sábado, 5 de novembro de 2016

Canção do auto-exílio


Fotografia de Clóvis Campêlo / 2016

CANÇÃO DO AUTO-EXÍLIO

Clóvis Campêlo

Nesta terra tem palmeiras
onde canta o sabiá!
Cheguei aqui por querer
e por não querer voltar,
insisto em lhe afirmar:
Nesta terra tem palmeiras
onde canta o sabiá!

O tempo em que me ausentei
prefiro nem lhe contar
de por onde é que eu andei
só pensando em voltar
para as aves que aqui gorjeiam
ao lado do sabiá.

Permita Deus que eu morra
sem daqui mais me ausentar,
olhando o azul dos céus
e o anil intenso do mar,
ao lado do coqueiro verde
onde um dia fui encontrar
a paz que a mim incendeia
e o canto do sabiá.

Neste céu tem mais estrelas,
nesta terra, mais amores,
do mar, eu curto o mistério,
a lua, chego a vê-la,
e todos estes fatores
forjaram o meu batistério.

Nesta terra tem palmeiras
onde canta o sabiá,
guriatã, rouxinol,
a patativa e o canário.
E essa ode faceira
que sempre encontrei por cá
faça chuva ou faça sol,
é todo o meu ideário.

Recife, março 2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Dylan e o Nobel de Literatura


DYLAN E O NOBEL DE LITERATURA

Clóvis Campêlo

Como diz Rita Lee, tudo vira bosta. Talvez essa máxima se aplique com adequação à notícia divulgada pela Academia Sueca. Pra que diabo Bob Dylan vai querer um prêmio desses? Em que é que isso vai enriquecer ainda mais a sua carreira musical, além, é claro dos 2,9 milhões de reais a serem pagos? Do mesmo modo que não quero entender, até hoje, porque os Beatles aceitaram o título de “sir” que lhes foi dado por uma Inglaterra ferozmente capitalista e, na época, envolvida com a Guerra escrota do Vietnã.
Dylan, com a cara atual de maracujá enrugado, começou a sua carreira fortemente influenciado pela cultura beatnik. Nascido em no estado da Minnesota, em 1941, netos de emigrantes judeus russos, escolheu a música folk para lhe servir de base e veículo dos seus textos e poemas. Deu certo. Emigrou para Nova York, onde vive até hoje, e no bairro do Greenwich Village começou sua longa e profícua carreira de compositor. Dizem que a escolha pela música folk foi uma homenagem ao ídolo Woody Guhtrie. Nós, fãs da periferia, talvez não tenhamos conhecido o Woody, mas, no Festival de Woodstock, seu filho, Arlo, fez um relativo sucesso.
Mas, Dylan, que em seu nome artístico também homenageia outro poeta, Dylan Thomas, teve ressonância entre os descontentes da época por alertar aos seus contemporâneos, sempre de forma branda e poética, sobre os rumos dos novos tempos. Nunca foi, porém, um contestador do sistema. Nunca pregou revoluções. Aliás, chegou mesmo a homenagear o american way of life, ao declarar que mudava de nome por viver na terra da liberdade. Destetava, inclusive, a alcunha de compositor de músicas de protesto. Na verdade, um bom moço, o Dylan. Por isso, não foi a toa, que nos anos 70, Lennon afirmou em uma das suas músicas pós-Beatles que, entre outras coisas, não acreditava mais em Robert Zimmerman (o nome de batismo de Dylan).
Vejo agora na imprensa que Dylan, classificado pela Academia Sueca como arrogante e mal-educado por não se pronunciar sobre a premiação, corre o risco de não receber a dinheirama do prêmio. Seu silêncio, constrangedor para os cedentes, pode lhe custar os cifrões. Pelo regulamento, o premiado deve fazer palestra sobre a sua arte, no prazo máximo de seis meses a partir da concessão do Nobel. Ou até mesmo um show musical, admite a Academia. Mas ele continua mudo como um túmulo.
Ainda pelas regras da Academia cedente, a recusa do prêmio não será aceita. O recusante, no entanto, ficará privado do valor monetário a ser recebido. Consta que apenas Jean Paul-Sartre, em 1964, recusou o mimo. Anos depois, porém, diante das graves dificuldades financeiras que enfrentou, solicitou à Academia Sueca que lhe pagasse o valor devido, o que lhe foi negado. Sarte, talvez, tenha se arrependido, mas já era tarde.
Para mim, a Academia Sueca arriscou-se um grande golpe publicitário, aproveitando-se da fama de Dylan. Talvez ele tenha percebido esse intuito e tenha se reservado. Não sabemos até onde isso irá e qual a verdadeira importância dessa babaquice para o conturbado mundo moderno.
Portanto, que se fodam Dylan e o Nobel de Literatura!


Recife, outubro 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

A praia da Boa Viagem

 










A PRAIA DA BOA VAGEM
Recife, outubro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

De volta para o passado


DE VOLTA PARA O PASSADO

Clóvis Campêlo

Não tenho pretensões de ser nenhum novo Dom Casmurro. A minha mulher não se chama Capitolina. E nem, ao menos, tenho algum amigo chamado Esequiel. Nem mesmo ando mais de trem. Na cidade moderna em que vivo, esse foi substituído pelo metrô. Mas, nem de metrô eu ando. Tenho meu próprio automóvel, conseguido pela ascensão da classe média nos últimos governos populistas. Vivo, portanto, a solidão coletiva e diária de me locomover escutando alguma rádio que toque música popular brasileira ou o bom rock'n'roll. Poemas, só escuto os de Carlos Drummond de Andrade, gravados em um compact disc que me foi presenteado por um amigo de longas datas. Meto-o no equipamento de som do carro, e escuto sempre o poeta mineiro com sua voz aparentemente frágil e cansada. Aliás, cansadíssima!
Mas, assim como o famoso personagem machadiano, surgiu-me, na etapa final da vida, a necessidade de reconstituir, ao menos fisicamente, um cenário que me fora adequado no início. O desenho, fazia muito tempo, estava gravado na minha cabeça teimosa. Aliás, teimosíssima (como podem reparar, também curto os superlativos!).
Do portão que vinha da rua até o pequeno terraço de entrada, havia uma curta calçada. Do terraço, alcançava-se a porta da sala, em duas abas e ao lado de uma janela, também com duas abas, que se abriam para o terraço. Os quartos, eram em número de trás, do mesmo lado da casa. Os dois últimos, tinham as suas janelas voltadas para o oitão lateral. Era lá que o sol nascia. O primeiro, porém, abria a janela para o poente e era estucado, o que o tornava insuportavelmente quente à noite quando as portas da casa se fechavam para o sono dos justos e dos injustos também. Nesse, ninguém queria se acomodar. Era para lá que fugíamos, eu e meu irmão, nas noites quentes de verão para desfrutar do corpo de Creusa, a doméstica que nos iniciara sexualmente. Meus pais nunca desconfiaram de nada. Tudo confabulava ao nosso favor naqueles tempos ideais.
Entre a sala e a cozinha, havia uma pequena passagem que também dava acesso ao banheiro única da casa. Por seu lado a cozinha abria-se em um terraço interno, mandado construir depois por meu pai, onde ficava a lavanderia e os tonéis com a água que chegava à noite nas torneiras mais baixas. Ainda não haviam construído a Barragem de Tapacurá e os banhos de chuveiro eram um sonho quase inalcançável.
O quintal era um caso especial. Na parte da frente, havia um jardim com canteiros em forma de losangos, onde plantávamos rosas de todas as cores. Na parte lateral estavam as fruteiras, onde canários, curiós e papa-capins se abrigavam e proliferavam incansáveis. Não havia verão que desse conta daquela capacidade de propagação. Era a preservação das espécies.
Na parte traseira do quintal, meu pai plantara bananeiras de várias espécies e alguns pés de mamão caiano. Ali, era o lugar dos sanhaçus, guriatãs e concrizes, passarinhos de molhado, como se dizia, comedores de frutas e de cantos maviosos.
Recompondo a casa antiga do Pina, termino assim essa crônica. Se fui descritivo, quando me queria irônico e memorialista, talvez até mesmo introspectivo, culpa a minha incapacidade literária de copiar o grande mestre, mesmo que em um pequeno e insignificante texto.
Talvez, como ele, termine me convencendo que seria bem melhor tentar escrever sobre as histórias dos antigos subúrbios.

Recife, outubro 2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Guerra e paz


GUERRA E PAZ

Clóvis Campêlo

Sou de paz em tempos de guerra e de guerra em tempos de paz. Evoluções me interessam. Mentiras sinceras, não. Talvez isso faça com que me sinta vivo no mar de insensatez que é a vida moderna.
Sempre que vejo imagens antigas do passado, fico pensando como a vida parecia ser mais fácil antigamente. Talvez esteja ficando velho demais para acompanhar a rapidez das mudanças atuais. Nem mesmo consigo entender o que fala meu neto mais velho, Pedro, quando se refere aos seus jogos e personagens virtuais. Percebo que hoje a maior parte das minhas referências estão no passado. Quando muito, consigo manejar o computador e escrever minhas mal traçadas linhas. Já me contento com isso.
Confesso que sempre almejei um mundo melhor, com mais justiça social e melhor distribuição de renda. Para mim, seria apenas uma questão de tempo para que isso acontecesse. Imaginava que um dia as pessoas perceberiam o equívoco dos seus credos e optariam por um mundo mais equânime.
Nos tempos do Jubrapi, no Pina, nos seminários promovidos pelos padres oblatos, o sociólogo Carlos Rocha afirmava que o socialismo seria uma consequência natural do capitalismo. Era esperar para ver. No mundo justo de Deus não deveria haver espaço para a fome, a exploração do homem pelo próprio homem, a injustiça. Eu tinha a impressão, naquela época, de que o próprio Deus estava empenhado no restabelecimento desse equilíbrio. Afinal, éramos todos irmãos (ou deveríamos sê-los). A divisão geopolítica do mundo sempre me pareceu um equívoco e ser remediado. Era só escolher o caminho e segui-lo. Haveria uma força tamanha a proteger os homens de boa vontade que se empenhassem nisso. Eu, na ingenuidade da minha adolescência, acreditava piamente nisso. Na maior parte da minha vida, direcionei os meus esforços e esperanças nesse sentido. Não me arrependo, mas poderia ter sido um pouco menos crédulo, mais pragmático e ter percebido que a vida, no futuro, especialmente a minha, quando as forças vitais começassem a fraquejar, necessitaria de uma melhor estrutura para se apoiar e sobreviver.
Hoje, percebo estarrecido que antigos amigos que dividiam conosco essas esperanças e crenças, mudaram de atitude e, não sei se por benefícios pessoais ou por degeneração de caráter, defendem ideias e políticas deletérias e facciosas. Como, para mim, toda relação humana deve se basear em fatos concretos comuns, não vejo como manter esses relacionamentos apenas baseado em pontos comuns do passado ou em considerações mortas e insustentáveis. Não consigo achar que a verdade possa ter dois lados. E dentro da visão maniqueísta de que quem não está comigo está contra mim, passo a vê-los, no mínimo, como antagonistas.
Se a minha pretensão ainda é encaminhar o mundo para o lado da justiça e da irmandade (mesmo que isso possa parecer cada vez mais impossível) não tenho como conviver ou perder tempo com equívocos e maus discernimentos.
Penso que hoje vivemos a educação para o egoísmo e a individualidade. Vivemos a bestialização das pessoas e a insensibilidade diante dos problemas do mundo e do outro. Deixar-se envolver e levar por isso, para mim, significa desistir de toda uma vida de lutas e de atitudes em busca do bem comum.

Recife, outubro 2016

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A doença de Deus


A DOENÇA DE DEUS

Clóvis Campêlo

Já faz tempo que os muros de Londres foram pichados com a frase famosa.
Em 1966, eu ainda morava no Pina, pescando, jogando bola e acompanhando a trajetória dos Beatles e dos Brecheiros, os ted boys que incomodavam o bucolismo e a lentidão do bairro. A juventude era bela, poderia até me arriscar. Porém, se os Beatles revolucionaram o mundo, a revolução dos Brecheiros logo acabou, afundada nas drogas, na ilicitude e nas ruas do Pina.
E olhe que quase tudo nos parecia ser tão lógico. Hoje, dos Beatles, apenas dois sobrevivem. Os Brecheiros, morreram todos. O último, talvez, tenha sido Marco Bobão, morto quando o bairro já começava a se transformar, remodelado pela especulação imobiliária e pela engenharia das largas avenidas, que espantou terreiros de macumba, afoxés e maracatus, gafieiras, pescadores e o lúmpen proletariado que lhe era habitual. Ali conviviam o mundo pop de então, trazido pelo rádio, televisão e cinema, e a cultura popular dos excluídos e marginalizados. O Pina era um caldeirão cultural que fervia e cheirava mal.
A classe média, que admirava os Beatles e temia a ousadia dos Brecheiros, porém, não só sobreviveu como aumentou o seu espectro e se consolidou. Os tempos começavam a mudar. Enquanto os Beatles cantavam All You need os love, os Brecheiros olhavam escondidos as moças de família da classe média pinense tomando banho ou vestindo seus pijamas e camisolas para dormirem. Eu, nunca tive essa coragem, embora tivesse a vontade. Afinal, as filhas da classe média daquela época já eram belas e apetitosas. Hoje, são todas respeitáveis e loiras senhoras, embora algumas ainda mantenham um certo e discreto charme.
Mas, onde entraria Eric Clapton nisso tudo? Em 1966, London City teve os seus muros pichados por jovens enlouquecidos pela maconha e pelos acordes das guitarras de Clapton. Para eles, Deus era Clapton (ou vice-versa). Clapton tinha então vinte anos de idade, e dominava a cena pop inglesa tocando com os Beatles e os Rolling Stones, entre outros. Nas horas vagas, compunha músicas para a esposa do amigo fiel e traído. O nosso “Deus” ainda tinha as gônadas funcionais e atrevidas. O futuro absorveria e absolveria o ato. A música pop ganhava outros clássicos musicais para lhe alimentar a saga de lucros e todos viveriam felizes para todo o sempre. Para que fomentar sacrilégios inúteis?
Hoje, vejo no blog Sonoridades, do reacionário e careta Estadão, que aos 71 anos de idade, Clapton sofre de neuropatia, doença que geralmente acomete diabéticos e hipertensos. E tudo começou com inexplicáveis dores nas costas. A doença é incurável e provoca danos irreparáveis no sistema nervoso. Como diria Lupicínio, não há nervos de aços que resistam e estejam imunes a tantos adjetivos.
A realidade é que Clapton (ou God) envelheceu e está doente. E do mesmo modo que o tempo levou o vento dos anos 60, carregando os sons e as ousadias daquela época, também se prepara para passar a limpo o que veio depois e o que hoje existe e persiste. Inexorável tempo, mestre de todas as criações e de toda a destruição da vida.

Recife, outubro 2016

- Publicado no livro Crônicas Recifenses, Recife, Clube de Autores, 2018.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

No mesmo lugar


NO MESMO LUGAR

Clóvis Campêlo

Dizia Chico Science (por que não Chico Ciência, pergunto eu repetindo a xenofobia do mestre armorial?) que “um passo atrás e já não estamos mais no mesmo lugar”. É verdade. A afirmação contrária, também. Apenas, nem sempre é possível o passo à frente. E como vivemos em um sistema que sugere a evolução em linha reta, numa sequência direta de eventos e acontecimentos, saltar de banda pode nos parecer, às vezes, um recuo vergonhoso.
Caranguejos ou não, atolados na lama ou não, temos a responsabilidade de ter cérebros. Não para justificativas a terceiros, mas por uma questão de sobrevivência. Difícil, porém, é manter a coerência na hora do recuo, dizer não à debandada fácil e frouxa. Isso deve ficar para os ratos. Aos homens de bem, deve ser dado o direito a uma trégua, um recondicionamento, um reencontro consigo mesmo e com os seus ideais. Afinal, nadar contra a corrente da mesmice e dos valores consolidados, não é fácil, embora acredite necessário. A mudança sempre passa por aí.
Todos querem apenas segurança e repetições. Não nos cabe julgar, se é justo ou não. Cada um deve saber das suas idiossincrasias. Cada um deve saber a dor e a delícia de se ser o que é. Afinal, vale a pena repetir o poeta, a pimenta malagueta do planeta?
O problema é que essa vontade de ser feliz pode acabar nos matando. Toda ousadia será castigada? Ou será mesmo necessário provar o remédio amargo da eterna repetição dos papéis sociais e antropológicos? Neste admirável mundo atual, até a tristeza deve ter seus dias contados (está no script!).
Nas florestas tropicais ou nas selvas de pedras, somos os responsáveis por nós mesmo. E talvez não tenhamos uma segunda chance de sobrevivência. Nas estatísticas, somos apenas números insignificantes. Ilude-se quem quiser. A insignificância coletiva confunde-se com o sonho da importância da personalidade própria e individualista. Acabamos por adentrar na perigosa zona do personalismo inútil e tolo.
Talvez caiba aqui a autocrítica do maniqueísmo ideológico. Afinal, quem não está comigo está contra mim. Se não nos afinamos no campo das ideias, muito menos nos afinaremos nos campos das ações e das estratégias. Caminhos em sentidos e direções contrários. Nada de interseções. Alimentamos conjuntos vazios. Somos caminhantes soturnos e solitários buscando a anulação mútua e atendendo aos interesses do sistema. Tudo em nome das possibilidades. A mais pura tolice, embora eu mesmo não consiga deixar de pensar assim.
Assumo bem assumidamente esse modo estúpido e inevitável de pensar. Afinal, a estupidez também remove montanhas e eu nem mesmo sou Maomé. São Tomé, talvez. Preciso ver para crer. E crendo, ajo. E agindo, evoluo ou recuo. Assim é a vida, até que a morte nos separe. Até que aprendamos a separar o joio do trigo e metamorfoseá-lo no pão, aproveitando o ácido glutâmico que dizem ser o ácido da inteligência. Sem brometo de potássio e sem doses excessivas de fermento. Apenas a massa manufaturada e pronta para o consumo que alimenta a vida.
Até um dia, até talvez, até quem sabe!

Recife, outubro 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Castelos de areia




 

CASTELOS DE AREIA
Recife, setembro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

sábado, 24 de setembro de 2016

Bueiro e impeachment da presidenta Dilma


BUEIRO E O IMPEACHMENT DA PRESIDENTA DILMA

Clóvis Campêlo

Em tempos idos, Bueiro já foi cabra respeitado no bairro do Cordeiro e adjacências. Hoje, asmático e negro velho, vive pacífica e pacatamente no seu barraco.
Chama-se na verdade, José Carneiro. O apelido surgiu no tempo em que ainda era malandro atuante. Uma noite, perseguido pela polícia, para escapar, escondeu-se em um bueiro de esgoto, onde, durante algumas horas, conviveu com baratas e ratos. Escapou da polícia, porém.
No entanto, uma outra versão diz que o apelido advém da grande quantidade de marijuana que fumava nos tempos da malandragem e da juventude. Pode ser. Não o conheci nessa época.
Sabedor de que era torcedor fanático do Santa Cruz, há algum tempo atrás, presentei-o com uma camisa do Mais Querido. Não uma camisa oficial, confesso, daquelas que custam os olhos da casa. Comprei uma “similar”, na Rua do Rangel, no centro histórico do Recife, a qual foi recebida por ele com muita alegria. Sua alegria, porém durou muito pouco. Na primeira lavagem, a camisa foi roubada da janela do seu barraco, onde ele improvisa um varal em dias de sol quente. Um outro sujeito mais esperto, também torcedor do Santa Cruz, suponho, levou-a sem constrangimentos. A vida é mesmo assim: tanto nos dá quanto nos retira coisas preciosas.
Jardineiro de mão cheia, depois que deixou a malandragem, Bueiro sempre se virou cuidando dos jardins e das plantas da vizinhança. No entorno do seu barraco, sempre há mudas de hortelã (miúda e graúda), alfavacas, babosa, jasmins de cheiro, capim-santo e outras coisas mais. Mas, na medida que a idade foi avançando e as crises de asma tornando-se mais assíduas, Bueiro foi declinando dessa atividade. Chegou ao ponto de, muitas vezes, precisar da ajuda dos amigos e vizinhos para garantir o fubá e a sardinha do café da manhã. Sem lenço e sem documentos, nem ao menos podia recorrer aos recursos da seguridade social e da previdência pública.
No entanto, na eleição municipal passada, foi ajudado e salvo por um candidato a vereador local, que lhe conseguiu a segunda via da carteira de identidade e a concessão de um benefício de prestação contínua do INSS, também conhecido como loas, direito garantido para quem é pobre na forma da lei e não tem nenhuma outra fonte de renda, além de nunca ter contribuído para a previdência social. Ou seja, renda distribuída com justiça pelo governo federal
De pobre de marré-bê-cê, Bueiro passou a ser beneficiário do INSS. Ajeitou o barraco, trocando as paredes de madeira por alvenaria; comprou uma bicicleta nova para lhe garantir a locomoção e o transporte; passou a comer e a se vestir melhor. Logo lhe apareceu uma candidata a companheira, disposta a dividir com ele o barraco novo e os minguados. Sua vida se transformou de maneira positiva e decente.
Mas, o que teria isso tudo a ver com o impeachment da presidenta Dilma? Nada, se o nosso personagem não recebesse o falado e, geralmente, tão criticado benefício de prestação contínua.
Segundo a Wikipédia, fonte que tanto me apraz consultar, o benefício de prestação contínua,prestado pelo INSS, consiste em uma renda de um salário-mínimo para idosos e deficientes que não possam se manter e não possam ser mantidos por suas famílias. Considera-se idoso quem tem mais de 65 anos e deficiente quem não possui capacidade para a vida independente e para inserção/reinserção social e no mercado de trabalho. A família deve ter renda per capita menor que um quarto de salário-mínimo, mas recentes decisões judiciais aceitaram critérios mais elásticos para cumprir o espírito da lei, que é beneficiar famílias em condição de miséria. Se já houver um idoso da família recebendo o BPC, isso não será considerado no cálculo da renda familiar para concessão de um segundo benefício. O BPC não pode ser acumulado com outros benefícios previdenciários.
Esse benefício valioso para os excluídos e que põe em prática a distribuição de renda sistemática e justa por parte do governo federal, está na mira da reforma previdenciária prevista pelo novo governo. Isso é de se temer!


Recife, setembro 2016

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Dona Maria vai à praia


DONA MARIA VAI À PRAIA
Recife, agosto 2016
Fotografia de Clóvis Campêlo


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia de Olinda


IGREJA DE NOSSA SENHORA DA MISERICÓRDIA DE OLINDA

Clóvis Campêlo

A Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia é um pequeno templo católico da cidade de Olinda, no estado brasileiro de Pernambuco, construído em 1540 e que possui na fachada o brasão do rei D. Sebastião.
Suas origens remontam ao século XVII, quando antes do grande incêndio de 1631 já havia registro das atividades, no mesmo local, de uma igreja com uma enfermaria anexa. Destruída sua sede pelo fogo, os Irmãos da Misericórdia abandonaram a cidade e se instalaram no Arraial do Bom Jesus até 1635, passando depois a administrar um hospital criado no Engenho de São João da Várzea, voltando para Olinda somente após a retirada holandesa, em 1654.
No ano seguinte o antigo templo queimado foi reconstruído no mesmo sítio, mas ora em menores proporções. Deve ter sofrido várias reformas ou acréscimos até fins do século XVIII, uma vez que há diversas datas inscritas na fachada e no interior, sendo a última de 1771, sobre o arco do cruzeiro.
Entrando a Casa de Misericórdia olindense em decadência no século XIX, o hospital foi extinto em 1860, mas seu prédio, junto com o da igreja, foram cedidos em 1896 à Ordem Beneditina. A igreja foi tombada pelo IPHAN em 1938.
A Igreja da Misericórdia está situada à beira de um declive acentuado à esquerda, e possui um adro com muros de arrimo e escadaria de acesso assimétrica. A fachada é singela mas elegante, com uma feição geral barroca e com reminiscências da renascença portuguesa. O frontispício, em torno da entrada única, é sóbrio, apenas com duas volutas que se alçam sem apoio, e sobre elas um brasão real em relevo. De ambos os lados, janelas com lintel em M achatado, arrematado por um pequeno florão com motivo de concha. Os marcos são de pedra de arenito, assim como as pilastras nas extremidades, as cornijas e o perfil do frontão, em voluta dupla coroado por uma cruz e e pequenos pináculos. À esquerda da igreja, o campanário, com duas janelas quadradas, cornija, abertura em arco para o sino e coruchéu em bulbo rodeado de pináculos.
No interior a nave tem paredes caiadas, remanescentes de azulejaria sob o coro e rica obra de talha no teto, onde pinturas ilustrando cenas da vida de Nossa Senhora são emolduradas por grossos frisos entalhados. No painel do centro, uma imagem da Virgem da Misericórdia. O piso é de ladrilhos de desenho geométrico, e se destaca à direita da nave um púlpito com dossel, igualmente de rica decoração.
Junto ao arco do cruzeiro, de pesada moldura com ornamentação de complexidade quase churrigueresca, há dois altares laterais com dossel e expressiva estatuária, especialmente o da direita, com um Cristo Escarnecido de fino acabamento. A capela-mor é completamente revestida de entalhes, douraduras, pinturas decorativa marmorizadas e painéis a óleo, num estilo já tendendo ao rococó, com destaque para o formoso frontão do retábulo, com grande voluta em S, medalhão central e arremate em cúspide. No nicho central, um crucifixo e, abaixo, a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia. O teto da capela é também pintado com perspectiva ilusionística de arquitetura e um brasão real ao centro.
Na sacristia se preservam um lavatório de mármore de duas cores, de origem portuguesa, e várias peças entalhadas em jacarandá, além de objetos de culto em metais preciosos. Apesar de sua grande riqueza a igreja até 2005 estava em mau estado de conservação, com muitas pinturas e entalhes em estado de decadência.

Fonte: Wikipédia

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Casa de Banhos


A CASA DE BANHOS

Clóvis Campêlo

Ficava situada nos arrecifes que separam o oceano do porto da cidade do Recife, nas proximidades da antiga Ponte Giratória. Foi construída em 1880 por Carlos José de Medeiros, que solicitou autorização do Governo para a construção. Era uma construção de madeira e ferro que lembrava um navio sem mastro.
De início, funcionava como a residência do construtor e da sua família, que posteriormente resolveu explorar comercialmente o local, transformando-o em uma hospedaria para fins medicinais. Foi denominado oficialmente como Grande Estabelecimento Balneário de Pernambuco, ficando conhecido no boca do povo, no entanto, como Casa de Banhos.
Segundo a Fundaj, em 1902, possuía cinco banheiros que permitiam o uso simultâneo de 350 pessoas. Continha 102 compartimentos próprios para a higiene dos banhistas, um grande salão de refeições, duas salas, um gabinete de leitura e outras dependências.
No início do século XX, o local era frequentado pelos recifenses e também era muito procurada pelos estrangeiros, tanto para o repouso quanto para os banhos salgados nas suas piscinas naturais.
Nos jornais recifenses eram propagadas as suas condições de higiene e conforto e citadas as curas de várias doenças, inclusive o beriberi, alcançadas por hóspedes que frenquetavam o local, a preços nunca superiores aos cobrados pelos hotéis da época.
As roupas utilizadas para os banhos eram feitas de baeta, um tecido felpudo de lã, e os calções estendiam-se até os joelhos.
Consta que a Casa de Banhos transformou-se em negócio tão próspero que foi comprada pelo inglês Sydney Rodhes, que introduziu vários melhoramentos e inovações nos locais, aumentando também a tabela de preços. Isso provocou a intervenção do Governador do Estado, general Emídio Dantas Barreto, que alterou o primeiro regulamento do estabelecimento, datado de 31 de outubro de 1895, reduzindo os preços e tornando obrigatórios e gratuitos a concessão de banhos diários para vinte doentes pobre da Santa Casa de Misericórdia do Recife.
No final da década de 1920, depois de um período de decadência, a Casa de Banhos foi destruída por um incêndio.

Recife, 2010


Admirável mundo novo


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Clóvis Campêlo

O ovo da serpente está na chocadeira. Creio que devemos aguardar, já que não nos restam muitas outras opções. Como toda máquina irracional, a chocadeira limita-se a cumprir o papel que lhe foi designado, sendo para ela indiferente a origem do ovo a ser chocado e, muito menos, as intenções de quem lá o colocou. Afinal, não deve caber à máquina desafiar a determinação humana.
Se aos venenos cabe a função de autodefesa, inerente a muitas espécias, a peçonha difere por seu um instrumento de ataque e domínio. Por conseguinte, é muito mais mal-intencionada. Isso, analisando as questões sob a lógica ilógica do ser humano, pois aos animais não cabem questionamentos sobre o que a natureza lhes destinou. Se a composição existe é porque a ela cabe alguma função equilibrante no seio das coisas naturais. A perfídia é unicamente humana. Afinal, evoluímos para que?
Pensar, contrapor definições, arquitetar planos, tudo isso faz parte da natureza humana. Aos animais, cabe apenas o instinto de preservação da espécie e de sobrevivência do indivíduo. As leis que regem isso não se transformam ao sabor das conveniências, embora possam evoluir e sofrer transformações decisivas. No equilíbrio persistente da natureza, não há lugar para subterfúgios.
O subterfúgio escamoteia as várias faces da verdade, criando um ilusório jogo de espelhos e de falsas imagens e concepções. Muitos se perdem por aí. Muitos se arrependem depois, embora não tenham a noção do mal causado aos outros ou a si próprios e busquem explicações idiotas ou a autopunição, perdidos no vácuo inútil a que foram atirados por si mesmos.
Aos animais, também não cabe a inocência. As suas mentes animais não acumulam informações e atitudes inúteis e desnecessárias. Submetidos às tensões constantes da guerra da sobrevivência, exercitada diuturnamente, não lhes cabem definições românticas ou imbecis. É correr ou morrer.
Se nós, humanos, no uso imperfeito dos 10% da nossa cabeça animal, não tivéssemos exagerado na elaboração de tantas regras sociais inúteis e enganosas, talvez não estivéssemos hoje perdidos dentro de nós mesmos, nesse labirinto imagético. Essa ilusão nos leva a pensar que nem mesmo precisamos nos preocupar com as nossas sobrevivências. As instituições e as normas é que devem cuidar disso. Então, para que alimentar angústias? Nem mesmo conseguimos mais explicar os erros de percurso. Acompanhamos a boiada nessa vida de gado marcado. Ah!, admirável mundo novo.
Alguns acham que mesmo assim evoluímos. As novas gerações se distinguirão pela capacidade de abstração e domínio dessa nova realidade virtual e positivamente esquizofrênica (se isso for possível!). No entanto, será cada vez mais difícil e impossível estarem aqui e agora. E as suas sobrevivências poderão estar cada vez mais ameaçadas pelo tipo de comportamento mental adotado. Afinal, será mais fácil caçar pokémons do que fugir instintivamente dos perigos da vida real.
Seremos mais felizes, então? Pouco importa! Os artefatos químicos darão conta disso. Afinal, eles também são comercialmente viáveis.


Recife, setembro 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

A Igreja da Boa Viagem




Fotografias de Clóvis Campêlo / agosto 2016

A IGREJA DA BOA VIAGEM

Clóvis Campêlo

Como diria Paulo Cavalcanti, o caso eu conto como o caso foi!
Começo fazendo minhas as palavras do escritor João Braga, no livro Trilhas do Recife - Guia Turístico, Histórico e Cultural. Segundo ele, na metade do século XVI já existia naquele local um comércio conhecido como a Venda do Piolho, por onde passavam obrigatoriamente todos os viajantes que seguiam rumo ao litoral sul do Estado. Sobre a igreja propriamente dita, afirma que o mais antigo documento conhecido é datado de 1707, e se refere a uma doação feita ao padre Leandro de Carvalho do local onde existia um oratório a Jesus, Maria e José. A igreja, como hoje nos é conhecida, provavelmente foi construída em torno de 1760. Nela se encontra a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Já o pesquisador Carlos Cavalcanti, no livro O Recife e Seus Bairros, é mais explícito. Segundo ele, nas terras doadas por Baltazar da Costa Passos e sua esposa, Ana de Araújo Costa, através de escritura datada de 6 de janeiro de 1707, resolveu o padre leandro de Carvalho construir uma igreja sob a invocação de Maria Santíssima e mandou fazer uma imagem com o título de Boa Viagem para que os pescadores, nas viagens pelos mares, tivessem a proteção da Santa e alcançassem o sucesso almejado.
Ainda segundo Cavalcanti no livro citado, a Capela da Boa Viagem deu nome à praia e ao bairro que posteriormente iria surgir no entorno da igreja. Seguindo suas palavras, a igreja é em estilo barroco, encontrando-se hoje bastante descaracterizada por conta das várias reformas recebidas ao longo do tempo. No seu interior, encontram-se as imagens de Nossa Senhora da Boa Viagem, Santana, São José, Santo Elesbão, São Benedito, São Gonçalo do Amarante e do Senhor Morto. O altar-mor da sacristia é um trabalho precioso do mestre entalhador José Pereira. Sobre este último, porém, procuramos sem sucesso maiores informações.
Vejamos, no entanto, o que diz a pesquisadora Samira Adler Vainsencher no site da Fundaj: "Durante a grande reforma (1862), os religiosos preservaram alguns altares, entre os quais o da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Datado de 1745, esse altar foi entalhado pelo mestre João Pereira, e dourado pelo artista Francisco Teixeira Ribeiro, no ano de 1772".
No livro Velhas Igrejas e Subúrbios Históricos, o escritor e pesquisador Flávio Guerra afirma o seguinte sobre a igreja: "Foi um dos templos religiosos, embora modesto, de maior rendimento patrimonial do Recife, no tempo da colônia. Basta que se diga que em 1760, segundo ainda nos dá notícia Pereira da Costa, o seu usufruto era de cinco grandes sítios, quatro pequenos e vinte casas térreas no povoado, além de um pequeno sítio de coqueiros na praia, doado pelo padre Luís Marques Teixeira, com o único compromisso de tirar-se da sua renda "a quantia necessária para se conservar acesa dia e noite a lâmpada da capela-mor da Igreja"".

Recife, agosto 2016

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O poeta e o macarrão




Fotografias de Clóvis Campêlo / agosto 2016

O POETA E O MACARRÃO

Clóvis Campêlo

A Praça da Independência, no bairro do Santo Antônio, no centro histórico do Recife, é uma das praças mais antigas da cidade. Segundo consta, durante o domínio holandês, aparecia nos mapas da época o local denominado Terreiro dos Coqueiros. Depois, mudou de denominação por várias vezes, sendo chamada de Praça Grande, Praça do Comércio, Praça da Ribeira e Praça da Polé. Em 1816, após uma reforma, mudou de denominação para Praça da União. Finalmente, em 1833, recebeu o nome atual de Praça da Independência. Porém, por abrigar durante muitos anos o prédio do jornal Diario de Pernambuco, o jornal mais antigo da América Latina ainda em circulação, e seguindo o gosto popular sempre foi chamada de Pracinha do Diario. 
É lá, entre tantos outros bustos e esculturas, que se encontra a estátua do poeta pernambucano Carlos Pena Filho. Sentado numa mesa, de frente para a Igreja Matriz  de Santo Antônio, e muito próximo ao local onde funcionou o Bar Savoy, reduto frequentado pelo poeta e pelos boêmios da sua geração.
Hoje, já não existe mais o Savoy e o prédio do Diario encontra-se abandonado e decadente, como de resto toda aquela área, abandonada pelo poder público e pelo poder econômico.
Apodrece o centro do Recife e quase não há mais vestígios da suntuosidade de décadas atrás, quando ainda éramos uma cidade previsível e cuidadosa com as suas relíquias culturais e históricas. A praça hoje, na sua maioria, é frequentada por prostitutas decadentes, pelo comercio informal e pelo lúmpen ocioso,  além de eventuais larápios e descuidistas. Afinal, o que teria esse povo a ver com um poeta falecido nos anos 60 e totalmente dele desconhecido? Como respeitar essa imagem que não lhes comunicada absolutamente nada?
Assim, como aconteceu com outras escultura do Circuito da Poesia no Recife, a escultura do poeta Carlos Pena Filho já teve um dos braços arrancados e o nariz fraturado. Afinal, ocupa um lugar que hoje já não lhe diz mais respeito. Invadido pelo povo periférico e pelos excluídos, em nada com eles se identifica.
Segundo os estudiosos do poeta, a poética de Carlos Pena Filho, é carregada de oralidade e musicalidade, possuindo forte apelo pictórico. Visual e plástico, o poeta “pinta” o poema com palavras. Dono de um lirismo envolvente, é um poeta de imagens plásticas onde se destaca a cor, o movimento e a luz. Escreveu vários poemas tendo nos títulos a palavra retrato e cerca de uma centena contendo os nomes das cores ou referências a elas. Morreu ainda muito jovem, aos 31 anos, envolvido em um acidente de trânsito, quando o trânsito no Recife ainda era domesticado e possível.
A agressividade contra a escultura do poeta, demonstrada pelos transeuntes frequentadores da Pracinha do Diario, inocentes mas não tão desprovidos de periculosidade, talvez seja explicada pelos sociólogos de plantão. O poeta, imortalizado em pedra, continua lá insone, apático e inerte, a mercê do vandalismo gratuito.
Mas nem sempre a interferência é destrutiva, embora possa continuar sendo desrespeitosa. Essa semana que começa a se findar, ornamentaram a cabeça do poeta com uma porção de macarrão cozido com colorau ou molho de tomate (não sei se o populacho curte tamanho refinamento...).
Para um poeta que sugeria imagens com as suas palavras, ter a sua imagem ornamentada com os carboidratos do macarrão, nos inspirou a escrever a presente crônica, além de fazer o devido registro fotográfico como prova cabal do "crime' cometido e protegido pelo anonimato das ruas.
Ao vencedor, as batatas! Ao poeta pernambucano, esquecido e com a escultura abandonada à própria sorte, macarrão ao molho de tomates.

Recife, agosto 2016

sábado, 30 de julho de 2016

Beira de mar






 


BEIRA DE MAR
Praia da Boa Viagem
Recife, julho 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Malandramente


MALANDRAMENTE

Clóvis Campêlo

Segundo Renato Boca-de-Caçapa, o desaparecido filósofo do povo, o que move o mundo é o sexo e não o dinheiro, como pensam alguns. Para se chegar a ele, valem todos os artifícios. Admito que talvez ele tenha razão. Talvez seja mesmo necessário reformularmos os nossos conceitos e os nossos códigos de ética em função disso. Talvez a mentira e a esperteza não sejam de todo más e se justifiquem por aí. Sei lá!
Confesso, porém, que já não me causa calafrios pensar dessa maneira. Talvez, como disse o poeta em outras eras, estejamos mesmo jogando na lata do lixo o ponto de exclamação que acompanha todas as indignações. Afinal, no que ou em quem acreditarmos?
O mundo move-se e muda e nem sempre a lógica cartesiana acompanha essas mudanças. Malandramente, surgem novos mecanismos de raciocínio e de encaminhamento de ações e decisões que em outros momentos nos causariam urticária e espanto. A aceitação pela maioria desses novos valores obrigam os coroas, como eu, a repensarem a vida e as voltas redondas que a vida dá. Já não dependemos apenas da linha reta do pensamento convencional para justificar atos e decisões, sejam nas instâncias mais primárias ou nos patamares superiores, onde acreditávamos deveria prevalecer os nobres sentimentos ou as ações dignificantes da espécie humana. Nada disso. Os meios justificam-se por si próprios. E aí de quem não perceber ou se contrapor a isso.
A mim, não interessa mais nadar contra a corrente, mesmo que seja só para se exercitar, como acreditava um outro poeta. Isso exige um esforço demasiado e, em muitas das vezes, inútil. Talvez valha mais a pena, experimentarmos a mudança pela não-ação dos pacifistas, pelo olhar descritivo dos romances realistas, pela vagarosidade insuficientemente transformadora da nouvelle vague. Mudar pra que? Pra que lado, pra que rumo?
A mensagem, hoje, embora continue no seu topo endereçada unilateralmente e potentemente influenciadora, fragmenta-se também muitas vezes em pequenas partículas que transgridem tanto no que se refere a forma quanto ao conteúdo. Ou seja, viralizam nas redes sociais e nas cabeças periféricas do homem urbano. Sua força torna-se imensa e imune aos questionamentos fúteis que se baseiam na moral, na ética e nas ideias de antigamente, mesmo que antigamente tenha sido ontem.
Admito mesmo que talvez tenha me perdido dentro de mim mesmo e que, com certeza, nunca mais chegarei ao éden ou ao nirvana. Não me importo mais com isso, porém. Como dizia um outro poeta, o novo sempre vem. Nem que seja a bordo do anteriormente inaceitável.
Ainda bem?

Recife, julho 2016

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Mercado Público de Casa Amarela


Fotografia de Sol Pulquério / PCR

O MERCADO PÚBLICO DE CASA AMARELA

Clóvis Campêlo

Segundo a Wikipédia, o Mercado Público de Casa Amarela foi inaugurado em 9 de novembro de 1930 e situa-se no bairro que lhe deu o nome. Fica localizado no início da feira livre de Casa Amarela, segundo alguns, a maior feira livre do Recife, na esquina da Rua Padre Lemos com a Estrada do Arraial. Na sua parte externa existem compartimentos que servem alimentação (bares e restaurantes populares) e são suas principais atrações, funcionando as 24 horas do dia. Além disso, a oferta de produtos é diversificada, com a venda de carne de charque e queijo de coalho vindos do sertão, além de carnes diversas, frios, peixes e crustáceos, armarinhos, ervas, flores e artesanato em palha e barro.
Ainda segundo a Wikipédia, o mercado foi construído em estrutura totalmente de ferro, com cobertura de telhas francesas. O material para sua construção foi remanescente do Mercado da Caxangá, que havia sido desmontado em 1928. Em 1982 foi construído um anexo, para comportar comerciantes que já não encontravam compartimentos no mercado original e estavam ocupando áreas externas do mesmo.
Segundo o site da Prefeitura da Cidade do Recife, o Mercado de Casa Amarela, um dos mais antigos e simbólicos da cidade, foi inaugurado em novembro de 1930. As estruturas que sustentam a construção foram trazidas de bonde pela empresa Borrione, em 1928. Presume-se que o terreno onde o mercado foi erguido tenha sido doado pelo proprietário, senhor Allain Teixeira, naquele mesmo ano. A área originalmente construída é de 817 metros quadrados. Abriga 100 boxes.
Ainda segundo o site da PCR, o primeiro anexo do mercado foi construído em terreno público e inaugurado em abril de 1982. No local funcionava um sanitário público e parte da Feira de Casa Amarela. A área construída, de 640 metros quadrados, abriga 34 boxes, ocupados basicamente por bares. Inicialmente, ali se instalaram os locatários desalojados do prédio principal do mercado. Ocuparam compartimentos adaptados às paredes das fachadas principal e posterior. Com a construção do anexo, eles foram transferidos e os compartimentos demolidos, e o velho mercado resgatou sua arquitetura original. Posteriormente, ainda foi construído o segundo anexo, da Cobal, que abriga 14 boxes para venda de cereais e alimentos não perecíveis; e o Sempre Viva, na rua de mesmo nome, s/n, que vende confecções, calçados e acessórios. Hoje, o mercado possui 60 boxes internos, 50 externos e 11 barracas, com um total de 121 compartimentos.
Segundo a historiadora Lúcia Gaspar, em texto publicado no site da Fundação Joaquim Nabuco, em 1930, o mercado foi inaugura com banda de música e a presença do então governador Carlos de Lima Cavalcanti.
Segundo o escritor João Braga, no seu livro Trilhas do Recife - Guia Turístico, Histórico e Cultural, o mercado foi inaugurado na gestão do prefeito Francisco da Costa Maia (1928/1930).

sábado, 9 de julho de 2016

É sal, é sol, é zona sul!











Fotografias de Clóvis Campêlo / 2016

É SAL, É SOL, É ZONA SUL!

Clóvis Campêlo

É sal, é sol, é zona sul! Salve os dias de domingo na terra dos altos coqueiros! Salve o soberbo estendal! Salve as linhas tortas da Natureza e os ângulos retos da arquitetura do Homem.
Salve o azul da zona sul, local onde cabem todas as cores.
No domingo, aliás, todos os caminhos levam à praia, espaço democrático e popular onde o lazer impera. Domingo é sempre dia de lazer, de grandes caminhadas. Dia de legítimas pedaladas, a bicicleta servindo de meio de transporte para a diversão ou para o trabalho. Nada de impedimentos.
O Recife, espremido entre Olinda e Jaboatão dos Guararapes, possuí apenas as praias do Pina e Boa Viagem, e de lambuja, a pequena praia do Buraco da Velha, pequeno paraíso no final do bairro de Brasília Teimosa. Nessa faixa de areia estreita e comprida, aporta o povo da cidade maurícia em busca da luz do sol e do prazer de estar em contato direto com fatores produtores de endorfinas e serotoninas, da melanina e do bronzeado.
Sobreviventes às influências conservadoras de portugueses e ingleses, os donos dos grilhões que nos forjaram, talvez tenhamos sido salvos pelo proximidade do mar. Na praia, onde nenhuma nudez deverá ser castigada, despojamo-nos dos ranços introspectivos e nos transformamos em seres do sal e do sol, uma nova escultura cultural feita sem ódios e sem medos. Na praia, só nos resta sermos livres. Com a graça de Deus.
E se o mar nos refresca por fora, em banhos transcendentais de sódio e iodo, os coqueiros nossos de cada dia nos fornecem o potássio da água de coco para nos recompor os líquidos e os humores. Somos felizes. Sejamos felizes sob a linha do equador, onde não existe pecado.
O Recife, que já foi uma cidade pequena e decente, hoje, sob o calor ardente das suas praias, transformou-se numa metrópole moderna e cosmopolita, onde a tradição mistura-se com a contemporaneidade.
Para mim, felicidade é estar nesse ambiente iluminado e azul, construído e abençoado por Deus e, em parte, pelos sonhos nem sempre justos dos homens. E que a felicidade aqui não tenha fim, como na canção do poeta. Enquanto houver mar, sol e azul, só nos restará viver a vida com prazer.
Se duvidares disso, caia na estrada e perigas ver!

Recife, julho 2016