quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Todos os blues


TODOS OS BLUES

Clóvis Campêlo

Confesso que já descobri o blues eletrificado e entrando na maioridade, no final dos anos 60. E o primeiro bluseiro que me chamou a atenção e atingiu os meus ouvidos foi o albino Johnny Winter, o sivuca do blues. Gostava daquela guitarra lisérgica, com solos nervosos e ácidos, muito barulho. Aliás, em uma das suas frases mais marcantes ele diz exatamente isso, que todo blues deve ser sujo e barulhento. Ou seja, uma música de contestação cultural e comercial. Nada de concessões. Hoje, setentão e quase cego, Johnny ainda faz a cabeça de muita gente pelo mundo a fora, muito embora a sua música e o estilo de tocar tenha se tornado menos agressivo e mais melódico. Talvez a maturidade já esteja chegando para ele.
Depois, surgiu na minha frente um furacão chamado Jimi Hendrix. Se Winter era avassalador, Hendrix era (e ainda é) completamente revolucionário, levando o ouvinte a refazer todo o seu entendimento do que era o roque, o blues, o modo de se tocar uma guitarra elétrica. Seduzido por ele, eu sempre quis mais. Com Hendrix, não havia pedras no caminhos. Tocando, arriscava-se sempre em saltos mortais para cair sempre de pé, no local certo, na hora certa. Uma porrada nos nossos ouvidos numa hora em que o rock ameçava se institucionalizar.
Lembro que nos anos 80 fiz o “sacrifício” de levar o meu filho mais novo, Gabriel, na época ainda criança, ao Cinema São Luiz, no centro do Recife, para assistir ao filme He-Man. Gostei do filme e pirei mais ainda na sequência em que o herói enfrenta o Esqueleto numa loja de discos ao som de Purple Haze, de Hendrix. Inesquecível.
Depois descobri Muddy Waters, Howlin Wolf e o blues de Chicago. Um som intermediário e de transição entre os bluseiros mais antigos e tradicionais.
Daí para Robert Johnson foi um pulo, ajudado pela versão fantástica que os Rolling Stones deram a sua música Love it Vain, no disco Sticky Fingers. O som de Johnson já define o blues de três acordes que marcaria as gerações posteriores de bluseiros urbanos americanos e ingleses.
O mergulho final nesse processo de resgate e de conhecimento do blues mais antigo e tradicional veio com a ajuda dos amigos Osman Frazão e Bartolomeu Lima, com os quais, durante alguns meses, apresentei na Rádio Universitária AM do Recife o programa Boa Noite Blues.
Lá, nas noites das sextas-feiras, colocávamos no ar o som de bluseiros ancestrais, como Charley Patton, com o seu som monocórdio e retilíneo, que em muitos momentos nos lembravam os sons dos violeiros que circulam pelas feiras livres do sertão nordestino.
O blues mudou, modernizou-se e conquistou uma nova clientela, inclusive entre os jovens da ascendente classe média brasileira, com novas bandas, como o Blues Etílico e a Uptown Blues Band, que se arriscam a fazer fusões musicais inusitadas e belas.

Recife, 2011

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