sábado, 21 de maio de 2016
sexta-feira, 13 de maio de 2016
Tenho pressa
Clóvis Campêlo
Tenho pressa, pressa de tudo.
Talvez o sol e a lua dela não precisem.
Estarão certos?
Ter pressa é querer se antecipar às decisões definitivas,
ou querer antecipar-se ao seu próprio destino, inefável.
Preciso ter pressa.
Se estendo o olhar, percebo que a realidade desdobra-se.
Com o olhar, alcanço o que não tenho e não toco.
O olhar antecipa-se ao tempo
e justifica a minha pressa.
Tenho pressa para conhecer o que existe e o que eu imagino existir.
A sua ausência me faz crer na impossibilidade dessa realização.
Tenho pressa porque é longo o espaço
e curto o tempo
e nem sempre a continuidade física me será favorável.
Ter pressa, coloca-me numa justa situação diante do presente
e da modernidade.
E deixa-me com a certeza de que muito se há de fazer
antes do suspiro definitivo.
Talvez o sol e a lua dela não precisem.
Estarão certos?
Ter pressa é querer se antecipar às decisões definitivas,
ou querer antecipar-se ao seu próprio destino, inefável.
Preciso ter pressa.
Se estendo o olhar, percebo que a realidade desdobra-se.
Com o olhar, alcanço o que não tenho e não toco.
O olhar antecipa-se ao tempo
e justifica a minha pressa.
Tenho pressa para conhecer o que existe e o que eu imagino existir.
A sua ausência me faz crer na impossibilidade dessa realização.
Tenho pressa porque é longo o espaço
e curto o tempo
e nem sempre a continuidade física me será favorável.
Ter pressa, coloca-me numa justa situação diante do presente
e da modernidade.
E deixa-me com a certeza de que muito se há de fazer
antes do suspiro definitivo.
domingo, 8 de maio de 2016
Da minha cidade
Clóvis Campêlo
Da minha cidade vejo quanto do mundo se pode ver os reflexos...
Por isso a minha cidade é tão imensa como outra aglomeração qualquer
Porque eu sou do tamanho do que invento
E não do tamanho da minha pequenez...
Nas metrópoles a vida é mais pequena
Que aqui na minha cidade nessa planície aluvional.
Na metrópole os grandes prédios fecham a visão do horizonte,
Escondem os céus, impedem o nosso olhar para além do infinito,
Tornam-nos diminutos porque nos roubam o que os nossos olhos
nos podem dar
E a nossa mente imaginar,
E tornam-nos insignificantes porque a nossa única riqueza é ver e sonhar.
sábado, 30 de abril de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2016
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Billy Paul, o passado e o presente
Clóvis Campêlo
Nos apegamos ao passado porque a ele sobrevivemos. E também porque quando lá estivemos, éramos jovens e sem as contradições e desesperanças da velhice. Visto à distância, é assim que o passado nos parece.
Alguns recusam-se a envelhecer e viver o presente, rumo ao futuro, como se isso fosse possível. Queira-se, ou não, o tempo passa e nos marca definitivamente. Como diz dona Dita, a minha sogra, em momentos de divagações filosóficas, quem não quiser envelhecer que morra jovem. Não sei se por opção ou destino, no alto dos seus 85 anos de idade, é uma pessoa alegre, feliz e jovial.
Já outro conhecido, na mesma faixa etária, diz sentir-se como se viajasse sentado na carroceria de uma camioneta sempre olhando para trás. Sente-se eternamente desconfortável no presente, como se vivesse em um mundo que lhe é cada vez mais hostil e agressivo. Para ele, no passado é que ficaram as coisas boas e um mundo melhor. Infeliz e rabugento, nada lhe agrada ou comove.
Penso nisso tudo ao tomar conhecimento, hoje pela manhã, da morte do músico americano Billy Paul. Ele, também octogenário, morreu em casa, vitimado por um câncer, essa doença quase implacável dos tempos modernos.
E embora Billy Paul não fizesse parte dos meus músicos preferidos e indispensáveis, teve uma participação importante na trilha sonora da minha geração. Nos assustados do Pina dos anos 60 e 70, era indispensável a sua presença. Depois, escutava-o com uma ponta de nostalgia e de lembrança daqueles tempos passados e irretornáveis. Nada mais do que isso. Ou seja, muito mais em função da minha nostalgia patológica do que da importância da sua música para mim.
No acervos de notícias quase inúteis que guardo em casa com devoção, fico sabendo que em agosto de 2015, Billy Paul esteve no Recife, apresentando-se na Manhattan Café Theatro, em Boa Viagem. E eu, que imaginava essa influência cultural e musical apenas em mão única, descubro surpreso, nessa mesma matéria jornalística, que o artista americano se dizia admirador da música popular brasileira e da cultura pernambucana. Entre outras coisas, afirmou: “Já estive aqui cinco vezes, amo as praias e, principalmente, amo o pudim daqui!”, brincou. E prometeu: “Vou compor uma música sobre o Recife, inspirada no Recife, porque as pessoas daqui são muito boas, é um lugar maravilhoso. Merece uma música.”
Afirmou ainda que na década de 1970, quando visitou o Brasil pela primeira vez, ouviu os acordes de uma orquestra de carnaval e se impressionou com o ritmo. Na ocasião, cantarolou várias vezes o que se tornaria, mais tarde, o arranjo característico da sua versão de Your song. O compasso remete ao frevo e, para ele, é o principal motivo da popularidade da canção no país. “No Brasil, Your song tornou-se mais popular do que Me and Mr. Jones, que geralmente é a mais famosa, talvez porque os acordes são familiares. Essa música pertence ao Brasil, definitivamente”, declarou.
Beleza pura! Billy Paul amava o Recife, que amava Billy Paul!
Recife, abril 2016
Alguns recusam-se a envelhecer e viver o presente, rumo ao futuro, como se isso fosse possível. Queira-se, ou não, o tempo passa e nos marca definitivamente. Como diz dona Dita, a minha sogra, em momentos de divagações filosóficas, quem não quiser envelhecer que morra jovem. Não sei se por opção ou destino, no alto dos seus 85 anos de idade, é uma pessoa alegre, feliz e jovial.
Já outro conhecido, na mesma faixa etária, diz sentir-se como se viajasse sentado na carroceria de uma camioneta sempre olhando para trás. Sente-se eternamente desconfortável no presente, como se vivesse em um mundo que lhe é cada vez mais hostil e agressivo. Para ele, no passado é que ficaram as coisas boas e um mundo melhor. Infeliz e rabugento, nada lhe agrada ou comove.
Penso nisso tudo ao tomar conhecimento, hoje pela manhã, da morte do músico americano Billy Paul. Ele, também octogenário, morreu em casa, vitimado por um câncer, essa doença quase implacável dos tempos modernos.
E embora Billy Paul não fizesse parte dos meus músicos preferidos e indispensáveis, teve uma participação importante na trilha sonora da minha geração. Nos assustados do Pina dos anos 60 e 70, era indispensável a sua presença. Depois, escutava-o com uma ponta de nostalgia e de lembrança daqueles tempos passados e irretornáveis. Nada mais do que isso. Ou seja, muito mais em função da minha nostalgia patológica do que da importância da sua música para mim.
No acervos de notícias quase inúteis que guardo em casa com devoção, fico sabendo que em agosto de 2015, Billy Paul esteve no Recife, apresentando-se na Manhattan Café Theatro, em Boa Viagem. E eu, que imaginava essa influência cultural e musical apenas em mão única, descubro surpreso, nessa mesma matéria jornalística, que o artista americano se dizia admirador da música popular brasileira e da cultura pernambucana. Entre outras coisas, afirmou: “Já estive aqui cinco vezes, amo as praias e, principalmente, amo o pudim daqui!”, brincou. E prometeu: “Vou compor uma música sobre o Recife, inspirada no Recife, porque as pessoas daqui são muito boas, é um lugar maravilhoso. Merece uma música.”
Afirmou ainda que na década de 1970, quando visitou o Brasil pela primeira vez, ouviu os acordes de uma orquestra de carnaval e se impressionou com o ritmo. Na ocasião, cantarolou várias vezes o que se tornaria, mais tarde, o arranjo característico da sua versão de Your song. O compasso remete ao frevo e, para ele, é o principal motivo da popularidade da canção no país. “No Brasil, Your song tornou-se mais popular do que Me and Mr. Jones, que geralmente é a mais famosa, talvez porque os acordes são familiares. Essa música pertence ao Brasil, definitivamente”, declarou.
Beleza pura! Billy Paul amava o Recife, que amava Billy Paul!
Recife, abril 2016
sábado, 23 de abril de 2016
Democracia pouca é bobagem...
DEMOCRACIA POUCA É BOBAGEM...
Recife, 17 de abril de 2016
Fotografias de Cida Machado e Clóvis Campêlo
sexta-feira, 22 de abril de 2016
O jogo do bicho
Clóvis Campêlo
Dona Carmelita, a minha avó materna, nunca deixou de fazer a sua fezinha. Mesmo quando no alto dos seus 80 anos já não tinha mais condição de ir à banca sozinha, ficava na janela de casa, no bairro da Ilha do Leite, no Recife, onde morava, com o palpite na mão, num pedacinho de papel, a procura de alguém que fizesse o favor de jogar para ela. Nunca tirou a sorte grande, mas, vez por outra, ganhava um dinheirinho apostando na cobra, no veado ou na borboleta.
Já com dona Tereza, minha mãe, a discípula superou a mestra. Intuitiva, tinha palpites incríveis que, em alguns momentos, valeram-lhe uns bons trocados. Sempre lhe invejei essa intuição maravilhosa.
Das duas, herdei o gosto pela jogatina. Nunca tive a sorte e os palpites de dona Tereza, mas já tive a satisfação de ganhar algum prêmio em preciosos momentos de necessidade financeira. Coisa boa e de intensa satisfação pessoal.
Aliás, no seu livro “Ordem e progresso”, de 1959, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre descreve o jogo do bicho como uma das poucas atividade sem discriminação de classes no início da república brasileira, período em que vivemos uma intensa recessão econômica. Nele, ricos e pobres se arriscavam democraticamente em busca de alívio financeiro (o que, diga-se de passagem, acontece até hoje).
Nesse sentido, o historiado mineiro José Murilo de Carvalho afirma no seu livro “Os bestializados: Rio de Janeiro e a república que não foi” que a sociedade carioca difundia a crença na sorte como uma forma de ganhar dinheiro sem trabalhar. Ou seja: se segura, malandro!
Segundo a Wikipédia, a origem do jogo do bicho remonta ao ano de 1892, fim do Império e início da república brasileira. Jornais da época contam que, para melhorar as finanças do jardim zoológico que mantinha em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, o barão João Batista Viana Drummond, senhor de terras e escravos, criou uma loteria em que o apostador escolhia um entre os 25 bichos do zoológico. Logo, o jogo do bicho fugiria do zoológico e nas ruas do Rio de Janeiro se transformaria em um sucesso invencível, apesar de ser considerado pelas autoridades como uma contravenção.
O escritor e pesquisador potiguar Luís da Câmara Cascudo, no seu livro “Dicionário do Folclore Brasileiro”, lançado em 1954, já o considerava como um vício invencível, onde a repressão policial apenas multiplicava a clandestinidade. Segundo ele, o jogo já estava definitivamente instalado na massa do sangue do povo brasileiro.
Ainda segundo a Wikipédia, corre uma história de que durante a ditadura militar, o presidente Castelo Branco, numa reunião na Sudene, teria cobrado de João Agripino, então governador da Paraíba, a extinção do jogo do bicho naquele Estado. Segundo consta, Agripino teria respondido que assim o faria desde que o marechal arranjasse empregos para os milhares de paraibanos que ganhavam a vida como cambistas. Ou seja, o jogo do bicho nunca acabou na Paraíba...
Em 1941, com a criação da lei de proibição dos jogos de azar no Brasil, o jogo do bicho foi definitivamente proibido. Até hoje é considerado uma contravenção, na forma do artigo 58 da Lei de Contravenções Penais. As pessoas que o exploram são passíveis de prisão e os apostadores são passíveis de multa.
Uma verdadeira zebra!
Recife, abril de 2016
Já com dona Tereza, minha mãe, a discípula superou a mestra. Intuitiva, tinha palpites incríveis que, em alguns momentos, valeram-lhe uns bons trocados. Sempre lhe invejei essa intuição maravilhosa.
Das duas, herdei o gosto pela jogatina. Nunca tive a sorte e os palpites de dona Tereza, mas já tive a satisfação de ganhar algum prêmio em preciosos momentos de necessidade financeira. Coisa boa e de intensa satisfação pessoal.
Aliás, no seu livro “Ordem e progresso”, de 1959, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre descreve o jogo do bicho como uma das poucas atividade sem discriminação de classes no início da república brasileira, período em que vivemos uma intensa recessão econômica. Nele, ricos e pobres se arriscavam democraticamente em busca de alívio financeiro (o que, diga-se de passagem, acontece até hoje).
Nesse sentido, o historiado mineiro José Murilo de Carvalho afirma no seu livro “Os bestializados: Rio de Janeiro e a república que não foi” que a sociedade carioca difundia a crença na sorte como uma forma de ganhar dinheiro sem trabalhar. Ou seja: se segura, malandro!
Segundo a Wikipédia, a origem do jogo do bicho remonta ao ano de 1892, fim do Império e início da república brasileira. Jornais da época contam que, para melhorar as finanças do jardim zoológico que mantinha em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, o barão João Batista Viana Drummond, senhor de terras e escravos, criou uma loteria em que o apostador escolhia um entre os 25 bichos do zoológico. Logo, o jogo do bicho fugiria do zoológico e nas ruas do Rio de Janeiro se transformaria em um sucesso invencível, apesar de ser considerado pelas autoridades como uma contravenção.
O escritor e pesquisador potiguar Luís da Câmara Cascudo, no seu livro “Dicionário do Folclore Brasileiro”, lançado em 1954, já o considerava como um vício invencível, onde a repressão policial apenas multiplicava a clandestinidade. Segundo ele, o jogo já estava definitivamente instalado na massa do sangue do povo brasileiro.
Ainda segundo a Wikipédia, corre uma história de que durante a ditadura militar, o presidente Castelo Branco, numa reunião na Sudene, teria cobrado de João Agripino, então governador da Paraíba, a extinção do jogo do bicho naquele Estado. Segundo consta, Agripino teria respondido que assim o faria desde que o marechal arranjasse empregos para os milhares de paraibanos que ganhavam a vida como cambistas. Ou seja, o jogo do bicho nunca acabou na Paraíba...
Em 1941, com a criação da lei de proibição dos jogos de azar no Brasil, o jogo do bicho foi definitivamente proibido. Até hoje é considerado uma contravenção, na forma do artigo 58 da Lei de Contravenções Penais. As pessoas que o exploram são passíveis de prisão e os apostadores são passíveis de multa.
Uma verdadeira zebra!
Recife, abril de 2016
quinta-feira, 21 de abril de 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Dois dedos de prosa
Clóvis Campêlo
Como dizia a minha avó, quem com porcos se junta, farelo come! Talvez tenha sido esse o caso do Partido dos Trabalhadores ao chegar ao poder.
Em nome de uma suposta governabilidade, virou as costas aos movimentos sociais e populares que sempre o apoiaram e fomentaram o seu surgimento, para fazer acordos com setores da sociedade que sempre se prevaleceram da estrutura do poder para se locupletar. E parece que a lição da esperteza foi aprendida por alguns petistas. Assim, o partido descaracterizou-se e perdeu a sua identidade. Não foi a toa que ao ser solto, de pois de ser sequestrado sob as ordens do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Lula, no seu pronunciamento, fez uma exortação ao retorno do partido àquela posição de questionamento e representatividade política. Já era tarde, porém, e a vaca já estava indo para o brejo.
Isso também ficou claro quando no dia anterior à votação do impeachment, no ato de Brasília, os representantes do MTST e MST reivindicaram a retomada das propostas reformistas, por parte do Governo Dilma, mostrando a todos nós que a apoio não era mais incondicional e que, mesmo com a vitória de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, o que não ocorreu, no dia seguinte estariam nas ruas retomando a luta daquelas entidades.
Mesmo assim, foi com eles e outros setores de vanguarda dos movimentos sociais, que o PT e o Governo Federal contou na hora em que precisou de apoio popular. Hoje, a possibilidade do afastamento de Dilma da presidência da República é mais do que concreta. Como disse o escritor Ruy Castro em um artigo publicado na Folha de São Paulo, a presidenta abusou da arte de se cercar de gente traidora e calculista, a começar pelo próprio vice-presidente da República.
A situação pode ser vexatória, já que a presidenta pode ser afastada do cargo sem provas efetivas de que tenha cometido crime de responsabilidade. Ironicamente, poderá vir a ser afastada por ter feito exatamente a mesma coisa que os seus antecessores fizeram. Isso demonstra que, acima de tudo, o impeachment é político e está sendo comandado até o momento por políticos envolvidos em escândalos financeiros, alguns até já indiciados em processos de corrupção.
A politização, porém, não se limita apenas às instâncias parlamentares. No Poder Judiciário também se observa claramente as tendências políticas de cada juiz ou tribunal. E embora do ponto de vista pessoal eu ache justo que cada pessoa possa ter as suas opções e escolhas, no exercício do cargo deveria prevalecer, porém, apenas as questões técnicas e legais. As decisões deveriam ser baseadas na legislação e nas jurisprudências deixadas por decisões anteriores. Não é isso o que se observa, porém.
Acredito que como todo esse movimento tem apenas a intenção de apear o PT do poder. Penso que após o impeachment será feito um grande acordo de “paz”, jogando-se mais uma vez para debaixo do tapete irregularidades comprovadas ao longo de décadas.
O que já se convencionou chamar de “luta seletiva contra a corrupção” teria apenas a intenção de atingir o Partido dos Trabalhadores e teria sido estabelecido pela CIA americana (essa teoria foi defendida pelo jornalista Paulo Henrique Amorim), preocupada com a hegemonia do pré-sal e com os rumos que a política externa brasileira estaria tomando.
Recife, abril 2016
Em nome de uma suposta governabilidade, virou as costas aos movimentos sociais e populares que sempre o apoiaram e fomentaram o seu surgimento, para fazer acordos com setores da sociedade que sempre se prevaleceram da estrutura do poder para se locupletar. E parece que a lição da esperteza foi aprendida por alguns petistas. Assim, o partido descaracterizou-se e perdeu a sua identidade. Não foi a toa que ao ser solto, de pois de ser sequestrado sob as ordens do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Lula, no seu pronunciamento, fez uma exortação ao retorno do partido àquela posição de questionamento e representatividade política. Já era tarde, porém, e a vaca já estava indo para o brejo.
Isso também ficou claro quando no dia anterior à votação do impeachment, no ato de Brasília, os representantes do MTST e MST reivindicaram a retomada das propostas reformistas, por parte do Governo Dilma, mostrando a todos nós que a apoio não era mais incondicional e que, mesmo com a vitória de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, o que não ocorreu, no dia seguinte estariam nas ruas retomando a luta daquelas entidades.
Mesmo assim, foi com eles e outros setores de vanguarda dos movimentos sociais, que o PT e o Governo Federal contou na hora em que precisou de apoio popular. Hoje, a possibilidade do afastamento de Dilma da presidência da República é mais do que concreta. Como disse o escritor Ruy Castro em um artigo publicado na Folha de São Paulo, a presidenta abusou da arte de se cercar de gente traidora e calculista, a começar pelo próprio vice-presidente da República.
A situação pode ser vexatória, já que a presidenta pode ser afastada do cargo sem provas efetivas de que tenha cometido crime de responsabilidade. Ironicamente, poderá vir a ser afastada por ter feito exatamente a mesma coisa que os seus antecessores fizeram. Isso demonstra que, acima de tudo, o impeachment é político e está sendo comandado até o momento por políticos envolvidos em escândalos financeiros, alguns até já indiciados em processos de corrupção.
A politização, porém, não se limita apenas às instâncias parlamentares. No Poder Judiciário também se observa claramente as tendências políticas de cada juiz ou tribunal. E embora do ponto de vista pessoal eu ache justo que cada pessoa possa ter as suas opções e escolhas, no exercício do cargo deveria prevalecer, porém, apenas as questões técnicas e legais. As decisões deveriam ser baseadas na legislação e nas jurisprudências deixadas por decisões anteriores. Não é isso o que se observa, porém.
Acredito que como todo esse movimento tem apenas a intenção de apear o PT do poder. Penso que após o impeachment será feito um grande acordo de “paz”, jogando-se mais uma vez para debaixo do tapete irregularidades comprovadas ao longo de décadas.
O que já se convencionou chamar de “luta seletiva contra a corrupção” teria apenas a intenção de atingir o Partido dos Trabalhadores e teria sido estabelecido pela CIA americana (essa teoria foi defendida pelo jornalista Paulo Henrique Amorim), preocupada com a hegemonia do pré-sal e com os rumos que a política externa brasileira estaria tomando.
Recife, abril 2016
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