sábado, 29 de março de 2014

Um pouco de redundância, por favor!


UM POUCO DE REDUNDÂNCIA, POR FAVOR!

Clóvis Campêlo

Somos seres miméticos. Aprendemos a viver assim. Repetimos gestos e ideias à exaustão. Do beabá inicial aos discursos filosóficos transcendentais, somos repetitivos e raciocinamos em bloco. A redundância nos redime.
Por isso, as atitudes diferenciadas tendem a ser punidas e eliminadas. Constituem-se em ameaça à continuidade das coisas. Até no jargão futebolístico, existe a máxima de que em time que está ganhando não se mexe. Basta repetir-se e pronto, o sucesso está garantido.
Exercitar o senso crítico, portanto, não é nada fácil no mar de mesmices em que vivemos. Afinal, para que nadar contra a corrente se o final sempre é o mesmo? Só os mais inquietos, patologicamente inquietos, aventuram-se a tanto.
No entanto, se a mesmice cansa e bitola, o excesso de novas informações também pode travar os 10% utilizados pela nossa cabeça animal. A novidade deve sempre ser servida em doses homeopáticas, haja visto que o excesso deixa de ser remédio e transforma-se em veneno. E, se não nos matar, vai jogar-nos no isolamento temporal, do qual, em alguns casos, só se consegue sair depois da morte. Para quem não acredita em reencarnações, aliás, o pós morte não serve para nada. Finda a vida, findo o mundo, finda as palavras. O morto não pensa, não fala, não discute mais e nem externa ideias ou ideais. O morto apenas se decompõe.
Aos vivos, portanto, cabe a continuidade e a comunicatividade do mundo. E tome redundâncias! Exercitar o senso crítico em relação a si mesmo e aos cosmos, no mundo dos vivos, não é nada fácil, embora extremamente necessário na maioria das vezes. Pensamos, logo existimos! Questionamos, logo resistimos! Até quando, porém, acho que nem mesmo Deus sabe!
Como, apesar de só utilizar 10% da sua cabeça animal, a espécie humana conseguiu evoluir e sofisticar o ato de raciocinar, vive a contradição de ter de alimentar a redundância para sobreviver nos níveis superiores da linguagem e de ter que exercitar novas formas de informação para transgredir e evoluir. Assim caminha e sempre caminhou a humanidade ao longo do tempo.
O homem sábio, portanto, tenta exercitar o equilíbrio na vida, na linguagem e nas informações. Hora tende para um determinado lado, hora para o outro, mas sempre com a consciência de que tenta evoluir e ser entendido ao mesmo tempo. De nada adianta o hermetismo ou o ludismo das invenções mirabolantes se o resultado final for o desentendimento.
Os inventores e artistas que tendem por esse caminho correm o risco de morrerem incompreendidos e só serem decifrados e decodificados pelas gerações futuras e posteriores, quando a contravenção se transformar em regra e consolidar-se como matéria assimilada e incorporada ao modo de vida dos nossos sucessores.
Aos afobados futuristas, portanto, eu peço um pouco de redundância, por favor!

Recife, 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Pedaços


PEDAÇOS

Clóvis Campêlo

Há tanto tempo me perco,
há tanto tempo me acho,
nem mesmo sei dos meus medos,
nem onde estão meus pedaços.



Recife, 2006

sábado, 22 de março de 2014

Torto


TORTO

Clóvis Campêlo

Quando a morte a ti trair
e enganar-te a inteligência,
não penses pedir clemência,
nem peças para sair.

Vista-se com domingueira,
enfeite o leito com flores,
disfarce com mil odores
a hora que é derradeira.

No entanto, se alguém em "ais"
liberta gritos primais
em ânsias de despedida,

mostre-lhe um riso morto
- o certo se escreve torto -
e apenas é o fim da vida!

Recife, 1991

quinta-feira, 20 de março de 2014

Entre a cabeça e o coração


ENTRE A CABEÇA E O CORAÇÃO

Clóvis Campêlo

Entre a cabeça e o coração,
estão mais que sete buracos,
sensores democráticos.
Entre a cabeça e o coração,
estão todos os sabores,
a matiz de todas as cores,
os sons da audição.
Entre a cabeça e o coração,
estão o gosto e o tato,
o ilusório e o de fato,
o real e a sensação.

Recife, 2011

terça-feira, 18 de março de 2014

Bom dia, mulher-aranha!


BOM DIA, MULHER ARANHA!

Clóvis Campêlo

Bom dia, mulher aranha!
Mais uma vez tecendo a sua teia,
como é da natureza de todas as aranhas.
Dizem que o canto das aranhas
é mais poderoso do que
o canto das sereias.
Acredito!
Eu mesmo já me sinto
irreversivelmente por ele
envolvido.
De nada adiantou aumentar
o volume dos Stones na vitrola.
De nada adiantou o grito aflito
da buzina do meu carro.
De nada adiantaram os
três apitos da fábrica de tecidos
ferindo os meus ouvidos.
Rendo-me e peço clemência.
Submeto-me ao encantamento
da doce melodia.
Mergulho na rede com a certeza
do inelutável e do ineludível.
Mais uma vez,
o futuro me absolverá!

Recife, 2006

sábado, 15 de março de 2014

A poetisa que veio do frio


A POETISA QUE VEIO DO FRIO

Clóvis Campêlo

É duríssima a tarefa de meter a colher nos textos alheios. Ainda mais quando não se é convidado. Mas, alimentado pela curiosidade que move montanhas, arrisco-me a trilhar o caminho quente que me aponta o vento frio vindo do sul – talvez o minuano.
A curiosidade existia até mesmo antes do carteiro chegar e o meu nome gritar com o livro na mão. E embora o seu título – Requiém – sugerisse um canto triste de celebração à vida que já se fora, sigo o caminho vivo que se oferece, pois é caminhando que se faz a caminhada.
Descubro surpreso que, na verdade, o que a poetisa canta é a vida fluindo. E mesmo exaurindo-se nesse fluir, é chama intensa a queimar o seu combustível. O livro nada mais é do do que a constatação de que a vida plena é mesmo aquela que precisa ser consumida para manter o caminho aceso e transitável. Não há outra possibilidade. Mesmo podendo exercer a contestação cósmica, necessita o poeta da vida para construir/consumir as suas visões e proposituras.
Nos seus versos, entende a poetisa que a transitoriedade da vida sempre esbarra na mutação final da morte libertadora, mesmo que seja para cair em outra situação que ainda seja incógnita, mas novidade.
Assim é a pedra de alma inquieta que rola, rola e se desmancha, ou o mundo, que num ímpeto libertário, solta-se da sua mão, escorrega no escuro, e num deserto furo (buraco negro?), lá se vai, lá se vai.
Em outro poema curtíssimo, hai-kai transfigurado, ordena à vida que fuja e que se esconda, pois que a morte ruge e urge.
No poema Visões, a poetisa exercita ao máximo o seu tom contestatório, expondo as contradições do discurso vazio do homem moderno, cujas ações e atitudes jogam por terra a redundância das máximas inúteis e contrariadas.
Em outro poema, Requiém, o qual serve para intitular o livro, fala das dores das esperas inúteis, muito embora deixe também transparecer que sempre haverá um recomeço e uma nova esperança a ser exercitada. No bojo da transitoriedade do presente, o futuro reabilitará o passado sempre e as dores outonais diferenciam-se de todas as outras dores da vida, pois que o outono nada mais é do que uma síntese amadurecida dos tempos vividos.
Na fotografia da contracapa do livro, aliás, a poetisa parece procurar no infinito os vestígios do que definitivamente já se foi, passado a se metamorfosear em futuro. Nem mesmo parece querer observar as notícias do mundo que ainda existe e que estão estampadas nas primeiras páginas dos jornais iluminados pelo sol da manhã na banca de revistas por detrás de si.
Eliane Triska, a poetisa que veio do frio, nasceu em Porto Alegre, em 1953, mas o mar da vida a levou para Canoas, cidade situada a pouco mais de 13 quilômetros da capital gaúcha, numa região anteriormente habitada pelos índios Tapes. É de lá, da sua aldeia, que emite os poemas sinceros e universais que compõem o livro recém-lançado.


Recife, 2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tudo valerá


TUDO VALERÁ

Clóvis Campêlo

Se nem tudo vale a pena,
a pena valerá tudo.
Mesmo com alma pequena
existirá um contudo

que beirando o absurdo,
em trajetória serena,
emitirá um som surdo
de transformação amena.

E assim, surgindo do nada,
dar-se-á novo universo,
compondo nova camada,

do anterior o inverso,
com cores mais camaradas
e organizado diverso.

Recife, 1994

terça-feira, 11 de março de 2014

Em vão


EM VÃO

Clóvis Campêlo

Pela cidade em vão vagueio,
procuro rostos conhecidos
outrora e que me são perdidos
entre outros vultos alheios.

Encantaram-se os amigos,
mergulho em outra multidão,
embora seja o mesmo chão
pisado em tempos antigos.

Oh, cidade estranha e cruel,
nem mesmo o azul do teu céu
me faz sossegar as entranhas;

nem mesmo o brilho das tuas águas
a mim tranquiliza as mágoas,
a ansiedade tamanha.

Recife, 2008

sábado, 8 de março de 2014

Sonho


SONHO

Clóvis Campêlo

Ontem à noite, sonhei
que dobravas a esquina
de qualquer rua do Pina.
Como os atalhos
eu mesmo traço,
apanhei-te de surpresa
em um abraço.
Notei que estremecias
e acordei de sobressalto
em plena luz do dia -
já não estavas mais
em meus braços!
Não convencido,
olhei para o teu retrato
na parede do meu quarto.
Ainda sorrias e
o sonho não começara
Aquietei-me
e fui dormir em paz.


Recife, 2006

quinta-feira, 6 de março de 2014

Auto-retrato


AUTO-RETRATO

Clóvis Campêlo

Sou a reta e sou a curva,
a mão esquerda e a direita,
o verão na praia do Pina
e a chuva que adoça o caju.

Sou a revolução que não houve,
as dúvidas da certeza
e a alegria das dúvidas.

Sou o pai e sou o filho,
o vento que anuncia tempestades,
o raio que corta o céu ao meio
no meio da tarde.

Sou martelo agalopado,
entidade de corpo fechado,
soneto na nova medida
e a bandeira de São João.

Sou Elefante e Pitombeiras,
sou o Galo da Madrugada,
sou o barulho da feira
e o som da procissão.

Sou o amarelo de Nossa Senhora
e o azul de Iemanjá,
sou calmaria sem vento,
sou selva de pedra e cimento,
relva plantada no chão.

Sou o tudo e sou o nada,
o silêncio e a batucada;
sou o sul e sou o norte,
faca cega e navalha de corte.

Eu sou o fogo da vida
e sou o sopro da morte!

Recife, 2006


terça-feira, 4 de março de 2014

De olho em Cuba


DE OLHO EM CUBA

Clóvis Campêlo

De olho em Cuba,
vim do Pina lançando.
Lançando impropérios
contra a arrogância
sanguinária de Tio Sam,
lançando impropérios
contra o motociclista bêbado,
lançando impropérios
contra os buracos das ruas,
lançando impropérios
contra as aves do mangue
que insistem
em seus vôos libertários
enquanto o Homem
destrói o planeta.

Recife, 2008

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A forma


A FORMA

Clóvis Campêlo

Quedar-se ante a dureza
da forma. Com consciência,
fazer do verso a ciência
e do verbo a natureza:

rio que corre em leito estreito,
junção de vários conceitos.

Cuide porém o poeta
pra que a obra, completa,
se mostre qual pele nua

e, de poesia repleta,
a palavra seja crua.

Recife, 2007

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sambas e futebol


SAMBAS E FUTEBOL

Clóvis Campêlo

Segundo os estudiosos do assunto, foi no século passado que a música popular brasileira desabrochou de vez. De evolução em evolução, nos anos 50 criou consistência suficiente para se consolidar e desaguar em um movimento como a bossa nova. Embora contestada por alguns, que a acusam de americanizar definitivamente a MPB, a bossa nova mudou para sempre os rumos da nossa música popular, dando-lhe vigor suficiente para projetar-se pelo mundo a fora e o conquistar.
Esse meio tempo vivido pela música brasileira entre a incipiência e a maturidade, serviu para o aparecimento de compositores identificados com os novos assuntos e costumes da nossa sociedade. O futebol, com certeza, foi, e continua sendo até hoje, um deles. E o Clube de Regatas Flamengo, na condição de um dos maiores times de massa do Brasil, teria uma posição de destaque no imaginário e na capacidade criativa desses compositores.
Um desses compositores chamava-se Wilson Batista. Carioca, nascido na cidade de Campos, no dia 3 de julho de 1913, foi autor de mais de 700 músicas, muitas das quais falando do seu amor e da relação com o clube rubro-negro carioca. Como tema para os seus sambas rubro-negros, Wilson não deixava escapar até mesmo os momentos de derrota e decepção.
Na música “E o juiz apitou”, por exemplo, uma parceria feita entre ele e Antônio Almeida, narrando uma derrota do Flamengo para o Botafogo. O próprio Antônio Almeida, em depoimento publicado na revista nº 36 da coleção MPB Compositores, assim declara: “Wilson era flamenguista doente. Fomos ver um Flamengo x Botafogo, em General Severiano. O Mengo perdeu o jogo e ele saiu angustiado do estádio. Pegamos o bonde para voltar pro Café Nice e Wilson criou um caso com o motoneiro, dizendo que não pagaria a passagem, tão aborrecido que se encontrava com a derrota do seu 'mais querido'. Eu pedi calma e el reagiu assim: 'Eu tiro o domingo pra descansar e vou ao futebol me aporrinhar'. Fizemos ali mesmo, de parceria o samba. Wilson era assim'.
Um outro parceiro e grande amigo de Wilson Batista, o compositor Jorge de Castro, nessa mesma revista, afirmaria que Wilson nunca foi muito de compor. O seu negócio era o tema. “Eu imaginava uma história e contava pra ele, que fazia a música e a letra”. Foi assim, que juntos lançaram mais de 100 músicas, entre as quais o “Samba rubro-negro”, cuja letra segue abaixo:
“Flamengo joga amanhã / eu vou pra lá / vai haver mais um baile no Maracanã / O mais querido / tem Rubens, Dequinha e Pavão / eu já rezei pra São Jorge / pro Mengo ser campeão. / Pode chover, pode o sol me queimar / que eu vou pra ver / a charanga do Jaime tocar: / Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar / Quando o Mengo perde / eu não quero almoçar / eu não quero jantar”.
Só para terminar, o médio Dequinha, citado na letra e que marcou época no clube carioca ao lado de Rubens e Pavão, era potiguar e se destacou nos anos 50, jogando pelo América pernambucano antes de ser contratado pelo Flamengo.

Recife, 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pelas ruas do Recife


PELAS RUAS DO RECIFE

Clóvis Campêlo

Pelas ruas do Recife
surge a novidade,
afirmam-se credos seculares,
renascem mitos modernos.

Pelas ruas do Recife
dorme-se o sono dos justos,
cessam as palavras,
falam por si sós os fatos.

Pelas ruas do Recife
caminha a humanidade,
correm as notícias,
dispara a revolução.

Pelas ruas do Recife
travam-se todas as lutas,
cruzam-se todos os olhares,
reverenciam-se todos os deuses.

Pelas ruas do Recife
transitam todos os anjos,
ocorrem todas as mortes,
condensam-se todas as imagens.

Recife, 1999

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O refém


Escultura de Francisco Brennand
Fotografia de Clóvis Campêlo/2007

O REFÉM

Clóvis Campêlo

Para Alberto da Cunha Melo

Lembrava apenas do silêncio,
promessas nunca as fizera,
aquela luz era uma quimera,
sobre o escuro estava pênsil.

Não adiantaram os tratados,
angústias antes do mergulho,
o corpo agora era um entulho,
inteiro, mas dilacerado.

Sabia de todos os pecados,
lera-os em todos os livros,
compunham agora o seu crivo,
eternamente o seu legado.

Não adiantaram as palavras,
fazer-se cosmos, demiurgo,
restava-lhe agora o expurgo
resultante daquela lavra.

Recife, 2007


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sem tradução


SEM TRADUÇÃO

Clóvis Campêlo

Dedico este texto à poetisa baiana Liris Letieres e seu olhar de petardo

Já disse o poeta que o olhar feminino não se traduz. Traz no seu íntimo todos os segredos e mistérios do mundo. E quem seríamos nós, pobres seres humanos do sexo masculino, para enveredarmos pela sinuosidade desses labirintos?
Mas, na inquietude das almas dos homens, também há um lugar para o mistério. O sexo forte existe acima de tudo para isso: capitular ante a sedução dos olhares de Eva e defender esse legado da horda sedenta que dele procurar se aproximar e abrigar-se. Um gigantesco trabalho, facilitado hoje pelas convenções sociais, pelo mito do amor e pelas conveniências do sistema em que vivemos.
Já disse um outro poeta (ou terá sido um cientista revolucionário?), que a atração do macho pela fêmea, que se dá sempre através do seu olhar, traz a identificação da conjunção genética adequada para a reprodução e a manutenção da espécie. Portanto, o tesão nada mais seria do que a ação da Natureza nos sinalizando sub-repticiamente sobre a chegada do momento decisivo para o encontro ideal. Nós, seres humanos racionais é que fazemos disso interpretações equivocadas ou confusas e desordenadas. Quanto se trata do olhar feminino, toda inocência poderá ser castigada.
Quem poderia interpretar, por exemplo, o olhar da Mona Lisa? Enquanto muitos se preocuparam com o seu sorriso, a exemplo do doutor Freud, que no alto do seu saber psicanalítico o interpretou como uma atração erótica subjacente de Leonardo da Vinci para com a sua mãe, para mim, são os olhos claros da madona que nos irradiam o mais profundo mistério. Segundo a Wikipédia, esse novo compêndio do saber universal, o olhar da Gioconda parece acompanhar quem a observa. É ao mesmo tempo incógnita e sedução, mas sem tradução.
E o que dizer do olhar dissimulado de Capitu, a personagem machadiana, que nos incomoda sem nunca ter sido visto por qualquer um de nós? Esse privilégio foi dado pelo autor brasileiro apenas a Bentinho, o Dom Casmurro, que por ela se apaixona (o mito do amor) e se desencanta, transferindo para o leitor a sua visão apaixonada (no início) e crítica (no final). A dúvida de Bentinho sobre Capitu e o seu olhar dúbio arrasta-se até os dias de hoje, deixando o mistério em aberto e nós sem condições de concluirmos a nossa leitura e interpretação pessoal. Uma eterna dúvida sem tradução, criando assim em nós a tradição da dívida.
Já disse o poeta que o olhar feminino não se traduz. Traz no seu íntimo todos os segredos e mistérios do mundo. E quem seríamos nós, pobres seres humanos do sexo masculino, para enveredarmos pela sinuosidade desses labirintos?


Recife, 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Amor de Perdição


AMOR DE PERDIÇÃO

Clóvis Campêlo

A segunda geração do Romantismo português se deu entre 1838 e 1860. Essa geração, livre das influências arcádicas ainda presentes na primeira geração romântica, ultrapassou os limites da estética, desembocando no ultra-romantismo, onde se esgotaria, resultando, por sua vez, no Realismo.
Pertencente a segunda geração, Camilo Castelo Branco é o típico representante dessa fase. Em suas obras, das quais Amor de Perdição se constitui na mais famosa, a estética romântica se apresenta em toda a sua plenitude.
Ora, sabemos que as circunstâncias sociais, políticas, econômicas e culturais que permitiram a ascensão burguesa e a consolidação da ideologia romântica abriram espaços para o aparecimento de um público consumidor que se relacionava com o autor de maneira diferente. Saindo de cenário a figura do mecenas protetor, era necessário ao escritor atingir o sentimento das camadas ascendentes para que o seu produto, temperado com as novas matizes, fosse aceito e garantisse a sua sobrevivência.
Escrevendo sempre por encomendas e enfrentando dificuldades financeiras desde muito cedo, Camilo Castelo Branco teria de ser possuidor de uma agudeza de espírito suficiente para sintonizar com o estado emotivo do grande público. Em que pese o caráter romântico da sua própria vida, sempre envolvido em conquistas amorosas e em polêmicas, manifesta essa visão pragmática mesmo no fim da vida quando envereda pelos caminhos do Realismo, já a gosto do grande público.
No prefácio para a quinta edição portuguesa de Amor de Perdição, publicada em 1879, portanto já bem depois da segunda fase do Romantismo português (a primeira edição é de 1862), o autor reconhece que “visto à luz elétrica do criticismo moderno”, o romance se apresenta “romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e umas idéias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo”. Mais adiante, afirma que romance que “fez chorar”, agora “faz rir”. Tal opinião refaz o ponto de vista expresso pelo autor no capítulo XIX do próprio livro quando afirma que “um romance que se estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos”. Autocrítica? Duvidamos, considerando que no mesmo prefácio citado, o autor, ironicamente, afirma que “o bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas”. No máximo, entendemos que o autor teria tido a sensibilidade de perceber que o público leitor estaria se mostrando receptivo a uma nova estética advinda do esgotamento da filosofia ultra-romântica.
No que se refere ao romance propriamente dito, ele é composto de vinte capítulos, mais a introdução e a conclusão, onde é contada a história do amor entre Simão Botelho, tio do autor, e Teresa de Albuquerque. Segundo o próprio romancista, o livro foi escrito em quinze dias, na cadeia da cidade do Porto, onde Camilo se encontrava preso sob a acusação de adultério.
O romance é narrado na terceira pessoa, pelo próprio autor, usando o pretérito como tempo narrativo. Da sua condição de narrador, aproveita-se o autor para tecer considerações filosóficas, algumas repletas de uma ironia mordaz que nos lembram, de longe, a prosa machadiana. Observemos, também, que em vários momentos os sentimentos do narrador se confundem com os sentimentos do personagem Simão, o que se explicaria, talvez, pelo fato do livro haver sido escrito por Camilo em uma situação que muito se assemelhava à situação vivida pelo tio: estava prisioneiro na mesma cadeia, como conseqüência igualmente de uma relação amorosa.
No primeiro capítulo, o autor traça uma pequena genealogia mostrando as origens da família de Simão, sua também, onde não faltam doses de sarcasmo e ironia, como ao atribuir às broas de milho comidas na juventude pelo seu avô, Domingos Botelho, a culpa pela sua feiúra e pouca inteligência. Ao descrever a descendência da avó paterna, dona Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco, Camilo também não deixa por menos ao mencionar a glória “um pouco ardente” do general seu antepassado morto frito em um caldeirão sarraceno. Neste capítulo, o autor traça ainda, embora da maneira superficial que lhe é peculiar, o perfil psicológico de Simão, mostrando-o como uma pessoa impetuosa e agressiva, o que mais adiante, no desenrolar da história, resultaria no assassinato que o levaria à prisão fatal. Embora dotado desse temperamento decisivo, Simão, como quase todos os personagens românticos, notadamente os camilianos, não resiste à força do amor que, embora de início o redima, termina por ser a sua perdição.
No segundo capítulo, o autor situa historicamente o acontecimento: início do século XVIII, quando Portugal dividia-se entre os admiradores das teorias liberais vindas da França, entre os quais se colocava Simão, e os setores mais conservadores que ainda defendiam a monarquia absolutista. Atravessando um momento difícil, Portugal tentava manter-se neutro na questão entre a Inglaterra e a França. Indispor-se com a primeira significava enfrentar uma guerra que levaria ao enfraquecimento econômico da nação portuguesa, pois além do comércio crescente que Portugal mantinha com a Inglaterra e que seria interrompido, também seria cortado, pela forte esquadra inglesa, o acesso marítimo ao Brasil. Por outro lado, indispor-se com a França significava a possibilidade de ter o território português invadido pelas forças francesas, aliadas aos espanhóis. Adepto das idéias francesas, que considerava portadoras do progresso – segundo José Hermano Saraiva, a questão entre absolutistas e liberais, em Portugal, teria aí se iniciado -, Simão é preso por defende-las em praça pública, sendo enviado à casa dos pais, em Viseu, onde conhece Teresa, filha de um vizinho desafeto do seu pai, e por quem se apaixona, dando início à trama do romance.
A partir daí os capítulos restantes dedicam-se exclusivamente à narração do drama passional que envolve Simão e Teresa. Possuídos pelo sentimento da paixão, caminham inapelavelmente para o desfecho fatal.
Além de Simão e Teresa, são personagens dignos de destaque no romance os pais do protagonista, Domingos e Rita, ele de família fidalga, mas de parcos atributos físicos e mentais; ela, bonita, filha de um capitão de cavalos. Do casamento entre eles, “desgostoso”, segundo o autor, nasceram os filhos Manuel, o mais velho e pai de Camilo, Simão e três irmãs que pouco destaque têm no romance. Pelo lado de Teresa, podemos destacar o seu pai, Tadeu de Albuquerque, que se opõe ao romance por ser desafeto de Domingos Botelho, e Baltazar Coutinho, primo de Teresa, escolhido por Tadeu de Albuquerque para desposa-la, que acaba sendo assassinado por Simão, no desenrolar da história. Podemos citar ainda João da Cruz, ferreiro liberto da prisão graças a um indulto concedido pelo pai de Simão, e que, por conta desse favor, sente-se na obrigação de protegê-lo na sua empreitada, e Mariana, filha de João da Cruz, que se apaixona por Simão e também termina tragicamente.
Dentro desse contexto o romance acontece e chega a um final infeliz: um amor arrebatador entre dois jovens filhos de famílias inimigas, que, impossível de se concretizar, deságua na morte. Se o espírito romântico, por um lado, já admitia a possibilidade de um relacionamento dessa natureza, onde os sentimentos desafiam a hierarquia familiar prenunciando fissuras nessa estrutura, por outro lado, ainda não oferecia condições para um desfecho que não fosse a tragédia.
Assim, admitia o gesto embora o castigasse.


Recife, 1992

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Canção para Marylin


CANÇÃO PARA MARYLIN

Clóvis Campêlo

Inerte em sono de pedra
reténs em teu corpo apenas
as cores do simulacro.

Teus olhos planos não vêem
velhos tempos e espaços
outrora já habitados.

No entanto, sempre serás
ícone de eras modernas,
fulgurante clarão da América,
a eterna deusa morta.

Recife, 1994

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Um campeão centenário


UM CAMPEÃO CENTENÁRIO

Clóvis Campêlo

Assim como eu, O Santa Cruz nasceu no bairro da Boa Vista, no centro do Recife. O ano? 1914, quando a cidade ainda era um arremedo do que é hoje.
Não nasceu no seio da burguesia pernambucana ou da aristocracia açucareira e mercantil que mandava os filhos da pátria mãe gentil estudar na Europa e adquirir hábitos bizarros e diferenciados. Foi assim, na bagagem dos que regressavam, que o futebol chegou por estas plagas. Foi assim que ele aportou na cidade maurícia e terminou por seduzir os meninos da classe média que antes só se atreviam o olhá-lo de longe. Para eles, a bola ainda era um mundo a ser conquistado.
Pois bem, assim o foi. Onze desse meninos filhos da classe média, premeditando o sucesso, fundaram o Santinha na noite do dia 3 de fevereiro daquele ano longínquo.
De lá para cá, muita água rolou nesses cem anos que se completam na próxima segunda feira, dia 3 de fevereiro de 2014. Período de glórias e êxtases e períodos de insucessos comprometedores nem sempre explicáveis.
Do Pátio da Santa Cruz ao Arruda, o Santinha perambulou por vários locais e bairros, construindo parte da sua história. Mas foi no Arruda, a partir dos anos 40, onde se firmou e afirmou. De início, o terreno pertencente ao comendador Arthur Lundgreen foi alugado. Depois, comprado com a ajuda do prefeito José do Rego Maciel, que posteriormente teve o estádio inaugurado no início dos anos 70, mais precisamente em 1972, batizado com o seu nome.
A construção do estádio foi importantíssima para a nossa consolidação enquanto clube de futebol e na conquista dos títulos mais significativos. Em 1969, com ele ainda em construção, quebramos a sequência do hexa timbu e desbancamos o time da Ilha do Retiro, dando início a uma sequência vitoriosa que nos levaria ao pentacampeonato estadual.
Os anos 70, aliás, foram por demais significativos. Montamos grandes equipes e conquistamos grandes vitórias contra equipes campeãs nacionalmente. Elevamos o nome do Santa Cruz no cenário futebolístico nacional, tornado-o respeitável e digno de menção. Não foi a toa que encerramos a década com uma grande excursão pelo Oriente Médio e Europa, retornando dela invicto e ganhando da Confederação Brasileira de Futebol o título de Fita Azul do Futebol Brasileiro, em reconhecimento a essa bela campanha.
Hoje, depois de uma fase em queda no futebol brasileiro, onde chegamos a alcançar os mais baixos patamares, como uma fênix estamos renascendo e ascendendo novamente, caminhando para retornar ao lugar de destaque que sempre merecemos no futebol brasileiro.
A força da nossa torcida, presente na vida do clube mesmo nos piores momentos por nós vividos, serviu para mostrar ao mundo inteiro por que somos considerados o clube Mais Querido do futebol pernambucano.
Isso tudo deve ser lembrado com orgulho na próxima segunda-feira, dia 3 de fevereiro de 2014, quando estaremos comemorando o nosso centenário.

Recife, 2014

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Percebi


PERCEBI

Clóvis Campêlo

Percebi, já não é
tão fácil mudar,
é preciso se acostumar
com o que
cada um traz consigo.
E eu sei, tento, faço
e não ligo,
pois se não me expuser
como vou
conhecer os perigos.
Tenho calma
porque agora já estou sabendo,
vou levando como quem
não quer querendo,
vou chegando como quem
não quer chegar.
Se a tristeza me invade
em certos momentos,
dou um tempo,
forço um pensamento,
pois eu sei tudo há de passar.

Recife, 1976

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A tese


A TESE

Clóvis Campêlo

As palavras do filósofo
enchia-os de sofismas
e tingia, qual basófilo,
em cores vivas suas cismas -

dogmáticos ditados
pra quem busca resultados.

Mas, nas mãos o basiótribo
o levava a cometer
várias mortes sem recibos

de idéias concebidas
pra não terem próprias vidas.

Recife, 2006


- Publicado no livro Antologia 2007 dos Poetas Independentes, Recife, Editora do Livro Rápido, 2007, página 42.

sábado, 25 de janeiro de 2014

O Recife como ele sempre foi


O RECIFE COMO ELE SEMPRE FOI

Clóvis Campêlo

Nasci em plena Avenida Conde da Boa Vista, no centro do Recife, em um casarão que pertenceu à várias famílias tradicionais da cidade. Nele, posteriormente, por vários anos, funcionou uma clínica psiquiátrica suspeitíssima por manter em suas dependências como doentes mentais moradores de rua, para lá levados em um convênio macabro mantido durante décadas com a polícia estadual.
Sobre o casarão, aliás, consta também que, em uma reforma feita nos anos 50 do século passado, foi encontrado em suas paredes um esqueleto feminino. O acontecimento, lido por mim nos jornais da época, no Arquivo Público Jordão Emerenciano, suscitou-me a lembrança do romance A Emparedada da Rua Nova, do escritor pernambucano Carneiro Vilela. Talvez fosse um hábitos social, nos séculos anteriores, sepultar em casa os restos mortais dos entes queridos.
Hoje, o imóvel é tombado e continua de pé, mesmo com a construção de dois espigões residenciais em seu terreno para abrigar os recifenses trazidos pela modernidade. Enfim, a cidade cresceu e evoluiu.
Talvez por isso, também, mantenho até hoje um carinho especial pelo bairro da Boa Vista. Lá, durante muitos anos, os meus ancestrais maternos fizeram morada. Por lá ainda vive uma tia minha octogenária, a última das moicanas a resistir à vida e ao tempo.
Nos anos 60, a minha avó materna foi morar na Ilha do Leite, que em nada se comparava ao que é hoje. Saía com meus primos a passear de bicicleta pelos sítios ainda existentes, repletos de árvores frutíferas e e de alguns currais com vacas leiteiras. Fica difícil de imaginar isso por ali hoje em dia.
Mas para o menino que fui, interessava mesmo era o coração nervoso da cidade, na época, constituído pelas avenidas Guararapes e Conde da Boa Vista. Fico impressionado como essa parte da cidade estagnou do ponto de vista da construção de novos prédios e como decaiu do ponto de vista do interesse das administrações públicas e da iniciativa privada. Literalmente, essa parte da cidade foi abandonada e entregue à própria sorte. Numa evolução cruel e inexplicável, a cidade expandiu-se para outros lados, acabando com o glamour e o charme ali existentes.
Os que, como eu, já superaram a barreira da idade da razão, com certeza, lembram-se dos passeios nas calçadas à margem do rio Capibaribe, à noite, chamados romanticamente de “quem me quer”. Ou das vitrines fartamente iluminadas das ruas Nova e Imperatriz, hoje ocupadas por desocupados, moradores de rua, sem tetos e fumadores de craque. Tornaram-se ruas assustadoras e temerosas.
Mesmo sem a pretensão de alimentar saudosismos inúteis ou de querer negar a inevitabilidade do futuro, lembro com saudade daqueles tempos onde a cidade ainda nos parecia pequena e decente.

Recife, 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Escreviver é preciso?


Foto: Clóvis Campêlo/1991

ESCREVIVER É PRECISO?

Clóvis Campêlo

Para Jomard Muniz de Britto

Parafraseando o poeta, perguntaríamos: quem lê tanta notícia?
A leitura, afinal, alimenta a vida ou a vida deve ser dividida entre a leitura e o viver?
A lei da vida atura leituras diversas não vividas ou é a vida uma leitura adversa e não dividida?Entre a dúvida das leituras não vividas e a dívida das vidas não lidas, por quem balançaria o seu coração?
Por outro lado, que impulsos estranhos e ancestrais levariam os poetas a se esquecerem da vida e, divididos, distanciarem-se de si mesmos para a prática de outras leituras?
Esse impulso esquizóide serviria para um entendimento mais amplo do mundo que nos cerca - poetas e leitores - ou apenas serve para fazer-nos esquecer (fuga nº 2?) esse mesmo vasto mundo?
Enfim: escreviver ou viver visões?
E, raimundos ou severinos, buscar rimas ou soluções?
Navegar nas águas de um espelho é preciso ou não existem outras traduções/leituras possíveis para a ilusão da vida?

Recife, 1997

sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma questão de consciência


UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

Clóvis Campêlo

Olhou para mim e falou sem constrangimento: “Criei os meus filhos com esse dinheiro e agora estou ajudando a criar os meus netos. Sou feliz assim. Por isso, todos os dias venho trabalhar e dar a minha contribuição à repartição em que trabalho há mais de trinta anos. Sou funcionário público e me sinto orgulhoso em servir ao povo do meu país. Não me interessam os que não pensam assim, os que roubam e se locupletam com o dinheiro público. Não tenho nada a ver com isso e nem quero ter. É uma questão de consciência íntima. Cada um só dá o que pode ou sabe dar”.
Até hoje eu não sei se aquela falação foi um desabafo ou um momento definitivo de encontro dele consigo mesmo. Também sei porque foi a mim dirigida. Nem mesmo o conhecia, embora tenha com ele simpatizado desde o começo. Era um homem simples, como todos os homens de bem, e parecia ser feliz e estar em paz consigo mesmo.
Aquela atitude inusitada levou-me a refletir sobre o papel de cada um de nós neste mundo de Deus e do diabo, sobre a responsabilidade dos nosso atos e do exemplo a dar aos que nos rodeiam e amam.
Levou-me a refletir até mesmo sobre o direito de cada um equivocar-se com as ideias do mundo. Sim, porque penso que há os que erram repletos de má intenção e calculismo, e há os que erram por alguma concepção equivocada do seu papel na vida ou das ideias elaboradas.
Talvez tenha sido essa sinceridade exagerada, em um mundo onde quase todos dissimulam e tentam vender uma imagem nem sempre verdadeira de si mesmo, que me fez escrever essas mal traçadas linhas. Em um mundo repleto de espertezas, talvez essa seja realmente uma esperteza maior. Nem mesmo consigo imaginar, porém, como seria o mundo se todos pensassem e agissem assim.
Como a maturidade sempre nos traz a certeza da inutilidade das elucubrações impossíveis e inviáveis, não alimentei por muito tempo a ideia da perfeição, mas permiti-me imaginar as relações humanas e pessoais sem as veleidades existentes e sem a necessidade dos subterfúgios enganadores.
Durante alguns dias, aquele homem e a sua falação não me saíram da cabeça. Depois, fui voltando novamente as minhas atenções para os fatos imediatos da vida e aquela imagem foi se dissolvendo na minha mente, até se transformar em uma lembrança longínqua como um sonho ou uma miragem provocada pelo sol quente de um dia de verão nordestino.
Por fim, terminei por me voltar definitivamente à luta árdua pela sobrevivência, chegando até mesmo a admitir, em determinados momentos, a utilização de algumas estratégias desabonadoras em nome das vantagens imediatas que se ofereciam.
Verdadeiro ou não, aquele homem e a sua falação, foram gradativamente se perdendo na névoa do tempo e do passado.

Recife, 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mulheres de verdade?


Ataulfo Alves ou Gilberto Gil?


MULHERES DE VERDADE?

Clóvis Campêlo

Vejo no jornal, no final de semana, que Amélia, a mulher de verdade cantada por Ataulfo Alves e Mário Lago, existiu mesmo. Chamava-se Amélia dos Santos Ferreira, morou em Realengo, no Rio de Janeiro, e morreu aos 91 anos, deixando dez filhos, muitos netos e bisnetos.
A notícia foi dada na coluna de Ancelmo Gois. Não sei se houve choros e velas no seu enterro, mas, com certeza, deixou o seu nome definitivamente gravado na história da MPB. Alô, alô, Realengo, aquele abraço.
Além de Amélia, Realengo também comportou o quartel onde Gilberto Gil ficou preso, nos anos 60, durante o regime militar, antes de ser deportado e exilado. Também aí, surgiu outra grande contribuição à música popular brasileira, no samba reconhecidamente de desenredo. O Rio de Janeiro, porém, era e continua lindo.
No jornal, também, no contexto das matérias publicadas sobre os 70 anos do início da II Guerra Mundial, tomo conhecimento da existência de Aninha dos Torpedos. Mulher bonita e sedutora, vagava pelos portos das capitais nordestinas, principalmente Recife e Salvador, atraindo marinheiros brasileiros e americanos que pudessem lhe fornecer informações sobre as rotas dos nossos navios mercantes.
Segundo o jornalista Wagner Sarmento, do Jornal do Commercio do Recife, para cada marinheiro seduzido por Aninha correspondia sempre o torpedeamento de algum navio. Aninha passou a ser considerada como uma espiã nazista infiltrada na província, dilacerando corações e as carcaças dos navios. Muito mais um mito, porém, do que uma realidade, a sua existência nunca foi efetivamente comprovada.
Para finalizar, leio, no emaranhado de notícias dos jornais, a filiação da senadora Marina Silva ao Partido Verde, depois de 30 anos de militância no PT. Desse modo, ao trocar o vermelho das esperanças pelo verde de novas possibilidades políticas e partidárias, a ex seringueira passou a dividir diretamente com a ministra Dilma Roussef a possibilidade de termos, pela primeira vez na história do país, uma mulher no comando da nação.
Essas mulheres, de verdade ou não, sacudiram a minha imaginação nesse final de semana ensolarado.


Recife, 2009

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Rainha da Noite


A RAINHA DA NOITE

Clóvis Campêlo

Ela chegou de mansinho com quem não queria nada.
Vestida de negro, desfilou pela areia branca com a elegância de uma princesa etíope.
O mar calou-se definitivamente ante a sua chegada. Os ventos silenciaram e deixaram de bolinar as copas das árvores. Até a lua crescente estancou a sua trajetória milenar para dar uma espiadinha na sua altivez, jogando sobre ela uma luz prateada.
A orquestra eletrônica de 400 watts, comprada a módicas prestações mensais, parou de tocar para que todos pudessem ouvir as suas passadas na calçada de pedras portuguesas. Todos os dançarinos abandonaram o salão, pois sabiam que havia chegado a dona da festa.
Agitou a sua cabeleira negra e iniciou um estranho balé, onde os braços pareciam as ondulações das águas do mar. As pernas ágeis deslizavam no salão grená. Todos quedaram-se estáticos ante a rainha da noite.
Durante a madrugada inteira, ninguém ousou interromper a sua mágica dança ou emitir palavra qualquer. Apenas a contemplavam estarrecidos de felicidade e repletos de estranhos desejos.
Diante dela, Abraxas iluminaria ainda mais os seus olhos misteriosos, Mona Lisa abriria ainda mais o seu enigmático sorriso, a Estátua da Liberdade desistiria da sua arrogância libertária e para ela olharia invejosa, Pomba-Gira compreenderia que uma força maior a impeliria à inércia.
Quando o dia amanheceu, misteriosamente, assim como chegara, abandonou o salão e mergulhou nas águas azuis do Trapió, desaparecendo no rumo da Mãe África, sem deixar vestígios ou sinais.
Como num passe de mágica, todos os presentes despertaram e restaurou-se a mesmice da normalidade.

Recife, 2004

sábado, 11 de janeiro de 2014

A noite estrelada


A NOITE ESTRELADA

Clóvis Campêlo

É uma das mais conhecidas pinturas de Vincent van Gogh. Foi feita por ele aos 37 anos de idade, em 1889, enquanto estava internado em um asilo na cidade de Saint-Rémy-de-Provence, na França. Atualmente encontra-se na coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Segundo os seus estudiosos, a obra foi feita de memória e não a partir da visão de alguma paisagem. A parte central representa a aldeia onde ficava o sanatório, sob um céu enrolado e com alguns astros fora do lugar, como a constelação da Ursa Maior, deslocada mais para o sul. O cipreste à esquerda, foi adicionado em primeiro plano à pintura.
É nesse período que o artista rompe com a sua fase impressionista e desenvolve um estilo próprio, com o uso de fortes cores primárias, às quais ele atribuía significados próprios.
Apesar da forte definição dos contornos das imagens retratadas, o cenário sugere intenso movimento, com o lugarejo espremido entre o céu, que ocupa a maior parte da figura e uma estreita faixa de terra. Parece que o pintor tomava consciência naquele momento da nossa pequena dimensão no universo.
Por outro lado, o cipreste colocado à esquerda realça o primeiro plano da composição e serve de elo entre o agitado ambiente celeste e a calma das montanhas e do casario de Saint-Rémy.
Alguns estudiosos da obra chamam ainda a atenção para a imagem da lua, à direita da composição, que mais lembra o sol, clareando o azul da noite, e as imagens das estrelas, que sugerem pequenos sóis.
Assim como talvez já tenha acontecido com milhares de outras pessoas, esse foi o quadro de Van Gogh que sempre me chamou mais a atenção. Foi a partir dele que me interessei em pesquisar e conhecer mais a sua obra, embora sem nenhuma pretensão de um estudo pertinaz e intensivo.
A admiração apenas refletiu-se numa tentativa empírica de conhecimento da obra e da vida contida do autor holandês, que contrastava com a intensidade interna dos seus sentimentos conturbados.

Recife, 2014

- Publicado no livro Crônicas Recifenses, Recife, Clubr de Autores, 2018.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Desconstrução


DESCONSTRUÇÃO

Clóvis Campêlo

Para que serve um grupo virtual de relacionamento?
Antes de mais nada, eu diria, para encurtar distâncias reais.
O mundo virtual, aliás, desconhece isso. Nele, distância é um empecilho que não existe.
No entanto, encurtar distâncias para que?
Aí surge um segundo momento de dramático insighting.
Poderíamos afirmar, sem medo de errar e de ser feliz, que o encurtamento das distâncias nos permitiria a criação e manutenção de novas amizades. Tudo bem.
A criação e a manutenção de nova amizades, porém, pedem a existência de pontos em comum, de áreas de interseção onde essa identidade possa se exercitar e se fortalecer. Ótimo. Se somos poetas ou literatos ou mesmo se temos arremedos de filósofos, podemos estabelecer aí esse ponto de identidade e de fortalecimento das relações na virtualidade.
Podemos estabelecer, a partir daí, que a comunicação se dê, aconteça e se efetive.
A comunicação, no entanto, está diretamente relacionada ao envio e recebimentos de mensagens, ao entendimento dos seus conteúdos, a dissipação dos ruídos eminentes e prováveis, e, principalmente, ao prazer que tudo isso pode proporcionar a seus emissores e receptores. Nada pior para a comunicação do o silêncio efetivo e constante, constrangedor, castrador, neurotizante. A comunicação se desconstrói a partir do silêncio. O silêncio, no entanto, comunica. O silêncio é a percepção da eminência dos limites. Não falo, logo desisto.
O silêncio também pode significar a maturação do desencanto: não me vejo no que o outro diz, logo, me calo, desisto.
O silêncio também pode significar que tudo já foi dito. Essa premissa, porém, demonstra uma profunda arrogância: se tudo já foi dito é porque somos sábios e já não precisamos das palavras do outro. Somos perfeitos, divinos e devemos ser alçados às nuvens, nefelibatas, seres flutuantes acima do bem e do mal. O silêncio nunca será uma provocação.
O silêncio nega, extermina, desapropria, rouba, angustia, mata.
O silêncio cheira mal, degrada. O silêncio é caquético.
Sejamos, pois, o barulho do trânsito desenfreado, dos carnavais frenéticos, das procissões feéricas, das crianças na hora do recreio escolar, dos cachorros vagabundos fazendo sexo na rua.
O barulho é um chamamento, o fogo, a chama na palha.
O barulho alimenta a alma e nos deixa a convicção de que ainda precisamos um do outro.


Recife, 2009

sábado, 4 de janeiro de 2014

Palco do amanhã


PALCO DO AMANHÃ

Clóvis Campêlo

Solta as rédeas o domingo,
pela rua o sol escorre,
como sempre o tempo corre,
eu sozinho choramingo.

Sei que em breve o escuro
sobrepõe-se à alegria;
será mais um fim de dia
anunciando o futuro.

Por que então me angustio,
antecipando algum mal,
se sempre vem o estio

logo após o vendaval,
e se o amanhã é um fio
de luz, um outro sinal?

Recife, 2010

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Temperada


TEMPERADA

Clóvis Campêlo

Temperada a língua,
Pedrinho canta toadas
enquanto o dia míngua.

Recife, 2009