quinta-feira, 12 de abril de 2018

O Restaurante Samburá

 




O RESTAURANTE SAMBURÁ

Clóvis Campêlo

Sobre o restaurante Samburá, no site TripAdvisor, constato a seguinte declaração feita por alguém que se denomina LoucosporMarketing: “Almocei domingo com um grupo no Restaurante Samburá, que fica no hotel de mesmo nome. A história é original, pois ouvi lá do próprio dono, um senhor de 91 anos que estava no almoço. Ele me contou que fundou o Restaurante Samburá em 1 de janeiro de 1910, à beira-mar em Olinda, quando não havia nada em volta. Em seguida, a área em torno foi loteada e ele vendeu centenas de lotes, que deram origem ao atual bairro. Na década de 80, o Samburá foi transferido para o outro lado da avenida, saindo da areia da praia, e construindo um hotel em cima do atual restaurante. Então, o Samburá não é um restaurante num hotel, e, ao contrário, é um restaurante que tem um hotel em cima. A cozinha é deliciosa, com pratos da culinária do Nordeste, em estilo self-service nos fins de semana”.
Hoje o restaurante e hotel está situado na Av. Ministro Marcos Freire, 1551, no Bairro Novo, em Olinda. Antes, porém, em 1953, segundo mensagem que nos foi enviada pelo mensenger do Facebook pela assessoria de imprensa do hotel, começou como um quiosque na beira-mar. Posteriormente, evoluiu para um prédio no formato de um samburá, cesto bojudo e de boca estreita, feito de cipó ou taquara, e muito usado para carregar iscas e apetrechos de pesca, e para recolher o pescado.
Depois, por conta da legislação municipal que proibia construções na praia, o restaurante foi transferido, para o local onde se encontra atualmente. Na época, todos os estabelecimentos que estavam em situação semelhante tiveram os prédios demolidos.
Como podemos verificar nos parágrafos acima, há uma divergência de datas quanto ao início do funcionamento do estabelecimento comercial. Acreditamos que o ano de 1953, que nos foi informado pela equipe de comunicação do próprio restaurante e hotel, seja o mais provável. Deixamos por enquanto a questão em aberto.
Como podemos observar pela terceira fotografia acima, já havia na época da sua feitura um trabalho de contenção do avanço do mar naquela área com a colocação de pedras e espigões de areias.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Margeando o Capibaribe






MARGEANDO O CAPIBARIBE
Recife, 2015
Fotografias de Clóvis Campêlo

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tio Amaro


TIO AMARO

Clóvis Campêlo

 

Amaro Regueira era meu tio-avô, irmão do meu avô materno Luís de Albuquerque Regueira. Era um homem simples e pacato, que gostava de criar galinhas, acostumado à vida no interior e no campo.
Lembro dele na nossa casa do Pina, já velho e com problemas circulatórios seríssimos. Fumante inveterado, tinha as pernas escuras por conta da má circulação sanguínea.
Sobre ele, minha mãe contava uma história interessante e engraçada: apesar da mansidão, às vezes ele perdia a paciência com a meninada e dava respostas inesperadas. Curiosa como sempre foi, a minha mãe, ainda menina, pediu-lhe que lhe ensinasse a conhecer quando a galinha estava prestes a por o ovo. Ocupado, tio Amaro não lhe deu atenção. De tanto insistir, recebeu essa resposta: “Minha filha, meta o dedo no rabo da galinha. Se estiver duro, é ovo; se estiver mole, é merda!”. Dona Tereza, minha mãe, contava isso sempre rindo muito.


quarta-feira, 28 de março de 2018

A arte de envelhecer


A ARTE DE ENVELHECER

Clóvis Campêlo

Envelhecer não é fácil, amigos. É preciso se ter maturidade para enfrentar essa fase da vida (por sinal, a fase final). Algumas pessoas não conseguem aceitar a chegada da terceira idade e sofrem com isso. Principalmente quem usa a cara e o corpo como instrumento de profissão. São muitos os atores e atrizes que entram em depressão com a chegada da fase final da vida.
Quando jovens, no entanto, a velhice e a morte sempre nos parecem coisas distantes e despreocupantes. As visões da velhice na juventude geralmente são românticas e alegres. Digo isso pensando em dois grandes compositores que marcaram a minha infância e adolescência e nas músicas por eles compostas falando da velhice.
O primeiro é Paul McCartney que ainda na fase dos Beatles, em 1969, no álbum Sargent Peppers Lonely Heart Club Band, compôs a música Whan I'm Sixty-Four. Paul, como se sabe, ao contrário de John Lennon, veio de uma bem ajustada família de classe média inglesa. Seu pai, nas festas natalinas ou de família, gostava de sentar ao piano e tocar velhas e tradicionais canções inglesas. Isso Paul absorveu bem e utilizou com sabedoria nas suas composições.
Na música acima citada, ele faz uma indagação inocente e bem-humorada: “When I get older losing my hair / many years from now / will you still be sending me a valentine”. Ou seja: “Quando eu envelhecer, perdendo meus cabelos / Daqui a muitos anos / Você ainda estará me mandando um cartão no dia dos namorados?”
Paul que já faz tempo passou dos 64 anos, finaliza a música com uma proposta e outra indagação: “Send me a postcard, drop me a line / stating point of view / indicate precisely what you mean to say / yours sincerely wasting away / Give me your / answer fill in a form / mine forever more / Will you still need me / Will you still feed me / When I'm sixty-four”. Traduzindo: “Mande-me um cartão-postal, escreva uma linha / Expressando seu ponto de vista / Explique precisamente o que você quer dizer / Com sinceridade / Dê-me sua resposta, preencha em um formulário / Minha para sempre / Você ainda precisará de mim? / Você ainda me alimentará? / Quando eu tiver sessenta e quatro anos”.
Não é preciso dizer que Paul sempre foi um homem em paz consigo mesmo, com as mulheres que amou, com seus filhos e sua família. E essa sensação é transmitida para seus admiradores não só nessa como em outras músicas suas.
Com Roberto Carlos não foi diferente. Embora tenha tido a sensibilidade de transformar em arte e músicas os anseios e sentimentos de toda uma geração, suas canções falam do mundo e da vida de forma positiva e propositiva. Na música Os Velhinhos, ele assim se expressa: “Quando a velhice chegar / Eu não sei se terei / Tanto amor pra te dar / Hoje, vem amor, vem amar / Os meus lábios esperam / Te querendo beijar / Amanhã estaremos velhinhos / Contaremos juntinhos / Os segredos do amor / Para os nossos netinhos”.
Talvez a lembrança dessas músicas e desses compositores para mim, que também já ultrapassei a marca dos 64 anos, sirva para amenizar um pouco a lembrança do que tempo bom que passou e que, embora não volte mais, serviu como base para que tenhamos chegado ao momento atual em que vivemos com nossas famílias, nossos filhos e netos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Moraes Moreira, Benedito Lacerda e o pombo-correio

 Benedito Lacerda e Pixinguinha

 Moraes Moreira e os Novos Baianos

MORAES MOREIRA, BENEDITO LACERDA E O POMBO-CORREIO



Clóvis Campêlo



Compositor, flautista e maestro, Benedito Lacerda nasceu na cidade fluminense de Macaé, em 14 de março de 1903. Compositor, cantor e violonista, Moraes Moreira nasceu na cidade baiana de Ituaçu, no dia 8 de julho de 1947. Quatro décadas, portanto, separam os nascimentos do dois compositores brasileiros.

O primeiro, já no Rio de Janeiro, iniciou sua trajetória musical tocando bumbo na banda do Exército. O segundo, começou tocando sanfona de doze baixos nas festas da sua cidade natal.

Lacerda, que chegando ao Rio foi morar no morro do Estácio, cresceu cercado de chorões e sambistas, convivendo com gente de peso na MPB, como Noel Rosa. Moreira, em Salvador, conheceu Tomzé e Baby Consuelo, ao lado da qual formou o grupo Novos Baianos, do qual foi integrante de 1969 a 1975.

Benedito Lacerda morreu no Rio de Janeiro, em 16 de fevereiro de 1958, quando Moraes Moreira tinha apenas dez anos de idade. Este último continua por aí em carreira solo. Ao todo, segundo a Wikipédia, tem mais de 40 discos gravados em carreira solo, ao lado dos Novos Baianos ou com outros grupo e artistas.

Todo esse preâmbulo introdutório foi por nós utilizado apenas chegarmos a um ponto em comum nas suas composições: ambos criaram músicas utilizando o pombo-correio como tema. As composições, inclusive, são homônimas.

Na sua música Pombo-Correio, Benedito Lacerda assim se expressa: “Soltei meu primeiro pombo-correio / com uma carta para a mulher / que me abandonou; / Soltei o segundo, o terceiro / o meu pombal terminou / ela não veio e nem o pombo voltou”.

O compositor, portanto, chora não apenas a perda da mulher amada, mas também a sua indiferença, não lhe respondendo as cartas e nem lhe devolvendo os pombos de estimação. Pura ingratidão.

Moraes Moreira canta assim o seu Pombo-Correio: “Pombo correio / Voa depressa / E esta carta leva / Para o meu amor / Leva no bico / Que eu aqui / Fico esperando / Pela resposta / Que é pra saber / Se ela ainda gosta de mim”. No bico do pombo de Moreira ainda existe a esperança de uma resposta positiva, portanto, onde retornem o pombo e a mulher amada. Afinal, a esperança é a última que morre.

Na segunda parte da sua canção, Lacerda revela como o fim daquele amor desarrumou a sua vida: “Depois que aquela mulher me abandonou / não sei porque minha vida desandou / O canário morreu / a roseira murchou / o papagaio enlouqueceu / e o cano d'água furou. / E até o sol por pirraça / invadiu a vidraça e o retrato dela desbotou”. Sem o comando feminino, o mundo do compositor caiu e não só ele foi vítima desse desequilíbrio, como também tudo o que o cercava. Nada de um final feliz.

Moreira, pelo contrário, deixa o final em aberto: “Pombo-correio se acaso um desencontro / acontecer não perca nem um só segundo / voar o mundo se preciso for / o mundo voa / mas me traga uma notícia boa”. Portanto, seja lá qual for a situação encontrada pelo pombo na sua missão, fica a esperança do compositor de que ele retorne e lhe traga boas novas. Afinal, a vida é bela e deve continuar.
Aliás, nos tempos modernos de hoje, onde predominam a internet, o facebook e o whatsapp, é difícil imaginar um singelo pombo-correio atravessando os céus do Brasil para entregar uma carta de amor.

Gabriel e Tatiana


GABRIEL E TATIANA

Clóvis Campêlo
 
TATIANA
 
Conheci Cida em dezembro de 1977, numa cidade chamada Riachão, situada no sul do Maranhão. É interessante frisar que, antes, nenhum de nós dois jamais estivera ali.
Nasci no Recife e fui ao Maranhão acompanhando meu irmão mais novo que ali morara um tempo, trabalhando, e que iria se casar com uma jovem do lugar.
Cida, natural da vizinha cidade de Carolina, também no sul do Maranhão, ali fora acompanhando um irmão mais velho que dirigia um pequeno caminhão, fazendo entrega de café fabricado na torrefação onde trabalhava. Assim, nós nos conhecemos. Nosso primeiro encontro se deu numa festa de 15 anos, acontecida na noite anterior ao casamento do meu irmão. Ali mesmo, começamos a namorar. Terminado o casamento, voltei ao Recife e Cida, a Carolina.
Em fevereiro de 1978, durante o carnaval, fui a Carolina e conhecer os pais de Cida e o restante da sua família.
Ficou decidido que em março eu voltaria à cidade e nos casaríamos, vindo morar no Recife.
E assim foi feito: no dia 11 de março de 1978, nos casamos na Matriz de Carolina e viemos para o Recife. Na época, eu tinha 26 anos e a Cida, 16.
Em 1979, Ano Internacional da Criança, no dia 20 de janeiro, às 7:30 da manhã, dia de São Sebastião, Tatiana nasceu, sendo, portanto, o resultado inicial dessa história especial e inusitada.
Na realidade. deveria ter nascido no dia 1º, Dia da Confraternização Universal. Não sei se erraram na conta, mas se passaram 20 dias do prazo estabelecido para que ela nascesse. Estava atravessada na barriga de Cida e foi retirada a fórceps. Ainda hoje ela tem na testa as marcas do nascimento.
Naquele tempo não havia ainda ultrassonografia para se saber antecipadamente o sexo das crianças. Assim, na porta da sala de parto, haviam dois bonequinhos, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. Dependendo do sexo do nasciturno, acendia um ou outro.
Enquanto Cida e Drª Aspásia lutavam na sala de parto para que Tatiana viesse à luz, lá fora, na sala de espera, estávamos eu, meu pai, que assim como também se chamava Clóvis, e minha mãe, dona Tereza, nervosos e ansiosos.
Quando a luzinha acendeu, todos se abraçaram e se confraternizaram, felizes porque tudo correra à contento.


GABRIEL
 

Quatro meses depois do nascimento de Tatiana, Cida engravidou novamente. Quando Gabriel nasceu, no dia 12 de março de 1980, Tatiana tinha um ano e dois meses.
Com nós meninos ainda pequenos, fomos moram em Rio Doce, na cidade de Olinda, numa casa com um pequeno quintal onde haviam árvores e um tonel cheio de água, onde as crianças gostavam de tomar banho.
Em julho de 1986, nos mudamos e fomos morar num apartamento, no bairro do Cordeiro, no Recife. Ali, os meninos passaram a maior parte das suas vidas. Ali cresceram e fizeram amizades que duram até hoje.
Gabriel nasceu às 7:30 da manhã, em um dia de muita chuva.
Nessa época, morávamos na Ilha do Leite e de lá para o Hospital Português, onde ele nasceu, a distância não era muito grande.
Em circunstâncias normais, eu e Cida, teríamos ido até andando.
Mas chovia muito, algumas ruas estavam alagadas e resolvemos pegar um táxi, um alegre fusquinha azul celeste que contrastava com o dia cinzento.
Chegamos no hospital e a Drª Aspásia Pires, que sempre fez os partos de Cida, já nos esperava.
Ela entrou com Cida na sala de exames e logo a vi correndo de volta, desesperada.
Aflito, perguntei o que estava acontecendo e ela me respondeu: "Ele já está nascendo".
Mal deu tempo Cida entrar na sala de partos e Gabriel já veio à luz, apressado, querendo ver o mundo com os próprios olhos.
Foi um parto tranquilo, normal.
Pouco tempo depois, Gabriel já estava no berçário e Cida sentada na cama, serena, tomando uma canja quentinha.
Foi assim que Gabriel nasceu. Foi assim que veio ao mundo, sendo o nosso caçula e completando a nossa família.
Era tão pequeno que nós o apelidamos de Catotinha.


Recife, 1986

quinta-feira, 15 de março de 2018

Entre o concreto e a natureza

Fotografia de Clóvis Campêlo / dez 2013

ENTRE A NATUREZA E O CONCRETO

Clóvis Campêlo

Nascemos na lama rica do mangue e sobre ela crescemos. Antes um istmo, hoje ocupamos toda a planície que o rio criou e o homem, com a força e a ambição que Deus lhe deu, ajudou. Se isso foi bom ou ruim, talvez seja uma questão de visão ou de opinião íntima definir. Talvez até mesmo o suposto caos que hoje enfrentamos seja o prenúncio de outros tempos ainda maiores virão.
Estaremos preparados? Sinceramente, não sei. Do caos ao mangue ou do mangue aos caos vivemos numa cidade entrelaçada com as águas. E nesse embate entre o que as linhas tortas da natureza criou e o que as linhas retas da compreensão humana alterou ou inventou, ficamos nós respirando e querendo sobreviver. Enquanto isso, a beleza do cenário pode ser encontrada e admirada na sua plenitude.
Ao olhar puramente contemplativo talvez não caiba o questionamento politicamente correto. Viver não significa necessariamente indagar ou criar oposição imaginativas. O olhar reto e direto não necessitaria de retificações. Entre a natureza e o concreto, talvez as águas claras do rio escorra sem a necessidade de interpretações como sintomática e diuturnamente o tempo faz. E ninguém a ele sobreviverá. Morrer sempre será preciso. A vida vive disso.
Por trás da copa das árvores a cidade simplesmente existe. E vista assim de longe mais parece um céu no chão. Para que servem afinal os detalhes deletérios da visão direcionada? Para nada, eu mesmo respondo. A não ser que queiramos alimentar a angústia, as justificativas para o sofrimento, as elaborações filosóficas inúteis e inquietantes.
Nascemos sobre a lama rica do mangue e um dia ao pó voltaremos. Que o tempo a nós oferecido entre estes dois atos extremos seja repleto de alegria e êxtase. Deixemos o olhar vagar por todo o cenário como se a nada buscasse, como se apenas quisesse usufluir da plasticidade do momento que se nos oferece.
Nós merecemos, a cidade merece.

 

quarta-feira, 7 de março de 2018

Respeito



RESPEITO
Recife, fevereiro de 2018
Fotografia de Clóvis Campêlo

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Miguel Arraes e o MST











MIGUEL ARRAES E O MST
Recife, 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Joaquim Nabuco, um pouco da sua histórias e dos seus monumentos no Recife


JOAQUIM NABUCO, UM POUCO DA SUA HISTÓRIA E DOS SEUS MONUMENTOS NO RECIFE

Clóvis Campêlo

Nem sempre, amigos vale a pena se começar um texto ou uma história pelo começo. Quem já seu Os Sertões, de Euclides da Cunha, sabe disso. Só depois de superadas as cansativas falésias (no texto euclidiano) é que se chega aos sertões, ao cerne da narrativa, em alguns momentos eminentemente cinematográfica e compensatória.
Mas, encerremos a curta digressão euclidiana e concentremos as nossas atenções na figura de Joaquim Nabuco, chamado por muitos de Quincas, o belo.
Segundo a Wikipédia, Nabuco padecia de uma doença congênita conhecida como policitemia vera, e que lhe causaria a morte. Faleceu aos 60 anos de idade em Washington, nos Estados Unidos, onde exercia as funções de embaixador, sendo sepultado no Cemitério de Santo Amaro, no Recife.
Segundo os estudiosos do assunto, a policitemia se caracteriza pelo aumento no número de hemácias (também chamadas 'eritrócitos' ou 'glóbulos vermelhos') no sangue. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando nos deslocamos para regiões de elevadas altitudes, onde o ar é rarefeito (contendo pequeno teor de oxigênio). Nessa condição, o organismo através da liberação de um hormônio produzido pelos rins - a eritropoietina -, estimula a produção de hemácias, num mecanismo de compensação para normalizar o transporte de oxigênio para as células. Foi isso que o matou em Washington, em 1910.
Segundo matéria publicada no jornal Folha de Pernambuco, em 1º de novembro de 2016, "no Cemitério de Santo Amaro é possível encontrar obras simbólicas que contam a história do Estado, como a que se encontra no túmulo do abolicionista Joaquim Nabuco. A escultura Emancipação do Elemento Escravo, de 13 de maio de 1888, é formada por um grupo de ex-cativos levando o sarcófago simbólico do grande abolicionista sobre suas cabeças".
Segundo artigo da pesquisadora Semira Adler Vainsencher, publicado no site da Fundação Joaquim Nabuco, "o mausoléu de Joaquim Nabuco é o mais valioso de todos: é uma obra artística do escultor Giovanni Nicolini, professor em Roma, e feita em mármore de Carrara. A obra retrata o fato mais importante na vida do famoso abolicionista: a libertação dos escravos no Brasil. Ela apresenta alguns ex-escravos que levam, sobre suas cabeças, o sarcófago simbólico de Joaquim Nabuco. Na frente do monumento, vê-se o busto do abolicionista. A seu lado, a escultura de uma mulher, simbolizando a História, que enfeita de rosas o pedestal do seu busto, onde é possível se ler: "A Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo. Nasceu a 19 de agosto de 1849. Faleceu a 17 de janeiro de 1910".
Na base do pedestal de Nabuco, onde está presente uma coroa de flores, está escrito: "A Joaquim Nabuco, o comandante, officiais e guarnição do "Minas Gerais". Washington, 14-3-1916". E, na parte posterior do mausoléu do abolicionista, lê-se ainda: "Homenagem do Estado de Pernambuco ao seu dileto filho, o Redentor da raça escrava no Brasil".
No centro histórico do Recife, na antiga Praça da Concórdia, anteriormente também conhecida como Largo Major Codeceiras, e que hoje tem o nome do abolicionistas famoso, existe um monumento feito em sua homenagem e inaugurado em 28 de setembro de 1915, que segundo a página Recife de Antigamente, é obra de autoria de João Bereta de Carrara. O seu pedestal é cercado em pedra de cantaria, duas estátuas do mesmo material completam o monumento: uma figura de mulher, simbolizando a glória, depõe, uma coroa de flores aos pés de Nabuco; outra, um escravo com os grilhões partidos, encimado pela grande e bela estátua do abolicionista.
Ainda segundo a página Recife de Antigamente: "Aliás, é bom que se diga, Joaquim Nabuco é um dos pernambucanos mais homenageados pelo governo. Além desse majestoso monumento, é nome de praça, de rua, de escolas, de fundação, patrono da assembleia legislativa, e teve custeado pelo governo estadual o seu mausoléu, no cemitério de Santo Amaro, como constatamos pelo relatório do governador Dantas Barreto, datado de 6 de março de 1914: “ Solenemente inaugurado do cemitério de Santo Amaro e entregue à municipalidade do Recife o mausoléu mandado construir pelo Estado e destinado a guardar os restos mortais de Joaquim Aurélio Nabuco de Araujo, que ocorreu com autorização na lei nº 1009, de 9 de abril de 1910".
Convém também lembrar que em 2000 o compositor baiano Caetano Veloso musicou o texto Noites do Norte, publicado no livro Minha formação, em 1900.
Mas, voltemos ao começo da história. Segundo o site Ebiografia, até os 28 anos de idade, foi essa a trajetória do abolicionista: "Joaquim Nabuco (1849-1910) nasceu no Recife, Pernambuco, no dia 19 de agosto. De família ilustre, pai, avô e bisavô foram Senadores do Império. Filho de José Tomás Nabuco de Araújo e Ana Benigna Nabuco de Araújo, viveu seus primeiros oito anos com os padrinhos Joaquim Aurélio de Carvalho e Ana Falcão de Carvalho, no Engenho Massangana, no município do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Em 1857, foi com a família para o Rio de janeiro. Estudou em Friburgo, em seguida entrou para o Colégio Pedro II. Entre seus colegas estavam Rodrigues Alves, Afonso Pena, futuros presidentes do País, e Castro Alves, o poeta dos escravos. Ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, que era um dos principais centros liberais e abolicionistas do Brasil Imperial. Ainda estudante escrevia matérias para os jornais liberais "Ipiranga", "Independência" e "Tribuna Livre", fundado por ele. Já mostrava seus anseios por um regime livre da escravidão. Foi presidente do Ateneu Paulistano, associação estudantil cujo lema era Deus, Pátria e Liberdade. Em 1869, voltou ao Recife, onde continuou seus estudos na Faculdade de Direito. Formado em 1870, ingressa na carreira diplomática. Em 1876, é nomeado adido em Washington, e depois é transferido para Londres. Em 1878, com a morte do pai, volta ao Rio de Janeiro e troca a vida diplomática pela advocacia".
Ainda segundo o site acima citado, no ano de 1879 é eleito deputado pelo Partido Liberal e faz o seu primeiro discurso no câmara ratificando a postura abolicionista que já defendia na campanha eleitoral.
E prossegue o site: "Em 1880, transformou sua casa, na praia do Flamengo, em uma Sociedade Contra a Escravidão. Em 1887 é reeleito deputado por Pernambuco. Em discurso na Câmara condena a utilização do Exército na perseguição dos escravos fujões. No dia 10 de março de 1888, cai o gabinete do conservador Barão de Cotegipe e assume João Alfredo, que tinha a missão de propor a abolição. Lutando pelo projeto abolicionista, Nabuco encaminhou as medidas de urgência, até que no dia 13 de maio a Lei Áurea foi assinada".
E ainda: "Nessa fase de espontâneo afastamento, Joaquim Nabuco viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Nesse período, Joaquim Nabuco escreveu duas grandes obras: “Um Estadista do Império”, biografia do pai, mas que é, na verdade, a história política do país e um livro de memórias, “Minha Formação”, uma obra clássica de literatura brasileira".

Para finalizar esse texto-homenagem, que já se alonga demais, gostaríamos de citar um trecho da colocação atualíssima feita pela leitora que se identifica simplesmente como Ieda, ao comentar sobre a música Noites do Norte, a parceria inusitada de Caetano Veloso e Joaquim Nabuco, e postada no site Answers Yahoo: "Ao advertir que a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil, Joaquim Nabuco se dava conta de que o fenômeno do cativeiro havia contaminado a sociedade brasileira, dividindo-a, o que conduziria a sérias conseqüências, e estragaria as relações e a harmonia social e política no país, ao longo da história, e alcançaria o século atual. Ao assistirmos o lastimável espetáculo que, atualmente, políticos inferiores encenam, à revelia da vontade e do entendimento popular, a advertência de Joaquim Nabuco se atualiza, porque se vê o quanto a “obra da escravidão” penetrou em nossos corações e mentes".

domingo, 14 de janeiro de 2018

O Museu da Abolição do Recife




O MUSEU DA ABOLIÇÃO DO RECIFE

Fotografias e pesquisa de texto de Clóvis Campêlo

Casarão construído no século XVII pelo fidalgo Pedro Duro, cuja esposa se chamava Madalena Gonçalves.
No século XIX, pertencia ao Barão de Goiana, tio e sogro do Conselheiro do Império, Senador, Ministro e Chefe do Gabinete Imperial, João Alfredo Corrêa de Oliveira, que o recebeu como herança. João Alfredo, assim como Joaquim Nabuco e outros, foi um abolicionista que lutou pelo fim do Sistema Escravagista, assinando, juntamente com a Princesa Isabel, a Lei Áurea.
No século XX encontrava-se abandonado e em péssimo estado de conservação, tendo sido, ao longo do tempo, utilizado pela Cooperativa de Transportes João Alfredo e pela Companhia Pernambucana Autoviária Ltda, como garagem e oficina para conserto de ônibus. Muitas famílias desabrigadas também moraram no imóvel e, durante o período da II Guerra Mundial, foi ocupado por uma unidade do Exército Brasileiro.
Foi transformado em Museu da Abolição no ano de 1957.

Recife, novembro 2014

Fonte: Wikipédia

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Para as dores nos ossos


PARA AS DORES NOS OSSOS

Clóvis Campêlo

Com dores nas articulações, vou ao médico. Depois dos exames radiográficos, vem o resultado: artrite e artrose. Segundo ele, coisas da idade. Para as dores, analgésicos, antiinflamatórios e um remédio a base de fitoterapia. Mas com um aviso: "A tendência é isso tudo piorar com o passar do tempo, seu Clóvis". Entendo eu, portanto, que a medicação prescrita trata-se de um mero paliativo.
E agora? Como já sofro de psoríase, uma doença autoimune que também ataca as articulações, preparo-me para o pior, que, com certeza, ainda há de vir.
No entanto (sempre existe um no entanto), lembro dos meus velhos compêndios homeopáticos e resolvo fazer neles uma nova investida. Descubro o eupatorium perfoliatum e me lembro que uma vez eu dei a meu irmão, durante uma crise de dengue, e a coisa funcionou a contento.
Recorro ao Guia da Medicina Homeopática, do dr. Nilo Cairo, e nas suas páginas encontro o seguinte: "Em qualquer moléstia em que predominar o sintoma - dores por todo o corpo como se fossem nos ossos, as quais não aliviam nem pelo repouso nem pelo movimento, está indicado o eupatorium, - influenza de forma reumática (principal remédio), febre intermitente (pela manhã, com vômitos biliosos), dengue, febres biliosas, bronquites, etc. Ossos sensíveis e carnes dolentes. Dor occipital, com sensação de peso, após ter-se deitado".
Com base nessa descrição, acredito ter encontrado o remédio adequado para mim. Resolvo ainda, porém, pesquisar mais na grande rede, e no site Medicina Natural encontro que o eupatorium é uma planta medicinal também conhecida como erva-de-cobra, planta-sudorípara, sálvia-indiana e boneset. Pertence à família Asteraceae.
A publicação diz ainda que a planta, segundo texto do Dr. Pierce publicado em 1895, é um excelente estimulante do apetite, além de ótimo tônico e sudorífero. Consta ainda que foi usada como medicamento durante a epidemia de febre amarela que aconteceu em 1793, na Filadélfia. Seus compostos principais são taninos, glicosídeos, ácido gálico, resina e óleo essencial, além de boas quantidades de cálcio, magnésio, potássio e vitamina C.
Descubro ainda, no artigo citado, que a planta é citada em estudos médicos desde meados do século XVIII. O seu nome popular em inglês (boneset) foi dado por americanos que a utilizaram para tratar a "febre de breakbone", que causava fortes dores ósseas, no início do século XX.
Sinto-me recompensado pela pesquisa e com a quase certeza de que esse é o remédio que preciso. Precisaria, no entanto, fazer aqui uma pequena distinção apenas entre o uso homeopático da planta, conforme se refere o dr. Nilo Cairo no seu livro citado, e o seu uso fitoterápico, conforme a indicação do site Medicina Natural. 
Enquanto no segundo caso a o princípio ativo da planta é obtido através de infusão, na forma de chás, na homeopatia é feita a diluição decimal ou centesimal da sua tintura-mãe em farmácias homeopáticas especializadas para isso, sendo esse uso mais indicado para quem tem possíveis problemas alérgicos.

O Dia do Frevo



O DIA DO FREVO

Clóvis Campêlo

Ora, todos nós sabemos que o frevo se celebra durante o carnaval. Então, principalmente na capital pernambucana, os dias do frevo são os dias do tríduo momesco, como se chamava a festa antigamente. Porém, sempre existe um porém, o Dia do Frevo é comemorado hoje em datas distintas, e para ambas existe as devidas justificativas.
O site Paraná Em Foco nos dá logo as duas explicações: "Os pernambucanos comemoram nesta terça-feira (9) o Dia do Frevo. Declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o ritmo comanda as festas de carnaval nas ladeiras de Olinda e também pelas ruas do Recife. A data foi escolhida porque há 109 anos o jornalista Oswaldo Oliveira, que trabalhava no Jornal Pequeno, do Recife, se referiu pela primeira vez à dança chamando-a de frevo".
E didaticamente continua: "Segundo historiadores, a palavra frevo quer dizer ferver. E resultou da maneira incorreta como as pessoas mais humildes flexionavam o verbo ferver trocando a ordem das letras “e” e “r”, ou seja, “frever”. O ritmo é derivado da marcha e do maxixe, e surgiu no Recife no final do século 19 para dar ao povo mais animação nos folguedos de carnaval. O ritmo é extremamente acelerado e a música animada. Nas suas origens, sofreu várias influências ao longo do tempo. Apesar de Pernambuco comemorar hoje o Dia do Frevo, um decreto assinado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2009, instituiu o Dia Nacional do Frevo em 14 de setembro".
O Jornal do Commercio do Recife, na sua edição do dia 14 de setembro de 2016 confirma em linhas curtas a informação acima: "Quem é pernambucano sabe que 9 de fevereiro é comemorado no Recife o Dia do Frevo. A data simbólica registra o dia em que a palavra "frevo" foi publicada no jornal pela primeira vez. No entanto, neste dia 14 de setembro, também foi instituído o Dia Nacional do Frevo, reconhecido no calendário oficial do Brasil".
No entanto, no seu blog, o radialista Antônio Cezar faz o seguinte questionamento: "O Dia do Frevo ou Dia Nacional do Frevo em 14 de setembro de cada ano, é uma comemoração não confirmada no Brasil, que aparece listada em vários calendários brasileiros de dias festivos, creditada a um suposto Decreto Federal de 13 de janeiro de 2009, muito embora o referido Decreto tenha instituído apenas o "Dia Nacional da Música Clássica" no Brasil. Segundo se sabe, essa data comemorativa não confirmada de brasileiros teria por fim, marcar a data do aniversário do nascimento do jornalista brasileiro, Osvaldo da Silva Almeida [conhecido principalmente como Paula Judeu], ocorrido em 14 de setembro de 1882, a quem chegara a ser atribuída à criação da palavra "frevo", referida no livro "Frevo, capoeira e passo" do pesquisador brasileiro, Valdemar de Oliveira. Também se lê muito nos sites que alardeiam essa data festiva, que ela teria sido bastante festejada até 1969 com o apoio da EMETUR [Empresa Metropolitana de Turismo] da cidade brasileira de Recife-PE".
Portanto, para mim, fica a dúvida no ar muito embora as datas sejam plenamente justificáveis, em se tratando de homenagens. Apenas acho que em fevereiro a homenagem é mais seja adequada haja vista a proximidade com o próprio carnaval, festividade com a qual o frevo está diretamente ligado.
Para ilustrar a matéria, escolhemos as duas fotografias acima, e que retratam o nosso carnaval de rua e a dança do passo em dois momentos distintos. A primeira imagem, feita pelo fotógrafo francês mas radicado na Bahia Pierre Fatumbi Verger (já falecido), mostra passistas descontraídos e caracterizados de forma livre e pessoal, como bem soa ao carnaval. A segunda, de autor desconhecido, mostra o frevo sendo executado de maneira bem mais técnica e com passistas vestidos com roupas estilizadas e padronizadas. Nada contra, porém.
Que venha o carnaval de 2018!

- Postagem revisada em 09/02/2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O amor que se canta



O AMOR QUE SE CANTA

Clóvis Campêlo

Assim como a mulher amada, toda cidade querida deve ser cantada em prosas e versos. E assim o fizeram dois grandes compositores da música popular brasileira: Capiba e Caetano Veloso.
Capiba, pernambucano nascido na cidade de Surubim, compôs Recife, cidade lendária. Caetano Veloso, baiano nascido em Santo Amaro da Purificação, compôs Sampa, hino de amor à capital paulista.
E embora Capiba, em momentos de diversidade afetiva, também tenha composto e cantado Olinda, cidade eterna (esta gravada por Caetano) e Igarassú, cidade do passado, será a primeira que irá nos interessar nesse momento de comparações.
Na sua canção, quase uma modinha, gravada por Chico Buarque no mesmo CD que o homenageou e também por João Gilberto, o pai da bossa nova, Capiba canta o seu amor não pelo Recife moderno de hoje, mas por uma cidade lendária que já não existia mais nem mesmo no seu tempo. É uma canção de saudades, como podemos verificar já nas primeiras estrofes:

Eu ando pelo Recife, noites sem fim
percorro bairros distantes sempre a escutar
Luanda, Luanda onde estás
É a alma de preto a penar

Recife, cidade lendária
de pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados
compridos, escuros
faz gosto se vê


E prossegue nas estrofes seguintes cantando um Recife bucólico, onde talvez as tradições da cidade pequena porém decente já desse lugar às inquietações da modernidade irreversível que se aproximava a passos galopantes:

Recife teus lindos jardins
recebem a brisa que vem do alto mar
Recife, teu céu tão bonito
tem noites de lua pra gente cantar

Recife de cantadores
vivendo da glória em pleno terreiro
Recife dos maracatus
dos tempos distante de Pedro I


E arremata finalmente, num grito ao mesmo tempo de capitulação e de revolta inútil:

Responde ao que vou perguntar
que é feito de teus lampiões
Onde outrora os boêmios cantavam
suas lindas canções.

Naquele momento final do brado, do mesmo modo que acontecerá com o compositor baiano na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua São João, alguma coisa transforma de maneira definitiva o coração e as convicções do compositor surubinense: o Recife se arremessava para o futuro, esquecendo do seu passado glorioso onde cabiam tanto Pedro I quanto os negros renegados dos maracatus. E a incerteza do futuro parecia machucar o poeta e compositor: ainda haveriam lindas canções? Ou aquela canção acima de tudo dorida e colorida pelas lembranças do passado serviria para lhe acalmar os ânimos naquele momento?

Em Sampa, um belo samba-canção, a relação de Caetano Veloso com a cidade paulistana é ao mesmo de tempo de susto e de enfrentamento. Talvez aquilo tudo fosse demasiadamente grande num primeiro momento para o filho de Santo Amaro da Purificação, mas eram as coisas do mundo presente, minha nega, e precisariam ser entendidas e ter a sua mais completa tradução. E o jogo precisaria ser rápido e definitivo:

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João


No segundo momento, onde o compositor ainda não se reconhece e nem consegue ver o seu rosto no perfil emaranhado da cidade, há o entendido de que diante daquela nova realidade, só lhe resta aceitá-la e mesmo sem decifrá-la plenamente entender-lhe o significado de ser o avesso do avesso do avesso:

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso


Aceitar provisoriamente a cidade, porém, não significa ter com ela uma relação de passividade ou de omissão diante dos seus problemas e da sua realidade dura e injusta. E surge a crítica, porém, já de uma forma apaixonada e não destrutiva. Afinal ele percebera que apesar de tudo e de toda a sua injustiça e dos seus injustiçados, poderia passear sem medo na sua garoa e como os Novos Baianos, poderia curti-la numa boa:

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa.


Este texto modesto e despretensioso é, acima de tudo, uma declaração de amor a Capiba e a Caetano Veloso, e a tudo o que eles significaram e significam na construção da música popular brasileira moderna. Foi a maneira que encontrei para agradecê-los e enaltecê-los um pouco. Tenho dito.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Bloco Carnavalesco Madeira do Rosarinho

Fotografia de Victor Soares

BLOCO CARNAVALESCO MADEIRA DO ROSARINHO

Clóvis Campêlo

A pesquisadora Lúcia Gaspar, no site da Fundaj, assim o descreve: "Um dos blocos carnavalesco mistos mais tradicionais do Recife, o Madeira do Rosarinho, foi criado por Joaquim de França e um grupo de dissidentes, no dia 7 de setembro de 1926, por causa de divergências com a diretoria do antigo bloco Inocentes do Rosarinho. Inicialmente, o grupo pensou em chamar o de gogoia, por estar reunido embaixo de uma árvore dessa espécie, mas houve um consenso de que o nome não “soava bem”. Cogitou-se então chamá-lo Madeira que Cupim não Rói, por ser a gogoia uma madeira resistente. Por fim, optou-se por Madeira do Rosarinho".
O historiador Carlos Bezerra Cavalcanti, no livro O Recife e seus bairros, ao comentar sobre o bairro da Encruzilhada, assim se pronuncia: "Os blocos, como Madeira e Inocentes do Rosarinho, Clube das Pás Douradas, Maracatu de Dona Santa, vinham se exibir no Largo que ficava todo embandeirado e iluminado, dispondo ainda de palanques, barracas, abres e sistema de alto-falante por onde se ouvia, exclusivamente, a maravilhosa música pernambucana, hoje tão esquecida na sua própria terra".
Voltando a Lúcia Gaspar, no seu artigo da Fundaj: "Seu símbolo é um escudo, semelhante aos de clubes de futebol, nas cores vermelha, branca e verde, com uma figura mascarada no centro. A sede do bloco, no bairro do Rosarinho (Rua Salvador de Sá, 64), é um local de entretenimento para a comunidade e para os recifenses em geral. Com capacidade para cerca de mil e quinhentas pessoas, o bloco realiza festas e bailes nos seus salões durante o ano todo, além dos dias de Momo. Na quarta-feira de cinzas, o Madeira do Rosarinho sai às ruas com o Bacalhau do Madeira, bloco que arrasta uma multidão de foliões pela comunidade e seu entorno". E conclui: "O Madeira participa do Concurso de Agremiações Carnavalescas do Recife e é detentor de um hexacampeonato e mais de vinte títulos, entre os quais o de Campeão da Primeira Categoria, em 2005, e do Grupo I, em 2007. Seu desfile acontece no domingo de Carnaval. Conta com um coral profissional, uma orquestra com vinte músicos e cerca de 190 componentes distribuídos em onze alas, além de diversas fantasias nas cores tradicionais do Bloco. Seus ensaios acontecem sempre nas segundas-feiras".
Em matéria publicada no Diario de Pernambuco do dia 1º de fevereiro de 2016, a jornalista Luce Pereira assim se manifesta: "Minha senhora, meu senhor, tem hora em que os versos repetidos à exaustão parecem grudar nos miolos feito tatuagem. Caso de Madeira que cupim não rói (Capiba) outro clássico das multidões, embora padeça da mesma indiferença por parte de quem ouve e canta. Mal associam o hit carnavalesco ao bloco ao qual pertence, e então imagina-se que nem de longe saibam a história por trás da letra. Mas aqui a explicação precisa ser dada com detalhes, porque ele é o hino, a carteira de identidade de um dos clubes mais tradicionais do Recife, o Madeira do Rosarinho, que nasceu no dia 7 de setembro de 1926. Noventa anos. Já estreou na folia, é bom que se diga, com a sina de não levar insatisfação para casa. Surgiu de uma dissidência do Inocentes do Rosarinho, este batizado oito meses antes, em 18 de janeiro do mesmo ano. Foram parecidos apenas na maneira de nascer – o primeiro, de uma conversa entre cinco amigos mantida embaixo de uma jaqueira, o último, sob a sombra de uma árvore de gogoia. Consideremos que a mesma rivalidade observada hoje entre as escolas de samba cariocas e paulistas existia entre os blocos mais tradicionais de Pernambuco. Viria de uma destas brigas a música cantada a plenos pulmões, ainda hoje, por milhares de brincantes espalhados pelo estado inteiro. Sim, porque, naquela época, respostas a insatisfações aconteciam através de palavras musicadas com maestria. Ao menos por isso já vale a pena dizer: bons tempos, aqueles.Era 1963. Momo reinava em Pernambuco, o Madeira já tinha 37 de vida, e eis que os juízes do concurso daquele ano resolvem conceder o título de vencedor do carnaval ao também tradicionalíssimo Batutas de São José, uma disputa que, de acordo com o sentimento do preterido, pareceu “marmelada”. Para a sorte daquela e das futuras gerações de loucos por folia, entrava em campo a genialidade de Capiba, chamada para transformar a revolta em desabafo e o perdedor (de direito) em vitorioso (de fato). Resultado: com o segundo lugar, espécie de “campeão moral”, o Madeira acabou encontrando a fórmula para nunca mais sair da boca do povo".
Voltemos, porém, para o texto de Lúcia Gaspar, que assim se colocou sobre as principais músicas do bloco famoso e querido: "São destaques no seu repertório musical as marchas Me apaixonei por você, Pára-quedista (grafia da época) e, a mais famosa delas, Madeira que cupim não rói, composta por Capiba, em 1963, como uma forma de protesto contra o resultado do concurso de blocos daquele ano, que concedeu o primeiro lugar ao Batutas de São José, como diz, principalmente, a segunda estrofe da música".
Veja abaixo a letra de Madeira que cupim não rói:

MADEIRA QUE CUPIM NÃO RÓI

Capiba

Madeira do Rosarinho
Vem à cidade sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original

Não vem pra fazer barulho
Vem pra dizer e com satisfação
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão

E se aqui estamos, cantando essa canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nós somos madeiras de lei que cupim não rói

- Postagem revisada em 06/02/2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Bar Savoy



O BAR SAVOY

Clóvis Campêlo

O escritor Urariano Mota, no seu livro Dicionário Amoroso do Recife, assim o define: "Ele ficava na Avenida Guararapes, número 147. Foi o primeiro bar do Recife no afeto, e podemos até dizer, o primeiro sem segundo. A memória desse bar deveria ser retida por todo pernambucano de origem ou formação".
Segundo a página Recife de Antigamente: "O antigo Bar Savoy funcionou no centro do Recife durante 48 anos (1944 - 1992) e era parada obrigatória de artistas e intelectuais que se reuniam no local para discutir política e literatura".
Segundo o escritor, poeta e teatrólogo José Calvino de Andrade Lima, em texto publicado no Recando das Letras: "O Savoy foi fundado em 1944 pelo espanhol Alvarez, passando para os irmãos Simões e, por fim, para o português Joaquim Esteves Pereira, que inaugurou o Canto do Poeta. Esteves, a quem Gilberto Freyre chamava “o bom Esteves”, abandonou o Recife. Na sua gestão, o Savoy transformou-se em uma verdadeira entidade cultural, promovendo concursos, cursos, palestras e adquirindo um magnífico acervo de excelentes obras de arte".
O jornalista Ricardo Noblat, no seu blog do Globo, postou o poema abaixo, de Carlos Pena Filho, onde o Bar Savoy é tema e inspiração:

CHOPP

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.

Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.

Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

No blog Coisas da Vida, o escritor João Vicente assim se manifesta sobre o desaparecimento do bar tradicional no centro histórico do Recife: "O Bar Savoy resistiu por muito anos desde sua criação em 1944 pelo espanhol Manuel Alvarez até os anos de 1990. Nas muitas idas a Recife após a anistia de 1979, eu sempre costumava frequentar o Bar Savoy na companhia dos poetas Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo e raras vezes também Domingos Alexandre. Se não me falha a memória, o Bar Savoy já estava sob a batuta do empresário Joaquim Esteves Pereira, que procurava manter toda a tradição da velha casa, animando o espaço com atividades culturais diversas, inclusive concursos literários. Alberto da Cunha Melo, conforme o referido email de Cláudia, no seu caderno confessional “A noite da longa aprendizagem: notas à margem do trabalho poético”, no dia 13 de dezembro de 1984, registrou a concessão de prêmio ao poeta Marcus Accioly pelo Bar Savoy. Voltei algumas vezes ao Bar Savoy nos anos 90, e logo eu pude sentir que a velha casa estava em franca decadência, e que o seu réquiem com certeza já fora encomendado".
A minha geração ainda chegou a frequentar o Bar Savoy, embora já despido da sua aura de local preferido pelos grandes poetas e intelectuais do Recife. Nos anos 90, por exemplo, ainda presenciei Liêdo Maranhão tocando pandeiro no primeiro andar, no Recanto do Poeta, em comemoração ao aniversário de Gilberto, livreiro da Praça do Sebo. Mas só. A decadência e o abandono do centro histórico do Recife também ajudaram a desvalorizar e esvaziar o local. Assim como todas as outras coisas do mundo capitalista, é o interesse econômico que determina a morte ou a sobrevivência de áreas importantes da urbe. Como já disse o poeta, é a força da grana que ergue e destrói coisas belas. No Recife também não foi diferente. E nessa roda-viva o Savoy foi definitivamente tragado, ficando apenas nas lembranças dos saudosistas e historiadores.
Recentemente andou se falando na restauração do local e reabertura do bar. O prédio, que pertencia ao INSS, foi vendido e os novos compradores fizeram o anúncio que até hoje não se concretizou.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Frevioca: inovação ou imitação?




A Frevioca em três momentos

FREVIOCA: INOVAÇÃO OU IMITAÇÃO?

Clóvis Campêlo

Segundo o site da Prefeitura da Cidade do Recife: "Criada no ano de 1980, a Frevioca foi um dos primeiros projetos da Fundação de Cultura Cidade do Recife. Montada na carroceria de uma caminhonete pelos cenógrafos do Teatro de Santa Isabel, Jair Miranda e Mestre Zezinho, e a equipe de carpintaria da época, coube à Frevioca a importante missão de resgatar o carnaval de participação do centro do Recife. As orquestras eram poucas para atender toda a programação e a Frevioca se mostrou eficaz e animou durante anos o carnaval no coração da cidade, arrastando verdadeiras multidões. No ano de 1984 o equipamento foi adaptado, adquirindo as características de bondinho. Nos anos 1990, com a expansão do Carnaval de Rua no Recife, é construída a Frevioca II. Esta contou com a montagem do diretor teatral José Pimentel sob a supervisão do então diretor-executivo da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Leonardo Dantas da Silva. Mais de uma década após sua criação as Freviocas, consideradas então equipamentos emblemáticos para a cidade, passaram a integrar programações diversas ao longo do ano, como o São João, natal, datas cívicas. Em 30 de junho de 2010 o vereador Estefano Menudo apresenta à Câmara Municipal do Recife um projeto de lei que concede às Freviocas I e II o título de Patrimônio Artístico e Cultural do Recife, aprovado por unanimidade entre os parlamentares".
A historiadora Maria do Carmo Andrade, em texto publicado no site da Fundaj, diz o seguinte:"A Frevioca, uma espécie de trio elétrico do Carnaval do Recife, foi criada em 1979, estreando pelas ruas do centro da cidade no carnaval de 1980. Seu idealizador, o jornalista e escritor Leonardo Dantas Silva, então recém-nomeado como o primeiro presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, tinha por objetivo reviver os velhos carnavais de rua do Recife, proporcionando a presença de uma orquestra para animar os desfiles das agremiações, já que poucas dispunham de condições financeiras para isso. A primeira Frevioca era um antigo caminhão decorado, com amplificadores de som e uma orquestra composta por 32 músicos, sob a regência do maestro Ademir Araújo e o cantor Claudionor Germano. Depois, passou a ser conduzida por uma carroceria de ônibus e posteriormente por uma de bonde, marca registrada como um importante meio de transporte na paisagem do Recife antigo".
O site Dicionário Informal assim a define: "É um transporte feito especialmente para o Carnaval, e, que carrega uma orquestra de frevo. A Frevioca, uma espécie de trio elétrico do Carnaval do Recife, foi criada em 1979, estreando pelas ruas do centro da cidade no carnaval de 1980".
O pesquisador Fernando Machado, no seu blog, afirma: "O historiador Pereira da Costa define Frevioca, como: pândega, folia, divertimento; club, troça, cordão carnavalesco: “essa bem feita frevioca dos Carregadores de Piano prepara-se cada vez mais para os dias de carnaval” (Jornal do Recife n.º 50 de 1914). Já Leonardo Silva complementa: “A Frevioca é uma orquestra volante de ritmos carnavalescos que veio a se tornar o mais importante veículo de animação das ruas do Recife durante o carnaval”. O novo must do Carnaval do Recife, arrasava, pelas ruas do Recife, com seus 32 músicos, sob a regência do maestro Ademir Araújo, puxada pelo cantor Claudionor Germano".
Acreditamos que com a criação da Frevioca o carnaval de rua do Recife e o frevo, que durante um certo tempo andaram claudicantes e perdendo espaço para os chamados ritmos baianos, ganharam condições de competir com a forte influencia dos trios elétricos baianos. A Frevioca tirou as orquestras de frevo do chão, onde o alcance das suas músicas era muito limitado, e, amplificando o seu som, colocou-as em condições de igualdade com a invenção baiana. Desse modo, as orquestras recifenses, sem alterar o seu produto musical mais autêntico, ficaram em condições de arrastar verdadeiras multidões pelas ruas da cidade, inicialmente durante o carnaval, e depois, em outras festas como o São João e o Natal.
Assim, entendemos: do mesmo modo que a orquestra do maestro Nélson Ferreira desfilando pelas ruas de Salvador, em 1951, influenciou Dodô e Osmar a criarem a fubica do trio elétrico, a consolidação do trio elétrico nos carnavais do Brasil, estimulou os criadores da Frevioca.
Talvez o carnaval multicultural seja isso aí.

- Postagem revisada em 08/02/2018