em 1957. Dois anos depois lançou o segundo LP, “Anísio Silva Canta Para Você”, onde se destacou a música “Quero beijar-te as mãos”, de Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal. Segundo os estudiosos da MPB, ao longo da sua carreira vendeu mais de dez milhões de discos. Amigo do presidente Juscelino Kubitschek, Anísio Silva cantou na inauguração de Brasília, em 1960. Morreu no Rio de Janeiro, aos 68 anos, em 1989.
The Beatles, talvez ainda hoje o maior nome da indústria fonográfica e do show bussiness mundial, vendeu muito mais do que isso. Primeiro sucesso dos Beatles nos Estados Unidos, a música “I Want to Hold Your Hand”, foi por eles tocada no programa Ed Sullivan Show, em 1964, quando da primeira visita do quarteto ao país de Tio Sam. Com uma harmonia simples, a música fala sobre uma declaração de amor. Do mesmo modo que “Quero beijar-te as mãos”.
No entanto, diferenciam-se pela atitude do galanteador diante do objeto desejado. Enquanto Silva, fala de “um divinal querer”, “mundo de esplendor” e “maior enlevo”, os caipiras de Liverpool eram muito mais diretos e incisivos: “diga-me que você me deixará ser o seu homem”.
Enquanto a música de Carvalho e Faissal, transfere para um futuro próximo a concretização do ato (“será um mundo de esplendor o nosso amor”), Lennon e McCartney já expressam no colóquio o sentimento do presente realizado (“E quando eu te toco me sinto feliz por dentro”).
Digamos que o romantismo expresso na música cantada por Anísio Silva, reflete um momento de indefinições na música popular brasileira anterior à Bossa Nova. Não só no que tange à forma (um bolero, ou uma guarânia como querem alguns) quanto ao conteúdo da mensagem: a divinização do amor e da mulher, com a necessidade do homem provar o seu mérito na conquista (“Se tu me quiseres tanto quanto eu que vivo para te adorar).
Os rapazes do pós-calipso vão direto ao assunto: “quando eu te disser aquelas coisas, eu quero segurar a tua mão”. Ou seja, eu te toco e eu te tenho. E as guitarras avisavam: aumenta que isso aí é rock'n'roll!
Mudava o mundo com a guerra fria, a corrida espacial e outros babados mais, e também mudavam as relações humanas, com uma nova visão da questão sexual e do direito às prerrogativas do prazer.
Tudo isso estava implícito nas letras e nas entrelinhas das canções.

Recife, outubro 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Quando o passado voltar


QUANDO O PASSADO VOLTAR

Clóvis Campêlo

O tempo não me diz nada,
tua presença não me diz nada,
o discurso do presidente nada me diz,
os mortos calaram-se para sempre.

Talvez em algum recôndito
desconhecido e ermo,
exista alguma resposta
para um sentimento ridículo e inútil.

Dispenso a autocomiseração, porém,
pois, apesar de tudo,
uma luz insiste em manter-se acesa
no infinito azul e profundo.

E mesmo sob o manto de
um sentimento insano e desumano
não aspiro regressões ou
a volta ao útero materno.

Talvez no futuro longínquo,
onde até as retas e as pedras
se encontram, a pedra filosofal
nos traga o passado de volta.

Pois se viemos do círculo,
ao círculo voltaremos.

Recife, setembro 2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A morte dos poetas

domingo, 12 de outubro de 2014

Bom dia!


BOM DIA!

Letra e música de Clóvis Campêlo

Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!

Amanhece  nada tenho
a declarar.
Fecho os olhos e
escuto ao longe o sabiá.

Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!

Luz do sol o teu brilho
irradia pela janela
e vem me fazer companhia.

Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!

Cinco horas da manhã
e as pessoas estão nas ruas
pelo pão de cada dia.

Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!

Cinco hora da manhã
e a cidade se levanta;
à oeste de Greenwich,
a luz do sol a noite espanta.

Bom dia!
Bom dia!
Bom dia!

Cinco horas da manhã
e mais nada a declarar;
abro os olhos e me levanto
para a vida enfrentar.

Recife, abril 2014

- Postagem revisada e atualizada em 05/01/2018

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Textos, contextos e pretextos


Escultura do poeta João Cabral de Melo Neto no Recife

TEXTOS, CONTEXTOS E PRETEXTOS

Clóvis Campêlo

Dizem que o poeta João Cabral de Melo Neto, no final da vida, aborrecia-se quando vinha ao Recife por conta do número excessivo de poetas novatos a querer lhe mostrar seus textos. Como se já não lhe bastasse o séquito de puxa-sacos e falsos admiradores a querer desfrutar da sua intimidade. O poeta que voltava sempre em busca de paz e do tempo perdido (o Recife do seu tempo já lhe era um retrato pendurado na parede) não suportava os ruídos da modernidade recifenses a lhe açodar os ouvidos. Morreu, aliás, sem que nunca o deixassem em paz.
Penso nisso sempre que ouso enviar meus textos para outros poetas e escritores, críticos literários e amigos mais aguçados. Mas, para que nos serviria um texto se não fosse para ser lido e interpretado por outras almas e discernimentos? A inquietação de querer estabelecer um diálogo com o outro é legítima, do mesmo modo que também é legítima a recusa do outro em fazer qualquer leitura ou mesmo qualquer interpretação por mais superficial que seja de um texto com o qual não se identifique.
Escrever e fazer poemas não é fácil, camaradas. Pois, como dizia Mário de Andrade, há sempre uma gota de sangue em cada um deles. Ao poeta cabe escrever para expor a sua cosmovisão, para contrapor ao mundo real a sua proposta cósmica. Esse é o primeiro e, às vezes, angustiante momento. Encorpada a concepção, cabe ao poeta buscar identidades, tanto no sentido de dar autenticidade ao seu esboço quanto no sentido de compor agrupamentos.
Afinal, ao sonho solitário talvez só caiba o esquecimento. Como já disse outro poeta pernambucano, Carlos Pena Filho, é dos sonhos dos homens que se constrói o mundo. Complementando com ousadia, eu diria que é dos sonhos dos homens e da perspectiva de lucro do mercado com ele. Mas esse é um pequeno detalhe que cabe ao poeta resolver no seu íntimo e impedir que se transforme em empecilho ou transtorno para as suas pretensões de poeta.O poeta não tem o direito de apenas ser um nefelibata. Deve também domar o lado selvagem da vida.
Hoje, com o advento da internet e de outras mídias de massa temos vias bilaterais para expandir a informação. Já não somos mais passivos receptores a aguardar que nos bombardeiem em sentido único. Pode o poeta e escritor também emitir a sua mensagem. Pode optar por divulgar os seus textos apenas na grande rede, sem a necessidade de editar livros que na maioria das vezes não tem como escoar nem introduzir no mercado literário. Livros que custarão caro e que sem ter como serem distribuídos, com certeza, encalharão nas prateleiras de alguma estante doméstica, sem direito a público ou reconhecimento.
Escrever e fazer poemas não é fácil, camaradas. Ser uma referência para poetas e escritores iniciantes, também não. Que o diga o poeta João Cabral de Melo Neto. Ele tinha razão. Os mortos sempre tem razão. Viver e poetar é para quem pode!

Recife, outubro 2014

- Publicado no livro Crônicas Recifenses, Recife, Clube de Autores, 2018.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Todos os tons da alegria


TODOS OS TONS DA ALEGRIA

Clóvis Campêlo

Quais as cores da alegria? Sempre achei que a alegria tinha tons quentes como o amarelo, o laranja e o vermelho. Talvez, influenciado pelas cores do carnaval do Recife e Olinda. Talvez influenciado pelas cores que predominam nas prateleiras dos supermercados modernos. Não existe algo mais alegre e fútil do que consumir e brincar o carnaval.
Existem estudos, aliás, comprovando que as cores quentes nas prateleiras dos supermercados, como o amarelo e o vermelho, aceleram o batimento cardíaco e estimulam a produção de endorfinas, aumentando a sensação de felicidade. No final, estimulado, o consumidor termina comprando mais do que necessita.
Não é a toa, portanto, que exista um tratamento baseado no uso das cores. É a chamada cromoterapia, que já existia no Antigo Egito mas que só chegou ao ocidente no século XIX. Hoje, embora criticada por alguns setores da comunidade científica internacional, a cromoterapia se mantém como forma alternativa e complementar para se recuperar ou manter a saúde física e mental das pessoas. As sete cores usadas, em muitos casos, estão diretamente ligadas chakras, que são considerados campos de energia com influência nos nossos corpos e emoções.
Assim, o vermelho pode despertar a sensualidade e o erotismo. Mas, em excesso, pode provocar ansiedade e nervosismo. Segundo os cromoterapêutas, a cor vermelha ativa a circulação (será por esse motivo que os portadores de erisipela costumam amarrar uma fita vermelha na perna?) e estimula o sistema nervoso. O vermelho estaria ainda ligado ao chakra básico, que está localizado no baixo ventre e comanda a coluna vertebral.
O laranja, é uma cor alegre e antidepressiva, que rejuvenesce e melhora o metabolismo e o sistema digestivo. Seu uso incorreto ou excessivo, pode elevar a pressão arterial. Corresponde ao chakra umbilical, que comanda os estímulos sexuais.
Para finalizar, entre os tons da felicidade por mim imaginada, temos o amarelo, que influencia o dinamismo e a capacidade de expressão do ser humano. Está ligada ao chacra do plexo solar, que rege o estômago e estimula o poder pessoal e a satisfação.
Dentro dessa ótica, talvez faça sentido vivermos em um planeta com uma atmosfera onde o oxigênio que respiramos, correspondente a aproximadamente 21% dessa composição, ajude a definir a sua coloração azul. Vivêssemos no vermelho de Marte e não teríamos a paz e a serenidade que o azul terrestre nos proporciona. Teríamos um mundo guerreiro e poluidor, com uma população envolvida em guerras inúteis e fraticidas por motivos fúteis e desabonadores. A fraternidade não existiria e o homem alimentaria o direito de explorar outros homens em nome do dinheiro e da riqueza.
Ainda bem, amigos, que não é isso o que nos acontece!

Recife, outubro 2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os caranguejos e a língua portuguesa


OS CARANGUEJOS E A LÍNGUA PORTUGUESA

Clóvis Campêlo

Nunca gostei muito de comer caranguejos. Sempre achei isso um sacrifício exagerado para pouco resultado.
Segundo a Wikipédia, os caranguejos, também conhecidos como uaçásauçás e guaiássão crustáceos da infraordem Brachyura, caracterizados por terem o corpo totalmente protegido por uma carapaça, quatro pares de patas (pereópodes) terminadas em unhas pontudas, o primeiro dos quais normalmente transformado em fortes pinças e, geralmente, o abdômen reduzido e dobrado por baixo do cefalotórax. Os pleópodes se encontram na parte dobrada do abdômen e, nas fêmeas, são utilizados para proteção dos ovosOu seja, é muita carapaça a ser superada para se chegar nas carnes minguadas. Sinceramente, amigos, do caranguejo só curto o pirão feito com o caldo do seu cozimento e farinha de mandioca. Um prato tipicamente nordestino e delicioso.
Tem gente que gosta, porém. A minha cunhada Lizane, por exemplo, é uma exterminadora de caranguejos. Chega a consumir quinze ou mais de uma só vez, devidamente acompanhados pelo precioso líquido de uma cerveja estupidamente gelada.
Mas, para mim, além da carapaça quase intransponível, os caranguejos também me confundiam quanto à maneira de escrever o seu nome. Em vez do ditongo (nome que se dá à combinação de um som vocálico com um som semivocálico emitidos num só esforço de voz, ou numa mesma sílaba), durante muito tempo utilizei o tritongo – carangueijo, erradamente, com uma vogal e duas semivogaisUm caranguejo cheio de letras, para um escritor cheio de “pernas”, como eles. Um escriba pereópede.
Talvez estivesse eu a precisar, como a boneca Emília, de Monteiro Lobato, de uma visita ao País da Gramática, livro escrito e publicado pelo escritor paulista em 1934. Nele, a língua é figurada como um país, povoado por sílabas, pronomes, numerais, advérbios, verbos, adjetivos, substantivos, preposições, conjunções, interjeições, etc.Alguns críticos afirmam que Lobato escreveu o livro sob o estigma da vingança, por ter sido reprovado, aos quatorze anos, numa prova de português.
Pode ser. Mas o livro não deixa de ser interessante e criativo, onde as palavras são hierarquicamente classificadas de acordo com a sua importância na construção da frase. E faz do conhecimento gramatical um processo agradável.
Mas, depois dessa agradável digressão, voltemos aos caranguejos para finalizarmos essa cronica que já se alonga. Nos anos 60, no Pina, no local onde hoje se ergue o Shopping Rio Mar, nos os caçávamos de andada, em tempo de trovoadas, ou em armadilhas feitas com latas de óleo vazias. Com a maré baixa, deixávamos as armadilhas com as iscas na entrada das locas, no final da tarde. No outro dia, pela manhã, era ir buscá-las com os caranguejos presos.
Mas isso era no tempo em que o Recife tinha mangues fáceis e fartos...

Recife, setembro 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Tiro ao Álvaro


TIRO AO ÁLVARO

Clóvis Campêlo

Boca-de-Caçapa e Rubinato já haviam me alertado sobre aquele espaço: “Cai fora, rapaz! Sai desse imprensado! Aquilo ali não é lugar pra tu, esquerdista tupiniquim, impregnado do marxismo barato do além-mar! Ali, existe uma saudade draculiana do sangue derramado no passado!”
E eles, como sempre, tinham razão. Fui eu que não acreditei. E por não acreditar, expus-me à sanha reacionária. À vezes, não me suporto por isso. Por essa incapacidade de ver antecipadamente a inutilidade das coisas, por achar que boa vontade e caldo de galinha sempre vão fazer bem a todos e resolver os problemas que por acaso venham a surgir. Em um mundo marcado pela falta de amistosidade, ainda acredito nisso. E, por acreditar, termino por me expor desnecessariamente.
Mas, não é exatamente a opinião diversa que me desagrada.Com ela, dentro dos limites da civilidade e da boa educação, consigo conviver e dialogar numa boa. O que agride mesmo são os subterfúgios de pessoas que não tendo a coragem de mostrar a cara, escondem-se atrás de pseudônimos ou nomes falsos para expor a sua visão capenga do mundo. Uma covardia. Afinal, retrógrados todos tem o direito de ser. Sacanagem é não se mostrar e apelar para a segurança do disfarce.
Mas, afinal o que teria um samba composto em 1960 pelo compositor e cantor Adoniran Barbosa a ver com tudo isso? Nada, absolutamente nada! Apenas o título, que me lembrou uma saraivada de balas de filme americano. Um verdadeiro tiro ao álvaro. Eu o alvo fui eu.
Na singeleza da sua música, diz o poeta que “teu olhar mata mais que bala de carabina, que veneno estricnina, que peixeira de baiano, que atropelamento de automóvel, que bala de revólver. Tábua de tiro ao alvo, não tem mais onde furar”.
Sai daquele recinto por livre e espontânea iniciativa, com a determinação e o jogo de corpo de um Kid Morengueira. Disposto a cantar uma ode para mim mesmo. Não em nome do ódio, mas em nome da esperança derradeira de que ainda existem pessoas de bem no mundo e de que dias melhores ainda virão. Havia muita fumaça no ar. Fumaça de chumbo grosso e de artilharia pesada. Cavaleiro solitário, não estava mais a fim daquilo, daquele enfrentamento desigual, daquela covardia anônima e institucionalizada. Permanecer seria aceitar a desigualdade. Seria implicitamente aceitar a sacanagem da desigualdade. Caí fora. Fi-lo porque qui-lo. Como diz a filosofia popular, antes só do que mal acompanhado.
Aqui fora, percebo que o mundo é bem maior do que aquilo tudo. Percebo que só preciso das minhas próprias pernas para percorrê-lo e conquistá-lo. E, mesmo que não chegue a Lugar Nenhum é para lá que eu vou agora. Lá, como em Pasárgada, também sou amigo do Rei. Longe é um lugar que não existe. Tenho dito e repetido.

Recife, setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O nosso futebol


Leonidas da Silva, Friedenreich e Pelé

O NOSSO FUTEBOL

Clóvis Campêlo

O futebol surgiu no Brasil, no século XIX, como a nova mania esportiva das classes mais privilegiadas. Os filhos burgueses da pátria mãe gentil aprenderam-no e o trouxeram da Europa pré-modernista daquela época. A sua prática era cara, já que todo o equipamento necessário era importado. Do mesmo modo, necessitava-se de áreas relativamente grandes para a sua prática, embora esse problema fosse facilmente contornável, haja vista que as nossas cidades e capitais dispunham de campos e terrenos baldios a granel.
Incorporado pela classe média brasileira e, posteriormente, pela classe operária e pelo lúmpen-proletariado, logo se transformaria em uma grande paixão nacional.
Ao se desgarrar dos burgueses brancos e de cintura dura que o trouxeram do Primeiro Mundo, caiu nas garras da rafaméia do lado de cá, misturando-se aos negros e descendentes de índios, escurecendo a cor da sua pele e adquirindo um jogo de cintura e uma leveza até então desconhecidos pelo lado de lá. Foi a plebeização do futebol no Brasil que o salvou do lugar-comum e da mesmice bizarra dos europeus.
Não é a toa, portanto, que um dos nossos primeiros grandes jogadores fosse filho de um comerciante alemão com uma lavadeira negra. Seu nome, Friedenreich. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1892, apenas dois anos antes de Charles Müller introduzir o futebol no Brasil. O apelido de El Tigre foi-lhe dado pelos uruguaios após o Brasil conquistar o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1919. Apesar de ter sido considerado pela imprensa da sua época como um dos melhores centro-avantes do mundo, morreu pobre, em 6 de setembro de 1969, morando numa casa cedida pelo São Paulo Futebol Clube.
Entre nós, pernambucanos, nenhum jogador foi tão cantado e decantado quanto Tará. Em 1931, com apenas 16 anos, ajudou o Santa Cruz a ganhar o seu primeiro campeonato estadual. Com ele, chegamos ao tri, em 1932/33. Mas foi no Clube Náutico Capibaribe, em 1943, que se consolidou como goleador ao marcar dez gols em um único jogo, na goleada do Náutico sobre o extinto Flamengo pernambucano por 21 x 3. O Flamengo do Tenente Colares, primeiro campeão estadual de futebol, em 1915, em decadência, terminaria por se transformar em um saco de pancadas do futebol pernambucano. O mulato Tará, soldado da Polícia Militar de Pernambuco e oriundo dos bairros da periferia do Recife, foi o primeiro grande ídolo do futebol pernambucano.
Poderíamos até perguntar se não tivesse acontecido a proletarização e a miscigenação do futebol brasileiro, se teríamos chegado ao pentacampeonato mundial de futebol e transformado o nosso sentimento de inferioridade étnica em um sentimento de superação e conquistas. A própria seleção brasileira de futebol é um exemplo a ser citado, haja vista que com Pelé e Garrincha juntos em campo nunca chegou a ser derrotada.

Recife, setembro 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Caxangá e Madalena









CAXANGÁ E MADALENA
Recife, julho 2014
Fotografias de Cida Machado e Clóvis Campêlo


domingo, 14 de setembro de 2014

A negra Saúna


A NEGRA SAÚNA

Clóvis Campêlo

A negra Saúna era agregada na casa do capitão Batista. Suja e maltrapilha, tinha os pés rachados e os cabelos desgrenhados como uma macunaíma de subúrbio. Fazia o trabalho menos nobre daquela residência, como alimentar e banhar os cachorros, lavar os banheiros e cuidar dos chiqueiros dos porcos que havia no fundo do quintal. Aliás, era tratada pela família quase como se fosse um deles: dormia no chão, em um cantinho da cozinha, aos pés do fogão. Era a última a dormir e a primeira a levantar quando o sol raiava.
Um dia, antes do sol nascer, Saúna reuniu os seus trapinhos e fugiu pela porta da cozinha. Sumiu para nunca mais ser vista. A humilhação era grande demais, mesmo para ela que nunca fora ninguém e nunca tivera nada na vida. A matriarca dona da casa, esposa do capitão Batista, durante dias reclamou da falta de consideração de Saúna, que ali, naquela casa, sempre fora tratada como uma pessoa da família e agora a deixava na mão sem nenhum aviso prévio. Ingratidão, isso sim! A retribuição era sempre essa.
Na verdade, Saúna não era negra, e sim uma cafuza, uma caboré, filha de um índio bêbado com uma prostituta negra, trazida ainda menina pela família do capitão Batista da cidade de Tacaimbó, no agreste pernambucano.
Do mesmo modo, o capitão Batista não era capitão, e sim um velho cabo, reformado como suboficial da Força Área Brasileira, um ex-combatente da 2ª Guerra, que fizera patrulhas noturnas no litoral pernambucano. Mas, aquela patente sempre o orgulhara e impunha respeito naquele bairro de classe média.
Durante dias, correu na rua da fábrica de redes o boato de que Saúna teria fugido com o filho mais velho do verdureiro. Mas, poucas pessoas acreditaram nisso, haja vista a feiura da negra e a sua sujeira.
Na verdade, o fato nunca foi devidamente esclarecido e, para as pessoas daquela comunidade, Saúna terminou mesmo por se transformar no símbolo da ingratidão.
Para mim, tantos anos depois, a negra teria mesmo era fugido da escravidão disfarçada e consentida que lhe fora imposta por aquela família. Mais do que Macunaíma, sempre me lembrara a figura da escrava Bertoleza, personagem do romance O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, que se suicida ao descobrir que fora traída por João Romão, o homem que amava. Na vida real, a saída de Saúna foi muito mais esperta e honrosa.

Recife, setembro 2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Os governos e a corrupção


OS GOVERNOS E A CORRUPÇÃO

Clóvis Campêlo

A estrutura de poder paralelo da corrupção existe há muito no Brasil, contaminando e ultrapassando vários governos de diversos “credos” políticos e ideológicos. Na interessantíssima entrevista com o economista norte-americano Werner Baer, PhD em Economia e professor da Universidade de Illinois, publicada no Jornal do Commercio do Recife, do dia 23 de agosto próximo passado, citando o escritor Marcos Mendes, ele afirma textualmente o seguinte: “Você tem uma democracia e, para ser reeleito, tem que ceder, mais cedo ou mais tarde. Tem que fazer muitas despesas, que são gastos correntes, simplesmente para obter uma aliança para governar. O resultado é que fica pouco dinheiro para fazer investimentos. Então esse é o dilema em geral que os governos brasileiros nos últimos anos estão enfrentando”. Nesse sentido, amigos, o uso competente e inteligente do caixa dois, resolve o dilema acima citado.
A grande questão, porém, é que essa utilização sistemática e constante deixa pairando no ar um cheiro de impunidade e onipotência, além da constatação de que a sobrevivência política, realmente, necessita da contravenção para existir e se manter.
Quem acreditava, por exemplo, que o ex-governador Eduardo Campos estaria imune a esse tipo de atitude, surpreendeu-se ao ver o seu nome na lista dos comedores de propina da Petrobras. Esqueceram-se, porém, que ele, antes, como Secretário Estadual da Fazenda do último governo Arraes, havia se envolvido na história dos precatórios, desgastando a imagem do avô e levando-o a amargar uma derrota humilhante na disputa pelo governo do Estado. Dudu, inclusive morreu viajando em um avião doado irregularmente para a sua campanha, caracterizando mais um ato de caixa dois. Portanto, fazer uso inescrupuloso desse artifício e negar veementemente esse uso, sempre fez parte do arsenal de mentiras oficiais dos nossos políticos de plantão. Nesse sentido, realmente, são todos farinha do mesmo saco.
Mas, deixando de lado o aspecto puramente moral da história da corrupção, dos corruptores e dos corrompidos, ao longo dos anos, tem sido com base na prática política do “é dando que se recebe” que temos evoluído política e administrativamente. Quem seria louco de tentar governar, por exemplo, sem lotear a máquina estatal entre os partidos aliados, principalmente quando não se tem a maioria necessária no Congresso Nacional? Ninguém! Loteia-se, entregam-se ministérios, criam-se outros para isso e se perde o controle do que ocorrerá dali para a frente. A sujeira e a malandragem dos aliados sempre respingará no comando do governo, favorecendo as análises mais depreciativas e tendenciosas que a mídia comprometida com a falta de verdade sempre gosta de elaborar. Na luta cega pelo poder, aliás, sobra muito pouco espaço para a honestidade e a pureza de propósitos.
De qualquer maneira, acredito que o Brasil tenha mudado e muito avançado em questões que garantem direitos essenciais à sua população, notadamente às camadas menos favorecidas. O que não se pode mais é regredir e cortar os direitos conquistados em detrimento dos que sempre mamaram nas tetas do poder.

Recife, setembro 2014